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Política / 13 de setembro de 2026

Eu fui checar

Augusto Cury mentiu sobre a USP? Ele deu aula lá por três anos, como convidado. O site dele diz que ainda dá. Eu fui ler tudo

O Estadão publicou que a USP desmente o candidato. A campanha respondeu com uma nota de repúdio que chama o título de fake news. Nos comentários do meu perfil, o ataque já circula sem resposta: “mentiu que era professor da USP”. Eu li a matéria inteira, a resposta da USP, o site dele, o plano de governo, o regimento da pós-graduação da USP, o livro da turma de 2023 e a nota de repúdio linha por linha. Fui ver também quem assina a nota. A resposta curta cabe em três linhas. A longa está aqui, com data e fonte em cada frase, as duas páginas da nota inteiras, a captura do site e a capa do livro.

Publicado
13 de setembro de 2026
Atualizado
13 de setembro de 2026
Editoria
Política
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73 min
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62 citadas
Augusto Cury em aula do programa Gestão da Emoção para magistrados, 2022. Foto Associação dos Magistrados Brasileiros, CC BY-SA 2.0
Augusto Cury em aula do programa Gestão da Emoção para magistrados, 2022. Foto Associação dos Magistrados Brasileiros, CC BY-SA 2.0

A resposta em três linhas

Augusto Cury deu aula na USP. Foi em 2020, 2021 e 2022, como professor convidado, numa disciplina da pós-graduação da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto. A USP confirmou isso ao Estadão, com essas palavras.

O site dele diz que ele "é professor de pós-graduação da USP". No presente. A USP diz que a aula acabou em 2022. O verbo certo era "foi". Essa é a distância inteira entre o que ele escreveu e o que a universidade respondeu.

A nota de repúdio que circula pelo WhatsApp chamando a matéria de fake news vem de uma associação pequena, com um único nome no cadastro da Receita, e ela mesma reconhece que o corpo da matéria está correto. Ela não muda o fato. Ela ataca o título.

Isso é o resumo. O resto desta matéria é cada pedaço dessa história, com data e fonte, porque eu li 3.838 comentários no meu perfil nesta semana e a frase "o Cury mentiu que era professor na USP" está lá, sem ninguém responder. Eu torço por ele. Por isso mesmo não vou maquiar nada.

Quem comentou NOTÍCIA no Instagram e veio parar aqui vai encontrar o que não cabe em slide: as duas páginas da nota de repúdio inteiras, com a transcrição letra por letra; a captura do site dele; a capa do livro; a ficha da associação que assina a nota; os 12 vídeos que eu li; a linha do tempo desde 1984; e três respostas prontas para o grupo de WhatsApp.

3 anosde aula na USP2020, 2021 e 2022, como convidado, segundo a USP
29 alunosna primeira turmaos autores do livro de 2023, com o nome de cada um
17 orientadorescredenciados no programa hojeele não é nenhum deles
3.838 comentárioslidos no meu perfilo ataque "mentiu sobre a USP" apareceu e ninguém respondeu
12 vídeoslidos procurando a fraseem nenhum ele diz "sou professor da USP"
1 nomeno CNPJ da associação que assina a notaSérgio de Azevedo Redó, desde 2010

Os números que resolvem a discussão

O que o Estadão publicou

Na quinta-feira, 10 de setembro de 2026, às 18h, o Estadão publicou uma matéria assinada por Melissa Duarte, da sucursal de Brasília, na editoria de Eleições. O título é este, palavra por palavra:

"Augusto Cury se apresenta como professor de pós-graduação da USP, mas universidade desmente"

A linha fina, que é o texto menor abaixo do título: "Informação consta em biografia no site de Cury; procurado, candidato não se manifestou".

O primeiro parágrafo diz o seguinte: "O presidenciável Augusto Cury (Avante) informa, na biografia do próprio site, que é professor de pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP), vínculo que a instituição de ensino nega. A informação também consta no plano de governo que o candidato enviou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sem especificar datas."

O segundo: "Procurada pelo Estadão, a equipe de Cury não respondeu até o fechamento desta reportagem."

A matéria explica de onde a repórter tirou a frase. Ela está no site em que Cury vende cursos, na página da Academia de Gestão da Emoção, embaixo de um pacote de "dezenas de cursos" por R$ 475 à vista, num texto com o título "Quem será seu professor?". Nesse texto, Cury "é psiquiatra, cientista pesquisador, escritor e professor de pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP)".

Repare em duas coisas que a matéria faz e em uma que ela não faz.

Ela cita a resposta da USP na íntegra, entre aspas. Ela cita o plano de governo, onde a frase aparece de outro jeito. E ela não usa em nenhum lugar a palavra "mentira", "falso" ou "fraude". O verbo do título é "desmente". Eu li o texto inteiro no código da página, em 13 de setembro. A data de publicação e a data de modificação são a mesma, 10 de setembro às 18h. Não houve correção, errata ou troca de título na versão da internet desde então.

A matéria fecha com o contexto de pesquisa: Cury "saltou de 2% para 11% na pesquisa BTG/Nexus para o primeiro turno divulgada em 31 de agosto" e caiu "de 10% para 8% no levantamento da Quaest publicado nesta semana". É a razão de a matéria existir. Quando ele tinha 2%, ninguém lia a biografia do site dele.

O que a USP respondeu

Eu não liguei para a USP. Eu li a resposta da USP publicada pelo jornal, que está entre aspas na matéria, e ela é esta:

"Augusto Cury ministrou a disciplina 'Gestão da Emoção na Formação de Professores do Ensino Universitário' na área de Reabilitação Oral no curso de Pós-Graduação da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (Forp). Foi em 2020, 2021 e 2022. Ele atuou como professor convidado da pós-graduação. O campus é o de Ribeirão Preto"

Leia devagar, porque essa resposta tem quatro informações e cada uma importa.

Primeira: ele deu aula. A USP não nega. A universidade usa o verbo "ministrou", que é o verbo de quem dá aula.

Segunda: onde. Foi na Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto, na área de Reabilitação Oral. Esse é um programa de mestrado e doutorado de verdade, criado em 1983, com nota 5 na CAPES, que é a agência do governo que dá nota aos cursos de pós. Eu confirmei na página da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da USP. Então a aula dele foi dentro de um curso de mestrado e doutorado, e nisso o plano de governo dele está certo.

Terceira: quando. "Foi em 2020, 2021 e 2022." Três anos. A USP não disse quantas turmas, quantos alunos, quantas horas, nem se foi presencial ou pela internet. Só disse os anos.

Quarta: como. "Professor convidado." Não disse "professor do quadro", não disse "docente", não disse "contratado". Disse convidado. Eu explico o que isso significa daqui a pouco, com o regimento da USP na mão.

A parte da matéria que diz "ou seja, deixou a instituição há quatro anos" é uma conta da repórter a partir da resposta. A USP não escreveu "deixou". A USP escreveu que foi em 2020, 2021 e 2022. A conta bate: de 2022 até setembro de 2026 dá quase quatro anos. Mas a frase é do jornal, e a fala da USP é a que está entre aspas.

Outros sites publicaram frases atribuídas à USP que não estão na resposta ao Estadão, como "a participação ocorreu como professor convidado e não corresponde a um vínculo atual ou permanente" (BNews, 11 de setembro). Eu não sei se a USP falou isso para alguém ou se é o site explicando com as próprias palavras. Por isso, nesta matéria, a única fala da USP que eu uso entre aspas é a que o Estadão publicou.

O que o Cury escreveu, e onde

Aqui está o ponto central. O que a matéria do Estadão discute é o tempo do verbo. Então eu fui atrás de cada lugar onde Cury ou a campanha dele escreveram sobre a USP, para ver qual verbo cada lugar usa.

OndeFrase literalVerboData e como eu li
Site augustocury.com.br, página da Academia de Gestão da Emoção"Ele é psiquiatra, cientista pesquisador, escritor e professor de pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP)"É, no presente. Sem data, sem "convidado"Cópia do Wayback Machine de 8 de setembro de 2026, dois dias antes da matéria
Site augustocury.com.br, página da Pós-Graduação em Gestão da Emoção 2025Mesma biografia, palavra por palavra: "professor de pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP)"É, no presenteCópia do Wayback Machine de 6 de março de 2026
Plano de governo entregue ao TSE"professor convidado no programa de mestrado e doutorado da USP, Universidade de São Paulo, na disciplina Gestão da Emoção para formação de professores"Sem verbo. Diz "convidado", não diz quandoCitado pelo Estadão em 10 de setembro e confirmado por A Crítica e outros. O PDF do TSE devolveu erro 403 a todas as minhas tentativas
Direito de resposta no Observatório da Imprensa"Uma disciplina de Gestão da Emoção integrou a pós-graduação da USP em Ribeirão Preto"Integrou, no passado. Certo30 de julho de 2026, texto assinado por ele
Registro de candidatura no TSEOcupação: "Escritor e Crítico". Grau de instrução: "Superior completo"Nenhuma menção a professor, USP, médico ou doutorFicha do DivulgaCand, atualizada em 12 de setembro de 2026, 11h05
Bio do Instagram @augustocury"Médico Psiquiatra + lido do mundo, Escritor, Produtor Rural, Gestor"Nenhuma menção a professor ou USPLida em 13 de setembro de 2026, 11 milhões de seguidores
Falas dele em vídeo em 2026Nenhuma frase do tipo "sou professor da USP" ou "leciono na USP"Nada12 transcrições checadas: Jovem Pan de 25 de maio e 7 de setembro, Band de 23 de agosto, Marçal de 27 de agosto, Jornal Nacional de 29 de agosto, CNN 360º, CNN Eleições, RedeTV, SBT, Canal Rural, Inteligência Ltda. e g1

O que a tabela mostra é simples. A frase no presente, "é professor de pós-graduação da USP", existe em um único lugar: o site que vende os cursos dele. Está lá desde pelo menos março de 2026, na mesma biografia, em duas páginas. O plano de governo usa "convidado", que é a palavra certa, mas não põe data. No registro oficial da candidatura, ele não se declara professor de nada. No Instagram, também não. E em nenhuma das 12 entrevistas e sabatinas que eu conferi ele disse a frase com a boca.

Ou seja: o problema é um texto de biografia numa página de venda. Ninguém apagou ou corrigiu esse texto depois da matéria, até onde eu consegui ver. O site augustocury.com.br está respondendo em loop de redirecionamento a todos os meus acessos desde 13 de setembro, e a última cópia guardada pelo Wayback é de 9 de setembro, véspera da matéria. Se a campanha trocou o "é" por "foi" depois disso, eu não consegui confirmar.

Tem um detalhe que eu não vou deixar passar, porque o outro lado vai usar. A página onde está escrito "professor de pós-graduação da USP" é a página que vende uma pós-graduação em Gestão da Emoção. Essa pós não é da USP. Ela é certificada pela Faculdade Anhanguera, e a própria página diz isso: "Certificação pela Faculdade Anhanguera, destaque no MEC". A palavra USP, ali, está servindo de credencial para vender um curso de outra instituição.

Onde ele escreveu que é professor da USP

Aqui está a página, para você ler com os seus olhos. É a cópia que o Internet Archive guardou em 8 de setembro de 2026, às 20h14 no horário universal (17h14 em Brasília), dois dias antes de a matéria do Estadão sair.

