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Política / 12 de setembro de 2026

Eu fui ler

Eu li os três planos de governo. Lula tem 2 metas com prazo, Flávio tem 6, Cury tem 12. E nenhum escreve a palavra Deus

São 360 páginas registradas no TSE, o único papel da campanha que o candidato assina. Contei meta por meta, com número e prazo, e anotei a página de cada uma. O plano do Lula é um balanço do que já foi feito. O do Flávio tem a maior cifra e não diz quanto custa o corte de imposto. O do Cury tem mais metas, mas onze delas são para 8 ou 10 anos num mandato de quatro. E a palavra Deus não aparece em nenhum dos três.

Publicado
12 de setembro de 2026
Atualizado
12 de setembro de 2026
Editoria
Política
Leitura
37 min
Fontes
36 citadas
Lula, Augusto Cury e Flávio Bolsonaro. Fotos Ricardo Stuckert/PR, Associação dos Magistrados Brasileiros e Agência Senado, licenças CC
Lula, Augusto Cury e Flávio Bolsonaro. Fotos Ricardo Stuckert/PR, Associação dos Magistrados Brasileiros e Agência Senado, licenças CC

Todo candidato a presidente é obrigado a entregar um papel ao TSE junto com o pedido de candidatura. Esse papel chama plano de governo. Está na lei, no artigo 11 da Lei 9.504. É o único documento da campanha inteira que o candidato assina e registra na Justiça Eleitoral.

Isso muda tudo. Na entrevista, o candidato pode dizer que foi mal interpretado. No debate, pode dizer que faltou tempo. O post, a equipe apaga. O plano fica lá, com número de protocolo, e qualquer pessoa pode baixar.

Eu baixei os três: Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Augusto Cury (Avante). Li os três de ponta a ponta. Somados, dão 360 páginas e quase 90 mil palavras. Aqui está o que cada um promete, o que cada um esconde, e o que nenhum dos três escreve.

Como eu li

Para não depender da minha memória, converti cada PDF em texto puro com um programa chamado pdftotext. Ele tira o texto da página e deixa marcado em que página cada frase estava. Depois contei as palavras uma a uma, por palavra inteira, sem diferenciar maiúscula de minúscula.

Palavra inteira quer dizer o seguinte. Quando eu digo que "família" aparece 89 vezes no plano do Flávio, contei "família" e "famílias". Não contei "familiar" nem "familiaridade". Quando digo que "Deus" aparece zero vezes, procurei a palavra inteira, Deus, nos três textos. Não achei.

Agora o critério mais importante desta matéria: o que é uma meta com número e prazo.

Meta com número e prazo é uma promessa para o futuro que tem duas coisas ao mesmo tempo. Um alvo em número (quantidade, porcentagem ou valor em dinheiro) e um tempo para acontecer (um ano, "em quatro anos", "no mandato", "na próxima década").

Exemplo que conta: "meio milhão de vagas prisionais em 4 anos". Tem número (500 mil) e tem prazo (4 anos). Vale.

Exemplo que não conta: "vamos ampliar as vagas no sistema prisional". Não tem número nem prazo. É intenção.

Também não conta balanço. "Construímos 3 milhões de casas até 2026" é o que já foi feito, ou o que está sendo feito neste mandato. Não é promessa para o próximo.

E não conta regra de funcionamento. "Mandato de 8 anos no STF" tem número, mas é desenho de instituição. Não é meta de governo.

O segundo critério é a fonte de dinheiro. Uma promessa tem fonte quando o plano diz de onde sai o dinheiro: um fundo com nome, uma receita específica, um gasto que sai de um lugar para outro, ou uma parceria privada que paga a obra. "Com responsabilidade fiscal" não é fonte. "Com o crescimento da economia" também não.

Cada meta e cada fonte estão listadas abaixo com a página. Se você discordar de alguma, abre o PDF na página e me manda.

Um aviso honesto antes de começar: contar meta é julgamento. Outra pessoa, com o mesmo critério, pode contar 11 ou 13 no plano do Cury. Por isso a lista está inteira, com página. O número final é meu. A lista é de todo mundo.

A tabela geral

Lula (PT)Flávio Bolsonaro (PL)Augusto Cury (Avante)
Páginas8476200
Palavras24.68123.23541.928
Registro no TSE08/08/202613/08/202613/08/2026
Metas com número e prazo2 (mais 2 no limite)612
Promessas com fonte de dinheiro7 (todas em fundos que já existem)3 (mais 2 por parceria privada)6 (uma com custo estimado)
Menções a "Deus"000
Menções a "família(s)"248949
Menções a "STF"056
Menções a "Supremo"028
Menções a "imposto(s)"7345

Duas observações sobre as páginas. As 200 do Cury incluem 23 páginas em branco ou só com número, que servem para separar capítulos. As 76 do Flávio têm 73 com texto; a capa, a contracapa e a página 76 estão em branco. Ou seja, o plano do Cury tem quase o dobro de texto dos outros dois, mas não é o dobro e meio que o número de páginas sugere.

Metas com número e prazo em cada plano

Lula (PT)2
Flávio Bolsonaro (PL)6
Augusto Cury (Avante)12

Fonte: leitura dos três PDFs registrados no TSE; cada meta está listada com a página nesta matéria

Um detalhe que diz muito sobre o tom de cada documento: nenhum dos três registrou um resumo curto. Mas dois se chamam "diretrizes". O do Lula tem "Diretrizes" no título. O do Flávio tem "Diretrizes" no nome do arquivo. Só o Cury chama o seu de "plano de governo". Diretriz é rumo. Plano é compromisso. A escolha da palavra não é por acaso.

O plano do Lula: um balanço com duas metas para o futuro

O documento tem 84 páginas e chama "Diretrizes para o Programa de Transformação do Brasil: um país soberano, democrático, desenvolvido, sustentável e criativo" (p. 3 e 6). Foi registrado em 8 de agosto. No fim, assinam PT, PSB, PV, PCdoB, PDT, PSOL e Rede (p. 84). É o único dos três que traz a coligação inteira assinando.

A primeira coisa que salta é o verbo. "Continuar", "continuaremos" e "continuando" aparecem 124 vezes. "Criar" e "criaremos", 5 vezes. Em 84 páginas, o plano de quem já governa é, na maior parte, uma lista do que já foi feito e vai seguir sendo feito.

