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Política / 13 de setembro de 2026

Eu fui ver

Bukele, Milei, Trump: eu fui ver o que "alguém firme" fez de verdade, nos números

Um seguidor meu escreveu que o Brasil precisa de alguém disposto a agir firme como Trump, Bukele e Milei. Eu peguei a frase e fui buscar o dado de cada um: homicídio, preso, inflação, pobreza, déficit, tarifa, aprovação. Achei três histórias muito diferentes debaixo da mesma palavra. E achei o número que decide se qualquer uma delas caberia no Brasil de 2026, que não é o número de votos na urna, é o número de cadeiras no Congresso.

Publicado
13 de setembro de 2026
Atualizado
13 de setembro de 2026
Editoria
Política
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36 min
Fontes
73 citadas
Nayib Bukele e Javier Milei na Casa Rosada, setembro de 2024. Foto Casa Presidencial de El Salvador, Wikimedia Commons, CC0. Imagens do corpo: vista aérea do CECOT (Casa Presidencial de El Salvador, CC0) e terminal de contêineres do porto de Oakland (Frank Schulenburg, CC BY-SA 4.0)
Nayib Bukele e Javier Milei na Casa Rosada, setembro de 2024. Foto Casa Presidencial de El Salvador, Wikimedia Commons, CC0. Imagens do corpo: vista aérea do CECOT (Casa Presidencial de El Salvador, CC0) e terminal de contêineres do porto de Oakland (Frank Schulenburg, CC BY-SA 4.0)

A resposta em uma frase

Os três fizeram coisas diferentes, com ferramentas diferentes, e só um deles mexeu de verdade no problema que o eleitor brasileiro mais cita.

Bukele derrubou o homicídio de 6.656 mortes em 2015 para 82 em 2025. Pagou com o país de maior taxa de presos do mundo, mais de quatro anos de regime de exceção e 90 mil detidos. Milei derrubou a inflação de 117,8% em 2024 para 31,5% em 2025, com superávit no caixa pela primeira vez em décadas. Pagou com um ano de recessão, pobreza subindo a 52,9% antes de cair, e ainda hoje governa sem maioria própria na Câmara. Trump está no segundo mandato com inflação em 3,4%, desemprego em 4,1%, déficit de US$ 1,8 trilhão e a principal medida econômica dele derrubada pela Suprema Corte do próprio país.

Aprovação hoje: Bukele em 93%, Trump em 40%, Milei em 38,1%. Três "firmes", três resultados que não se parecem.

E tem um número que decide tudo se a conversa for sobre o Brasil. Não é quantos votos o candidato tira na urna. É quantos deputados ele tem no dia seguinte. Eu já escrevi essa conta inteira em nunca foi político, defeito ou motivo, e ela volta no fim deste texto.

De onde veio esta pauta

Um seguidor meu, o @valrmatos, escreveu nos comentários que "o Brasil precisa urgente de alguém disposto a agir firme como Trump 2.0, Bukele, Milei". Outro, o @grangeiro_paulo, juntou 28 curtidas dizendo que só um candidato tem o apoio dos três.

Sobre a segunda frase eu não vou opinar, porque não achei registro de nenhum dos três declarando apoio a candidato brasileiro nesta eleição. Sem fonte, não entra.

Sobre a primeira, dá para trabalhar. "Firme" é uma palavra, e palavra não tem número. Homicídio tem. Inflação tem. Preso tem. Déficit tem. Então eu fui buscar o número de cada um, com a fonte oficial quando existia e com jornal grande quando a fonte oficial não abria.

Aviso de saída: eu torço pelo Augusto Cury e não escondo isso de ninguém. Este texto não é sobre ele. Se em algum ponto o dado que eu achei atrapalha o meu lado, ele está aqui do mesmo jeito.

Eu já tinha escrito sobre como esses homens ganharam eleição, em três países elegeram quem nunca tinha governado nada. Esta matéria é a outra metade: o que aconteceu depois que eles assumiram.

82homicídios em El Salvador em 2025contra 6.656 em 2015
1,7%inflação da Argentina em agosto de 2026contra 25% ao mês no fim de 2023
3,4%inflação dos EUA em agosto de 2026com a gasolina subindo 27,4% no ano
93% / 40% / 38%aprovação de Bukele, Trump e MileiCID Gallup, Gallup e AtlasIntel, 2026

Os três, no dado mais recente que existe

PARTE 1: BUKELE

O número que todo mundo cita, e ele é verdadeiro

Começo pelo que é fato e não tem discussão.

Em 2015, El Salvador registrou 6.656 homicídios. A taxa foi de 106,3 por 100 mil habitantes, segundo o Diario El Salvador, jornal do próprio Estado salvadorenho. Para você ter ideia, o Brasil nunca chegou perto disso. Era, naquele ano, um dos países mais violentos do planeta em tempo de paz.

Em 2025, o país fechou com 82 homicídios. Não 82 mil. Oitenta e dois. A taxa ficou em 1,3 por 100 mil. O Fiscal General e o Gabinete de Segurança chamaram 2025 de "el año más seguro de la historia de El Salvador", em nota oficial da Fiscalía General de la República.

O ano anterior tinha fechado com 114 homicídios e taxa de 1,9, segundo a mesma Fiscalía, número reproduzido pela agência EFE em 1º de janeiro de 2025.

Homicídios em El Salvador, por ano

20156.656
2022496
2023154
2024114
202582

Fonte: Diario El Salvador (2015), Fiscalía General de la República e EFE (2022 a 2025). Acesso em 13/09/2026

Olhe a barra de 2015 e a barra de 2025 lado a lado. É a queda mais forte que qualquer país mediu em dez anos. Quem repete isso nos meus comentários está repetindo uma coisa verdadeira.

Agora, duas honestidades.

A primeira: a região inteira caiu. O InSight Crime, que é o instituto que acompanha crime organizado na América Latina, registrou 108.838 assassinatos em toda a América Latina e Caribe em 2025, com mediana em torno de 17,6 por 100 mil, mais de 5% abaixo de 2024. Ou seja, o continente melhorou. El Salvador melhorou muito mais que o continente, mas não caiu num continente parado.