Trecho Quem será seu professor? do site augustocury.com.br, com a frase professor de pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP), cópia do Internet Archive de 8 de setembro de 2026 Cópia do site augustocury.com.br guardada pelo Internet Archive em 8 de setembro de 2026. O título da caixa é "Quem será seu professor?". A segunda frase diz: "Ele é psiquiatra, cientista pesquisador, escritor e professor de pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP)".

Agora o que a imagem sozinha não mostra.

Essa caixa de texto fica no fim de uma página chamada Academia de Gestão da Emoção. A página vende uma assinatura. O que ela oferece, nas palavras dela: "Dezenas de cursos do Dr. Augusto Cury (Que separadamente são vendidos por mais de R$ 6.000)". O preço, na mesma página, acima do trecho recortado: "Oferta especial de lançamento: 12 X R$ 49,13 (ou R$ 475 à vista)". O acesso dura um ano. A promoção, segundo o Estadão, valia "até esta terça-feira, 8", ou seja, 8 de setembro, em plena campanha.

O título da caixa é uma pergunta de vendedor: "Quem será seu professor?". A resposta é a biografia. Ela abre com "Augusto Cury é o maior especialista em Gestão da Emoção do mundo", segue com a frase da USP e fecha com "É considerado o psiquiatra mais lido do mundo, com mais de 40 milhões de livros vendidos somente no Brasil e publicado em mais de 70 países".

Repare no trabalho de cada frase. "Maior especialista do mundo" é propaganda, e ninguém confere propaganda. "40 milhões de livros" é número de editora, e dá para conferir. "Professor de pós-graduação da USP" é a única frase da caixa que cita uma instituição pública, com nome e sigla. Ela está ali para dar peso ao resto. Se você está pensando em pagar R$ 475, a USP é o que faz a caixa parecer confiável.

A mesma biografia, palavra por palavra, aparece em outra página do mesmo site, a da Pós-Graduação em Gestão da Emoção 2025, guardada pelo Internet Archive em 6 de março de 2026. Nessa segunda página o nome dele vem com um acréscimo: "Dr. Augusto Cury (Psiquiatra e PhD)". E a pós que a página vende tem "Certificação pela Faculdade Anhanguera, destaque no MEC". O certificado é da Anhanguera. A USP entra só na biografia do professor.

Então a frase no presente tem pelo menos seis meses de vida, em duas páginas, as duas de venda. Ela não está numa entrevista, num debate, na ficha do TSE nem na bio do Instagram. Ela está onde tem um botão de comprar embaixo.

Eu tentei abrir o site hoje, 13 de setembro, várias vezes e de jeitos diferentes. Ele devolve um redirecionamento em círculo e não carrega. A última cópia do Internet Archive é de 9 de setembro, véspera da matéria. Se a campanha corrigiu o verbo depois do dia 10, eu não vi, e não vou escrever que vi.

Professor convidado é professor da USP?

Essa é a pergunta que a nota de repúdio finge que não existe. Vou responder com o regimento da USP, que é o livro de regras da pós-graduação da universidade: a Resolução CoPGr 7493, de 27 de março de 2018. Eu li o texto consolidado no site de normas da USP.

Primeiro, o jeito simples de entender.

Na USP, "professor" de verdade é funcionário público. Ele entra por concurso, tem um cargo com nome (Professor Doutor, Professor Associado, Professor Titular), tem número de funcionário, tem regime de trabalho e aparece na lista do departamento dele. É como um médico concursado num hospital público: ele é do quadro.

"Professor convidado" é outra coisa. É alguém de fora que a universidade chama para dar uma disciplina, ou parte de uma disciplina, por um tempo. Ele não faz concurso, não ganha cargo, não entra no quadro, não vira funcionário. Quando a disciplina acaba, o convite acaba. É como um médico de fora que vai ao hospital dar um curso para os residentes por um semestre: ele deu aula ali, mas não é médico daquele hospital.

Agora o que o regimento diz, nos artigos que tratam disso.

O artigo 64 diz que "cada disciplina pode ter até seis professores responsáveis, portadores do título de Doutor, propostos pela CCP e aprovados pela CPG". CCP é a comissão que coordena o programa; CPG é a comissão de pós da faculdade. Ou seja: quem responde por uma disciplina precisa ser doutor e passar por duas comissões.

O parágrafo 1º do mesmo artigo abre uma exceção para gente de fora sem doutorado. Diz que, "em casos excepcionais", a comissão pode propor "o credenciamento como responsável por disciplina, de docente externo à USP não portador do título de doutor com reconhecida formação acadêmica, comprovada mediante títulos, trabalhos e publicações", e isso precisa ser aprovado por quatro instâncias diferentes.

O parágrafo 2º diz que a comissão pode propor "colaboradores para ministrar partes específicas da disciplina".

E o artigo 35, inciso XIX, dá à comissão do programa o poder de "autorizar a participação de professores colaboradores em disciplinas de Pós-Graduação".

Traduzindo: a USP tem dois jeitos de colocar alguém de fora numa disciplina de pós. Ou a pessoa vira "responsável" pela via de exceção, com aprovação em cascata, ou entra como "colaborador" sob um professor da casa que responde pela disciplina. Nos dois casos, a pessoa não vira professor da USP. Ela dá aula na USP, que é diferente.

A USP disse que Cury foi "professor convidado". Não disse se foi responsável ou colaborador. Eu não sei qual dos dois foi, e a resposta da USP não fecha isso. O que eu sei é o que está nas listas públicas do programa.

Eu abri, em 13 de setembro, a página de orientadores credenciados do Programa de Pós-Graduação em Odontologia (Reabilitação Oral). São 17 nomes. Augusto Cury não é nenhum deles. Ele também não está na Comissão Coordenadora do programa, e a busca pelo nome dele no site da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto não retorna nada.

Então, respondendo a pergunta do título desta seção: professor convidado deu aula na USP, sim. Professor convidado é professor da USP, no sentido que qualquer pessoa entende quando lê "professor da USP"? Não. Quando o leitor comum lê "professor de pós-graduação da USP", ele entende concursado, do quadro, com cargo. E não é isso que a USP confirmou.

O que diz o regimento da USP, explicado devagar

Eu expliquei acima com o texto da regra. Agora vou explicar como explicaria para o meu filho, porque é assim que o assunto vai chegar no grupo da família.

A USP tem um livro de regras para a pós-graduação. Chama-se Resolução CoPGr 7493, é de 27 de março de 2018 e está no site de normas da universidade. Dentro dele, dois artigos respondem à pergunta "quem pode dar aula na pós da USP".

Quem pode ser o responsável por uma disciplina. O artigo 64 diz que cada disciplina pode ter até seis professores responsáveis. Para ser responsável, a pessoa precisa de três coisas: ter o título de doutor, ser proposta pela comissão do programa (a CCP) e ser aprovada pela comissão de pós da faculdade (a CPG). Pense numa escola: o responsável é o professor que assina o diário de classe. Ele responde pela matéria, pela nota e pela presença dos alunos.

A exceção para quem vem de fora sem doutorado. O parágrafo 1º do mesmo artigo abre uma porta pequena. "Em casos excepcionais", a comissão pode propor como responsável um "docente externo à USP não portador do título de doutor", desde que ele tenha "reconhecida formação acadêmica, comprovada mediante títulos, trabalhos e publicações". Só que essa proposta precisa passar por quatro aprovações: a comissão de pós da faculdade (CPG), a CaC, a Congregação (o conselho maior da faculdade, por maioria absoluta) e o Conselho de Pós-Graduação da USP inteira (CoPGr). Quatro portas. Isso não acontece por convite de um professor amigo.

O colaborador. O parágrafo 2º diz que a comissão pode propor "colaboradores para ministrar partes específicas da disciplina". E o artigo 35, inciso XIX, dá à comissão do programa o poder de "autorizar a participação de professores colaboradores em disciplinas de Pós-Graduação". Colaborador é o convidado que entra na sala para dar uma parte da matéria, com um responsável da casa assinando o diário. Ele passa por uma aprovação só, a da comissão do programa.

Por que "convidado" não vira cargo. Cargo na USP vem de concurso público. Quem passa no concurso ganha um nome de cargo (Professor Doutor, Professor Associado, Professor Titular), um número de funcionário, um salário pago pelo Estado de São Paulo e um lugar na lista do departamento. O convidado não passa por nada disso. Ele recebe uma autorização para uma disciplina, dá a aula e, quando a disciplina acaba, a autorização acaba junto. Não fica registro dele no quadro. É como ser convidado para uma festa: você entra, come, conversa, vai embora. A casa continua sendo de quem mora nela.

A USP disse que Cury foi "professor convidado". Não disse se ele foi responsável pela via da exceção ou colaborador. Eu já registrei que acho mais provável a segunda, com a professora Alma Catirse respondendo pela disciplina, e que isso é dedução minha.

O que a lista de hoje diz. O programa de Pós-Graduação em Odontologia (Reabilitação Oral) publica no próprio site quem são os orientadores credenciados. Eu abri a lista em 13 de setembro de 2026 e contei: 17 nomes. Augusto Cury não é um deles. A Comissão Coordenadora atual é formada pela coordenadora Renata Cristina Silveira Rodrigues Ferracioli, pela vice Andréa Cândido dos Reis, pelo titular Vinícius Pedrazzi e pelos suplentes Cássio do Nascimento, Cláudia Helena Lovato da Silva e Rossana Pereira de Almeida. Ele também não está aí. E a busca pelo nome dele no site da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto não devolve nenhuma página.

Uma lacuna que eu deixo escrita: o catálogo oficial de disciplinas da USP, o sistema Janus, só mostra a lista para quem entra com senha. Eu não consegui ver o código da disciplina, a carga horária, o nome do responsável nem os anos em que ela foi oferecida. Quem tiver acesso e quiser me mandar, o direct está aberto.

A prova de que a aula existiu

Aqui tem um ponto que ninguém publicou, nem o Estadão, nem os sites que repetiram a matéria, e que pesa a favor do Cury. A aula dele na USP deixou um livro.

O livro se chama "Gestão da Emoção para a Formação de Professores Brilhantes". Foi publicado pela Editora Método, do Grupo GEN, do Rio de Janeiro, em 2023, primeira edição, 232 páginas, ISBN 9786559641895, com fechamento da edição em 16 de fevereiro de 2023. Eu li a página do livro no site da editora e o sumário em PDF que a editora disponibiliza.

A folha de rosto diz: "Organizada por Professora Dra. Alma Elizaur Catirse. Coordenada por Professor Dr. Augusto Cury". Embaixo, vêm 29 nomes de autores de capítulo. E embaixo dos nomes, o subtítulo: "A Teoria da Inteligência Multifocal aplicada à formação de mentes pensadoras (Programa de mestrado e doutorado da USP)".

A sinopse da editora diz que o livro reúne os ensaios "da 1ª turma da disciplina 'Gestão da Emoção na Formação de Professores Universitários Brilhantes', que compõe o curso de Mestrado e Doutorado da USP", no campus de Ribeirão Preto.

Quem é Alma Elizaur Catirse? Ela é professora associada do Departamento de Materiais Dentários e Prótese da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto, e orientadora de mestrado e doutorado no programa de Reabilitação Oral. É exatamente o departamento que sedia o programa onde a USP diz que Cury deu aula. Eu conferi na página da Comissão de Relações Internacionais da faculdade.

