A resposta em uma frase
A frase do Cury tem lastro, mas é leitura dele. Existe gente da campanha do Lula dizendo, sem dar o nome, que Flávio Bolsonaro é o adversário que mais interessa ao PT. Existe a propaganda do Lula batendo só no Flávio desde o primeiro dia. O que não existe é o Lula, ou qualquer petista com nome e sobrenome, dizendo "eu quero o Flávio". E os números de segundo turno, que era o que eu mais queria ver, dizem uma coisa que nem o Cury nem o PT gostam de ouvir: contra o Flávio o Lula empata, e contra o Cury o Lula também empata.
O vídeo que motivou esta matéria rodou nas redes entre 7 e 9 de setembro. Eu repostei no dia 9, com 2.281 curtidas e 928 comentários até o fechamento. Nele, Augusto Cury diz quatro coisas: que o Lula está há 12 anos no poder e quer mais 4; que o cargo pertence ao povo; que o Lula quer o Flávio no segundo turno porque é o adversário que ele sabe derrotar; e que os dois deviam aceitar um debate só de projeto. Na minha legenda eu acrescentei dois números: a rejeição do Cury de 18,5% na AtlasIntel, menos da metade da do Flávio, e os 42% de brasileiros que não sabem dizer um nome.
Fui checar as quatro frases dele e os meus dois números. Vou na ordem. Aviso desde já que uma das frases dele eu não consegui rastrear até a fonte, que um dos meus números estava desatualizado e que o outro precisava de um esclarecimento que eu não dei na legenda. Está tudo abaixo.
O que ele disse, e onde está registrado
A frase mais forte do vídeo tem registro em jornal. Na segunda-feira, 7 de setembro, Cury deu uma sabatina à Jovem Pan. A própria emissora publicou às 8h19 da manhã. As palavras dele:
"Em primeiro lugar, o sonho de Lula da Silva é ter Flávio Bolsonaro no segundo turno. O pesadelo do Lula da Silva é me ter no segundo turno, porque eu vou aposentar o Lula."
O Metrópoles, no mesmo dia, às 10h46, registrou outra frase da mesma sabatina: "Há margem para subir mais. Eu já elegi meu adversário no segundo turno: Lula". A Gazeta do Povo repetiu as duas às 11h15 e acrescentou uma terceira, sobre a montagem do governo: "Nós não vamos fazer um balcão de negócios, lotear o Brasil em hipótese alguma".
Três dias depois, na quinta, 10 de setembro, numa reunião com investidores na Faria Lima, ele fechou a conta do segundo turno pelo outro lado. Disse que não apoiaria o Lula "em hipótese alguma. Nem 0,01%" e colocou condições para apoiar o Flávio. Eu já contei isso inteiro na matéria sobre o que existe entre Cury e Bolsonaro.
Agora a parte honesta. As outras três frases do vídeo, "12 anos no poder", "o cargo pertence ao povo" e o convite a um debate só de projeto, eu não achei em nenhum jornal. Procurei na Jovem Pan, no Metrópoles, na Gazeta, na Revista Oeste, no InfoMoney, que cobriu outro vídeo dele de 2 de setembro, e em busca aberta. Nada. Isso tem duas explicações possíveis: ou o vídeo é um corte da sabatina que a imprensa não transcreveu, ou é uma peça gravada pela campanha entre os dias 7 e 9. Eu não consegui abrir o post original para conferir a data de gravação. Então as três frases ficam aqui como o que são: o que o vídeo diz, sem confirmação independente de onde e quando ele disse.
A frase do Cury, em quatro pedaços
A conta dos 12 anos
Essa é fácil de conferir e vale explicar direito, porque nos comentários tem gente dizendo que são 8 e gente dizendo que são 16.
Lula foi presidente de 1º de janeiro de 2003 a 31 de dezembro de 2006. Foi reeleito e governou de 1º de janeiro de 2007 a 31 de dezembro de 2010. São dois mandatos de quatro anos. Oito anos. Depois passou 12 anos fora do cargo, de 2011 a 2022, sendo que de 2011 até agosto de 2016 quem governava era a Dilma, do mesmo partido dele. Voltou em 1º de janeiro de 2023 e está lá até hoje.
Então "12 anos no poder" está certo como conta de mandatos. Quem diz "8 anos" está esquecendo o mandato atual. Quem diz "16" está contando o que ainda não aconteceu. E quem diz "o PT está há 20 anos no poder" está fazendo outra conta, com a Dilma dentro, que não é a frase do Cury. A frase dele é sobre o Lula. E sobre o Lula ela fecha.