A segunda: eu não consegui confirmar em fonte oficial a metodologia salvadorenha de contagem. Existe debate público sobre o que entra e o que não entra na conta. Como eu não achei o documento, eu não vou afirmar nada. Fica registrado que não sei.

Vista aérea do Centro de Confinamento do Terrorismo, em Tecoluca, El Salvador

O preço, em pessoas presas

Aqui começa a parte que quase nunca aparece junto com o número do homicídio.

El Salvador é hoje o país com a maior taxa de encarceramento do mundo. O World Prison Brief, que é a base internacional de referência sobre população carcerária, registra 1.659 presos por cada 100 mil habitantes e coloca o país em primeiro lugar do planeta. Levantamentos posteriores de organizações locais apontam 1.824 por 100 mil em março de 2025 e 1.963 por 100 mil no fim de 2025.

Para comparar: o Brasil fica na faixa de 380 a 400 por 100 mil. Os Estados Unidos, que já foram o campeão mundial dessa lista, ficam por volta de 530. El Salvador está três a quatro vezes acima dos Estados Unidos.

Uma entidade de direitos humanos calculou, em junho de 2026, superlotação de 261% nas prisões salvadorenhas. Isso quer dizer que, para cada 100 vagas, existem 361 pessoas.

O regime de exceção: quatro anos e meio de "provisório"

O instrumento que permitiu tudo isso tem nome: regime de exceção. Ele entrou em vigor em 27 de março de 2022, depois de uma alta brusca de homicídios atribuída às gangues.

Regime de exceção, em português claro, é quando a Constituição é suspensa em parte. No caso salvadorenho, cai o prazo máximo de detenção sem acusação formal, cai o direito de falar com advogado logo depois da prisão, cai o sigilo de comunicação.

A lei diz que cada decreto vale trinta dias. Passados os trinta dias, a Assembleia tem de aprovar de novo. E aprova. Sempre.

MarcoDataO que aconteceu
Início27 de março de 2022Regime de exceção decretado depois de alta de homicídios
Prorrogação 46janeiro de 2026O ano de 2026 começou já sob o regime
Prorrogação 5131 de maio a 29 de junho de 2026Aprovada com 57 votos de 60
Prorrogação 5224 de junho de 2026Mais trinta dias
Prorrogação de agosto26 de agosto de 2026Estendida até 27 de setembro de 2026

São mais de quatro anos e meio seguidos e mais de cinquenta prorrogações de trinta dias cada uma. A palavra "excepcional", na prática, virou o estado normal do país.

O que as denúncias dizem, e o que o governo responde

A Human Rights Watch publicou o Informe Mundial 2026 em fevereiro deste ano. O capítulo de El Salvador traz números que vêm da própria Assembleia Legislativa salvadorenha: mais de 90 mil pessoas detidas sob o regime de exceção, incluindo mais de 3 mil crianças.

Sobre mortes, a HRW reproduz o levantamento do Socorro Jurídico Humanitario, uma organização local: "al menos 458 personas han muerto bajo custodia durante el régimen de excepción". A HRW registra que não houve responsabilização por nenhuma dessas mortes. A Cristosal, outra organização salvadorenha, havia contabilizado pelo menos 261 mortes sob custódia em levantamento anterior.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos identificou, em setembro de 2024, "denuncias" de "violaciones sistemáticas y generalizadas de derechos humanos". Organizações documentaram desaparecimentos forçados, prisões em massa sem acusação, tortura e violência sexual contra mulheres e meninas detidas.

Duas histórias com nome e sobrenome, as duas registradas pela HRW:

Ruth López. Diretora da área de anticorrupção e justiça da Cristosal. Presa em maio de 2025, acusada de "enriquecimiento ilícito", mantida incomunicável. A CIDH concedeu medidas cautelares em favor dela em setembro de 2025.

Enrique Anaya. Advogado e crítico do governo. Preso em junho de 2025, acusado de "lavado de dinero", em prisão preventiva e também incomunicável. A CIDH também concedeu medidas cautelares.

A HRW registra ainda que, entre maio e setembro de 2025, pelo menos 140 defensores de direitos humanos e jornalistas deixaram o país, e que a Lei de Agentes Estrangeiros, de setembro de 2025, levou ao fechamento de pelo menos quatro organizações internacionais em El Salvador.

O outro lado. O governo salvadorenho sustenta que o regime de exceção é exatamente o que explica a queda dos homicídios, e que as prisões atingem integrantes de gangues. A nota da Fiscalía chamando 2025 de ano mais seguro da história está no rodapé desta matéria, com link. E existe um segundo argumento do governo, que é a aprovação popular. Vamos a ela.

A aprovação: 93%, e o debate sobre medir isso

A CID Gallup mediu 94% de aprovação da gestão Bukele em março de 2026, com margem de erro de 2,8 pontos e nível de confiança de 95%. Foi recorde.

Em maio de 2026, com campo entre os dias 15 e 23 e 1.200 entrevistas por telefone, a mesma CID Gallup encontrou 93%. Segurança e educação apareceram com 95% de apoio. Em fevereiro, 89% dos entrevistados disseram sentir orgulho do presidente.

Existe um debate público sobre o que significa medir aprovação num país de onde saíram 140 jornalistas e defensores em quatro meses. Eu registro o debate. Eu não tenho como resolvê-lo com dado, então não vou fingir que resolvo. O que eu posso dizer com segurança: a pesquisa existe, o instituto existe, a metodologia foi publicada, e nenhuma outra medição séria apontou número muito diferente.

A reeleição, e a reforma que veio depois

Em 4 de fevereiro de 2024, Bukele foi reeleito com 84,65% dos votos. O Tribunal Supremo Electoral confirmou o resultado em 18 de fevereiro. O segundo colocado, Manuel Flores, do FMLN, teve 6,40%. O terceiro, Joel Sánchez, da ARENA, teve 5,57%.