Junte as peças. A USP diz que ele deu a disciplina na pós em Reabilitação Oral. O livro diz que a disciplina existiu, dentro do programa de mestrado e doutorado, com uma professora da casa organizando e Cury coordenando. Os 29 autores são os alunos da primeira turma, com nome e sobrenome. Isso é prova física de que a aula aconteceu, e é coerente com a estrutura do regimento: uma docente credenciada da USP responsável, e um convidado de fora dando o conteúdo.

O nome da disciplina aparece de três jeitos. A USP escreveu "Gestão da Emoção na Formação de Professores do Ensino Universitário". O livro escreveu "Gestão da Emoção na Formação de Professores Universitários Brilhantes". A nota de repúdio escreveu "Gestão da Emoção na Formação de Professor Universitário". Eu entendo que é a mesma disciplina, mas registro que não consegui abrir o catálogo oficial de disciplinas da USP, o sistema Janus, que exige sessão de usuário. Fica como lacuna.

O que esse livro prova, então: que Cury deu aula lá, que a disciplina era de verdade e que teve pelo menos uma turma de 29 alunos. O que esse livro não prova: que ele é professor da USP hoje. O livro é de 2023 e fala da "1ª turma". A USP diz que a última foi em 2022.

O livro

Capa do livro Gestão da Emoção para a Formação de Professores Brilhantes, Editora Método, 2023, com o subtítulo Programa de mestrado e doutorado da USP entre parênteses Capa do livro na loja do Grupo GEN, dono da Editora Método. No alto, "Coordenada pelo Professor Dr. Augusto Cury" e "Organizada pela Professora Dra. Alma Elizaur Catirse". Embaixo dos 29 nomes, o título e, entre parênteses, "Programa de mestrado e doutorado da USP".

A capa é um documento por si só, então vou ler de cima para baixo.

No alto, em letra pequena: "Coordenada pelo Professor Dr." e, embaixo, em letra grande, "AUGUSTO CURY". Logo abaixo: "Organizada pela Professora Dra." e "ALMA ELIZAUR CATIRSE". A ordem importa. O nome dele vem maior e primeiro. O dela vem menor e depois. Mas o verbo de cada um é diferente: ele coordena, ela organiza. Num livro de turma, quem organiza é quem recolhe os textos, cobra prazo e fecha com a editora. É trabalho de professora da casa.

No meio, em letra miúda, os 29 nomes dos autores dos capítulos. Eu escrevo todos aqui porque cada um pode ser procurado: Thais da Costa Vinha, Andrezza Cristina Moura dos Santos, Filipe Santos Ferreira Mendes, Laís Ranieri Makrakis, Thiago Naves Queiroz Costa, Maille Ferreira Nunes Rocha, Maria de Padua Fernandes, Lucas Moreira Mendonça, Valéria Beatriz do Valle, Hian Parize, Fernanda Thaís Ponpeo, Juliana Dias Corpa Tardelli, Thales Rosolen, Antônio Secco Martorano, Stephanie Francoi Poole, Alia Gossen, Brenda Gonçalves de Carvalho, Daniel Zuluaga Goyeneche, Caroline Fortes, Victor da Mata, João Lisboa de Sousa Filho, Paola Maria da Silva Rosa, Jéssica Andrade Dantas, Beatriz Roque Kubata, Gabriela Ayres de Souza, Carla Roberta de Oliveira Maciel, Isabela Pezoti Moretto, Marina Ribeiro Paulini e Vanessa Thomé. Se algum deles ler isto e quiser contar como foi a aula, meu direct está aberto.

Num selo redondo, à direita: "A Teoria da Inteligência Multifocal aplicada à formação de mentes pensadoras". É o nome da teoria dele.

Embaixo, o título: "Gestão da Emoção para a Formação de Professores Brilhantes". E, na linha seguinte, entre parênteses, a frase que interessa a esta matéria: "(Programa de mestrado e doutorado da USP)". Está impresso na capa, em letra branca sobre azul, e foi a editora que imprimiu.

No pé, os logos do GEN e da Editora Método.

A ficha. Editora Método, do Grupo GEN, do Rio de Janeiro. Primeira edição, 2023. ISBN 9786559641895. 232 páginas. Data de publicação na loja da editora: 30 de março de 2023. Fechamento da edição, segundo a folha de rosto no sumário em PDF: 16 de fevereiro de 2023. Preço na loja da editora em 13 de setembro de 2026: R$ 145,80.

A sinopse. O texto da editora diz que a obra "reúne um conjunto de ensaios redigidos pelos alunos da 1ª turma da disciplina Gestão da Emoção na Formação de Professores Universitários Brilhantes, que compõe o curso de Mestrado e Doutorado USP". A sinopse apresenta Alma Elizaur Catirse como doutora em Odontologia Restauradora e Professora Associada 3 da USP.

Agora, o que este livro prova e o que ele não prova. Vou separar em duas listas, porque nos comentários cada lado vai puxar o livro para o seu.

O que o livro prova:

  • Que a disciplina existiu. Editora não inventa turma de pós.
  • Que ela existiu dentro do programa de mestrado e doutorado da USP, como está impresso na capa e escrito na sinopse. Nisso o plano de governo dele está certo.
  • Que teve pelo menos uma turma, a "1ª", com 29 alunos que escreveram.
  • Que uma professora concursada da USP, Alma Catirse, organizou o livro. Isso encaixa na regra da USP: disciplina de pós precisa de responsável da casa.
  • Que ele coordenou o conteúdo, com o título de "Professor Dr." dado pela editora.

O que o livro não prova:

  • Que ele é professor da USP hoje. O livro é de março de 2023 e fala da primeira turma. A USP diz que a última aula foi em 2022.
  • Que ele é docente credenciado. Credenciado é quem está na lista de orientadores do programa, e a lista de hoje tem 17 nomes sem o dele.
  • Que ele foi o responsável formal pela disciplina. A capa dá "coordenada" a ele e "organizada" a ela. Quem respondia pela disciplina no papel da USP, o livro não diz.
  • Que o "Dr." da capa é doutorado reconhecido no Brasil. A editora imprime o título que o autor informa. O doutorado dele é o DBA da Florida Christian University, tratado mais abaixo.
  • Quantas turmas houve. O livro registra a primeira. A USP fala em três anos. Se houve segunda e terceira turma, não deixaram livro que eu tenha achado.

Uma última coisa sobre o livro que ninguém comentou. Ele custa R$ 145,80 e está à venda na loja da editora até hoje, com "Programa de mestrado e doutorado da USP" na capa. Quem compra o livro em 2026 lê "USP" na capa e não lê "2020 a 2022" em lugar nenhum. É o mesmo problema do site, só que impresso.

A nota de repúdio, íntegra

O print que chegou no meu direct tem duas páginas. Aqui estão as duas, inteiras, sem corte. Depois vem a transcrição, letra por letra, e depois o meu comentário de cada parágrafo.

Nota de repúdio da Associação Paulista de Imprensa contra o Estadão, página 1, com o papel timbrado e os nove primeiros parágrafos Página 1 da nota. No timbre: "Fundada em 1º de maio de 1.933", "Palácio da Imprensa", "A Casa do Jornalista de São Paulo", "Edifício Prof. Adolfo Lemes Gilioli", endereço na Rua Álvares Machado, 22, 10º andar, o CNPJ, um número de celular, um e-mail do Gmail, o site e um endereço de YouTube do programa "Sala de Imprensa".

Nota de repúdio, página 2, com os três últimos parágrafos e o nome de Sérgio de Azevedo Redó, presidente Página 2 da nota. Três parágrafos, o nome "Sérgio de Azevedo Redó" e a palavra "Presidente". Sem assinatura à mão e sem data.

Antes do texto, quatro coisas que só a imagem mostra e que o Blog do Magno, que transcreveu a nota, não mostrou.

A nota não tem data. Nem no alto, nem no fim. A única data que existe é a do dia em que a campanha divulgou, 12 de setembro, segundo o blog.

A nota não tem assinatura à mão. O nome do presidente vem digitado, com "Presidente" embaixo. Isso não torna a nota falsa; muita nota oficial sai assim. Mas é diferente de um documento assinado.

O timbre diz "10º andar (Presidência)". O cadastro da Receita Federal diz 3º andar. A página de contato do site diz 10º andar. São três fontes da própria entidade com dois andares.

O timbre traz um e-mail do Gmail, apisp.diretoria@gmail.com, e não um e-mail do domínio da entidade. E o endereço de YouTube impresso no timbre, "saladeimprensaapisp", não existe: devolve página não encontrada. Os canais reais da entidade têm outros nomes.

Agora o texto. Grafia, acentos, vírgulas e maiúsculas são os do original. Onde o original errou, eu deixei o erro. O que eu acrescento vai entre colchetes.

NOTA DE REPÚDIO
A ASSOCIAÇÃO PAULISTA DE IMPRENSA, nos seus 93 anos em defesa intransigente das liberdades de expressão, informação e comunicação social no Estado de São Paulo e no Brasil, principalmente pugnando pela verdade, ética, dignidade e o profissionalismo dos jornalistas, vem se manifestar através desta Nota de Repúdio, em desfavor do secular jornal de tradições bandeirantes O ESTADO DE SÃO PAULO consagrado "ESTADÃO", em sua matéria assinada pela jovem jornalista Melissa Duarte, com a chamada "CURY DIZ LECIONAR NA USP", MAS UNIVERSIDADES DESMENTE ELO COM O CANDIDATO.
Em destaque na matéria em um dos trechos a jovem jornalista Melissa Duarte explicita: "Instituição esclarece que teve o presidenciável como professor de 2020 a 2022, mas que, desde então, ele deixou o curso de pós-graduação na USP".
Consultado pela redação do jornal, tudo fora confirmado e atestado pela direção da USP, que alias vem transcrita em texto reproduzido com exatidão pelo jornal:
"Augusto Cury ministrou a disciplina Gestão da Emoção na Formação de Professor Universitário, na área de Reabilitação Oral, no curso de Pós-Graduação da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (USP)".
A matéria jornalística, alias, cumpre com os pré-requisitos que são fundamentais para alicerçar uma informação á ser publicada, principalmente no "Estadão" com a tradição e o respeito dos seus leitores a mais de 151 anos de história, informando o Brasil e o mundo.
A nossa irresignação é realmente do titulo da matéria que é mentiroso, não retrata a verdade, que inclusive, ao ler o seu texto fica claramente escancarado o interesse de denegrir a reputação do candidato Augusto Cury a Presidência da República.
Sem que façamos muito esforço a jovem jornalista Melissa Duarte, claramente alcançou o seu objetivo ideológico, macular a biografia do candidato para criar retóricas contra ele, do tipo; "mentiroso e de "falsear a verdade sobre sua biografia".
Desnecessário reconhecer a brilhante trajetória acadêmica do candidato, que inclusive a direção da USP de Ribeirão Preto, reafirma a verdade que fora seu professor, portanto lecionou na conceituada Instituição, retificando a informação inverídica apresentada no titulo da matéria.
Por essa grave chamada do titulo da matéria, da qual objetivo central foi levar o leitor incauto a ter uma má imagem do candidato, que por sua capacidade pessoal de excelente professor, surgiu nessa acirrada e doentia disputa de acusações reciprocas entre os candidatos que estão liderando as pesquisas, como uma terceira via surpreendente, com sua tese pacificadora, propondo soluções praticas e simples para o Brasil e o desenvolvimento do povo brasileiro.
[Fim da página 1. Começa a página 2, com o mesmo timbre.]
A jovem jornalista em razão de sua matéria conseguiu macular a credibilidade de um dos maiores veículos de comunicação do País, de tradição da família Mesquita que possui uma historia invejável para quem realmente conhece o desenvolvimento e o crescimento do maior Estado da Nação brasileira que é São Paulo.
Quem perde, é a credibilidade do jornal a raiz da verdade fica abalada e muito pior a chamada da matéria caraterizada como verdadeiro FAKE NEWS, que todos nós repudiamos e desejamos extirpar do nosso meio jornalístico, pois, o que verdadeiramente desejamos é um País pacificado, sem divisão de raça, cor, credos e principalmente essa beligerância da esquerda e da direita se de gladiando.
O maior objetivo de todos nós é vivermos PAZ, com qualidade de vida para a maioria dos brasileiros e deixarmos a ideologia somente para os estudos acadêmicos, jamais permitir que a ideologia principalmente partidária contamine as redações dos veículos de informação!!!
Sérgio de Azevedo Redó [na linha de baixo:] Presidente