Isso aparece nos números também. O plano está cheio de cifras, 29 vezes "R$" e 42 vezes "%". Só que a maioria é balanço do mandato atual. Exemplos: 3 milhões de casas do Minha Casa Minha Vida até o fim de 2026 (p. 45); 1.228 centros odontológicos até o fim de 2026 (p. 36); R$ 300 bilhões de investimento em 2026 (p. 53); déficit primário de 0,4% do PIB em 2026 (p. 11); 675 mil castrações de animais até o fim de 2026 (p. 69). Tudo isso é este mandato. Não é o próximo.

As metas com número e prazo

Pelo critério, achei duas firmes e duas no limite.

  1. Desmatamento líquido zero até 2030 (p. 70). É reafirmação de uma meta que o governo já assumiu antes.
  2. Reduzir as emissões de gases entre 59% e 67% até 2035 (p. 69 e 71). É a meta que o Brasil já entregou na COP29. O plano pede que a gente "cumpra".
  3. No limite: internet em todas as escolas "no próximo mandato" (p. 32). O 100% está implícito e o prazo também.
  4. No limite: chegar a 80% das crianças alfabetizadas na idade certa (p. 31). Tem número, mas o ano não está no texto.

Repare: as duas metas firmes já existiam antes do plano. O documento não cria uma meta nova com número e prazo.

Tem número sem prazo: fim da escala 6x1 e jornada de 40 horas (p. 75); mais 111 institutos federais em 106 municípios (p. 33, mas já contratados); concluir 30 Casas da Mulher Brasileira e 15 Centros de Referência (p. 21); R$ 10 bilhões do FIIS para segurança (p. 27 e 28, programa lançado em maio de 2026).

As 10 promessas mais concretas

  1. Enviar e aprovar a PEC da Segurança e criar o Ministério da Segurança Pública (p. 27 e 30).
  2. Fim da escala 6x1 e jornada de 40 horas sem redução de salário, "nos termos aprovados na Câmara" (p. 75).
  3. Desmatamento líquido zero até 2030 (p. 70).
  4. Internet em 100% das escolas no mandato (p. 32).
  5. Farmácia Popular passa a incluir exames de laboratório para quem tem pressão alta e diabetes (p. 36).
  6. Fila única digital do SUS, ordenada por risco do paciente, com inteligência artificial (p. 38).
  7. Manter e ampliar o Minha Casa Minha Vida para todas as faixas, com o Compra Assistida (p. 45).
  8. Regulação das redes sociais e plataformas (p. 16) e regulamentação da IA para pagar artistas (p. 42).
  9. Regulação do trabalho por aplicativo com previdência e fim da "pejotização espúria" (p. 74 e 75).
  10. Petrobras de volta à distribuição de combustíveis e ampliação do refino (p. 67).

De onde sai o dinheiro

O plano do Lula é o que mais aponta fonte: 7 promessas. Só que todas apontam para fundos que já existem.

  1. Segurança: R$ 10 bilhões do Fundo Nacional de Investimento em Infraestrutura Social, o FIIS (p. 27 e 28).
  2. Escola em tempo integral: dinheiro do Fundeb a partir de 2026 (p. 31).
  3. Ciência e tecnologia: FNDCT sem contingenciamento (p. 51).
  4. Internet: FUST (p. 55).
  5. Desenvolvimento regional: fundos constitucionais FNE, FNO e FCO, mais o Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional, ainda sem regulamentação (p. 56).
  6. Clima: Fundo Clima, Eco Invest, Fundo Amazônia e TFFF, "cerca de R$ 350 bilhões" (p. 70 e 71).
  7. Exames e cirurgias no SUS: hospitais privados fazem "em troca de créditos financeiros ou de dívidas" (p. 37).

Sem fonte nem custo: o Ministério da Segurança Pública (p. 30), o fim da 6x1 (p. 75), o Minha Casa Minha Vida ampliado (p. 45), a Farmácia Popular com exames (p. 36), os novos hospitais universitários (p. 34). Sobre a Previdência, o plano diz que vai "buscar reestruturar a base de financiamento" (p. 77). Não diz como.

Os seis temas

Economia e impostos. Manter o arcabouço fiscal (p. 49). O resultado fiscal "virá do crescimento, do controle do gasto, da justiça tributária" (p. 49). Regulamentar a reforma tributária com o Imposto Seletivo sobre produtos que fazem mal (p. 59). Fundo de Desenvolvimento Regional no lugar da guerra fiscal entre estados (p. 56). "Imposto de Renda" só aparece no balanço, na isenção até R$ 5 mil (p. 19). Nenhuma alíquota nova ou isenção nova prometida. "Carga tributária": zero menções.

Segurança. PEC da Segurança e Ministério da Segurança (p. 30), Lei Antifacção (p. 27), FICCOs e SINESP (p. 28), controle de armas mantido (p. 28), câmeras no uniforme dos policiais (p. 30), penitenciárias federais ampliadas (p. 28). Não tem número de presídios nem de vagas.

Saúde. Agora Tem Especialistas, terceiro turno e carretas (p. 37); prontuário único (p. 35); Mais Médicos (p. 35); Farmácia Popular 100% de graça (p. 36); rede de câncer (p. 38); CAPS (p. 39). Quase tudo é continuação do que já existe.

Educação. Metas do PNE 2026-2036 (p. 31); 80% de crianças alfabetizadas (p. 31); tempo integral como "absoluta prioridade" (p. 31); Pé-de-Meia mantido (p. 32); 111 institutos federais (p. 33); Piso do Magistério mantido (p. 33).

STF e Judiciário. Zero menção a STF ou Supremo. A única frase sobre o Judiciário é esta: "propomos a continuidade do diálogo permanente com os atores do judiciário, respeitada a autonomia dos Poderes, para estimular o aperfeiçoamento do sistema de Justiça" (p. 16). Sobre emendas parlamentares, "é preciso que o tema seja debatido com a sociedade" (p. 16).

Escala 6x1 e trabalho. Uma frase, na página 75. Salário mínimo: manter a valorização real (p. 74). Negociação coletiva no setor público (p. 76).