Aqui está o detalhe que o eleitor brasileiro precisa saber: a Constituição de El Salvador proibia a reeleição presidencial imediata. Uma resolução de 2021 da Corte Suprema de Justiça habilitou a candidatura dele. Partidos de oposição e organizações de direitos humanos disseram que a decisão contrariava a Constituição.

O partido dele e os aliados ficaram com 54 das 60 cadeiras da Assembleia.

E aí veio 31 de julho de 2025. Nesse dia, a Assembleia aprovou em regime expresso, e ratificou na sessão seguinte do mesmo dia, uma reforma constitucional que:

  • habilita a reeleição presidencial indefinida;
  • estende o mandato de cinco para seis anos;
  • elimina a obrigação de segundo turno quando nenhum candidato tem maioria absoluta.

Placar: 57 dos 60 deputados. ARENA e Vamos votaram contra. Foram alterados os artigos 75, 80, 133, 152 e 154 da Constituição. Está publicado no site da própria Assembleia Legislativa, com link no rodapé.

A CIDH chamou a reforma de "un serio retroceso para la democracia y el Estado de derecho".

Leia de novo o que aconteceu ali: a Constituição foi mudada em um único dia, por um Congresso onde o presidente tem 90% das cadeiras, para permitir que esse presidente fique no cargo sem limite. Isso não é opinião minha. É o que o texto aprovado diz.

A economia, que é a parte que quase ninguém cita

Quando alguém elogia Bukele, elogia segurança. Eu fui ver o resto.

O Banco Mundial registra crescimento de 3,5% em 2023, 2,6% em 2024, freado por enchentes severas no primeiro semestre, e estimativa de 3,9% em 2025. O investimento privado cresceu 26,2% em 2025, o maior ritmo desde a pandemia. O consumo privado cresceu 3,3%.

Pela linha internacional de pobreza que o Banco Mundial usa, a pobreza em El Salvador caiu de 29,6% para 28,4% em 2025. Um ponto e dois décimos em um ano. O Banco projeta continuidade da queda, mas em ritmo mais lento, por causa de uma possível desaceleração das remessas, que é o dinheiro que salvadorenhos que moram fora mandam para a família.

Traduzindo: 3,9% de crescimento é bom para a região e não é milagre. A pobreza caiu pouco. Quem procura um país transformado pela economia não vai achar isso em El Salvador. A transformação que os números mostram é de segurança.

O bitcoin: a medida mais ousada durou três anos

Esta parte é a que mais me interessou, porque é a que mais se parece com promessa de campanha brasileira.

Em 7 de setembro de 2021, El Salvador virou o primeiro país do mundo a adotar o bitcoin como moeda de curso legal. A Ley Bitcoin deu à criptomoeda a mesma validade do dólar nas transações internas. Rodou o mundo. Virou capa de revista.

No fim de janeiro de 2025, o mesmo governo aprovou, com 55 votos de 60, a reforma que tirou a obrigatoriedade do bitcoin. Ele deixou de ser moeda de curso legal. O uso virou opcional e a aceitação passou a ser critério de cada comerciante. A reforma também restringiu a compra de bitcoin pelo Estado e a emissão de títulos ligados à moeda.

O motivo, informado na cobertura da CNN en Español e da imprensa salvadorenha, foi destravar um empréstimo de US$ 1,4 bilhão do Fundo Monetário Internacional.

O que Bukele tinha no dia em que assumiu

Esta é a pergunta que decide se a experiência dele cabe aqui.

Bukele venceu a eleição de 2019 com 53% dos votos. Ele não era estreante em cargo público: tinha sido prefeito de Nuevo Cuscatlán e depois prefeito de San Salvador, a capital.

O partido pelo qual ele se elegeu, o GANA, tinha 10 das 84 cadeiras da Assembleia, eleitas em março de 2018 com 11,45% dos votos. ARENA tinha 35, o FMLN tinha 18, o PCN tinha 9.

Ou seja: ele assumiu com menos de 12% do Congresso.

Só em fevereiro de 2021, dois anos depois, o partido novo dele, o Nuevas Ideas, ganhou a Assembleia com 56 cadeiras. O regime de exceção começou em março de 2022, um ano depois disso.

Guarde essa ordem, porque ela é o coração de toda esta matéria: primeiro ele ganhou o Congresso nas urnas, depois usou o Congresso. Não foi firmeza que produziu a maioria. Foi a maioria que permitiu a firmeza.

PARTE 2: MILEI

A inflação, que era o problema de verdade

Argentina, dezembro de 2023. Javier Milei assume um país com inflação acima de 200% ao ano.

Primeiro ano dele, 2024: a inflação fecha em 117,8%, segundo o Indec, o instituto de estatística argentino. Dezembro de 2024 marcou 2,7% no mês. A cobertura do Infobae na época registrou que o número era "casi la mitad" do que o governo anterior havia deixado.

Segundo ano, 2025: fecha em 31,5%. Dezembro de 2025 marcou 2,8% no mês. É a inflação anual mais baixa em oito anos.

Terceiro ano, 2026, dado mais recente: agosto fechou em 1,7% no mês, a menor alta desde junho do ano anterior. O acumulado de janeiro a agosto está em 21,3%. O núcleo da inflação, que é o índice sem os preços mais instáveis, ficou em 0,7% no mês.

Inflação anual da Argentina

2023 (herdado)211
2024117,8
202531,5
2026 até agosto21,3

Fonte: Indec, via Infobae, iProfesional e La Nación. Acumulado de 2026 até agosto. Acesso em 13/09/2026

Essa queda é real e é grande. Quem diz que Milei derrubou a inflação argentina está certo.

Agora a conta honesta: 1,7% ao mês, se ficar nesse ritmo por doze meses, dá em torno de 22% ao ano. Continua sendo cerca de quatro vezes a inflação brasileira. A inflação argentina caiu muito e ainda é alta. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo.

A pobreza: o gráfico que sobe antes de descer

Este é o número que mais me chamou a atenção, porque ele é usado pelos dois lados e quase nunca inteiro.