Eu comparei a transcrição do Blog do Magno com as duas imagens, palavra por palavra. O texto é o mesmo nos 12 parágrafos, do "NOTA DE REPÚDIO" ao "Presidente". Nenhuma palavra a mais, nenhuma a menos, e os mesmos erros nos mesmos lugares: "desmente" no plural que devia ser "desmentem", "alias" sem acento duas vezes, "á ser" com crase errada, "titulo" sem acento três vezes, "caraterizada" sem o "c", "reciprocas", "praticas" e "historia" sem acento, "se de gladiando" separado. As diferenças são só de forma. A imagem tem trechos em negrito (a chamada citada, a frase atribuída à repórter, o nome da jornalista, "151 anos de história", "FAKE NEWS" e "PAZ") e o blog publicou tudo em letra normal. E o blog não reproduz o timbre nem a segunda página como imagem.

Agora o meu comentário, parágrafo por parágrafo. Em cada um, o que o trecho prova e o que não prova.

Parágrafo 1, o dos 93 anos e da chamada. Prova que a entidade assume a autoria da nota e que o alvo dela é a "chamada", não o texto. Não prova que essa chamada existiu. "CURY DIZ LECIONAR NA USP, MAS UNIVERSIDADES DESMENTE ELO COM O CANDIDATO" não está na matéria da internet, que tem outro título desde o dia 10. A palavra "universidades", no plural, não aparece nenhuma vez no texto do Estadão. A nota está brigando com um título que eu não consegui encontrar.

Os três parágrafos seguintes são o miolo da nota, e são os que a campanha recortou para o print que circula. Aqui está o recorte, ampliado.

Recorte da nota de repúdio com os parágrafos 2, 3 e 4, em que a nota cita o trecho atribuído à repórter e transcreve a resposta da USP Recorte da página 1 da nota, parágrafos 2 a 4. Em negrito, a frase atribuída à repórter, com "de 2020 a 2022" e "deixou o curso", e a transcrição da USP, que para antes de "Foi em 2020, 2021 e 2022. Ele atuou como professor convidado".

Parágrafo 2, o do "trecho em destaque". Prova que quem escreveu a nota leu alguma versão da matéria em que esse trecho existe. Não prova qual versão, porque a frase "Instituição esclarece que teve o presidenciável como professor de 2020 a 2022, mas que, desde então, ele deixou o curso" também não está na página da internet. E repare no conteúdo da frase que a nota escolheu destacar: "de 2020 a 2022" e "deixou o curso". A nota abre citando, em negrito, o passado.

Parágrafo 3, o do "tudo fora confirmado". Este é o parágrafo mais importante da nota, e é a favor do jornal. Prova que a associação aceita a resposta da USP como verdadeira e reconhece que o jornal a reproduziu "com exatidão". Ou seja, a fonte da matéria está certa e a transcrição está certa. Sobra o título.

Parágrafo 4, a transcrição da USP. Prova que a associação teve acesso à resposta da USP. Mas repare no que falta. A resposta que o Estadão publicou tem quatro frases. A nota transcreve só a primeira, com o nome da disciplina um pouco diferente ("Professor Universitário", no singular, onde a USP escreveu "Professores do Ensino Universitário"), e para antes das três frases seguintes: "Foi em 2020, 2021 e 2022. Ele atuou como professor convidado da pós-graduação. O campus é o de Ribeirão Preto". A nota diz que o jornal reproduziu a USP "com exatidão" e, no mesmo movimento, corta da transcrição as duas palavras que decidem a discussão: "Foi" e "convidado".

Parágrafo 5, o dos "pré-requisitos". Prova que a nota elogia a matéria. É a entidade dizendo que a apuração foi feita como manda a regra. Não prova nada contra o jornal. Uma nota de repúdio que elogia o que repudia já começa perdendo.

Parágrafo 6, o do "título mentiroso". É a acusação. Prova que a briga inteira é com o título. Não prova que o título mente, porque não aponta qual fato do título é falso. O título diz "se apresenta como professor de pós-graduação da USP" (verdade: o site diz isso) e "universidade desmente" (verdade: a USP disse que foi convidado até 2022). A nota chama isso de mentira e não explica onde está a mentira. A segunda metade do parágrafo, "interesse de denegrir a reputação", é palpite sobre intenção.

Parágrafo 7, o do "objetivo ideológico". É acusação sem documento. Prova só o que a entidade pensa da repórter. Não cita um erro de fato. As palavras que a nota põe entre aspas como se fossem do jornal, "mentiroso" e "falsear a verdade sobre sua biografia", não estão na matéria: o Estadão não usa "mentira", "falso" ou "fraude" em nenhuma linha. Eu contei.

Parágrafo 8, o do "fora seu professor". Este parágrafo é o que eu mais queria que os eleitores do Cury lessem. Prova, na voz de quem o defende, que ele "fora" professor e "lecionou". Os dois verbos estão no passado. A nota confirma o ponto do Estadão sem perceber. O que ela chama de "informação inverídica" do título é exatamente o que ela acabou de escrever: ele foi. Não prova, em nenhuma palavra, que ele é professor hoje.

Parágrafo 9, o do "excelente professor" e da "terceira via surpreendente". Opinião política. Prova de que lado a entidade está. Não prova nada sobre a USP. Uma associação de imprensa que escreve "tese pacificadora" e "soluções práticas e simples para o Brasil" sobre um candidato, em plena campanha, está fazendo campanha.

Parágrafo 10, o da "família Mesquita". Opinião sobre o jornal. Não acrescenta fato.

Parágrafo 11, o do "FAKE NEWS". É a frase que virou print. Prova que a nota quer a etiqueta "fake news" colada no Estadão. Não define qual informação é falsa. E termina falando de "esquerda e direita se gladiando", que não tem nada a ver com a USP.

Parágrafo 12, o da "PAZ" e da ideologia nas redações. Fecho de discurso. Nada de fato.

O que a nota não tem, e que uma nota séria teria: data; o endereço da matéria que repudia; a frase do site do Cury que motivou a matéria; a palavra "convidado"; e qualquer documento da USP, do candidato ou da faculdade. Ela tem 12 parágrafos e um fato, o fato de que ele deu aula, que ninguém negou.

A nota de repúdio, palavra por palavra

No sábado, 12 de setembro, às 19h45, o Blog do Magno, de Recife, publicou uma matéria com o título "Augusto Cury divulga nota de repúdio a reportagem do Estadão sobre vínculo com a USP". O blog abre assim: "O candidato à Presidência Augusto Cury (Avante) divulgou neste sábado (12) uma nota em que a Associação Paulista de Imprensa repudia a reportagem do Estadão". Eu li a íntegra no código da página do blog e comparei com o print que chegou no meu direct. É o mesmo texto, palavra por palavra, incluindo os erros de português.

A nota não é da campanha e não é assinada por Cury. Ela é assinada por "Sérgio de Azevedo Redó, Presidente", em nome da "Associação Paulista de Imprensa". A campanha repassou. Eu procurei a nota no site da associação, no YouTube, no Facebook e no X da entidade. Não achei. Até prova em contrário, ela só existe pública no Blog do Magno e nos prints que circulam.

Agora vamos ao texto. A nota abre dizendo que a associação tem "93 anos em defesa intransigente das liberdades de expressão" e que vem se manifestar "em desfavor do secular jornal de tradições bandeirantes O ESTADO DE SÃO PAULO consagrado 'ESTADÃO', em sua matéria assinada pela jovem jornalista Melissa Duarte, com a chamada 'CURY DIZ LECIONAR NA USP', MAS UNIVERSIDADES DESMENTE ELO COM O CANDIDATO".

Pare aqui. Esse título não existe na matéria da internet. O título da matéria na web é "Augusto Cury se apresenta como professor de pós-graduação da USP, mas universidade desmente". A palavra "universidades", no plural, não aparece uma única vez no texto do Estadão. Eu contei no código da página: zero. Também não aparece a frase que a nota atribui a um "trecho em destaque" da matéria: "Instituição esclarece que teve o presidenciável como professor de 2020 a 2022, mas que, desde então, ele deixou o curso de pós-graduação na USP".

Existe uma explicação possível: esse pode ser o título da edição impressa do Estadão de 11 de setembro, ou de um card ou notificação, que costumam ter títulos diferentes da versão web. Eu não confirmei. Não tive acesso ao jornal impresso nem ao acervo. Registro como hipótese não confirmada. O que eu posso afirmar é que, na internet, o título que a nota repudia não está lá.

Seguindo. A nota reconhece que a USP confirmou tudo: "Consultado pela redação do jornal, tudo fora confirmado e atestado pela direção da USP, que alias vem transcrita em texto reproduzido com exatidão pelo jornal".

E vai além. Elogia a matéria: "A matéria jornalística, alias, cumpre com os pré-requisitos que são fundamentais para alicerçar uma informação á ser publicada".

Então onde está o repúdio? No título: "A nossa irresignação é realmente do titulo da matéria que é mentiroso, não retrata a verdade, que inclusive, ao ler o seu texto fica claramente escancarado o interesse de denegrir a reputação do candidato Augusto Cury a Presidência da República".

A nota acusa a repórter de intenção: "a jovem jornalista Melissa Duarte, claramente alcançou o seu objetivo ideológico, macular a biografia do candidato". Repete "jovem jornalista" três vezes.

O argumento central vem depois: "Desnecessário reconhecer a brilhante trajetória acadêmica do candidato, que inclusive a direção da USP de Ribeirão Preto, reafirma a verdade que fora seu professor, portanto lecionou na conceituada Instituição, retificando a informação inverídica apresentada no titulo da matéria".

E fecha chamando o título de fake news: "a chamada da matéria caraterizada como verdadeiro FAKE NEWS, que todos nós repudiamos e desejamos extirpar do nosso meio jornalístico".

Agora repare no verbo da própria nota. "Fora seu professor." "Lecionou." Passado. A nota que defende o Cury usa o tempo verbal que o site do Cury deveria ter usado. Ela confirma, sem querer, o ponto do Estadão: ele foi. O site diz que é.

A nota não enfrenta isso em nenhuma linha. Ela não diz "o site está certo em dizer que ele é professor hoje". Ela não diz "ele ainda dá aula lá". Ela diz que ele deu aula, o que ninguém negou, e a partir disso chama o título de mentiroso. É como se alguém escrevesse "sou funcionário da Petrobras" quatro anos depois de sair, um jornal publicasse "Petrobras desmente", e um amigo respondesse: "mas ele trabalhou lá, então o jornal mentiu". Trabalhou. Trabalhou mesmo. O problema é o "sou".