O que não está no plano

STF (0 vezes). Anistia (0). Alexandre de Moraes (0). Banco Central e autonomia (0). Dívida pública como termo (0). Reforma administrativa (0). Privatização (0). Guarda Nacional (0). A palavra "presídios" (0). Maioridade penal (0). Imposto de Renda para o futuro (0). Custo de qualquer promessa (0). O nome "Bolsonaro" aparece 4 vezes, sempre como culpado (p. 8 e 77). "Trump", 1 vez (p. 12).

O que ele disse fora do plano

Aqui a coisa fica interessante. O plano do Lula é o único dos três que não escreve STF nem Supremo. E foi ele quem, na entrevista ao SBT em 10 de setembro, disse: "Eu, sinceramente, hoje acho que é preciso a gente discutir o mandato para a Suprema Corte. Ninguém pode ficar 40 anos no mesmo cargo". E mais: "Nós precisamos fazer uma reforma no Poder Judiciário, da primeira à última instância" (Brasil 247, 10/09; Brasil em Folhas, 11/09). Proposta pesada. Não está no documento.

Segundo ponto: presídios. O plano diz que vai "fortalecer o sistema penitenciário federal, ampliando sua capacidade operacional" (p. 28), sem número. Em 14 de agosto ele prometeu transformar 138 delegacias e unidades em presídios de segurança máxima (O Tempo, 14/08; Agência Gov). Repetiu no SBT em 10 de setembro: "O crime organizado comanda o crime no Brasil a partir de 138 cadeias. Vamos transformar essas 138 cadeias em presídios de segurança máxima". Disse também "quero criar uma guarda nacional" (O Cafezinho, 11/09; Meio News). A promessa de segurança mais repetida da campanha não está no plano registrado seis dias antes da primeira vez que ele a falou.

Terceiro: a 6x1. O plano tem uma frase de compromisso (p. 75). Na sabatina do Jornal Nacional, em 27 de agosto, ele não citou a 6x1 nem a soberania nas chances que teve, nem na fala final (O Tempo, 28/08).

Quarto: a checagem. O Ranking dos Políticos apontou como falsas duas falas dele no JN: que o PIB de 2022 cresceu "só 1%" e que ele herdou um déficit de 2,8%. O próprio plano, na p. 11, projeta déficit de 0,4% para 2026, e na p. 8 fala em média de 1,5% ao ano entre 2017 e 2022. O documento e a fala não batem.

O plano do Flávio: a maior cifra dos três e uma conta que não fecha

O documento tem 76 páginas. A capa é uma imagem. No metadado do arquivo, o nome é "Diretrizes_Plano_de_Governo_Flavio_Bolsonaro_2027-2030_versaofinal", e o autor registrado é "PL". A imprensa chama de "Para o Brasil Vencer o Atraso" (Poder360, Gazeta do Povo). Foi registrado em 13 de agosto.

O verbo dele é "vamos": 166 vezes, o maior dos três. "Criar", 23 vezes. "Continuar", 12. O nome "Bolsonaro" aparece 23 vezes, sempre como governo-modelo. "Lula", 6. "PT", 9.

As metas com número e prazo

Achei seis. Poucas, mas grandes.

  1. Meio milhão de vagas em presídios em 4 anos e zerar o déficit de vagas (p. 14).
  2. Dobrar o investimento federal em segurança pública ao longo do mandato (p. 15). O plano diz que hoje é 0,4% do gasto federal.
  3. Nenhuma escola sem água até 2030 (p. 47).
  4. Crescimento de 4% ao ano ao longo da próxima década (p. 49).
  5. R$ 900 bilhões em 4 anos em rodovias, hidrovias, portos, aeroportos e ferrovias (p. 51).
  6. Zerar o desmatamento ilegal até 2029 (p. 58).

Tem número sem prazo: 5 presídios federais de segurança máxima, o complexo "TREVA" (p. 14); mais de 1 milhão de câmeras (p. 15); Casa Verde e Amarela com 2,5 milhões de casas (p. 47); corte de no mínimo 10 ministérios (p. 69); Trem do Nordeste com 1.400 km (p. 60); quarentena de 1 ano para ministro de Estado virar ministro do STF (p. 65); regras estáveis por até 20 anos para grandes projetos (p. 50). E tem prazo sem número: "meta para 2030: estar entre os principais destinos de investimento em transição energética" (p. 63).

As 10 promessas mais concretas

  1. Declarar PCC, CV e milícias como organizações narcoterroristas (p. 13).
  2. Reduzir a maioridade penal para 16 anos e punir maiores de 14 por crimes graves (p. 13).
  3. 5 presídios de segurança máxima "no modelo de El Salvador" e 500 mil vagas em 4 anos (p. 14).
  4. Castração química para estupradores e abusadores de crianças condenados (p. 14).
  5. Fim da progressão de regime em crimes hediondos e pena integral para quem mata mulher (p. 14 e 15).
  6. Muralha Brasileira: reconhecimento facial em todo o país com mais de 1 milhão de câmeras (p. 15).
  7. Voucher-creche e voucher educacional onde faltar vaga pública (p. 21 e 36).
  8. Reduzir o IVA da reforma tributária e rever os aumentos de imposto do governo atual (p. 30, 71 e 72).
  9. Fim do foro criminal no STF, limite às decisões de um ministro só, quarentena de 1 ano (p. 65).
  10. Corte de no mínimo 10 ministérios e volta do Programa Nacional de Desestatização (p. 69 e 70).

De onde sai o dinheiro

Três promessas com fonte firme e duas por parceria privada.

  1. Os R$ 900 bilhões: "fundo lastreado na securitização de ativos e imóveis da União, uso intensivo de PPPs e concessões e financiamentos do BNDES exclusivamente para obras em território brasileiro" (p. 50 e 51). Em português simples: vender ou dar em garantia imóveis e bens da União, chamar empresa privada para construir e operar, e usar o BNDES só para obra aqui dentro.
  2. Ajuda às famílias das vítimas de crime: "os recursos hoje direcionados às famílias de detentos serão redirecionados" (p. 15). É o auxílio-reclusão mudando de mão.
  3. Bolsas de formação técnica pagas pelas empresas (p. 36).
  4. Creches, voucher-creche e Rede de Cuidado por parceria público-privada (p. 21 e 38).
  5. Esporte: "romper com a dependência do dinheiro público", com parceria e patrocínio (p. 40).