O Indec mede pobreza por semestre, em 31 aglomerados urbanos. A série é esta:

SemestrePobrezaObservação
2º semestre de 202341,7%o que ele recebeu
1º semestre de 202452,9%cerca de 25 milhões de pessoas
2º semestre de 202438,1%indigência em 8,2%
1º semestre de 202531,6%indigência em 6,3%
2º semestre de 202528,2%13,5 milhões de pessoas

Leia de cima para baixo. A pobreza saiu de 41,7% e chegou a 28,2%. Queda de 13,5 pontos. É o argumento de quem defende.

Agora leia de novo prestando atenção na segunda linha. Antes de cair, ela subiu para 52,9%. Onze pontos de alta em seis meses, no primeiro semestre do governo, no meio da desvalorização do peso e do aumento de tarifas. Cerca de 25 milhões de argentinos pobres. Esse pico é obra do próprio ajuste. É o argumento de quem ataca.

As duas leituras usam o mesmo dado oficial. Quem conta só metade está escolhendo metade.

Duas ressalvas técnicas que precisam estar aqui:

Pesquisadores do CEDLAS, centro de estudos ligado à Universidade Nacional de La Plata, apontam três problemas que distorcem a medição do Indec: desvios entre a renda declarada e o valor das cestas de consumo, mudança na subdeclaração de renda na pesquisa domiciliar, e padrões de consumo desatualizados.

O Observatório da Dívida Social da UCA, que é a universidade católica argentina e faz a medição independente mais respeitada do país, registrou que a pobreza parou de cair e voltou a subir no primeiro trimestre de 2026.

O dado do primeiro semestre de 2026 do Indec estava previsto para setembro e ainda não tinha saído quando eu fechei esta matéria.

PIB, emprego e o caixa

PIB. Caiu 1,7% em 2024. Construção caiu 14,9%, comércio 6,1%, indústria 5,9%, investimento 17,4%. Foi recessão de verdade no primeiro ano. Vale dizer que o próprio governo e o FMI esperavam queda maior, de 3,8%. Em 2025 a atividade cresceu 4,4%. No primeiro trimestre de 2026, cresceu 2,3% na comparação com um ano antes.

Desemprego. Estava em 6,3% no terceiro trimestre de 2025. Subiu para 7,5% no quarto trimestre e para 7,8% no primeiro trimestre de 2026. É a segunda alta trimestral seguida. O próprio Indec registra que as variações não foram estatisticamente significativas, o que quer dizer que podem ser ruído da amostra. Mas a direção é de alta.

Reservas. O Banco Central argentino informou US$ 50.469 milhões de reservas internacionais em 11 de setembro de 2026. Em agosto, as reservas chegaram perto de US$ 51 bilhões, máximo do governo Milei e maior nível em quase sete anos.

Caixa. Em 2025, o setor público nacional fechou com superávit primário de 1,4% do PIB e superávit financeiro de 0,2% do PIB. Em pesos, foram 11,7 trilhões de superávit primário e 1,4 trilhão de financeiro. É a primeira vez em dois anos seguidos de superávit financeiro em caixa desde 2008, e a primeira na série que começa em 1993. A meta combinada com o FMI para 2025 era 1,6%, então ficou perto e um pouco abaixo. No primeiro trimestre de 2026, superávit primário de 0,5% e financeiro de 0,2%.

Superávit financeiro, em português claro, é quando o governo gasta menos do que arrecada mesmo depois de pagar os juros da dívida. É raro em qualquer país. Na Argentina, era quase folclore.

De onde saiu o dinheiro

Superávit não aparece sozinho. Ele sai de algum lugar. Eu fui ver de onde.

O gasto primário real acumulado caiu 26,8% em 2024. Mais de 60% do ajuste veio de quatro rubricas:

Onde cortouQueda real em 2024
Obra pública76,5%
Transferências a províncias75,1%
Aposentadorias e pensões12,5%
Subsídios econômicosparte do mesmo bloco

Aposentadorias e pensões, sozinhas, responderam por cerca de um quinto de todo o ajuste. Isso quer dizer que o aposentado argentino pagou um quinto da conta do superávit.

Existe uma reportagem de setembro de 2026 sustentando que o governo reduziu o gasto público em 14 pontos do PIB em três anos. Eu não vou usar esse número como fato, porque diferentes fontes usam recortes diferentes (setor público nacional, administração pública nacional, setor público consolidado) e dão resultados muito distantes. Fica como alegação da reportagem, não como dado.

A aprovação de Milei, e por que ela desabou

Aqui mora o contraste mais duro desta matéria.

A AtlasIntel mediu em agosto de 2026: aprovação da gestão em 38,1%, alta pequena sobre os 37% do mês anterior. Desaprovação em 58%.

A imagem pessoal dele está pior: 35% positiva contra 62% negativa. Diferencial de 27 pontos negativos, o pior desde que as medições começaram, em outubro de 2024. A imagem positiva vinha de mais de 45% no fim de 2024 e chegou a 34% em agosto de 2026.

O Infobae registrou em 11 de setembro de 2026 que o incômodo que mais cresce nas pesquisas argentinas é com emprego e com corrupção.

Compare com El Salvador: Bukele em 93%, Milei em 38%. Os dois são chamados de "firmes" pela mesma pessoa, no mesmo comentário. Um entregou segurança e ganhou aprovação. O outro entregou inflação em queda e perdeu aprovação.

Por quê? Porque inflação em queda e bolso melhor não são a mesma coisa. Quem perdeu emprego, quem viu a aposentadoria encolher e quem trabalha em obra parada sente a firmeza antes de sentir o resultado dela.

As legislativas de outubro de 2025

Em outubro de 2025 a Argentina renovou 127 cadeiras de deputados e 24 de senadores. La Libertad Avanza venceu.

Resultado: cerca de 40% dos votos no país (40,81% para deputados, cerca de 9,12 milhões de votos), com participação de 67,8%. O partido venceu em 15 das 24 províncias que elegiam deputados e em 6 das 8 que elegiam senadores.