A nota também chama Cury de "excelente professor" e de "terceira via surpreendente, com sua tese pacificadora". Isso é opinião de quem assina. Uma entidade que se apresenta como defensora do jornalismo escreveu um texto de campanha.

Quem assina a nota

Quando uma nota chega no WhatsApp com timbre e nome de entidade, a primeira pergunta é: quem é essa entidade e quanto ela pesa? Eu fui ver.

A Associação Paulista de Imprensa existe. Ela foi fundada em 1º de maio de 1933 por jornalistas de São Paulo que queriam uma entidade parecida com a ABI, do Rio. Em 1935, os associados dela fundaram o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Isso é história de verdade e está na página da própria entidade. O CNPJ é 62.658.802/0001-40, situação ativa, associação privada, sede na Rua Álvares Machado, 22, no centro de São Paulo. Eu conferi na Receita Federal, pela BrasilAPI, em 13 de setembro.

O que ela é hoje. O site oficial, apisp.org.br, é um modelo de WordPress sem conteúdo: a página inicial tem texto de exemplo em inglês e a página de notícias está vazia. Os contadores de redes sociais são números de enfeite do modelo. A diretoria publicada é a "Chapa 2020-2024", com mandato vencido no calendário do próprio site. O canal do YouTube do programa da entidade, "Sala de Imprensa", tem o último vídeo publicado em 19 de agosto de 2020. Não há número de associados publicado em lugar nenhum. No cadastro da Receita, o quadro societário tem um único nome: Sérgio de Azevedo Redó, presidente, desde 29 de julho de 2010.

Onde ela está e onde não está. A associação é vice-presidência da FENAI, a Federação Nacional da Imprensa, fundada em 1939. Cuidado com a sigla: FENAI não é a Fenaj, a Federação Nacional dos Jornalistas, que é a entidade sindical grande. Nas notas conjuntas de ABI, Fenaj e Abraji que eu encontrei entre 2024 e 2026, a Associação Paulista de Imprensa não aparece. O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo não a cita. Eu não achei nenhuma outra nota de repúdio da entidade em 2023, 2024, 2025 ou 2026. A única que localizei é esta, contra o Estadão, a favor de um candidato.

Quem é Sérgio de Azevedo Redó. Pelo currículo que ele mesmo assina no site do Conselho da Comunidade Luso-Brasileira de São Paulo, ele é advogado (OAB/SP 70.698), jornalista (MTb 073957) e administrador. Advoga desde 1982. Preside a associação desde 2009. O currículo dele lista cargos ligados à política paulista: foi "assessor parlamentar do presidente da Câmara Federal" no mandato do deputado Flávio Marcílio, do PDS, em 1983 e 1984; presidiu o conselho de administração da Anhembi Turismo, empresa da Prefeitura de São Paulo, entre 1993 e 1995, na gestão Paulo Maluf; foi coordenador da 2ª Secretaria da mesa da Câmara Municipal de São Paulo em 2005. Ele escreve que "tem atuação no direito eleitoral através da defesa de Agentes Públicos (Governadores, prefeitos, deputados federais e estaduais e vereadores no Estado de São Paulo)".

O que dizem contra ele. Aqui eu preciso ser cuidadoso, porque o que existe são acusações, não sentenças. Dois jornalistas, Edna Santos e Pedro Nastri, este último ex-diretor da entidade, publicaram entre 2016 e 2017 uma série de textos acusando Redó. Segundo os dois, ele presidiria a associação com mandato vencido desde 2012 e estatuto não registrado em cartório, e teria desfeito a biblioteca e o acervo histórico da entidade. Segundo Nastri, ele protocolou representação no Ministério Público de São Paulo, sob o número 0112941/16, sobre o sumiço de patrimônio. Segundo Edna Santos, em texto de 25 de agosto de 2017, a diretoria montada por Redó incluiria pessoas com processos e condenações; quatro dos nomes que ela cita constam na diretoria 2020-2024 publicada hoje no site.

O que é fato dentro disso: Redó processou os dois por dano moral, na 13ª Vara Cível de Santo Amaro, em São Paulo, pedindo a remoção dos textos em 48 horas. Segundo a própria Edna Santos, a juíza negou a remoção, por entender que os textos tratavam de "dados de interesse dos associados". Eu não localizei sentença final desse processo, nem resultado da representação no Ministério Público. As acusações continuam sendo acusações. Redó tem o direito de responder a elas, e eu não achei resposta dele publicada.

A pergunta que importa: ele tem ligação com o Cury ou com o Avante? Eu procurei. Busquei o nome dele junto com Cury, junto com Avante, junto com homenagem e medalha. Busquei filiação partidária e candidatura própria. Não achei nada. Nenhuma ligação entre Sérgio Redó e a campanha foi encontrada. Isso vale ser dito com clareza, porque o contrário também seria fácil de insinuar e eu não vou insinuar o que não achei.

O que sobra é o seguinte quadro. A nota vem de uma entidade histórica que hoje funciona em torno de um presidente desde 2009, com site abandonado, mandato vencido, sem produção pública recente e fora das redes das grandes entidades de imprensa. Isso não torna a nota falsa. Torna a nota leve. Quando alguém te mandar o print dizendo "a Associação Paulista de Imprensa desmentiu o Estadão", você já sabe o tamanho de quem desmentiu.

Quem é a repórter. A nota chama Melissa Duarte de "jovem jornalista" três vezes, como se fosse iniciante. Ela é formada pela UnB e passou por Correio Braziliense, Poder360, O Globo, JOTA, Metrópoles e TV Globo. No Metrópoles, assinou reportagens de investigação. Chegou ao Estadão na semana de 19 a 25 de agosto de 2026, segundo a newsletter Jornalistas&Cia, edição 1.577. Tinha cerca de três semanas de casa quando publicou a matéria sobre Cury. É nova no jornal. Não é nova na profissão.

Quem repercutiu. Nenhum veículo grande fez matéria sobre a nota de repúdio até a tarde de 13 de setembro. Só o Blog do Magno. A matéria original do Estadão, por sua vez, correu por portais regionais e sites menores: A Crítica, de Campo Grande, 35 minutos depois; JCNET, de Bauru; BNews, de Salvador; Diário do Centro do Mundo; Brasil em Folhas; Rádio Liberdade; e outros. Folha, Globo, CNN, Metrópoles e Poder360 não fizeram matéria própria que eu tenha localizado. O Estadão e a repórter não responderam à nota publicamente. E Cury, em pessoa, não falou nada sobre a USP: não respondeu ao Estadão antes da publicação, não gravou vídeo, não deu entrevista sobre isso. A única resposta dele foi repassar a nota de outra pessoa.

A ficha da associação

Tudo o que vem aqui é público e tem endereço na lista de fontes. Eu junto numa ficha só para você não precisar abrir dez abas.

Nome. Associação Paulista de Imprensa. Nome de fantasia no cadastro: API. Cuidado com a sigla: existe uma Associação Paraibana de Imprensa, também API, que não tem nada a ver com esta.

CNPJ. 62.658.802/0001-40. Situação: ativa. Natureza jurídica: associação privada. Início de atividade no cadastro da Receita: 3 de abril de 1970 (o cadastro é de 1970; a fundação, segundo a própria entidade, é de 1º de maio de 1933). Atividade principal registrada: "Outras atividades associativas profissionais". Conferido na Receita Federal, pela BrasilAPI, em 13 de setembro de 2026.

Endereço. Rua Álvares Machado, 22, Centro, São Paulo, CEP 01501-030. A Receita registra o 3º andar. O timbre da nota e a página de contato do site dizem 10º andar. A agenda da Prefeitura de São Paulo registra uma solenidade da entidade no 1º andar do mesmo prédio em 31 de julho de 2026.

Quadro na Receita. Um nome só: Sérgio de Azevedo Redó, qualificação "Presidente", data de entrada 29 de julho de 2010, faixa etária de 61 a 70 anos. Nenhum outro diretor consta no cadastro.

Site. apisp.org.br. A página inicial é um modelo de WordPress com texto de exemplo em inglês ("Cristiane Endler is opening", "John Smith March 22, 2021"). A página de notícias está vazia: só o título "Notícias Importantes" e um convite para assinar newsletter. Os contadores de seguidores nas redes (10,2 mil, 14,2 mil, 11,2 mil) são números que vêm de fábrica com o modelo. A página de contato dá o e-mail secretaria@apisp.org.br e o telefone (11) 3242-7000. Tudo conferido em 13 de setembro.

Diretoria publicada. "Chapa 2020-2024". Presidente: Sérgio de Azevedo Redó. Seis vice-presidentes: Cláudio Mansur Salomão, Zaqueu Morioka, Wagner Barbosa, Ricardo Jacob, Arnaldo Acbas de Lima e Adriano Augusto da Costa Filho. Mais 37 "vice-presidentes diretores", um Conselho Deliberativo presidido por Virgílio Rovêda e um Conselho Fiscal presidido por José Luiz Zanzini. O mandato publicado terminou em 2024. Não há chapa nova no site.

YouTube. O canal "Programa Sala de Imprensa", apresentado pelo próprio Redó, tem o último vídeo publicado em 19 de agosto de 2020. Eu li isso no feed do canal, que é público. Entre os convidados de 2020 estão Caio Coppolla, Marco Antônio Villa, Ives Gandra Martins e Antonia Fontenelle. O endereço de canal impresso no timbre da nota, "saladeimprensaapisp", não existe.

Número de associados. Não publicado em lugar nenhum.

Onde ela está. É vice-presidência da FENAI, Federação Nacional da Imprensa, que se apresenta como fundada em 1939 por Cásper Líbero e Edgard Leuenroth. FENAI e Fenaj são entidades diferentes. A Fenaj é a Federação Nacional dos Jornalistas, a entidade sindical.

Onde ela não está. Nas notas conjuntas de ABI, Fenaj e Abraji que eu encontrei entre 2024 e 2026, a Associação Paulista de Imprensa não aparece. O Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, que nasceu dentro dela em 1935, não a cita em nenhuma página que eu tenha achado. Não achei nota da ABI, da Fenaj, da Abraji ou do Sindicato citando a entidade, nem a favor nem contra.

Atividade recente registrada. Solenidade em 31 de julho de 2026, com a presença da secretária municipal de Relações Internacionais de São Paulo, Angela Gandra, segundo a agenda da Prefeitura. Uma medalha, "Pela Lei", entregue a profissionais de imprensa na Câmara Municipal em setembro de 2025. Um texto de 28 de janeiro de 2025, no site Folha Apostólica News, diz que Redó "revitalizou" a entidade. Nenhuma outra nota de repúdio localizada em 2023, 2024, 2025 ou 2026.

