Aconteceu nesta terça-feira, 8 de setembro, e é a primeira vez na eleição: uma pesquisa mostrou Augusto Cury à frente de Lula num segundo turno. 45% contra 43%.
Eu li a pesquisa inteira, não só a manchete. E encontrei nela um número que quase ninguém comentou, mas que é o único capaz de explicar como alguém com 9% no primeiro turno chega nesse resultado.
Vou pela ordem: o que a pesquisa diz, o que ela não diz, e a conta que ninguém está fazendo.
A ficha, antes do número
| Item | Dado |
|---|---|
| Instituto | Nexus, contratada pelo Banco BTG Pactual |
| Entrevistas | 2.002 eleitores, por telefone |
| Abrangência | os 27 estados, com distribuição proporcional |
| Campo | 4 a 7 de setembro de 2026 |
| Margem de erro | 2 pontos percentuais |
| Confiança | 95% |
| Registro no tribunal eleitoral | BR-06790/2026 |
| Custo declarado | R$ 164.888,89 |
É a 13ª rodada dessa série. Ou seja, dá para comparar com a anterior, e eu vou comparar.
O número da manchete, e a ressalva que precisa vir junto
No duelo direto, Augusto Cury 45%, Lula 43%. Branco e nulo somam 10%, e 1% não sabe.
Quem publicar "Cury vence Lula" sem a palavra empate na mesma frase está vendendo mais do que a pesquisa entrega. E olha que eu torço por ele.
Dito isso, a notícia continua sendo notícia: um candidato com 9% de intenção de voto empatou com o presidente da República num cenário de segundo turno. Isso não é pouco.
Os cinco duelos que o instituto testou
Este é o quadro completo, e ele é mais interessante que o número isolado.
| Segundo turno | Resultado |
|---|---|
| Flávio Bolsonaro x Lula | 46 x 45 |
| Augusto Cury x Lula | 45 x 43 |
| Lula x Ronaldo Caiado | 46 x 43 |
| Lula x Romeu Zema | 47 x 40 |
| Lula x Renan Santos | 47 x 39 |
Cinco nomes enfrentaram o presidente. Só dois passaram na frente dele: o Flávio e o Cury. O Caiado perde por 3, o Zema por 7 e o Renan por 8.
Agora a pergunta que não fecha
No primeiro turno da mesma pesquisa, o quadro é este:
Primeiro turno, cenário estimulado sem Marçal
Fonte: BTG/Nexus, campo de 4 a 7 de setembro de 2026
Então preste atenção no desencontro: o Caiado tem 4% e perde do Lula. O Cury tem 9% e passa na frente. A diferença entre os dois no primeiro turno é de 5 pontos, mas no segundo turno a diferença de resultado é enorme.
Intenção de voto não explica isso. Outra coisa explica.
O número que explica: rejeição
Rejeição é a resposta para "em quem você não votaria de jeito nenhum". É o teto do candidato, e é o dado que decide segundo turno.
| Candidato | Rejeição |
|---|---|
| Flávio Bolsonaro | 50% |
| Lula | 49% |
| Renan Santos | 43% |
| Romeu Zema | 42% |
| Ronaldo Caiado | 36% |
| Augusto Cury | 29% |
Cury tem a menor rejeição do país. São 21 pontos a menos que o Flávio e 20 a menos que o Lula.
Some os dois primeiros e o quadro fica claro: metade do Brasil já disse que não vota nem no Lula nem no Flávio. O segundo turno de 2026, seja ele qual for, vai ser disputado nesse pedaço.
O que a pesquisa mostra contra o meu próprio lado
Agora a parte que o entusiasmo esconde, e que eu não pulo.
Para vencer no segundo turno, ele precisa chegar ao segundo turno. E ali estão 26 pontos entre ele e a segunda vaga: Flávio com 35, Cury com 9.
E ele caiu. Na rodada anterior da mesma série, de 31 de agosto, o quadro era Lula 39, Flávio 33 e Cury 11. Agora é Lula 39, Flávio 35 e Cury 9.
| Candidato | 31 de agosto | 7 de setembro | Variação |
|---|---|---|---|
| Lula | 39 | 39 | estável |
| Flávio Bolsonaro | 33 | 35 | subiu 2 |
| Augusto Cury | 11 | 9 | caiu 2 |
E tem o dado mais duro da pesquisa: 81% dos eleitores dizem que a decisão de voto já está tomada. É o maior índice de toda a série da BTG/Nexus, acima dos 78% da rodada anterior.