Na Câmara, conquistou 64 cadeiras novas e o bloco saltou de cerca de 43 para 97 das 257. No Senado, somou 13 e o bloco foi de 7 para cerca de 20 a 21 das 72, com a variação vindo de trocas de bloco.

Agora faça a divisão. 97 dividido por 257 dá 37,7%.

E no dia em que ele assumiu, em dezembro de 2023, era muito pior: La Libertad Avanza tinha 38 das 257 cadeiras de deputados, menos de 15%, e 7 das 72 do Senado, menos de 10%. Antes da eleição, tinha 3 deputados. Experiência prévia de Milei: deputado nacional desde dezembro de 2021, sem nunca ter ocupado cargo executivo.

PARTE 3: TRUMP

O único dos três que chegou com maioria

Comecemos pelo que diferencia Trump dos outros dois, e que quase nunca entra na conversa de bar.

Em novembro de 2024, Trump venceu com 312 votos no Colégio Eleitoral contra 226 de Kamala Harris, e 49,8% do voto popular (77.302.580 votos contra 75.017.613).

No mesmo dia, os republicanos ficaram com 220 das 435 cadeiras da Câmara e 53 das 100 do Senado.

Ele assumiu com maioria nas duas casas do Congresso e com quatro anos de experiência no próprio cargo, de 2017 a 2021. É o único dos três nessa situação. Bukele assumiu com 12% do Congresso. Milei, com 15%. Trump, com 51% e mais o Senado.

Guarde isso, porque agora vem a parte interessante.

Os números da economia americana, um por um

Inflação. Em agosto de 2026, o índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos subiu 3,4% em doze meses, mesmo número de julho. No mês, alta de 0,4%, depois de 0,1% em julho. O núcleo ficou em 2,4% em doze meses, o menor desde março de 2021. Quem puxou o índice cheio foi a gasolina, que subiu 27,4% em um ano. Divulgação do Bureau of Labor Statistics em 11 de setembro de 2026.

Desemprego. 4,1% em agosto de 2026, estável, com 162 mil vagas criadas no mês. É perto da máxima de quase quatro anos.

PIB. Cresceu 2,1% em 2025. No primeiro trimestre de 2026, 2,1%. No segundo trimestre, 1,5% em taxa anualizada, segundo o Bureau of Economic Analysis. O crescimento veio de consumo, investimento e exportações, e foi parcialmente compensado por queda no gasto do governo.

Déficit. O ano fiscal de 2025 fechou com déficit de US$ 1,8 trilhão, ou 5,9% do PIB. Foram US$ 5,2 trilhões de receita contra US$ 7,0 trilhões de gasto. O déficit ficou US$ 8 bilhões abaixo do de 2024, o que na prática significa empatado. A receita subiu 6%, puxada por imposto de renda de pessoa física e por tarifas alfandegárias. O gasto subiu 4%.

E um dado que merece parágrafo próprio: os juros da dívida americana passaram de US$ 1 trilhão em um ano e viraram a segunda maior despesa do governo federal, atrás apenas da Previdência. O CBO projeta déficit de US$ 1,9 trilhão no ano fiscal de 2026.

US$ 1,8 trilhãodéficit do ano5,9% do PIB
US$ 7,0 trilhõesgasto totalcontra US$ 5,2 trilhões de receita
mais de US$ 1 trilhãosó de juros da dívidasegunda maior despesa federal
US$ 8 bilhõesredução do déficit sobre 2024menos de meio por cento

Estados Unidos, ano fiscal de 2025

O ponto aqui é simples: o presidente mais associado à palavra "firmeza" está governando o país mais rico do mundo com déficit de 5,9% do PIB e com juros consumindo mais de um trilhão por ano. Firmeza no discurso não virou firmeza no caixa.

Guindastes de um terminal de contêineres no porto de Oakland, na Califórnia

A tarifa de 50% sobre o Brasil, e o que sobrou dela

Essa parte é sobre o seu bolso, então eu vou devagar.

Em 9 de julho de 2025, Trump anunciou tarifa de 50% sobre todas as importações vindas do Brasil, citando o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. A medida entrou em vigor em 6 de agosto de 2025. Alguns produtos ficaram de fora desde o começo: petróleo, suco de laranja, aviões e celulose. Depois entraram na lista de isentos a carne bovina, o café e as frutas. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços calculou que as exceções pouparam 44,6% da pauta exportadora brasileira para os Estados Unidos.

O efeito apareceu rápido. As exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 28,1% em novembro de 2025.

Aí veio 20 de fevereiro de 2026. A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, por 6 votos a 3, que a IEEPA, que é a lei americana de poderes econômicos de emergência, não autoriza o presidente a impor tarifas. O voto condutor foi do chefe da Corte, John Roberts, acompanhado integralmente por Gorsuch e Barrett e em parte por Sotomayor, Kagan e Jackson.

O tarifaço de 50% caiu. Mais de 200 produtos brasileiros tiveram a sobretaxa suspensa, incluindo carne bovina, café, frutas e petróleo. A Corte de Comércio Internacional determinou a devolução de cerca de US$ 165 bilhões de tarifas cobradas de forma ilegal, e projeções falavam em até US$ 175 bilhões.

Pense no tamanho disso. A medida econômica mais marcante do segundo mandato de Trump foi derrubada pelo tribunal superior do próprio país, num tribunal onde três dos nove juízes foram indicados por ele.

Onde a coisa está hoje

Derrubada a base legal, o governo americano migrou para outras. Em junho de 2026 o USTR, que é o escritório de comércio dos Estados Unidos, propôs 25% sobre importações brasileiras pela Seção 301.

O MDIC, em nota de 24 de julho de 2026, descreve o quadro atual:

MedidaAlíquotaAlcance
Seção 301, investigação Brasil25% adicionaisprodutos específicos
Seção 301, investigação de trabalho forçado12,5% adicionais41 economias, inclusive o Brasil
As duas somadasaté 37,5%produtos atingidos pelas duas
Seção 232tarifas setoriais já existentesvale para todos os países, como aço e alumínio

Pelos dados de 2024 usados pelo MDIC: 23,1% das exportações brasileiras ficaram sujeitas às novas tarifas da Seção 301, 24,2% já estavam sob a Seção 232 e 52,7% ficaram fora das medidas setoriais. Os setores atingidos são máquinas e equipamentos, madeira, gorduras e óleos, calçados, móveis, têxteis, açúcar, pedra e gesso, pescados e óleos essenciais.