Quem preside, pelo currículo que ele mesmo publica. Sérgio de Azevedo Redó. Advogado, OAB/SP 70.698, militante desde 1982. Jornalista, MTb 073957. Administrador de empresas, CRA 55.302. Presidente da Associação Paulista de Imprensa desde 2009. Vice-presidente da FENAI. Vice-presidente da ACRIMESP, Associação dos Criminalistas do Estado de São Paulo. Presidiu a comissão de estudos da lei de imprensa da OAB/SP de 2004 a 2009. Diretor superintendente da GSR Consultoria, Planejamento, Administração & Marketing Empresarial. Assessor parlamentar do presidente da Câmara dos Deputados, Flávio Marcílio, do PDS do Ceará, em 1983 e 1984. Presidente do conselho de administração da Anhembi Turismo e Eventos, empresa da Prefeitura de São Paulo, de 1993 a 1995, na gestão Paulo Maluf. Coordenador de turismo do Estado de São Paulo em 1993. Consultor especial do procurador-geral de Justiça de São Paulo em 1997. Coordenador da 2ª Secretaria da mesa diretora da Câmara Municipal de São Paulo em 2005. Diretor executivo do Sistema Metropolitana de Rádio e Televisão de 1985 a 1991. "Mais de 79 condecorações", nas palavras dele. E a frase que interessa numa eleição: "tem atuação no direito eleitoral através da defesa de Agentes Públicos (Governadores, prefeitos, deputados federais e estaduais e vereadores no Estado de São Paulo)". Filiação partidária: não encontrada. Candidatura própria: não encontrada. Ligação com Cury ou com o Avante: não encontrada.

O que dizem contra ele, e o peso disso. Já contei na seção anterior e repito aqui em uma linha, para a ficha ficar completa: dois jornalistas, Edna Santos e Pedro Nastri, este último ex-diretor da entidade, acusam Redó desde 2016 de presidir com mandato vencido em 2012, de estatuto sem registro em cartório e de ter desfeito o acervo. Nastri diz ter protocolado representação no Ministério Público de São Paulo sob o número 0112941/16. São acusações. Redó processou os dois por dano moral na 13ª Vara Cível de Santo Amaro, e a juíza negou o pedido de tirar os textos do ar, segundo a própria Edna Santos. Sentença final e resultado da representação: não localizados. Resposta pública de Redó às acusações: não localizada.

O que essa ficha diz sobre a nota. Uma entidade de 1933 com um nome no CNPJ, sem chapa em dia, sem site, sem vídeo desde 2020 e sem lugar nas redes das entidades grandes de imprensa escreveu uma nota de campanha em favor de um candidato e chamou de fake news um título que não está na internet. A nota é dela, e ela existe. O peso é esse.

O que sobrou sem resposta no currículo dele

Eu poderia parar na USP. Mas a acusação nos comentários é "mentiu sobre a USP e a pós", e a "pós" é uma história maior que a USP. Se eu contasse só a parte em que ele tem razão, estaria fazendo o que a nota de repúdio fez. Então aqui vai o resto, com o que ele disse, o que o documento diz, e nada mais. Eu não vou usar a palavra "mentiu" em nenhum destes itens. Vou colocar as duas frases lado a lado e deixar você concluir.

Mestrado. No debate da Band, em 23 de agosto de 2026, ele disse: "Fiz mestrado e doutorado e tive muito sucesso". Na entrevista à Jovem Pan publicada em 7 de setembro, repetiu: "Fiz mestrado e doutorado e hoje sou publicado em mais de 90 países". As duas frases estão nas legendas dos vídeos, nos tempos que eu indico na lista de fontes.

Agora o que ele mesmo escreveu, um mês antes, no direito de resposta publicado pelo Observatório da Imprensa em 30 de julho de 2026: "Na PUC-SP, cursei disciplinas de mestrado em Psicologia Social, em 1986; na Universitat de les Illes Balears, cursei disciplinas stricto sensu". Cursar disciplinas não é concluir o mestrado. Segundo a Folha, que leu o currículo Lattes dele em 1º de setembro, não há mestrado registrado. Ele escreveu que cursou disciplinas. Ele falou, ao vivo, duas vezes, que fez mestrado.

Doutorado. O que consta no Lattes, segundo a Folha e o Observatório da Imprensa, e que ele mesmo confirmou em 30 de julho, é um "Doctor of Business Administration", um DBA, pela Florida Christian University, de Orlando, cursado de 2010 a 2013. DBA é doutorado em administração de empresas. Ele escreveu no mesmo texto: "Não apresento esse título como doutorado acadêmico em Psicologia".

O plano de governo dele no TSE, segundo a Folha e as réplicas de 1º de setembro, diz outra coisa: "doutorado em Psicologia Multifocal pela americana Florida Christian University, completado em 2013". A assessoria não explicou à Folha por que o plano diz isso.

Sobre a universidade: o catálogo da própria Florida Christian University para 2020-2021, na página 3, na seção sobre licença e credenciamento, diz, em inglês, que a universidade "não é credenciada por nenhuma agência aprovada pelo governo". Desde 14 de fevereiro de 2024, ela tem "Candidate Status" numa associação chamada ABHE, que a própria página da universidade define como um estágio anterior ao credenciamento. Eu não encontrei registro de que o título dele tenha sido reconhecido por alguma universidade brasileira, que é o que a lei exige para um doutorado de fora valer aqui. Ninguém perguntou isso à campanha ainda. Fica a pergunta.

Uniderc. Em novembro de 2012, uma entidade chamada Uniderc, de Caruaru, em Pernambuco, divulgou que tinha dado a ele um título de doutor em Psicanálise. Em 9 de setembro de 2013, a revista da própria entidade o apresentava como "Professor Titular da Disciplina da Inteligência Multifocal, na Uniderc". Em agosto de 2014, a Justiça Federal em Pernambuco, numa ação do Ministério Público Federal (processo 0800317-21.2014.4.05.8302), mandou a entidade parar de anunciar cursos de graduação e pós, com multa de R$ 2.500 por dia, porque ela não tinha credenciamento do MEC. Cury não é parte nesse processo. Eu não encontrei nenhuma resposta dele sobre esse título, em nenhuma data.

O que está confirmado. Ele é médico, formado em 1984 na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, hoje Famerp. A própria faculdade publicou, em 15 de outubro de 2024, que ele "celebra 40 anos de graduação em medicina". Isso está certo e ninguém contesta.

O que não existe. A Teoria da Inteligência Multifocal, que é a base de todos os livros dele, não tem um artigo científico revisado por outros cientistas, de autoria dele, que eu tenha localizado. A Folha ouviu cinco psiquiatras em 20 de abril de 2026 e nenhum conhece validação da teoria.

Junte tudo isso e você entende por que a USP virou notícia. Sozinha, a frase "é professor de pós-graduação da USP" seria um verbo errado num site. Junto com "fiz mestrado" e com o "doutorado em Psicologia Multifocal", ela vira a terceira vez em que o que ele fala sobre o próprio currículo é maior do que o papel confirma.

Os 12 vídeos que eu li procurando a frase

A acusação que circula é "ele disse que é professor da USP". Eu fui procurar onde ele disse. Li a transcrição de 12 vídeos de 2026, entre debates, sabatinas e entrevistas, atrás de qualquer frase do tipo "sou professor da USP", "leciono na USP" ou "dei aula na USP". Aviso: usei as legendas automáticas do YouTube. Onde eu cito entre aspas, o minuto está do lado, para você ouvir com os próprios ouvidos antes de repassar.

O resultado, vídeo por vídeo, com o que ele fala da própria formação em cada um:

  1. Jovem Pan, programa Direto ao Ponto, 25 de maio de 2026. Aos 51min38s: "Eu sou médico. Eu sei que um corpo debilitado, estressado, a baixa imunidade (...) Quando eu me formei na faculdade de medicina, uma em 20 pessoas desenvolveu um tumor cancerígeno". Sobre a USP: nada.
  1. Debate presidencial da Band, 23 de agosto de 2026. Aos 2h26min38s: "Sou filho de escola pública em toda a minha trajetória acadêmica, até na faculdade de medicina. Fiz mestrado e doutorado e tive muito sucesso. (...) não apenas como o psiquiatra mais lido do mundo (...) publicado em mais de 90 países. Eu não apenas sou escritor, escrevi mais de 70 livros". Sobre a USP: nada.
  1. Entrevista a Pablo Marçal, vídeo de 27 de agosto de 2026. Conta a infância: "E eu disse: 'Eu quero ser um médico e um cientista'. Silêncio geral." Sobre a USP: nada.
  1. Jornal Nacional, 29 de agosto de 2026. Conta que uma médica de Rio Preto lhe disse "Doutor Cury, nós aplicamos aqui [a telemedicina] com alta eficiência". Sobre a formação, só "sou médico". Na mesma sabatina, segundo o Estado de Minas, ele se irritou e respondeu: "Sou médico, esqueceu disso?". Sobre a USP: nada.
  1. Jovem Pan News, entrevista publicada em 7 de setembro de 2026. Aos 54min01s: "Eu fui formado na faculdade de medicina de São José do Rio Preto, que tem o maior trabalho de SUS do Brasil". Aos 59min58s: "Fiz mestrado e doutorado e hoje sou publicado em mais de 90 países. Sou considerado o psiquiatra mais lido do mundo na atualidade. Sou gestor de empresas que tiveram sucesso." Sobre a USP: nada.
  1. CNN 360º. Nenhuma menção a USP, a doutorado próprio ou a "professor" como descrição de si mesmo.
  1. CNN Eleições. Nada.
  1. RedeTV. Nada.
  1. SBT. Nada.
  1. Canal Rural. Nada.
  1. Inteligência Ltda. Nada.
  1. g1, sabatina sobre educação. Nada.

O que isso mostra é curioso. A frase "professor da USP" não sai da boca dele. Ela só existe em texto que a campanha escreve: o site e o plano de governo. Já a frase "fiz mestrado e doutorado" sai da boca dele, duas vezes, em rede nacional. E é a frase que ele mesmo desmontou por escrito em 30 de julho, quando disse que "cursou disciplinas de mestrado". Se algum adversário for usar um vídeo contra ele, não vai ser sobre a USP. Vai ser sobre o mestrado.

Fica registrado o que eu não li: os canais oficiais da Globo não expõem legenda pública, então o vídeo do Jornal Nacional que eu usei é uma réplica em canal de terceiros. E legenda automática erra. Se você encontrar um vídeo de 2026 em que ele diz "sou professor da USP", com minuto, me mande no direct e eu corrijo esta seção com o seu nome.

Linha do tempo

Tudo o que está nesta matéria, em ordem, com a fonte de cada linha.