O que o PT disse sobre o Flávio, sem dar o nome
Aqui está a parte que dá lastro ao Cury. Eu procurei quem, do lado do Lula, já falou em preferir o Flávio. Achei três coisas. Nenhuma tem assinatura.
A primeira é uma coluna de 12 de agosto. Diego Amorim, no site PlatôBR, publicou um texto com o título "Por que o PT considera Flávio Bolsonaro o melhor adversário para Lula". A fonte dele é "um auxiliar do presidente". A frase que esse auxiliar disse:
"Flávio fica no meio do caminho, solto, com muito pouco a oferecer."
O raciocínio do auxiliar, segundo a coluna: o Flávio não tem o verniz técnico do Tarcísio de Freitas, que era o outro nome cotado na direita, e também não tem a caricatura do pai, que mobiliza os dois lados. Fica no meio, sem os pontos fortes de um nem do outro. Na cabeça desse petista, era o adversário mais fácil dos disponíveis. Repare na data: 12 de agosto. Naquela semana o Cury tinha 2% na Quaest. Ele não era assunto para ninguém, e a coluna não fala dele.
A segunda é uma reportagem de 28 de agosto. A Gazeta do Povo ouviu "aliados e estrategistas petistas", de novo sem nome, sobre o que a campanha ia fazer no horário eleitoral. As frases: "vai ser uma carnificina eleitoral" e "vão bater no Flávio dia sim, dia também". A ideia era montar uma "ficha corrida" do senador. Isso não é preferência declarada, mas é escolha de alvo. Quem tem 12 candidatos na disputa e escolhe bater num só está dizendo com quem quer brigar.
A terceira é a propaganda em si. No dia 29 de agosto, primeiro dia do horário eleitoral, a CNN Brasil comparou as peças. O spot de rádio do Lula acusou o Flávio de não gostar de trabalhar e tocou um áudio em que o senador teria pedido "R$ 61 milhões" ao banqueiro Daniel Vorcaro. A TV do Lula juntou notícias ruins sobre o Flávio. O Flávio, na dele, comparou o "Brasil do Lula" com o "Brasil real". E o Cury pediu para "parar de gritar, sentar, escutar e curar este país". Toda a munição do PT foi para um lado só.
Tem um quarto sinal, que é mais fraco e eu ponho aqui por honestidade. O Blog do Esmael, que é um blog de apoio ao governo, escreveu em 3 de setembro que "tanto lulistas quanto bolsonaristas passaram a acompanhar Cury com cautela, evitando transformá-lo em alvo principal enquanto tentam preservar seus próprios eleitores". Também sem nome. Mas é um blog do lado de lá dizendo que o lado de lá está com cuidado.
| Data | Quem disse | O que disse | Onde |
|---|---|---|---|
| 12 de agosto | "Um auxiliar do presidente", sem nome | "Flávio fica no meio do caminho, solto, com muito pouco a oferecer" | PlatôBR |
| 28 de agosto | "Aliados e estrategistas petistas", sem nome | "Vai ser uma carnificina eleitoral"; "vão bater no Flávio dia sim, dia também" | Gazeta do Povo |
| 29 de agosto | A propaganda oficial do Lula | Rádio e TV só contra o Flávio, com o áudio dos "R$ 61 milhões" | CNN Brasil |
| 3 de setembro | Blog governista, sem nome | Lulistas e bolsonaristas "acompanham Cury com cautela" | Blog do Esmael |
| 2018 a 2026 | Lula, com o nome dele | Nada sobre preferir o Flávio. Nada sobre o Cury | busca própria |
Leia a última linha. Eu procurei o Lula dizendo "prefiro o Flávio", "quero enfrentar o Flávio", "adversário ideal". Procurei o Lula respondendo ao Cury depois da sabatina de 7 de setembro. Procurei a Gleisi, o Edinho Silva, o Sidônio Palmeira. Não achei nenhuma frase. O que existe é gente sem nome, uma coluna e a mira da propaganda. É bastante. Não é o Lula.
O que o Lula mesmo já disse do Flávio
Ele fala pouco do Flávio, e quando fala é para diminuir.