O resultado no comércio: no primeiro semestre de 2026 as exportações brasileiras aos Estados Unidos somaram US$ 17,4 bilhões, queda de 13% sobre o mesmo período de 2025. Petróleo bruto caiu 30,4%. Semiacabados de ferro e aço caíram 21,7%. A fatia dos Estados Unidos nas exportações brasileiras encolheu de 12,1% para 9,4%.

Lula e Trump se encontraram em maio de 2026 em Washington. Trump chamou Lula de "dynamic president" e disse que a reunião foi muito boa.

Eu não tenho o dado da alíquota média efetiva aplicada hoje sobre o conjunto das importações americanas. Procurei e não achei em fonte confiável. Fica registrado que não sei.

Deportações: onde as fontes brigam

Prometi contar quando os números não batem. Este é um desses casos, e eu prefiro mostrar a briga a escolher o número que me agrada.

FontePeríodoNúmero
Axios, com dados do ICE, 15 de abril de 2026ano fiscal de 2025442 mil deportados
TRAC Reportsano fiscal de 2025319.980 remoções
ABC News, com dados do ICEano fiscal de 2026, até julho356.389 remoções
Washington Times, 23 de julho de 2026desde a posse, janeiro de 2025perto de 600 mil

Por que divergem? Por dois motivos. O ano fiscal americano de 2025 vai de outubro de 2024 a setembro de 2025, então inclui os últimos meses do governo Biden. E cada levantamento conta categorias diferentes: remoções feitas pelo ICE, retornos feitos pela polícia de fronteira, saídas voluntárias.

O que dá para afirmar com segurança: o ritmo em 2026 estava em cerca de 1.266 remoções por dia, o que projetaria mais de 460 mil no ano fiscal fechado, que termina em 30 de setembro de 2026. É um número alto em qualquer comparação histórica.

A aprovação de Trump

A Gallup, que é a série mais antiga e mais citada dos Estados Unidos, mediu 40% de aprovação em agosto de 2026, alta de 3 pontos sobre os 37% de julho.

O detalhe que explica quase toda a política americana de hoje: 93% dos republicanos aprovam, contra 1% dos democratas. Noventa e dois pontos de diferença.

Por tema: economia 37%, política externa 39%, educação 38%.

A mínima do segundo mandato na série Gallup foi 36%, em novembro de 2025. O Pew Research Center registra que a aprovação dele é baixa em padrões históricos. Médias de várias pesquisas em setembro de 2026 apontam algo em torno de 37,7% de aprovação contra 58,4% de desaprovação.

A PERGUNTA QUE INTERESSA AO BRASILEIRO

Primeiro: "firme" em quê?

Olhe a tabela abaixo devagar. Ela é o resumo desta matéria inteira.

BukeleMileiTrump
Problema que atacouhomicídioinflaçãoimigração e comércio
Resultado principal6.656 mortes em 2015 para 82 em 2025117,8% em 2024 para 31,5% em 2025inflação em 3,4%, desemprego em 4,1%
Preço cobradomaior taxa de presos do mundo, 90 mil detidosrecessão, pobreza a 52,9% antes de cairdéficit de US$ 1,8 trilhão, juros acima de US$ 1 trilhão
Aprovação em 202693%38,1%40%
Bancada na posse10 de 84 (12%)38 de 257 (15%)220 de 435 e 53 de 100
Bancada hoje54 de 60 (90%)97 de 257 (38%)a mesma
Freio que apanhounenhum dentro do paísCongresso, em cada votaçãoSuprema Corte derrubou as tarifas

Três presidentes, três problemas, três preços, três resultados. A palavra "firme" serve para os três e não descreve nenhum.

Quando alguém diz "eu quero alguém firme", a pergunta útil é: firme contra o quê, com que ferramenta, e quem paga?

Se for firme contra o crime, a ferramenta salvadorenha foi suspender parte da Constituição por mais de quatro anos, e quem pagou foram 90 mil detidos, entre eles gente inocente, segundo a CIDH e a HRW.

Se for firme contra a inflação, a ferramenta argentina foi cortar 26,8% do gasto real em um ano, e quem pagou primeiro foram o aposentado, a obra pública e as províncias.

Se for firme contra imigração e comércio, a ferramenta americana foi ordem executiva, e o freio veio da Suprema Corte do próprio país.

Segundo: quem promete isso no Brasil em 2026

A eleição é em 4 de outubro. Doze candidaturas foram registradas para a Presidência. Quase todas usam alguma versão da palavra "firmeza", "coragem", "pulso" ou "mão forte".

Eu não vou dizer aqui quem é o "Bukele brasileiro", porque isso seria eu inventando comparação que nenhum dado sustenta. O que eu posso fazer é entregar a régua, e a régua tem três perguntas.

Pergunta 1: firme em quê, exatamente? Se a resposta for "em tudo", não é resposta. Bukele foi firme em segurança e recuou no bitcoin. Milei foi firme no caixa e não segurou o desemprego. Trump foi firme na tarifa e a tarifa caiu no tribunal.

Pergunta 2: com que ferramenta? Pergunte se a ferramenta é lei comum, emenda constitucional, decreto ou estado de exceção. Cada uma tem um preço diferente e um quórum diferente.

Pergunta 3: com quantos deputados? Esta é a que decide.

Terceiro: o que o Congresso brasileiro permite

Eu levantei essa conta inteira em nunca foi político, defeito ou motivo. Aqui está o resumo, com a fonte na Câmara e no Senado.

O que o presidente quer fazerQuantos votos precisa na Câmara
Aprovar lei que exige maioria absoluta257 de 513
Mudar a Constituição (PEC)308, em dois turnos, mais 49 no Senado, também em dois turnos
Sofrer abertura de impeachment342 contra ele
Barrar o impeachment172 leais já bastam

Agora junte com o que você acabou de ler.