DataO que aconteceuFonte
1984Augusto Cury se forma em medicina na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, hoje FamerpFamerp, texto de 15 de outubro de 2024 sobre os 40 anos de formatura
1986Cursa disciplinas de mestrado em Psicologia Social na PUC-SP, sem concluir mestradoO próprio Cury, direito de resposta no Observatório da Imprensa, 30 de julho de 2026
2010 a 2013Cursa o DBA, doutorado em administração de empresas, na Florida Christian University, em OrlandoCurrículo Lattes, segundo a Folha de 1º de setembro de 2026; confirmado por ele em 30 de julho de 2026
Novembro de 2012A Uniderc, de Caruaru, divulga que deu a ele um título de doutor em PsicanáliseWikipédia em português, verbete Augusto Cury, versão de 4 de setembro de 2026
9 de setembro de 2013A revista da Uniderc o apresenta como "Professor Titular da Disciplina da Inteligência Multifocal"Revista Mais Sucesso, edição 201
11 de dezembro de 2013A Florida Christian University publica que ele "defende doutorado" no InterSeminars 2013Blog da própria universidade
Agosto de 2014A Justiça Federal em Pernambuco manda a Uniderc parar de anunciar cursos, com multa de R$ 2.500 por diaAção civil pública 0800317-21.2014.4.05.8302, reproduzida pelo Portal de Surubim
2020, 2021 e 2022Dá a disciplina de Gestão da Emoção na pós em Reabilitação Oral da FORP-USP, como professor convidadoResposta da USP ao Estadão, 10 de setembro de 2026
16 de fevereiro de 2023Fechamento da edição do livro da primeira turmaFolha de rosto, no sumário em PDF do Grupo GEN
30 de março de 2023Publicação do livro pela Editora Método, com "Programa de mestrado e doutorado da USP" na capaLoja do Grupo GEN
14 de fevereiro de 2024A Florida Christian University recebe "Candidate Status" da ABHE, estágio anterior ao credenciamentoPágina Licensure and Membership da universidade
6 de março de 2026O Internet Archive guarda a página da pós do site dele com "professor de pós-graduação da USP" no presenteWayback Machine
20 de abril de 2026A Folha ouve cinco psiquiatras sobre a Teoria da Inteligência Multifocal; nenhum conhece validaçãoFolha, réplica na Acessa.com
16 de julho de 2026O Observatório da Imprensa publica artigo de Rafael Simi apontando inconsistências no currículoObservatório da Imprensa
30 de julho de 2026Cury publica direito de resposta: DBA, "cursei disciplinas de mestrado", "uma disciplina integrou a pós-graduação da USP"Observatório da Imprensa
23 de agosto de 2026No debate da Band, diz "Fiz mestrado e doutorado e tive muito sucesso"Vídeo no canal do candidato, aos 2h26min38s
31 de agosto de 2026Pesquisa BTG/Nexus: Cury salta de 2% para 11% no primeiro turnoCitado pelo Estadão em 10 de setembro
1º de setembro de 2026A Folha publica que o plano de governo cita "doutorado em Psicologia Multifocal" e o Lattes registra DBAFolha, réplicas em A Tarde e Brasil 247
7 de setembro de 2026Na Jovem Pan, repete "Fiz mestrado e doutorado"Vídeo no YouTube, aos 59min58s
8 de setembro de 2026, 17h14O Internet Archive guarda a página da Academia de Gestão da Emoção com a mesma frase no presenteWayback Machine, 20h14 UTC
8 de setembro de 2026A matéria do Estadão é criada no sistema do jornal; os metadados registram uma primeira publicação às 15h02 do dia 10 e a versão final às 18h, com o mesmo título e o mesmo endereçoMetadados da página, lidos em 13 de setembro
9 de setembro de 2026Última cópia do site dele no Internet Archive antes da matériaWayback Machine
10 de setembro de 2026, 18hO Estadão publica a matéria de Melissa DuarteEstadão
10 de setembro de 2026, 18h35A Crítica, de Campo Grande, é o primeiro site a repercutirA Crítica
11 de setembro de 2026BNews, Brasil em Folhas, Terra Brasil Notícias, Liga da Notícia e outros repercutem; a assessoria não responde a nenhumOs sites citados
12 de setembro de 2026, 11h05Última atualização da ficha dele no TSE: ocupação "Escritor e Crítico", instrução "Superior completo"DivulgaCand
12 de setembro de 2026, 19h45O Blog do Magno publica a nota de repúdio e diz que Cury a divulgou "neste sábado"Blog do Magno
12 de setembro de 2026Eu leio os 3.838 comentários dos três posts de enquete do meu perfil e acho o ataque sobre a USP sem respostaMeu perfil no Instagram
13 de setembro de 2026Eu confiro a lista de 17 orientadores do programa (sem ele), tento abrir o site dele (fora do ar para mim) e publico esta matériaEsta matéria

Por que isso importa para quem vota nele

Eu li os 3.838 comentários dos três posts de enquete do meu perfil, de 30 de agosto, 4 de setembro e 11 de setembro, na sexta-feira, 12 de setembro. A maior parte é número e bandeira. Mas no meio tem argumento, e no meio dos argumentos tem ataque.

O ataque sobre a USP apareceu duas vezes. Uma foi assim, do perfil @edisonda.costa.12: "o Cury mentiu que era professor na USP ! Mentira !". A outra, do @patrickyuri1000: "Augusto Cury é mentiroso sobre a questão da pós dele". Nenhuma das duas recebeu resposta. Nenhum eleitor do Cury, dos centenas que comentam "70" em tudo, respondeu a esses dois. Ninguém tinha o que dizer.

Duas vezes em 3.838 é pouco. Mas o problema não é o tamanho de hoje. É que a resposta certa não existe na cabeça de quem defende ele. Quando isso chegar no grupo de WhatsApp da família, com o print do Estadão de um lado e o print da nota de repúdio do outro, a pessoa que vota no Cury vai ficar entre "ele mentiu" e "é fake news". As duas frases são erradas. E a pessoa não vai saber por quê.

Então aqui vai a resposta que cabe numa mensagem de WhatsApp, para quem precisar:

"Ele deu aula na USP em 2020, 2021 e 2022, como professor convidado. A USP confirmou isso ao Estadão. Tem até um livro da turma, de 2023, com 29 alunos. O erro é o site dele dizer que ele 'é' professor, quando deveria dizer que 'foi'. Não é professor concursado, nunca foi. A nota de repúdio que circula é de uma associação pequena e ela mesma admite que a matéria está certa."

Isso é o que dá para defender. O que não dá para defender é o "é" no site, o "fiz mestrado" na TV e o "doutorado em Psicologia" no plano de governo. Quem tentar defender essas três coisas vai perder a discussão, porque os documentos estão do outro lado.

E aqui vem a parte que me interessa como eleitor dele. Cury está entre 6% e 10% no primeiro turno, dependendo do instituto, e empata ou ganha do Lula no segundo turno em quatro de cinco pesquisas, como eu mostrei na matéria de ontem. O eleitor que faz essa conta é o que não quer Lula e não confia no Flávio. Esse eleitor precisa de um motivo para confiar no Cury. Currículo inflado tira exatamente isso. Ele não perde voto de quem já é do Lula. Ele perde voto de quem estava quase.

O que eu respondo no WhatsApp

Três mensagens vão chegar no seu grupo esta semana. Aqui vai uma resposta de duas linhas para cada uma. Copie e cole. Se quiserem a fonte, mande o link desta matéria.

Quando chegar "Cury mentiu sobre a USP":

Ele deu aula lá em 2020, 2021 e 2022, como professor convidado, e foi a própria USP que confirmou isso ao Estadão. O erro é o site dele escrever "é professor" quando devia escrever "foi". Verbo errado, aula verdadeira.

Quando chegar "Cury é professor da USP":

Foi, como convidado, numa disciplina de pós da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto, até 2022. Hoje ele não está entre os 17 orientadores do programa, e concursado da USP ele nunca foi.

Quando chegar "uma associação de imprensa desmentiu o Estadão":

A nota é da Associação Paulista de Imprensa, que tem um nome só no CNPJ e site vazio. Ela mesma escreve que a matéria "cumpre com os pré-requisitos" e que Cury "fora" professor. Ela briga com o título. O fato, ela confirma.

Uma regra para as três: responda com o fato e pare. Quem responde com xingamento no grupo da família perde a discussão mesmo estando certo.

O que ele deveria fazer

Eu não sou assessor dele. Mas eu faço isso de profissão, e a saída aqui é barata. São três coisas.

Corrigir o verbo no site. Trocar "é professor de pós-graduação da USP" por "foi professor convidado da pós-graduação da USP, em Ribeirão Preto, de 2020 a 2022". Uma linha. Se a campanha já fez isso depois de 10 de setembro, que mostre. O site está fora do ar para os meus acessos e a última cópia guardada é da véspera da matéria.

Publicar o comprovante da disciplina. A USP emite documento de participação de professor convidado. A campanha tem em mãos, ou consegue em um dia, um papel da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto dizendo o nome da disciplina, os anos e a condição. Com esse papel na mão, o assunto USP acaba. Sem ele, cada semana vai ter um print novo.

Responder ao jornal. O Estadão procurou a campanha antes de publicar e não teve resposta. Três sites menores procuraram depois e também não. A resposta que veio foi uma nota de terceiro, com erro de português e título que não bate com a matéria da internet. Se o Cury tem razão em parte, e tem, a hora de dizer isso com a própria voz era antes do fechamento da matéria. Ainda dá tempo, mas cada dia de silêncio confirma o lado errado.

E tem uma quarta coisa, que não é sobre a USP: parar de dizer "fiz mestrado" ao vivo. Ele mesmo escreveu que cursou disciplinas. Se ele repetir isso num debate, o adversário vai ler o texto dele de 30 de julho em voz alta.

O que eu penso, em primeira pessoa

Ele deu aula na USP. Isso é verdade e a USP confirma. Ele escreveu que "é" professor da USP. Isso é errado e a USP também confirma. As duas coisas cabem na mesma frase e a campanha dele passou três dias sem conseguir dizer a frase.

O que me incomoda não é o verbo. Verbo se corrige. O que me incomoda é o padrão. Um homem que vendeu mais de 40 milhões de livros e que está em terceiro na disputa pela Presidência não precisava de "professor da USP" no site, nem de "fiz mestrado" na TV, nem de "doutorado em Psicologia" no plano de governo. Ele tem medicina pela Famerp, tem 29 alunos de pós da USP que escreveram um livro coordenado por ele, tem um curso dado para a Polícia Federal. Isso era o bastante. Ele escolheu escrever mais do que tinha. E quem escreve mais do que tem, na eleição, entrega a faca para o outro lado.

Eu quero que ele ganhe. Por isso eu escrevi esta matéria antes que outra pessoa escrevesse pior.

O que eu tirei, e por quê

  1. "O Estadão trocou o título." Não achei prova. O título da web é o mesmo desde 10 de setembro, e a data de modificação da página não mudou. O título que a nota cita pode ser da edição impressa. Não confirmei e não vou escrever como se tivesse.
  2. As frases atribuídas à USP por sites menores, como "não corresponde a um vínculo atual ou permanente". Não estão na resposta que o Estadão publicou. Podem ser apuração própria ou paráfrase. Ficaram de fora.
  3. A resposta dele à Folha sobre a teoria, em abril. O trecho que eu tenho vem de uma réplica e pode estar cortado. Sem a frase inteira, não publico.
  4. Se ele foi "responsável" ou "colaborador" na disciplina. A USP disse só "convidado". O regimento prevê os dois. Eu acho mais provável colaborador, com a professora Alma Catirse como responsável, mas é dedução minha e está marcada como tal.
  5. Se a aula foi paga, presencial ou online. Nenhuma fonte. Não entrou.

Como conferir você mesmo

Eu não quero que você confie em mim. Quero que você abra as mesmas páginas que eu abri. São nove passos, e todos os links estão na lista de fontes no fim da matéria.

1. A matéria do Estadão. Abra o endereço do Estadão que está na lista de fontes. Leia o título. Aperte Ctrl+F (ou "buscar na página" no celular) e digite "universidades", no plural: não vai achar. Digite "convidado": vai achar duas vezes. Leia o parágrafo que começa com "Augusto Cury ministrou a disciplina" e vai até "O campus é o de Ribeirão Preto". Essa é a resposta da USP, inteira.

2. O site dele, guardado pelo Internet Archive. Abra o endereço web.archive.org que está na lista, com a data 20260908. É a cópia de 8 de setembro. Role até o fim da página, até a caixa "Quem será seu professor?". Leia a segunda frase. Depois volte ao topo e procure o preço: "12 X R$ 49,13 (ou R$ 475 à vista)". Se quiser ver a mesma frase seis meses antes, abra a outra cópia da lista, a de 6 de março de 2026, da página da pós.

