Todo mundo tem opinião sobre esse candidato. Quase ninguém abriu o documento.
O plano de governo chama O Brasil dos Nossos Sonhos, tem 200 páginas, apresenta 18 projetos e está protocolado no Tribunal Superior Eleitoral. É público, e sempre foi. Candidato a presidente é obrigado por lei, o artigo 11 da Lei 9.504, a registrar as propostas junto com o pedido de candidatura, e o arquivo fica disponível para qualquer pessoa baixar.
Eu li as 200 páginas. Abaixo estão os 18 projetos, o que o plano diz sobre a estrutura do Estado, o que achei forte, e principalmente o que o documento não responde.
Os 18 projetos, um por um
Educação
1. A Revolução da Educação. Escola em tempo integral, com o aluno passando o dia inteiro na escola e três matérias novas no currículo: controle emocional, educação financeira e noções de empreendedorismo. O plano chama de "gestão da emoção e inteligência multifocal na grade curricular", e essa é a marca dele.
2. Brasil Neuroinclusivo. Política nacional para autistas e neurodivergentes, cobrindo desde a sala de aula até a contratação no mercado de trabalho.
Proteção e trabalho
3. Mulheres Vivas. Um aplicativo de socorro no celular da mulher ameaçada, ligado a uma rede de proteção acionada na hora. É o projeto que ficou conhecido pela parte dos drones, mas o eixo dele é o aplicativo, e um sistema parecido já funciona no Paraná.
4. Ministério do Empreendedorismo e da Economia Distribuída. Uma pasta dedicada a quem gera emprego, com a meta declarada de chegar a 10 milhões de microempresas.
Escola e água
5. Comunidades Empreendedoras. Clube de negócios dentro da escola pública.
6. Brasil Oásis. Água no semiárido tratada como obra permanente de Estado.
Estrada e comida
7. BEE, Brasil Empreendedor nas Estradas. Turismo e comércio na beira das rodovias.
8. Agroindústria Brasil. Instalar 10 mil agroindústrias em oito anos, para o alimento sair do país já industrializado.
Crédito e comércio exterior
9. BCOO, Brasil Cooperativismo. Cooperativa como caminho de crédito.
10. Brasil Exportador. Dobrar o comércio do Brasil com o mundo em oito anos.
11. Embaixadas Empreendedoras. Embaixada trabalhando para abrir mercado para empresa daqui. Escrevi sobre isso na matéria da diplomacia digital.
12. Plano de Combate Mundial da Fome.
Saúde
13. Tele Saúde Brasil. Consulta por vídeo para 80% das consultas básicas do SUS. É a proposta mais ambiciosa e a mais questionada, e tem matéria própria.
14. Prevenção e Detecção Precoce do Câncer.
Energia e minerais
15. Energias Renováveis do Brasil, incluindo hidrogênio verde.
16. PETRA BR, Terras Raras e Minerais Estratégicos. Regra e controle nacional sobre os minerais que o mundo disputa.
Floresta e segurança
17. Floresta Viva. Combate e prevenção de incêndio florestal.
18. FATO, Força Alerta Total. Polícia Federal, civil e militar no mesmo sistema de informação.
O que o plano diz sobre a estrutura do Estado
Aqui está a parte que quase não apareceu na cobertura, e que é a mais pesada do documento. Além dos 18 projetos, o plano propõe mudar o desenho do poder:
| Proposta | O que significa | O que exige |
|---|---|---|
| Semipresidencialismo | O presidente mantém as atribuições estratégicas da Constituição; a condução administrativa fica com um primeiro-ministro apoiado pela maioria do Parlamento | Emenda constitucional |
| Fim da reeleição | Mandato único para presidente | Emenda constitucional |
| Mudança na composição do STF | Alteração no modo de escolha ou no número de ministros | Emenda constitucional |
| Recriação do Ministério da Segurança Pública | Pasta separada da Justiça | Lei ordinária |
| Corte de 8 a 10 ministérios | Dito na sabatina; o plano fala em "estudar a redução" | Lei ordinária |
| Corte de 30% dos cargos de confiança | Redução dos comissionados | Decreto e lei |
Uma pausa antes da crítica
Releia os dezoito. Concorde ou discorde de cada um, mas repare em duas coisas.