No dia 27 de agosto, o Lula deu 40 minutos de entrevista ao Jornal Nacional. O Jornal de Brasília contou: em dois momentos a pergunta abriu espaço para ele falar do adversário, e ele não disse o nome do Flávio nenhuma vez. A única comparação foi indireta, com o pai: "Eu não vou afastar delegado da Polícia Federal, eu não vou fazer qualquer movimento para que meu filho seja acobertado se ele tiver erro, como outros já fizeram".
No dia 29, depois da sabatina do Flávio na mesma Globo, o Lula escreveu nas redes. Aí ele falou, e falou forte. Disse que reduzir o combate às mudanças climáticas a saneamento básico "dá a dimensão do amadorismo irresponsável". Disse que "governar o Brasil não é para aventureiros". Chamou o Flávio de "negacionista de vacinas" e disse que ele "anda acompanhado de quem prega o fim do voto feminino".
Isso é o retrato: na TV, o Lula não pronuncia o nome. Nas redes, chama de amador e de aventureiro. É o tratamento de quem quer que o outro pareça pequeno, e não de quem tem medo dele. Se o Lula tivesse medo do Flávio, o nome sairia da boca dele. Se o Lula tivesse medo do Cury, o nome do Cury sairia também. Não saiu nenhum dos dois. O único que citou o Cury, do lado de lá, foi um blog.
O segundo turno nos cinco institutos de setembro
Agora o que eu mais queria ver. O Cury diz que o Lula "sabe derrotar" o Flávio. Se isso fosse verdade nos números, o Lula estaria ganhando do Flávio nas pesquisas de segundo turno e perdendo, ou empatando, do Cury. Vamos ver se é assim.
Cinco institutos publicaram cenários de segundo turno em setembro. Todos registrados no TSE, com número de registro na tabela. Os cinco testaram Lula contra Flávio e Lula contra Cury.
| Instituto | Campo | Registro | Lula x Flávio | Lula x Cury |
|---|---|---|---|---|
| Datafolha | 8 a 10/9 | BR-01833/2026 | Lula 46 x Flávio 44 | Lula 45 x Cury 43 |
| AtlasIntel/Bloomberg | 4 a 9/9 | BR-01452/2026 | Flávio 46,4 x Lula 46,2 | Lula 43,8 x Cury 41,1 |
| PoderData/Aya | 6 a 9/9 | BR-04914/2026 | Flávio 47 x Lula 45 | Cury 44 x Lula 43 |
| BTG/Nexus | 4 a 7/9 | BR-06790/2026 | Flávio 46 x Lula 45 | Cury 45 x Lula 43 |
| Genial/Quaest | 3 a 6/9 | BR-01720/2026 | Lula 41 x Flávio 41 | Lula 39 x Cury 35 |
Agora olhe só a diferença entre os dois, em pontos, e quem está na frente em cada duelo. As barras amarelas são os duelos em que o Cury aparece na frente do Lula:
Segundo turno em setembro: quem está na frente, e por quantos pontos
Datafolha (8 a 10/9), AtlasIntel (4 a 9/9), PoderData (6 a 9/9), BTG/Nexus (4 a 7/9) e Quaest (3 a 6/9). Tudo dentro da margem, menos a Quaest contra Cury
Leia o gráfico com a margem de erro na cabeça. Datafolha, Nexus e Quaest têm margem de 2 pontos. PoderData tem 1,8. AtlasIntel tem 1. Quando a diferença cabe dentro da margem, o instituto não sabe quem está na frente.
Contra o Flávio, o Lula empata nas cinco. Em três (AtlasIntel, PoderData e Nexus) o Flávio está numericamente na frente. Em uma (Datafolha) o Lula está na frente por 2, que é a margem. Na Quaest é 41 a 41. Se o Lula "sabe derrotar" o Flávio, as pesquisas ainda não ficaram sabendo.
Contra o Cury, o Lula empata em quatro e ganha em uma. Na Quaest ele abre 4 pontos, com margem de 2, e aí é vantagem de verdade. No Datafolha e na AtlasIntel ele está na frente dentro da margem. Na PoderData e na Nexus, quem está numericamente na frente é o Cury.
Então a frase do Cury, "o Lula sabe derrotar o Flávio", não aparece no número. O que aparece é um Lula que não sabe derrotar ninguém neste momento. Nem o Flávio, nem o Cury. E um Cury que, com 6% a 10% no primeiro turno, chega ao segundo turno empatando com o presidente, coisa que eu já expliquei na matéria sobre a BTG/Nexus.