Sem fonte nem custo: as 500 mil vagas e os 5 presídios (p. 14), o 1 milhão de câmeras (p. 15), as 2,5 milhões de casas (p. 47), a correção da tabela do SUS (p. 37), o voucher educacional (p. 36), a redução do IVA e dos impostos sobre energia e combustível (p. 30, 31, 71 e 72).

A conta geral do plano é o "tesouraço": cortar ministérios, cargos de confiança, "penduricalhos e supersalários" (p. 69). Sem valor estimado. Aí está o problema. O plano promete ao mesmo tempo superávit primário (p. 71), menos imposto, e mais gasto em segurança, moradia e creche. Não tem um número no documento que feche essa conta. O Tempo apontou isso no dia seguinte ao registro (14/08).

Os seis temas

Economia e impostos. "Imposto" é a palavra-tema do plano, 34 menções. Rever e "redimensionar" a reforma tributária, reduzir o IVA "projetado em torno de 30%" (p. 30). Reduzir impostos sobre energia e combustíveis e a CDE, aquela conta que vem na luz (p. 31). Mudar as regras fiscais, superávit primário, regra de gasto para os três Poderes (p. 71). Zerar aos poucos o IOF sobre câmbio para entrar na OCDE (p. 63). Fracking, que é extrair gás quebrando rocha (p. 52). Reduzir o custo do trabalho "sem retirar direitos" (p. 43). Nenhum valor de corte de imposto.

Segurança. É o primeiro capítulo e o que mais tem número (os itens 1 a 6 acima). Mais: tropa de elite nas fronteiras (p. 13 e 14), Marinha e Aeronáutica ocupando portos (p. 15), pena quadruplicada para quem compra celular roubado (p. 16), tornozeleira para agressor de mulher (p. 14 e 19). O tom é este: "Bandido armado com fuzil na mão vai ser abatido" (p. 13); "traficante que resistir [...] vai virar pó" (p. 15).

Saúde. Prontuário único ligado ao CPF (p. 26); IA para marcar consulta (p. 26); "condições para a correção efetiva da tabela SUS" (p. 37); exames na rede privada em horários vazios (p. 37); telessaúde e remédio em casa (p. 38). "SUS" aparece 6 vezes. "Mais Médicos" e "Farmácia Popular": zero.

Educação. Método fônico para alfabetizar (p. 35); Programa Acolher, aluno pago para dar reforço (p. 35); dinheiro por resultado (p. 35); escolas cívico-militares ampliadas (p. 35); "escola sem doutrinação" (p. 35); voucher educacional (p. 36); ensino superior passa para o Ministério da Ciência (p. 36); Empréstimo Contingente à Renda no lugar do Fies (p. 37).

STF e Judiciário. Capítulo "Brasil que cumpre a Constituição" (p. 65 a 67), com seis medidas: fim do foro criminal no STF, limite a decisões de um ministro só, revisão das ADPFs, quarentena de 1 ano, impedimento de parentes até terceiro grau, sociedade civil no CNJ. Fim da reeleição para presidente, que o texto chama de "PEC de autoria do senador e futuro presidente do Brasil, Flávio Bolsonaro" (p. 66). "Tesouraço na censura" (p. 66 e 67). Anistia, indulto, 8 de janeiro, Moraes: zero menções.

Escala 6x1 e trabalho. "6x1" não aparece. O que há: "jornada flexível que caiba na vida de mães, jovens", "negociado sobre o legislado" (p. 44), contrato com folha menor para quem tem 18 a 24 anos e para quem tem mais de 50 (p. 43 e 44), um capítulo contra a "República Sindical" (p. 44 e 45), trabalho por aplicativo mantido "sem os interesses de dirigentes sindicais" (p. 45). Salário mínimo: zero menções.

O que não está no plano

"Bolsa Família" (0; o plano só fala em "programas sociais" e "Auxílio Brasil", p. 42). Salário mínimo (0). Anistia e 8 de janeiro (0). Petrobras (0). Banco Central (0). Universidades públicas e ciência básica, só a transferência de ministério. Mudanças climáticas como causa: "clima" aparece 1 vez (p. 52). Cotas e racismo (0). Custo de qualquer promessa (0).

O que ele disse fora do plano

Anistia. O plano tem zero menções a "anistia", "indulto" e "8 de janeiro". Na sabatina do JN, em 28 de agosto, ele se comprometeu a buscar indulto e anistia para os condenados pelo 8 de janeiro, incluindo o pai (The Rio Times, 29/08). A promessa mais pesada da campanha dele para o Judiciário não está no capítulo do Judiciário (p. 65 a 67).

Escala 6x1. Plano: zero. Fala em "jornada flexível" (p. 44). Em 19 de maio, na Marcha dos Prefeitos, ele disse: "O trabalhador é quem tem que escolher quanto tempo trabalha e não o governo" (CNN Brasil). Em setembro, como senador, evitou dizer como vota na PEC da 6x1 (Bem Paraná; Brasil em Folhas). A CartaCapital registrou que ele interrompeu a campanha para tentar barrar a PEC. O plano não toma posição.

Impostos. Plano: reduzir o IVA e a carga "sobre a produção e o consumo", sem valor (p. 30, 71 e 72). Na convenção do PL em Santa Catarina, em 1º de agosto, ele prometeu "o maior corte de carga tributária da história do País" e disse que "não vou fazer economia em cima de aposentado" (Acessa/Estadão Conteúdo). O maior corte da história não tem um número no documento.

Clima. No JN, evitou dizer que o aquecimento vem da ação humana (The Rio Times). O plano promete zerar o desmatamento ilegal até 2029 e consolidar o mercado de carbono (p. 57 e 58).

Checagem. O Ranking dos Políticos checou 9 falas dele no JN: 4 verdadeiras, 3 parciais, 1 falsa, 1 sem como verificar. Os erros se concentraram em cifras (Banco Master, Vorcaro, INSS).