A primeira: você acabou de ler um plano de governo inteiro em poucos minutos. Quando foi a última vez que alguém te apresentou um?
A segunda: o "ministério da inteligência artificial" que virou piada não está entre os 18 projetos. Ele foi mencionado por Cury na sabatina do Jornal Nacional, em 29 de agosto, junto com a proposta de substituir parte dos servidores comissionados por IA e de formar 10 mil doutores na área. Mas não consta como projeto no documento registrado. Quem debateu o plano pela piada debateu uma coisa que não está no plano. Escrevi sobre o que existe de verdade na matéria dos R$ 23 bilhões.
O que eu achei mais forte, e isto é opinião
Marco como opinião porque é opinião.
Tele Saúde Brasil, porque tira gente da fila sem precisar construir hospital novo. Com a ressalva de que 80% é um número que a regra do CFM não permite hoje.
PETRA BR, pelo motivo que expliquei na matéria sobre a venda da mina de terras raras: o mundo disputa esses minerais, eles estão embaixo do nosso pé, e hoje o Brasil arrecada quase nada com eles.
FATO, porque o crime organizado já opera em escala nacional enquanto a inteligência policial ainda é fragmentada por estado.
Agora o que falta, porque aqui não se passa pano
O documento tem quatro lacunas sérias, e todas as quatro decidem se o plano sai do papel.
1. Fala em cortar ministérios sem dizer quais. O plano promete estudar a redução. Na sabatina, ele disse de 8 a 10. Não nomeia pastas, não estima economia, e ao mesmo tempo propõe criar duas: Empreendedorismo e Segurança Pública. A conta não fecha enquanto os nomes não vierem.
2. Vários projetos aparecem sem custo estimado. Plano sem preço é desejo, não plano. Sem a conta, não há como o eleitor avaliar se cabe no orçamento nem cobrar depois.
3. Não diz quem paga o tempo integral. É o item mais caro da lista inteira. Escola em tempo integral exige prédio, professor, merenda e transporte em outra escala. O documento não mostra de onde sai o dinheiro.
4. Não existe ordem de prioridade. Se o Congresso travar metade dos projetos, o plano não diz quais vêm primeiro. E travar metade é o cenário normal: presidente nenhum aprova tudo o que propõe.
O choque de escala
Isso não é defesa do candidato. Vale para qualquer um: quando a discussão pública inteira cabe numa piada, quem decide o voto está decidindo sobre a piada.
Perguntas que chegam nos comentários
Onde está o plano de governo de Augusto Cury?
No DivulgaCandContas, do TSE, na área de divulgação de candidaturas. Chama "O Brasil dos Nossos Sonhos", tem 200 páginas e 18 projetos. É público e qualquer pessoa pode baixar.
Augusto Cury propõe semipresidencialismo?
Sim. O presidente manteria as atribuições estratégicas e um primeiro-ministro, com apoio da maioria do Congresso, conduziria a administração. Depende de emenda constitucional, com três quintos da Câmara e do Senado em dois turnos.
Cury quer acabar com a reeleição?
Sim, o plano propõe o fim da reeleição presidencial. Também depende de emenda constitucional.
O plano de Cury tem o Ministério da Inteligência Artificial?
Não. O ministério foi citado por ele na sabatina do Jornal Nacional, em 29 de agosto, mas não consta entre os 18 projetos do documento registrado no TSE.
Quais ministérios Cury quer cortar?
Ele diz de 8 a 10, mas não nomeia quais. O plano fala em "estudar a redução". Ao mesmo tempo, propõe criar o Ministério do Empreendedorismo e recriar o da Segurança Pública.
O plano de governo de Cury tem erro?
Sim, um apontado pela imprensa: cita doutorado em Psicologia Multifocal, enquanto o Lattes dele registra PhD em Administração de Empresas pela mesma universidade. A campanha não explicou.
Se você discorda de algum dos 18, ótimo, e é assim que deveria ser. Só discorde com o número na mão: "o projeto 8 não funciona porque a agroindústria depende de crédito que não existe" é debate. Rir do robô é preguiça.
País adulto discute papel, não piada. Quem leu, opina. Quem não leu, repete.
Leia também: 10 razões para não votar em Augusto Cury, eu fui checar as dez e Cury é de direita ou de esquerda?