Tem um detalhe que joga contra o Cury nesse quadro, e eu vou dar já. Nos cenários com ele, o branco e o nulo são sempre maiores. No Datafolha, 8% no Lula x Flávio e 10% no Lula x Cury. Na PoderData, 11% no Lula x Cury. Na Quaest, 13% contra 21%. Muita gente que hoje diz "Cury" num segundo turno hipotético ainda não sabe quem ele é. Quando souber, pode votar nele, pode votar no Lula, pode anular. A pesquisa não sabe.
Por que o Cury vai tão bem no segundo turno com tão pouco no primeiro
A resposta é a rejeição, e aqui entra o meu primeiro número da legenda, que eu preciso corrigir.
Eu escrevi que a rejeição do Cury é de 18,5% na AtlasIntel, menos da metade da do Flávio. O número é verdadeiro e é da AtlasIntel de 25 a 30 de agosto, registro BR-07972/2026, que a Exame publicou em 31 de agosto: Flávio 52,7%, Lula 52,0%, Renan Santos 43,1%, Jair Bolsonaro 41,3%, Pablo Marçal 40,1%, Romeu Zema 33,9%, Ronaldo Caiado 28,5% e Augusto Cury 18,5%.
Só que a AtlasIntel publicou outra rodada no dia 10 de setembro, campo de 4 a 9, e nela o Cury subiu para 25,6%. O Lula foi a 52,5% e o Flávio caiu para 49,6%. Ou seja: quando eu postei, no dia 9, o 18,5% era o último número. No dia seguinte já era o penúltimo. A frase "menos da metade da do Flávio" continua verdadeira com o número novo (25,6 é pouco mais da metade de 49,6), mas o número certo hoje é 25,6, e fica aqui registrado.
Agora todos os institutos de setembro, só os três nomes:
Quem não votaria de jeito nenhum, em %, por instituto
AtlasIntel (4 a 9/9), Quaest (3 a 6/9), BTG/Nexus (4 a 7/9), PoderData (6 a 9/9) e Datafolha (8 a 10/9). Datafolha pergunta de outro jeito e dá número mais baixo para todos
Duas coisas para não ler errado. A primeira: o Datafolha dá número baixo para todo mundo (46% para o Lula, contra 53% da Quaest) porque pergunta de um jeito diferente. Não some Datafolha com Quaest. Compare cada instituto com ele mesmo. A segunda: a PoderData não publicou a rejeição do Cury na cobertura que eu consegui abrir, então ele não aparece nessa linha.
Feitas as ressalvas, o quadro é o mesmo em todos: metade do país, ou perto disso, diz que não vota no Lula, e a mesma metade diz que não vota no Flávio. Do Cury, a rejeição vai de 10% a 29%, dependendo de quem mede. Na Quaest, ele é o menos rejeitado entre os sete testados: 26%, contra 29% do Renan Santos, 39% do Zema, 41% do Caiado, 45% do Marçal, 53% do Lula e 55% do Flávio.
Se você juntar esse bloco com o anterior, entende a lógica por trás da frase do Cury, mesmo ela não estando nos números de hoje. O raciocínio dele é: o Lula prefere o Flávio porque os dois têm a mesma rejeição, e numa briga de rejeição igual o Lula já ganhou uma vez. Contra alguém com metade da rejeição, o Lula não tem esse conforto. É um raciocínio que faz sentido. Continua sendo raciocínio, e não frase de petista.
Os 42% que não sabem dizer um nome
Esse é o meu segundo número da legenda, e ele precisa de dois esclarecimentos que eu não dei.
O 42% existe. É da Quaest, campo de 30 de agosto a 1º de setembro, registro BR-07065/2026, divulgada em 2 de setembro. Vem da pergunta chamada espontânea, que é quando o entrevistador não lê lista nenhuma e só pergunta "em quem você vai votar para presidente?". Nessa pergunta, 28% disseram Lula, 20% disseram Flávio, 4% disseram Cury, 4% disseram outros nomes, 2% disseram branco ou nulo e 42% não souberam dizer nome nenhum. Na Quaest de 14 de agosto, esse número era 51%. Caiu nove pontos em duas semanas, com a campanha começando.
Primeiro esclarecimento: não são "42% dos brasileiros". São 42% dos 2.004 entrevistados da Quaest, naquela semana, quando ninguém leu a lista. É a mesma coisa para efeito de estatística, mas o leitor merece saber de onde vem.