O plano do Cury: doze metas, onze para depois do mandato

É o mesmo documento de 200 páginas que eu li em 31 de agosto, na matéria dos 18 projetos. O título que está na p. 36 é "Principais teses para construir o Brasil dos nossos sonhos: um Brasil para as próximas gerações". O sumário chama de "plano de governo". Foi registrado em 13 de agosto. Não tem coligação assinando no fim.

Os números da matéria anterior conferem: 10 milhões de microempresas (p. 95), 10 mil agroindústrias em oito anos (p. 117 e 126), 80% das consultas básicas por telemedicina (p. 44), dobrar o comércio exterior em oito anos (p. 150). A biografia com o "doutorado internacional em Psicologia Multifocal pela Florida Christian University em 2013" está na p. 194.

O verbo dele é outro. "Vamos" aparece só 4 vezes. "Precisamos" e "precisa", 88 e 86. "Criar", 47 vezes, o maior dos três. "Emocional" e derivados, 171 vezes. "Gestão da emoção", 34. "Inteligência artificial", 53, mais que os outros dois somados. O plano fala como quem diagnostica, não como quem manda.

As metas com número e prazo

Achei doze. É o plano com mais metas. Leia com atenção o prazo de cada uma.

  1. Déficit público perto de zero durante o mandato (p. 36).
  2. Dobrar o número de cooperados em 10 anos: "de 26 milhões para mais de 50 milhões" (p. 49). Na p. 131, a mesma meta vira "de 27 milhões para 54 milhões".
  3. Dobrar o número de cooperativas para mais de 10 mil em 10 anos (p. 131 e 132).
  4. Dobrar a produção de alimentos em 10 anos (p. 49). Na p. 115 e 117 vira "em 8 a 10 anos".
  5. Regularizar 5 milhões de moradias em 10 anos, 500 mil por ano (p. 106).
  6. Formar 5 milhões de pessoas na Escola do Empreendedor em 10 anos (p. 107).
  7. Financiar 2 milhões de pequenos empreendedores em 10 anos (p. 108).
  8. Multiplicar por 10 a exportação de frutas em 8 anos (p. 116 e 117).
  9. 10 mil agroindústrias em 8 anos (p. 117; na p. 126 aparece sem prazo).
  10. Dobrar o comércio do Brasil com o mundo em 8 anos (p. 150).
  11. Estar entre os 3 maiores exportadores de hidrogênio do mundo até 2035 (p. 175).
  12. 90% da energia do país vinda de fonte limpa até 2040 (p. 176).

Agora o alerta. Onze das doze metas são para 8 ou 10 anos. Só a primeira, o déficit perto de zero, é para o mandato. E o plano propõe o fim da reeleição, na p. 155. Mandato único de quatro anos.

Quer dizer: o candidato promete entregar em 8 ou 10 anos, e ao mesmo tempo promete sair do cargo em 4. Quem cobra o que falta? O próximo presidente, que não assinou nada disso. Isso não anula as metas. Mas transforma onze delas em promessas que ele mesmo não pode cumprir até o fim.

Tem número sem prazo: 80% das consultas básicas por telemedicina (p. 44); atendimento digital em até 30 minutos (p. 162); 10 mil escolas de empreendedorismo (p. 39) e 10 mil clubes (p. 97 e 151); 10 milhões de novos empreendedores "nos próximos anos" (p. 39, 40 e 95); 10 mil novas indústrias "ao longo dos próximos anos" (p. 40); 5 corredores e 5 zonas francas de exportação (p. 41 e 141); 100 usinas de etanol de milho (p. 126); crédito de até R$ 20 mil a 5% ou 6% ao ano (p. 98); STF com 9 ministros, mandato de 8 anos, idade mínima de 50, 5 anos sem partido, 3 mulheres (p. 64); 5% dos servidores municipais viram polícia FOCO (p. 45 e 187); diretor da PF com mandato de 2 anos (p. 45); mover 20% dos diplomatas dos Estados Unidos e 10% da Europa para outros lugares (p. 147).

As 10 promessas mais concretas

  1. Semipresidencialismo, com primeiro-ministro escolhido pela maioria do Congresso (p. 60, 63 e 64).
  2. STF com 9 ministros, mandato de 8 anos, escolhidos pela magistratura, Ministério Público e OAB, "e não mais o presidente" (p. 64).
  3. Fim da reeleição: "Sou contra a reeleição, pois considero que ela seja uma das fontes da corrupção" (p. 155).
  4. Telemedicina para 80% das consultas básicas do SUS, com resposta em até 30 minutos (p. 44 e 162).
  5. Escola em tempo integral com Gestão da Emoção, Educação Financeira e Empreendedorismo na grade (p. 74 e 75).
  6. Regularizar 5 milhões de moradias em 10 anos (p. 106).
  7. Banco do Empreendedor: crédito até R$ 20 mil a 5% ou 6% ao ano, em quatro degraus (p. 98 e 108).
  8. Bolsa Família sem punição para quem assina carteira ou abre empresa, "por determinado tempo" (p. 98 e 99).
  9. O Ministério das Relações Exteriores vira "Secretário de Estado" e as embaixadas ganham metas anuais de comércio (p. 64, 65 e 152).
  10. Recriar o Ministério da Segurança Pública e criar a polícia FOCO com 5% dos servidores municipais (p. 37 e 45).

De onde sai o dinheiro

Seis promessas com fonte.

  1. Banco e Ministério do Empreendedorismo: "parte dos lucros das empresas em que a União possui participação" (p. 98).
  2. Comunidades Empreendedoras: é o único projeto dos três planos inteiros com custo estimado, "R$ 145 bilhões a R$ 280 bilhões em dez anos", com um fundo rotativo de R$ 30 a 50 bilhões e divisão entre União, estados, municípios, fundos, bancos públicos, setor privado e organismos internacionais (p. 108, 110 e 111).
  3. BEE, os polos nas estradas: parceria em que a empresa privada constrói e opera (p. 122).
  4. Polos regionais: Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (p. 61).
  5. Irrigação e agroindústria no semiárido: dinheiro junto com fundos soberanos do Golfo, Arábia Saudita e Abu Dhabi (p. 116).
  6. Fundo mundial da fome: 0,5% do comércio global e 2% da indústria de armas, "US$ 177 bilhões a US$ 342 bilhões por ano" (p. 157). Fonte internacional, não do Orçamento brasileiro.