Mas campanha muda do dia para a noite
Aqui entra a outra metade da história, e ela também tem número.
O Datafolha fez a mesma pergunta em 3 de setembro e chegou a um retrato diferente: 71% dizem ter certeza do voto e 28% dizem que a decisão ainda pode mudar. Entre os eleitores que declaram voto no Cury, a Quaest encontrou 48% que admitem mudar, quase metade.
Nem os institutos concordam sobre o tamanho do país já decidido. E a história eleitoral brasileira é implacável nesse ponto: a eleição se decide nas últimas semanas.
| Ano | O que aconteceu na reta final |
|---|---|
| 2018 | Haddad tinha 9% em 10 de setembro e terminou o primeiro turno com 29%. Vinte pontos em 26 dias |
| 2014 | Aécio tinha 14% no início de setembro e terminou com 33,6% |
| 2002 | Ciro tinha 28% em julho e terminou com 12% |
Coloquei o terceiro caso de propósito. Sobe rápido e desce rápido. Quem só mostra as histórias que deram certo está fazendo campanha, não análise.
E tem um detalhe que fecha o argumento: o próprio Cury já fez isso nesta eleição. Ele saiu de 2% para 11% em sete dias, medido por esta mesma BTG/Nexus, depois do debate da Band em 23 de agosto.
O que ainda vai acontecer antes da urna
O calendário de quem tem 26 dias
Três debates, três semanas de propaganda e tudo aquilo que ninguém previu ainda. Pesquisa mede o dia em que perguntou. Não mede o dia da urna.
Uma comparação que está circulando e está errada
Muita gente está dizendo que "na semana passada ele perdia de 40 a 34". Isso era a Quaest, com outro método, outra amostra e outro dia de campo. Esta é a Nexus, por telefone.
Comparar dois institutos diferentes não é série histórica. Para medir evolução, só vale comparar o instituto com ele mesmo, e é por isso que a comparação que importa aqui é a de 31 de agosto para 7 de setembro, dentro da própria BTG/Nexus.
A leitura honesta
Juntando tudo, a conclusão é uma frase: o problema dele não é ganhar do Lula. É passar do Flávio.
A pesquisa mostra as duas coisas ao mesmo tempo. Se ele chegar ao segundo turno, ele compete de igual para igual com o presidente, e a rejeição explica por quê. E mostra que chegar lá é o obstáculo real, porque são 26 pontos de distância e o país está mais decidido do que nunca nessa série.
Todo mundo está discutindo o segundo turno. A eleição dele acontece no primeiro.
Perguntas frequentes
A pesquisa BTG/Nexus mostrou Augusto Cury vencendo Lula?
Ela mostrou Cury com 45% e Lula com 43% num cenário de segundo turno. Como a margem de erro é de 2 pontos, tecnicamente é um empate, com vantagem numérica para o Cury. É a primeira vez que esse duelo foi testado pelo instituto.
Quais foram todos os cenários de segundo turno testados?
Flávio Bolsonaro 46 x Lula 45; Cury 45 x Lula 43; Lula 46 x Caiado 43; Lula 47 x Zema 40; Lula 47 x Renan Santos 39.
Como alguém com 9% no primeiro turno empata com o presidente no segundo?
Por causa da rejeição. Augusto Cury tem 29% de rejeição, a menor entre os candidatos medidos. Flávio Bolsonaro tem 50% e Lula tem 49%. No segundo turno, quem tem rejeição alta tem teto.
Quanto cada candidato tem no primeiro turno nessa pesquisa?
Lula 39%, Flávio Bolsonaro 35%, Augusto Cury 9%, Ronaldo Caiado 4%, Renan Santos 4% e Romeu Zema 1%, no cenário estimulado sem Pablo Marçal.
O Cury subiu ou caiu nessa pesquisa?
Caiu. Na rodada anterior do mesmo instituto, em 31 de agosto, ele tinha 11%. Agora tem 9%. No mesmo período o Flávio subiu de 33% para 35%.
Ainda dá tempo de mudar até a eleição?
A pesquisa diz que 81% já decidiram o voto, recorde da série. O Datafolha de 3 de setembro, porém, encontrou 28% que ainda podem mudar. Historicamente a eleição brasileira se move na reta final: em 2018 Haddad saiu de 9% para 29% em 26 dias, e em 2002 Ciro caiu de 28% para 12%.
Onde eu confiro essa pesquisa?
Ela está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-06790/2026 e a íntegra está publicada no site da Nexus.