Segundo esclarecimento, mais importante: esse número já mudou. O Datafolha de 8 a 10 de setembro fez a mesma pergunta aberta. Deu Lula 33%, Flávio 25%, Cury 3% e 23% que não souberam dizer nome nenhum. Não é a mesma pesquisa, então não é a mesma régua. Mas mostra a direção: dez dias depois, com propaganda no ar, quase metade dos que não sabiam passaram a saber. A Quaest de 3 a 6 de setembro também fez a espontânea, mas eu não achei o número dela publicado em lugar nenhum, então não uso.
| Pesquisa | Campo | Pergunta aberta: não sabe dizer um nome |
|---|---|---|
| Quaest | 14 de agosto | 51% |
| Quaest | 30 de agosto a 1º de setembro | 42% |
| Datafolha | 8 a 10 de setembro | 23% |
O que isso muda na frase do Cury? Muda que o "cargo pertence ao povo" tem um pedaço do povo que ainda não escolheu dono. Era 42% no fim de agosto e é algo entre 23% e 42% agora, dependendo de quem mede. É esse pedaço que os três disputam. É a esse pedaço que a propaganda do Lula bate no Flávio, e não no Cury.
O precedente: 2022 e 2018
O Cury diz que o Lula "sabe derrotar" o Flávio. O Lula nunca enfrentou o Flávio. Enfrentou o pai dele, uma vez. Então vamos ao que aconteceu nessa vez, e na anterior.
2022. Segundo turno em 30 de outubro. Lula 60.345.999 votos, 50,90% dos válidos. Jair Bolsonaro 58.206.354 votos, 49,10%. Diferença de 2.139.645 votos, ou 1,80 ponto. Foi a eleição presidencial mais apertada da história do Brasil desde a redemocratização. O Lula ganhou. Ganhou por um fio, com toda a frente ampla ao lado dele, do Alckmin ao Marina, contra um presidente no cargo com aprovação em queda.
2018. Segundo turno em 28 de outubro. Jair Bolsonaro 57.796.986 votos, 55,13%. Fernando Haddad 47.038.963 votos, 44,87%. Diferença de 10,26 pontos. O PT perdeu, e perdeu de lavada. O Lula estava preso e não era o candidato.
Repare no que o número diz sobre a frase. Se o Lula sonha com o Flávio porque "sabe derrotar" um Bolsonaro, o sonho é lembrar de uma vitória por 1,8 ponto, quatro anos atrás, contra outro homem. As pesquisas de setembro dizem que o Flávio hoje empata ou passa o Lula nas cinco. Se é sonho, é um sonho que pode virar o pesadelo que o Cury reservou para si mesmo.
O que ninguém testou direito: Cury contra Flávio
Tem um cenário que só um instituto mediu, e ele mexe na conversa. A PoderData de 6 a 9 de setembro testou Cury contra Flávio num segundo turno, sem o Lula. Deu Flávio 43%, Cury 36%. Sete pontos, margem de 1,8. Vitória do Flávio, fora da margem.
Isso importa por um motivo. Nos comentários do vídeo, muita gente escreveu "o Cury vence o Lula, então o Cury é o candidato". Só que a pergunta que o eleitor de direita faz não é essa. É "quem ganha do Lula?". E a PoderData responde que, na disputa entre os dois candidatos de oposição, o Flávio ganha do Cury. O Cury empata com o Lula. O Flávio também empata com o Lula. E o Flávio ganha do Cury. Nenhum instituto mais testou isso, então é uma medição só. Eu registro e não amplio.
O debate que ele pediu
No vídeo, o Cury chama Lula e Flávio para um debate só de projeto. Eu não achei a frase em jornal, mas achei o debate. Na segunda, 14 de setembro, às 22h, o consórcio da CNN, SBT, RedeTV! e Rede Vida faz o segundo debate presidencial. A CNN anunciou com o título "Momento da Decisão: Lula e Flávio estarão lado a lado em debate". Estão confirmados Lula, Flávio, Caiado, Zema, Renan Santos e Augusto Cury. No primeiro debate, o da Band em 23 de agosto, Lula e Flávio faltaram e o Cury começou a subir ali, como eu contei na matéria sobre a tese da despolarização.
Se os dois forem, é a primeira vez que o Cury fala com eles no mesmo palco. Se ele vai conseguir fazer o debate ser "só de projeto", aí é outra história. O horário eleitoral do Lula, como a CNN registrou no dia 29, não é de projeto. É do Flávio.
O que eu penso, em primeira pessoa
Eu acho que o Cury está certo no raciocínio e cedo no número.