Sem fonte nem custo: a escola em tempo integral (Projeto 1, provavelmente o item mais caro do plano inteiro), a telemedicina para 80% das consultas (p. 44 e 161 a 164), o FATO e a polícia FOCO (p. 186 a 192), o Mulheres Vivas (p. 86 a 93), as 10 mil escolas de empreendedorismo (p. 39), o Brasil Oásis (p. 114 a 118), o PENER de energia (p. 175 e 176), o PETRA de terras raras (p. 178 a 180).

Repare no contraste. O plano do Cury é o único que estima o custo de um projeto. E os três projetos mais caros dele estão sem custo.

Os seis temas

Economia e impostos. Déficit perto de zero no mandato (p. 36); redução gradual da dívida (p. 36); "simplificação tributária", avaliar a reforma e propor ajustes (p. 37); rever o pacto federativo, "menos União Federal e mais municípios" (p. 38); "carga tributária menor ao fim da transição", com cada regime especial tendo "seu custo estimado e divulgado" (p. 38); 5 zonas francas de exportação com regime próprio (p. 141). "Imposto": 5 menções. "Imposto de Renda": zero.

Segurança. Ministério da Segurança (p. 37 e 45), polícia FOCO (p. 45 e 187), FATO juntando PF, PM, PC e FOCO num sistema de inteligência (p. 186 a 192), drones e reconhecimento facial "conforme a legislação" (p. 188), Forças Armadas nas fronteiras (p. 46), diretor da PF por lista tríplice (p. 45). Sem número de presídios, vagas ou orçamento. Maioridade penal: zero.

Saúde. Telemedicina (Projeto 13, p. 161 a 164); prevenção do câncer com o Hospital de Amor de Barretos como modelo e comitês em cada município (p. 166 a 173); Programa Nacional de Saúde Mental (p. 44 e 45); atenção primária (p. 44). "SUS": 7 menções.

Educação. Projeto 1 (p. 68 a 79): tempo integral como "clube de desenvolvimento humano", três matérias novas, professor "provocador da arte de perguntar", universidades que "produzem patentes". Projeto 2, Brasil Neuroinclusivo (p. 81 a 84). O PISA é citado sem a posição do Brasil (p. 70). Alfabetização "na idade certa" sem meta (p. 43).

STF e Judiciário. Reforma do STF (p. 60 e 64), indicar mulheres para o STF (p. 56 e 93), "Justiça mais célere" contra a prescrição (p. 47). Moraes, anistia, 8 de janeiro: zero.

Escala 6x1 e trabalho. "6x1" não aparece. "Jornada" aparece 2 vezes, nenhuma sobre jornada de trabalho. Salário mínimo, CLT, Previdência, INSS: zero menções cada. O que existe sobre trabalho é o eixo do empreendedor: 100 profissões da "nova economia" listadas (p. 99 a 102) e incentivo fiscal para o primeiro emprego (p. 57).

O que não está no plano

Previdência (0). INSS (0). Salário mínimo (0). Imposto de Renda (0). Petrobras (0). Privatização (0). Moraes e a crise do STF (0). Anistia (0). Indígenas e quilombolas (0). Maioridade penal (0). "Ministério da Inteligência Artificial" (0). "Comissionados" (0). E um detalhe que nenhum outro tem: Lula e Bolsonaro aparecem zero vezes cada. É o único plano que não cita adversário.

A frase sobre o Bolsa Família

Na página 98 está escrito: "O Bolsa família ama a pobreza, mas não ama os pobres, pois os perpetuam na pobreza". O plano propõe, logo depois, que o benefício não seja cortado de quem assina carteira ou abre empresa, "por determinado tempo" (p. 98 e 99). A frase está no documento oficial. Ele não a disse em nenhuma das sabatinas que eu cobri aqui. Se quiser saber o que o candidato pensa do programa, é lá que está escrito.

Os erros de forma

Um plano de governo registrado na Justiça Eleitoral é documento oficial. O do Cury tem quatro tropeços de forma que qualquer leitor atento acha.

  1. A numeração das teses pula do 17 para o 19 (p. 61 e 62). Não existe tese 18.
  2. O Projeto 13 termina se chamando "Tele Saúde Brasil (ZONE)" e "Projeto PMD-BR" (p. 164). ZONE é o nome da agência do Projeto 10 (p. 143). Parece resto de copiar e colar.
  3. A frase contra a reeleição está solta no meio do projeto das embaixadas (p. 155). Não tem capítulo próprio.
  4. A meta de cooperados aparece com dois números diferentes: 26 milhões para 50 milhões (p. 49) e 27 milhões para 54 milhões (p. 131).

Nenhum desses erros muda uma proposta. Mas o documento tem 41.928 palavras e ninguém revisou a numeração.

Tem mais um detalhe, que está no arquivo e não no texto. O metadado do PDF que está no ar diz que o arquivo foi criado em 17 de agosto, às 9h48 de Brasília, no Microsoft Word. O registro foi noticiado em 13 de agosto. O prazo legal de registro foi 15 de agosto. Isso é o que o arquivo diz de si mesmo. O TSE bloqueou meu acesso direto, então não consegui confirmar se houve troca do documento depois do registro, ou se o espelho recebeu uma versão reexportada. Fica registrado como está: é um dado do arquivo, não uma acusação.

O que ele disse fora do plano

Ministério da IA. Plano: zero menções. O que existe é "estratégia nacional de inteligência artificial" e "Marco Legal" (p. 57 e 58). No JN, em 29 de agosto, ele defendeu criar o "Ministério da Inteligência Artificial e Robótica" (Metrópoles). À CNN a frase foi outra: "vamos cortar ministérios, mas vamos criar uma secretaria executiva para a Inteligência Artificial e Robótica". A única estrutura nova nesse formato no plano é a "Secretaria Executiva (ou novo Ministério) do Empreendedorismo" (p. 95).

10 mil doutores em IA. No JN: "pelo menos 10 mil jovens fazendo doutorado" (O Tempo, 29/08). No plano: "estimularemos milhares de profissionais a fazerem mestrado e doutorado em inteligência artificial" (p. 58). Sem número.