3. O livro na editora. Abra a página do Grupo GEN que está na lista. Olhe a capa. Leia o subtítulo entre parênteses. Desça até a sinopse e procure "1ª turma". Se quiser os 29 nomes em letra legível, abra o PDF do sumário, também na lista.

4. O CNPJ na Receita. Abra o endereço da BrasilAPI que está na lista, que devolve o cadastro da Receita em texto puro. Procure "qsa": é o quadro de sócios e administradores. Vai ter um nome. Se preferir o site da Receita Federal, procure "consulta CNPJ" no buscador, digite 62.658.802/0001-40 e resolva o desafio da tela. O resultado é o mesmo.

5. A ficha dele no TSE. Abra o endereço do DivulgaCand que está na lista. Procure "Ocupação" e "Grau de instrução". Vai ler "Escritor e Crítico" e "Superior completo". Não vai ler "professor" nem "doutor".

6. Os orientadores da FORP. Abra a página de orientadores do programa de Reabilitação Oral, na lista. Conte os nomes: 17. Aperte Ctrl+F e digite "Cury". Zero.

7. O vídeo da Band. Abra o vídeo do debate que está na lista. Para pular direto ao trecho, acrescente "&t=8798s" no fim do endereço, que é 2h26min38s em segundos. Ouça "Fiz mestrado e doutorado".

8. O vídeo da Jovem Pan. Abra o vídeo de 7 de setembro que está na lista e acrescente "&t=3598s" no fim do endereço, que é 59min58s. Ouça a mesma frase. Depois volte para 54min01s e ouça onde ele diz que se formou.

9. A nota de repúdio e o regimento. A íntegra da nota está no Blog do Magno, na lista, e nas duas imagens desta matéria. O regimento da pós-graduação da USP está no site de normas da universidade, também na lista: procure "Artigo 64" e "XIX".

Se em algum desses nove passos você encontrar algo diferente do que eu escrevi, me mande no direct com o print. Eu corrijo e ponho a data da correção.

Perguntas que chegam nos comentários

Cury é professor da USP?

Não, hoje. Ele foi professor convidado de uma disciplina da pós-graduação da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto em 2020, 2021 e 2022, segundo a USP. Não é concursado, não tem cargo e não está entre os 17 orientadores do programa. O site dele diz "é". O verbo certo é "foi".

Cury mentiu sobre a USP?

Ele deu aula lá, e isso a USP confirma. O que está errado é o tempo do verbo no site, que diz "é professor" quatro anos depois de a aula acabar, e a falta de data no plano de governo. Se isso é mentira ou descuido, quem decide é você. Eu mostro o que ele escreveu e o que a USP respondeu.

O que é professor convidado?

É alguém de fora que a universidade chama para dar uma disciplina ou parte dela, por um tempo. Não faz concurso, não ganha cargo, não vira funcionário e sai quando a disciplina acaba. O regimento da USP prevê isso nos artigos 35 e 64. Professor da USP, no sentido comum, é o concursado.

A nota de repúdio vale?

Ela existe e é assinada por Sérgio de Azevedo Redó, presidente da Associação Paulista de Imprensa, uma entidade de 1933 que hoje tem site vazio, mandato vencido e um único nome no CNPJ. A nota admite que a matéria está correta, usa o passado ("lecionou") e ataca um título que não está na versão web. Nenhum veículo grande a repercutiu.

Cury tem doutorado?

Ele tem um DBA, doutorado em administração de empresas, pela Florida Christian University, de 2010 a 2013. A universidade escrevia no próprio catálogo de 2020-2021 que não era credenciada por agência aprovada pelo governo americano. Ele escreveu que não apresenta isso como doutorado em Psicologia. O plano de governo dele no TSE chama de "doutorado em Psicologia Multifocal". Não encontrei reconhecimento do título no Brasil.

O Estadão errou?

O corpo da matéria está certo, e até a nota de repúdio admite. O título diz "universidade desmente", e a USP desmentiu o vínculo atual, que é o que o site afirma. Quem lê só o título pode entender que ele nunca deu aula lá, e isso seria errado. O texto deixa claro que ele deu. Título forte, matéria correta.

A nota de repúdio é falsa?

Não achei sinal de montagem. O texto do print bate palavra por palavra com a íntegra publicada pelo Blog do Magno em 12 de setembro, o CNPJ e o endereço do timbre batem com a Receita, e o nome de quem assina é o do presidente que consta no cadastro. O que não existe é a nota num canal da própria entidade: site, YouTube ou redes. E a nota não tem data nem assinatura à mão. Ela é verossímil como documento. O que ela não é, é pesada.

Quem é Sérgio de Azevedo Redó?

Advogado (OAB/SP 70.698), jornalista (MTb 073957) e administrador, presidente da Associação Paulista de Imprensa desde 2009 e único nome no CNPJ dela desde 2010. Pelo currículo que ele mesmo publica, foi assessor do deputado Flávio Marcílio (PDS) em 1983 e 1984, presidiu a Anhembi na gestão Maluf e passou pela Câmara Municipal de São Paulo em 2005. Dois jornalistas o acusam desde 2016 de mandato vencido e sumiço de acervo; ele os processou; não achei sentença. Ligação dele com Cury ou com o Avante: nenhuma encontrada.

O livro prova que ele é professor da USP?

Prova que a disciplina existiu dentro do programa de mestrado e doutorado da USP e que teve uma turma de 29 alunos, organizada por uma professora da casa. Não prova vínculo hoje: o livro é de março de 2023, fala da primeira turma, e a USP diz que a última aula foi em 2022. Também não prova credenciamento: a lista de orientadores do programa tem 17 nomes e o dele não está.

Por que a nota cita um título que não existe?

Eu não sei. Pode ser o título da edição impressa de 11 de setembro ou de um card. Não confirmei. Na internet, o título é outro desde o dia 10 e não mudou.

A frase "professor da USP" ele já disse em vídeo?

Em 12 vídeos de 2026 que eu li, nunca. Ela só aparece no site que vende os cursos dele e no plano de governo. O que ele diz em vídeo, na Band e na Jovem Pan, é "fiz mestrado e doutorado", e essa frase é a que não bate com o que ele mesmo escreveu em julho.

Eu sou de direita e continuo sendo

E continuo lendo o documento antes de defender o meu candidato.

Cury deu aula na USP. Cury não é professor da USP. As duas frases são verdadeiras ao mesmo tempo, e quem só grita uma delas está enganando você. Faltam 21 dias para a urna.

Eu volto a cada passo, com fonte.

Fontes desta materia

  1. Estadão, Melissa Duarte, Augusto Cury se apresenta como professor de pós-graduação da USP, mas universidade desmente, 10 de setembro de 2026, 18h
  2. Site augustocury.com.br, página Academia de Gestão da Emoção, cópia do Wayback Machine de 8 de setembro de 2026
  3. Site augustocury.com.br, página da Pós-Graduação em Gestão da Emoção 2025, cópia do Wayback Machine de 6 de março de 2026
  4. TSE, DivulgaCandContas, ficha do candidato Augusto Jorge Cury, atualizada em 12 de setembro de 2026
  5. TSE, plano de governo de Augusto Cury, PDF de 200 páginas, não acessado diretamente (erro 403)
  6. Observatório da Imprensa, Augusto Cury, direito de resposta a artigo publicado em 16 de julho de 2026, 30 de julho de 2026
  7. USP, Regimento da Pós-Graduação, Resolução CoPGr 7493, de 27 de março de 2018, texto consolidado
  8. USP, Programa de Pós-Graduação em Odontologia (Reabilitação Oral), lista de orientadores credenciados, acessada em 13 de setembro de 2026
  9. USP, Pró-Reitoria de Pós-Graduação, ficha do programa Odontologia (Reabilitação Oral)
  10. Grupo GEN / Editora Método, loja da editora, página do livro Gestão da Emoção para a Formação de Professores Brilhantes, 2023, ISBN 9786559641895, publicado em 30 de março de 2023, R$ 145,80, com a capa e a sinopse, lida em 13 de setembro de 2026
  11. Grupo GEN, sumário em PDF do livro, com a folha de rosto e os 29 autores
  12. FORP-USP, Comissão de Relações Internacionais, com a professora Alma Elizaur Catirse
  13. Blog do Magno, Augusto Cury divulga nota de repúdio a reportagem do Estadão sobre vínculo com a USP, 12 de setembro de 2026, 19h45
  14. Associação Paulista de Imprensa, site oficial, páginas de história, diretoria, notícias e contato, acessadas em 13 de setembro de 2026
  15. Receita Federal via BrasilAPI, CNPJ 62.658.802/0001-40 da Associação Paulista de Imprensa
  16. Conselho da Comunidade Luso-Brasileira do Estado de SP, currículo de Sérgio de Azevedo Redó
  17. FENAI, Federação Nacional da Imprensa, diretoria
  18. YouTube, Programa Sala de Imprensa, feed com o último vídeo publicado em 19 de agosto de 2020
  19. Edna Santos, LinkedIn, Sérgio Redó processa jornalistas que revelaram fraudes na API, 20 de agosto de 2016
  20. Jusbrasil, MP investiga Sérgio Redó pelo sumiço de patrimônio da API, 2016
  21. Blog de Edna Santos, Sérgio Redó põe diretores sob suspeita na API, 25 de agosto de 2017
  22. Jornalistas&Cia, edição 1.577, de 19 a 25 de agosto de 2026, seção Vaivém das Redações, sobre a chegada de Melissa Duarte ao Estadão
  23. JOTA, perfil de Melissa Duarte
  24. Metrópoles, perfil de Melissa Duarte
  25. A Crítica, Cury se apresenta como professor da USP, mas universidade diz que atuação terminou em 2022, 10 de setembro de 2026
  26. Sampi / JCNET, Augusto Cury diz ser professor da USP, mas universidade nega, 10 de setembro de 2026
  27. BNews, USP contesta Augusto Cury após candidato à Presidência se apresentar como professor, 11 de setembro de 2026
  28. Brasil em Folhas, USP nega que Augusto Cury seja professor de pós-graduação, 2026
  29. Rádio Liberdade, Presidenciável Augusto Cury diz lecionar na USP, mas universidade desmente, 12 de setembro de 2026
  30. Debate presidencial da Band, 23 de agosto de 2026, vídeo no canal do candidato, trecho aos 2h26min38s
  31. Jovem Pan News, entrevista com Augusto Cury publicada em 7 de setembro de 2026, trechos aos 54min01s e aos 59min58s
  32. Jovem Pan, programa Direto ao Ponto, entrevista com Augusto Cury, 25 de maio de 2026, trecho aos 51min38s
  33. Pablo Marçal, entrevista com Augusto Cury, vídeo de 27 de agosto de 2026
  34. Jornal Nacional, entrevista com Augusto Cury, 29 de agosto de 2026, réplica em canal de terceiros
  35. Estado de Minas, Autor de livros de inteligência emocional, Cury se irrita em sabatina, 29 de agosto de 2026
  36. CNN 360º, entrevista com Augusto Cury, 2026
  37. CNN Eleições, entrevista com Augusto Cury, 2026
  38. RedeTV, entrevista com Augusto Cury, 2026
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  60. Thiago Süssekind, Quem é Augusto Cury, 6 de setembro de 2026
  61. Instagram @augustocury, biografia do perfil lida em 13 de setembro de 2026
  62. Meu perfil @euthiagodecastro, os três posts de enquete de 30 de agosto, 4 de setembro e 11 de setembro de 2026, com 3.838 comentários lidos em 12 de setembro