Está certo porque o PT escolheu o Flávio como inimigo antes de a campanha começar, e a coluna de 12 de agosto mostra isso com a frase de um auxiliar: "solto, com muito pouco a oferecer". Está certo porque um presidente com 50% de rejeição só ganha de alguém com 50% de rejeição, e o único adversário que preenche esse requisito é o Flávio. A conta da rejeição fecha para o lado do Cury.
Está cedo porque os números de setembro não mostram o Lula derrotando o Flávio. Mostram os dois empatados, com o Flávio na frente em três de cinco. Se o sonho do Lula é o Flávio, o Lula anda sonhando com coisa perigosa. E está cedo porque o Cury tem 6% no Datafolha e 29 pontos para tirar em 21 dias, com 35 segundos de TV por dia.
Eu torço pelo Cury. Se ele não chegar ao segundo turno, eu voto no Flávio. Eu não voto no Lula. Isso não muda o que está escrito acima, porque o que está escrito acima tem instituto, data e número de registro, e a minha torcida não tem nenhum dos três.
O que eu tirei, e por quê
- "O Lula disse que prefere o Flávio." Não disse. Não achei. Ficou de fora e não entra até alguém me mostrar a frase com data.
- A data e o local do vídeo. Não consegui abrir o post original nem localizar a gravação. As três frases sem registro em jornal estão na matéria como frases do vídeo, e não como frases confirmadas.
- Os 52,9% e 49,4% de "rodada anterior" da AtlasIntel que um site pequeno cita. Não batem com a tabela da Exame de 31 de agosto (52,7% e 52,0%). Fiquei com a Exame, que cobriu a pesquisa inteira.
- A rejeição do Cury na PoderData de setembro. Não achei publicada. A linha ficou sem ele em vez de eu chutar.
- A espontânea da Quaest de 3 a 6 de setembro. Não achei o número. Usei a de 30 de agosto a 1º de setembro, que é a dos 42%, e a do Datafolha, que é a dos 23%.
Perguntas que chegam nos comentários
O Lula disse que quer o Flávio no segundo turno?
Não. Não existe frase do Lula com isso. Quem disse foi "um auxiliar do presidente", sem nome, numa coluna do PlatôBR de 12 de agosto: "Flávio fica no meio do caminho, solto, com muito pouco a oferecer". A propaganda do Lula, desde 29 de agosto, só ataca o Flávio.
O Lula está há 12 anos no poder?
Ao fim deste mandato, sim. Governou de 2003 a 2010 (8 anos) e desde 2023 (4 anos até 31 de dezembro de 2026). Hoje a conta exata é 11 anos e 8 meses. Se ganhar em outubro, chega a 16.
O Lula ganha do Flávio no segundo turno?
Empata. Datafolha, Lula 46 x 44; AtlasIntel, Flávio 46,4 x 46,2; PoderData, Flávio 47 x 45; BTG/Nexus, Flávio 46 x 45; Quaest, 41 x 41. Tudo dentro da margem de erro.
O Cury ganha do Lula no segundo turno?
Empata em quatro institutos e perde na Quaest. PoderData, Cury 44 x 43; BTG/Nexus, Cury 45 x 43; Datafolha, Lula 45 x 43; AtlasIntel, Lula 43,8 x 41,1; Quaest, Lula 39 x 35. Só a Quaest está fora da margem.
Qual é a rejeição do Cury?
Depende do instituto. AtlasIntel de 4 a 9 de setembro, 25,6% (era 18,5% em agosto). Quaest, 26%. BTG/Nexus, 29%. Datafolha, 10%, que pergunta de outro jeito. Em todos, é a menor entre os principais e menos da metade da do Flávio e da do Lula.
De onde vêm os 42% que não sabem dizer um nome?
Da Quaest de 30 de agosto a 1º de setembro, na pergunta aberta, sem lista de nomes. No Datafolha de 8 a 10 de setembro, com a mesma pergunta aberta, o número caiu para 23%.
Eu sou de direita e continuo sendo
E continuo sem publicar frase de candidato como se fosse fato, mesmo quando o candidato é o meu.
O Cury leu a intenção do Lula. Pode ter lido certo. O PT deu sinais, sem nome, de que prefere o Flávio. Os números, por enquanto, não dão ao Lula a vitória que o Cury supõe que ele sonha. Dão empate com todo mundo. E dão ao Cury um problema que não é o Lula: são 29 pontos até o Flávio, e 21 dias.
Segunda-feira tem debate. Eu volto depois dele, com fonte.