Cortar 8 a 10 ministérios. Ao Metrópoles em 17 de agosto e no JN em 29: "fundir e otimizar pelo menos de 8 a 10 ministérios". No plano: "estudos para redução de ministérios" (p. 37), sem número. E o plano cria dois: Segurança Pública (p. 37 e 45) e Empreendedorismo (p. 95).

30% dos comissionados trocados por IA. O Tempo, 29/08: cerca de 30% dos 50 mil cargos. No plano, a palavra "comissionados" aparece zero vezes.

Escala 6x1. Ao Metrópoles em 17 de agosto, disse ser a favor do fim da 6x1 e da escala 5x2, e que "30% dos trabalhadores do Brasil tem síndrome de Burnout". No plano: zero menções a 6x1 ou a jornada de trabalho.

O que bate com o plano: STF com mandato de 8 anos, "oito anos e ele vai embora para nunca mais voltar" (Metrópoles, 17/08; plano, p. 64); semipresidencialismo (p. 63 e 64); fim da reeleição (p. 155).

Doutorado. O plano, na p. 194, diz "doutorado internacional em Psicologia Multifocal pela Florida Christian University em 2013". O ICL Notícias mostrou que o Lattes registra PhD em Administração de Empresas pela mesma instituição. Já estava na matéria de 31 de agosto e a campanha não explicou.

Deus, família e imposto: o que a contagem diz de cada campanha

Agora a parte que mais me surpreendeu. Eu esperava que pelo menos um dos três, numa eleição com o eleitor cristão no centro da disputa, escrevesse a palavra Deus no documento oficial. Nenhum escreveu.

LulaFlávioCury
"Deus"000
"fé"130
"igreja"003
"religi*" (religião, religioso)012
"família(s)"248949
"imposto(s)"7345

"Fé" aparece uma vez no do Lula, na p. 6, em "fé, esperança e trabalho". Três vezes no do Flávio, nas p. 27, 50 e 74, sempre na mesma lista: "a vida, a liberdade, a família, a propriedade, a democracia e a fé". Zero no do Cury. "Igreja" só aparece no Cury, e como lugar: um dos pontos onde funcionariam os clubes de empreendedorismo (p. 97 e 151).

Sobre família, a diferença é grande. O plano do Flávio escreve "família" 89 vezes, contando o plural. Só no singular, "família" já está entre as seis palavras mais repetidas do documento inteiro, na mesma faixa de "governo", "país" e "estado". O do Cury, 49. O do Lula, 24, e em 84 páginas. A campanha do Flávio escolheu a família como palavra-chave do texto. A do Lula, não.

Sobre imposto, o contraste é o mesmo, com o sinal trocado. O Flávio escreve "imposto" 34 vezes. O Lula, 7. O Cury, 5. Se você acha que a eleição é sobre imposto, tem um plano que fala disso o tempo todo e dois que quase não tocam no assunto. Só que o plano que mais fala de imposto é também o que não diz quanto vai cortar.

E agora a tabela que mostra o resto da conversa.

LulaFlávioCury
"6x1"100
"salário mínimo"600
"Bolsa Família"404
"Previdência" / "INSS"5 / 12 / 120 / 0
"Petrobras"1100
"anistia" / "Moraes"0 / 00 / 00 / 0
"inteligência artificial"101653
"Lula" / "Bolsonaro"26 / 46 / 230 / 0
"vamos"971664
"continuar" e derivados1241250
"criar" e derivados52347
"R$" / "%"29 / 427 / 2018 / 39

O que essa tabela conta em quatro linhas:

A escala 6x1, o tema trabalhista da eleição, aparece uma vez no plano do Lula e zero nos outros dois. E olha que o Cury disse ao Metrópoles que apoia a 5x2, e o Flávio foi ao Senado tentar barrar a PEC.

Anistia e Moraes, os dois nomes que mais aparecem no noticiário do STF, têm zero menções nos três. Os três candidatos falam disso em entrevista. Nenhum escreveu.

O plano do Flávio nunca escreve "Bolsa Família" nem "salário mínimo". O do Cury nunca escreve "Previdência" nem "INSS".

E o verbo: o Lula "continua" 124 vezes, o Flávio "vai" 166 vezes, o Cury "cria" 47 vezes. Cada plano tem a gramática do lugar onde o candidato está. Quem governa quer seguir. Quem faz oposição quer mudar. Quem vem de fora quer inventar.

O que eu penso

Eu fui ler porque estava cansado de ver os três planos sendo resumidos em uma frase cada. "O do Lula é continuidade." "O do Flávio é segurança." "O do Cury é gestão da emoção." Cada uma dessas frases é verdadeira e nenhuma serve para votar.

O que serve é isto. O plano do Lula é um relatório do que já existe, com duas metas datadas que já existiam antes dele. Quem vota nele vota em manter. Está escrito 124 vezes.

O plano do Flávio tem a maior cifra dos três e diz de onde vem. Tem seis metas com prazo, quatro delas para o mandato. E tem um buraco no meio: promete cortar imposto, gastar mais e fechar a conta no azul, sem um número que junte as três coisas. As promessas que mais pesam na campanha dele, a anistia e a 6x1, não estão no papel.

O plano do Cury é o mais ambicioso e o mais frágil ao mesmo tempo. Doze metas, onze para além do mandato. Uma estimativa de custo, num projeto só. Erros de forma que ninguém revisou. E as ideias mais fortes dele, o semipresidencialismo, o STF com mandato, o fim da reeleição, dependem de emenda constitucional, com um partido de 7 deputados.

E nenhum dos três escreveu Deus. Não estou dizendo que deveriam. Estou dizendo que o eleitor cristão, que ouve a palavra em todo palanque, não vai encontrá-la no único papel que o candidato assinou. Cada um tire a sua conclusão.

O meu pedido é o de sempre: leia. Os três PDFs estão no fim desta matéria. Se você discorda da minha contagem, abre na página e me manda. Isso é debate. Repetir resumo de uma frase é o que os três querem que a gente faça.

Perguntas que chegam nos comentários

Onde eu baixo os planos de governo dos candidatos a presidente?