Bukele mudou a Constituição de El Salvador em um dia com 57 votos de 60, porque tinha 90% da Assembleia. Para fazer algo equivalente no Brasil, um presidente precisaria de 308 deputados e 49 senadores, em dois turnos em cada Casa. É mais que a bancada de qualquer partido brasileiro somada a três ou quatro aliados.

Milei venceu uma eleição nacional com 40% dos votos e tem 97 de 257. Traduzido para a régua brasileira, seria como ter cerca de 194 dos 513, ainda 63 votos abaixo da maioria absoluta.

Trump é o único que assumiu com maioria, e mesmo assim viu a principal medida econômica dele cair no tribunal.

E vale lembrar uma coisa que aparece nos três casos: coalizão se monta depois da eleição, não antes. Então a comparação justa nunca é "5 deputados contra 257". É "5 mais o que o presidente eleito conseguir juntar". Isso vale para todos os candidatos de 2026, sem exceção.

O que eu penso

Aqui é opinião minha, avisada como opinião, e você pode discordar sem que nenhum número acima mude.

Eu acho que "firme" virou uma palavra sem conteúdo no debate brasileiro. Ela não diz o que a pessoa vai fazer, com que instrumento, nem quem paga a conta. Serve para todo mundo, o que significa que não serve para nada.

Eu acho que o caso de El Salvador é o mais impressionante e o mais perigoso de copiar. Impressionante porque a queda de homicídio é real, medida, e mudou a vida de gente pobre que antes pagava pedágio para gangue. Perigoso porque a ferramenta foi suspender a Constituição por quatro anos e meio, prender 90 mil pessoas, e depois mudar a Constituição em um dia para ficar no cargo sem limite. Quem quiser copiar a primeira parte precisa dizer em voz alta se quer copiar a segunda.

Eu acho que o caso de Milei mostra o que acontece quando falta bancada. Ele fez o ajuste por decreto, veto e negociação item por item, e o custo político apareceu no bolso antes de o benefício aparecer. Trinta e oito por cento de aprovação depois de derrubar uma inflação de 200% para 30% é o retrato disso.

Eu acho que o caso de Trump é o que mais desmente a fantasia. Ele tinha tudo: experiência no cargo, Câmara, Senado e maioria no tribunal indicada em parte por ele. E a medida mais barulhenta do mandato caiu por seis a três. Quando existe freio institucional funcionando, firmeza sozinha não passa.

E eu acho que a lição brasileira não está em nenhum dos três países. Está numa conta que qualquer pessoa faz em trinta segundos no site da Câmara: quantos deputados o partido do seu candidato tem hoje. Se a resposta for muito longe de 257, ele vai precisar negociar. Se ele disser em entrevista que não vai negociar, ou ele está enganando você, ou está enganando a si mesmo.

Eu voto no Augusto Cury e não escondo. O partido dele tem 5 deputados. Eu sei o que isso significa e continuo votando nele por outros motivos, que eu já expliquei em por que eu voto 70. Mas eu não vou fingir que a conta não existe só porque ela é ruim para o meu lado.

Perguntas que eu recebi sobre este assunto

Então é verdade que Bukele acabou com o crime em El Salvador?

O número de homicídios caiu de 6.656 em 2015 para 82 em 2025, e isso é oficial. Crime não é só homicídio, e eu não tenho dado confiável sobre roubo, extorsão e tráfico no mesmo período. O que está medido e confirmado é o homicídio.

Quantas pessoas foram presas em El Salvador?

Mais de 90 mil sob o regime de exceção, incluindo mais de 3 mil crianças, segundo números da própria Assembleia Legislativa citados pela Human Rights Watch. O país tem a maior taxa de encarceramento do mundo, com 1.659 presos por 100 mil habitantes no World Prison Brief.

Milei acabou com a inflação argentina?

Não acabou, derrubou. Saiu de mais de 200% ao ano em 2023 para 117,8% em 2024 e 31,5% em 2025. Agosto de 2026 marcou 1,7% no mês. No ritmo atual, daria cerca de 22% ao ano, que ainda é muito mais que a inflação brasileira.

A pobreza na Argentina subiu ou caiu com Milei?

As duas coisas, nessa ordem. Ele recebeu 41,7% no segundo semestre de 2023, viu subir para 52,9% no primeiro semestre de 2024 e depois cair até 28,2% no segundo semestre de 2025. O pico foi durante o próprio ajuste.

A tarifa de 50% de Trump sobre o Brasil ainda existe?

Não nessa forma. A Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou a base legal dela em 20 de fevereiro de 2026, por 6 a 3, e determinou a devolução de cerca de US$ 165 bilhões. O governo americano migrou para a Seção 301, com 25% sobre produtos específicos e mais 12,5% da investigação de trabalho forçado, podendo somar 37,5%.

Se um presidente brasileiro quisesse fazer o que Bukele fez, ele conseguiria?

Precisaria de 308 deputados e 49 senadores, em dois turnos em cada Casa, para mudar a Constituição. Bukele fez isso com 57 votos de 60 numa Assembleia onde tinha 90% das cadeiras. Nenhum presidente brasileiro eleito nas últimas décadas teve nem os 257 de maioria absoluta com o próprio partido.

Para ler junto

Fontes desta materia

  1. Fiscalía General de la República de El Salvador, Fiscal General y Gabinete de Seguridad califican al 2025 como el año más seguro de la historia de El Salvador
  2. Diario El Salvador, El Salvador pasó de tasa de homicidios de 106.3 en 2015 a 1.9 en 2024
  3. Infobae e EFE, El Salvador cerró 2024 con 114 homicidios, un 26 % menos que 2023, según la Fiscalía, 1º de janeiro de 2025
  4. Excélsior, El Salvador registra tasa de homicidios de 1.3 en 2025, la más baja en su historia
  5. InSight Crime, balanço de homicídios na América Latina e no Caribe em 2025
  6. World Prison Brief, ficha de El Salvador
  7. Voz de América, El Salvador, país con la tasa de encarcelamiento más alta del mundo
  8. El Salvador Now, El Salvador already has the highest incarceration rate worldwide, 2 de fevereiro de 2025
  9. Human Rights Watch, Informe Mundial 2026, capítulo El Salvador
  10. Cristosal, acervo sobre o regime de exceção
  11. Asamblea Legislativa de El Salvador, prorrogações do regime de exceção
  12. Infobae, El Salvador extiende el régimen de excepción en su prórroga número 52, 24 de junho de 2026
  13. Infobae, La Asamblea Legislativa extiende el régimen de excepción por otros 30 días, 26 de agosto de 2026
  14. Asamblea Legislativa de El Salvador, Asamblea aprueba reelección presidencial indefinida, 31 de julho de 2025
  15. Infobae, El Congreso de El Salvador aprobó una reforma constitucional que permite la reelección presidencial indefinida, 1º de agosto de 2025
  16. CIDH e OEA, comunicado 156 de 2025 sobre a reeleição indefinida em El Salvador
  17. La Jornada e AP, El Salvador confirman reelección de Bukele con el 84.65% de los votos, 17 de fevereiro de 2024
  18. Infobae e EFE, El partido de Bukele logra mayoría en el Congreso de El Salvador con 54 de 60 diputados, 20 de fevereiro de 2024
  19. Wikipédia, eleição legislativa de El Salvador de 2018, com as cadeiras de cada partido
  20. Wikipédia, eleição presidencial de El Salvador de 2019
  21. Swissinfo e EFE, Nuevas Ideas logra 56 diputaciones y mayoría de alcaldías, março de 2021
  22. Banco Mundial, Macro Poverty Outlook de El Salvador
  23. Banco Mundial, Evaluación de la pobreza y la equidad en El Salvador 2024
  24. CNN en Español, El bitcoin ya no es obligatorio en El Salvador tras reformas aprobadas por la Asamblea Legislativa, 30 de janeiro de 2025
  25. El Salvador, Asamblea aprueba reforma a Ley Bitcoin, 2025
  26. Infobae, CID Gallup, Bukele alcanza el 94% de aprobación, 25 de março de 2026
  27. Infobae, Bukele mantiene niveles de aprobación que superan el 90 % tras 7 años en el poder, 1º de junho de 2026
  28. Infobae, La inflación de 2024 fue de 117,8%, 14 de janeiro de 2025
  29. iProfesional, a inflação argentina de 2025 mês a mês, com dados do Indec
  30. La Nación, Inflación de agosto: cuál fue el IPC acumulado, 10 de setembro de 2026
  31. El Cronista, Inflación de agosto de 2026, de cuánto fue el IPC según el INDEC
  32. Chequeado, calculadora de inflação acumulada na Argentina
  33. Chequeado, La pobreza bajó al 38,1% y la indigencia al 8,2% en el primer año de Milei
  34. Infobae, La pobreza registró una nueva baja: fue de 28,2% en el segundo semestre de 2025, 31 de março de 2026
  35. Infobae, La pobreza frenó su baja y volvió a aumentar en el primer trimestre de 2026, según la UCA, 4 de agosto de 2026
  36. Infobae, La economía argentina se contrajo 1,7% en 2024, 19 de março de 2025
  37. Expreso, La economía de Argentina creció 2,3% en el inicio de 2026 pero el empleo se deteriora
  38. Bloomberg Línea, Desempleo en Argentina aumenta por segundo trimestre consecutivo, informe del Indec
  39. Argentina.gob.ar, En el año 2025 el Sector Público Nacional registró un superávit financiero de $ 1.453.819 millones
  40. Ámbito, Luis Caputo anunció que en 2025 se logró un superávit fiscal del 1,4% del PBI
  41. Newsweek Argentina, El número clave de la motosierra: el gasto público se redujo un 26,8% en 2024
  42. Infobae, Los datos finales de la motosierra: en qué áreas del Estado se enfocaron los recortes de 2024, 17 de janeiro de 2025
  43. Infobae, Las reservas del Banco Central se acercaron a los USD 51.000 millones, 25 de agosto de 2026
  44. Estadísticas BCRA, série histórica de reservas internacionais da Argentina
  45. Chequeado, La Libertad Avanza ganó las elecciones legislativas 2025: cómo queda conformado el nuevo Congreso
  46. El Cronista, Resultados elecciones 2025: cómo queda el Congreso tras el triunfo de La Libertad Avanza
  47. Bloomberg Línea, AtlasIntel: aprobación de Javier Milei anota leve mejora en encuesta clave de agosto
  48. Infobae, La desaprobación de Milei alcanza el 58% y crece el malestar por empleo y corrupción, 11 de setembro de 2026
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  53. NPR, Trump sets 50% tariff rate for Brazil, 9 de julho de 2025
  54. CNN Brasil, 1 ano depois do tarifaço ao Brasil, situação com EUA segue indefinida
  55. CNN Brasil, Tarifaço de Trump: veja cronologia das medidas tomadas pelos EUA
  56. MDIC, Alcance das Medidas Tarifárias dos Estados Unidos sobre Exportações Brasileiras, 24 de julho de 2026
  57. WilmerHale, Supreme Court Strikes Down IEEPA Tariffs, 20 de fevereiro de 2026
  58. Congressional Research Service, Supreme Court Rules Against Tariffs Imposed Under IEEPA
  59. Skadden, Tariff Refund Mechanism Takes Shape After Supreme Court IEEPA Ruling
  60. Penn Wharton Budget Model, Supreme Court Tariff Ruling: IEEPA Revenue and Potential Refunds
  61. Axios, ICE deported 442,000 last fiscal year, 15 de abril de 2026
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  63. ABC News, ICE says over 350,000 individuals removed so far in fiscal year 2026
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  71. Câmara dos Deputados, bancadas atuais por partido
  72. Câmara dos Deputados, quórum de maioria absoluta no Clique Regimento
  73. Senado Federal, glossário legislativo, emenda constitucional