No DivulgaCandContas, o site do TSE que mostra os dados de cada candidatura. O plano é obrigatório por lei (artigo 11 da Lei 9.504) e fica público. Quando o site do TSE trava, o espelho planodegoverno2026.com.br guarda cópia dos três, com o número do documento no TSE. Os links estão no fim da matéria.

Qual dos três planos tem mais metas com número e prazo?

O do Augusto Cury, com 12. O do Flávio Bolsonaro tem 6. O do Lula tem 2 firmes e mais 2 no limite. Cada meta está listada com a página nesta matéria.

Se o plano do Cury tem mais metas, por que a matéria diz que é o mais frágil?

Porque onze das doze metas são para 8 ou 10 anos, e o próprio plano propõe o fim da reeleição (p. 155), com mandato de 4 anos. Ele promete entregar em dez e sair em quatro. Também não estima o custo dos três projetos mais caros.

É verdade que nenhum plano escreve a palavra Deus?

Sim. Contei por palavra inteira nos três textos: zero vezes em 360 páginas. "Fé" aparece 1 vez no do Lula, 3 no do Flávio e 0 no do Cury. "Igreja" só aparece no do Cury, como lugar para clube de empreendedorismo.

O plano do Lula fala do STF?

Não. É o único dos três sem a palavra STF nem Supremo. Fala só em "diálogo permanente com os atores do judiciário" (p. 16). Mas no SBT, em 10 de setembro, ele defendeu mandato para ministros e reforma do Judiciário "da primeira à última instância". A proposta não está no documento.

O plano do Flávio fala de anistia para o 8 de janeiro?

Não. "Anistia", "indulto" e "8 de janeiro" têm zero menções. O compromisso foi feito na sabatina do Jornal Nacional, em 28 de agosto. O capítulo do Judiciário do plano (p. 65 a 67) trata do foro no STF, de decisões de um ministro só e de quarentena, mas não de anistia.

Algum plano diz como vai acabar com a escala 6x1?

Só o do Lula toca no assunto, com uma frase na p. 75: fim da 6x1 e jornada de 40 horas "nos termos aprovados na Câmara". O do Flávio e o do Cury não escrevem "6x1". O Cury disse ao Metrópoles que apoia a 5x2; o Flávio evitou dizer como vota na PEC.

Plano de governo obriga o candidato a cumprir?

Não. É compromisso político registrado na Justiça Eleitoral, não é lei nem contrato. Serve para cobrar em público, não no tribunal. Por isso importa comparar o que está no papel com o que o candidato diz nas entrevistas, que é o que esta matéria faz.

Quem leu, opina. Quem não leu, repete. Os três PDFs estão aí embaixo.

Leia também: Eu li as 200 páginas do plano de governo de Augusto Cury e Fim da escala 6x1: quem são os 14,8 milhões que a PEC atinge

Fontes desta materia

  1. TSE, DivulgaCandContas, plano de governo de Lula, documento 280017016005
  2. Espelho do plano de Lula, planodegoverno2026.com.br
  3. Espelho do plano de Lula, Congresso em Foco
  4. TSE, DivulgaCandContas, plano de governo de Flávio Bolsonaro, documento 280017104726
  5. Espelho do plano de Flávio Bolsonaro, planodegoverno2026.com.br
  6. TSE, DivulgaCandContas, plano de governo de Augusto Cury, documento 280017125643
  7. Espelho do plano de Augusto Cury, planodegoverno2026.com.br
  8. Lei 9.504 de 1997, artigo 11, que obriga o registro de propostas de governo
  9. Congresso em Foco, PT registra novo plano de governo de Lula no TSE, 08/08/2026
  10. Poder360, planos de candidatos à Presidência têm de 7 a 200 páginas
  11. Poder360, plano de governo de Flávio mira reforma no STF e tesouraço
  12. Portal Tela, plano de governo de Flávio tem 9 eixos, 14/08/2026
  13. O Tempo, Flávio promete tesouraço e menos impostos, mas plano amplia programas sem detalhar custos, 14/08/2026
  14. Metrópoles, Cury propõe semipresidencialismo e reforma do STF em plano de governo
  15. SBT News, impostos: veja propostas de presidenciáveis em 2026
  16. O Tempo, Lula ignora fim da escala 6x1 e soberania em sabatina do JN, 28/08/2026
  17. Ranking dos Políticos, checagem da sabatina de Lula no JN
  18. O Tempo, Lula promete transformar 138 delegacias em prisões de segurança máxima, 14/08/2026
  19. Agência Gov, Lula promete 138 presídios de segurança máxima
  20. Brasil 247, é preciso discutir o mandato para a Suprema Corte, diz Lula ao SBT, 10/09/2026
  21. Brasil em Folhas, Lula defende apuração de irregularidades no STF em entrevista ao SBT
  22. O Cafezinho, Lula defende abrir sigilos do STF e promete presídios de segurança máxima, 11/09/2026
  23. Meio News, Lula defende endurecimento contra facções e anuncia ampliação de presídios
  24. The Rio Times, Flávio Bolsonaro pledges amnesty in Globo interview, 29/08/2026
  25. Ranking dos Políticos, fato ou fake na sabatina de Flávio no JN
  26. CNN Brasil, Flávio critica escala 6x1 e propõe jornada flexível, 19/05/2026
  27. Bem Paraná, Flávio se esquiva de responder como votará sobre fim da 6x1
  28. Brasil em Folhas, Flávio evita posição sobre PEC da escala 6x1
  29. CartaCapital, Flávio interrompe campanha para tentar barrar a PEC da 6x1
  30. Acessa/Estadão Conteúdo, Flávio promete reduzir impostos e diz que não fará economia em cima de aposentados, 01/08/2026
  31. Metrópoles, entrevista com Augusto Cury, 17/08/2026
  32. O Tempo, Cury defende semipresidencialismo, escola em tempo integral e mudanças no STF, 17/08/2026
  33. Metrópoles, no JN, Cury defende Ministério da IA e drones contra feminicídio, 29/08/2026
  34. O Tempo, substituição de servidores e novo ministério: as propostas de Cury sobre IA, 29/08/2026
  35. CNN Brasil, Cury defende reduzir ministérios e investir em IA
  36. ICL Notícias, Cury cita em plano de governo doutorado que não fez