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Política / 1 de setembro de 2026

Eu fui checar

Riram do ministério de IA. O Brasil já tem um plano de R$ 23 bilhões rodando, e ninguém responde por ele

O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial está em vigor até 2028, com cinco eixos, valores definidos e um supercomputador prometido entre os cinco maiores do mundo. A proposta de Augusto Cury na sabatina do Jornal Nacional virou piada em 24 horas. Eu fui ver o que o país já gasta, quem cuida disso hoje, o que outros países fizeram e o que joga contra criar uma pasta nova.

Publicado
1 de setembro de 2026
Atualizado
5 de setembro de 2026
Editoria
Política
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7 min
Fontes
9 citadas
Foto de arquivo usada no carrossel original
Foto de arquivo usada no carrossel original

Na sabatina do Jornal Nacional, em 29 de agosto, Augusto Cury propôs criar um Ministério da Robótica e da Inteligência Artificial. Em poucas horas virou "ministério de robô" e "pasta do ChatGPT" nos grupos de WhatsApp.

Quem riu da embalagem provavelmente não sabe de uma coisa: o Brasil já tem uma política de inteligência artificial em execução, com orçamento definido, valendo até 2028. Ela só não tem dono.

O plano que já existe

Chama Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, o PBIA. Foi lançado em julho de 2024, coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação com apoio técnico do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, e vale de 2024 a 2028.

E aqui está a primeira correção que preciso fazer, porque circula errado até em quem defende o tema: esses R$ 23 bilhões não são todos do seu imposto. O valor soma fontes diferentes:

FonteValor previsto
FNDCT e BNDES, o fundo de ciência e o banco de fomentoR$ 12,72 bilhões
Empresas estatais, outros fundos e iniciativa privadaO restante, até R$ 23 bilhões

Mais da metade vem de fundo público e de crédito do BNDES. O resto depende de empresa entrar com a parte dela, o que é a parcela menos garantida do plano.

Para onde vai, eixo por eixo

Este detalhamento quase não aparece na cobertura, e é o que mostra a natureza do plano.

Distribuição do PBIA por eixo, em bilhões de reais

IA para inovação empresarial13,79
Infraestrutura e desenvolvimento5,79
IA em serviços públicos1,76
Difusão e capacitação1,15
Ações de impacto imediato0,43

Fontes: MCTI, TeleTime e Correio Braziliense

Repare na proporção: 60% do total está no eixo de inovação empresarial. O eixo de capacitação de pessoas, que é o que decide se o país terá gente formada para operar isso, recebe cerca de 5%.

Entre as metas declaradas está a compra de um supercomputador entre os cinco mais potentes do mundo, para ampliar a capacidade nacional de processamento. Hoje o maior supercomputador público do país é o Santos Dumont, no Laboratório Nacional de Computação Científica, em Petrópolis, e ele está longe do topo da lista mundial.

O que Cury propôs, palavra por palavra

Vale separar o que ele disse do que virou meme. Na sabatina do JN e na sabatina seguinte, ele juntou três coisas:

  1. Um ministério ou órgão central de Robótica e Inteligência Artificial.
  2. Formar 10 mil doutores na área.
  3. Reduzir cargos comissionados com o uso de IA na máquina pública, tema que tem matéria própria.

Agora o detalhe que mais importa para quem quer discutir com seriedade: o ministério não está no plano de governo registrado no TSE. O documento tem 18 projetos, e nenhum deles é esse. A proposta existe como fala de sabatina, não como projeto protocolado. Eu li as 200 páginas e listei os 18 na matéria do plano de governo.

Então qual é a pergunta de verdade

Não é se o Brasil vai ter política de inteligência artificial. Essa decisão já foi tomada, o plano existe e o dinheiro está previsto.

A pergunta é: quem responde por ele?

Hoje a execução está distribuída entre pastas diferentes: Ciência e Tecnologia coordena, Educação cuida da formação, Fazenda e BNDES cuidam do crédito, e a Casa Civil cuida da regulação. Não há uma única autoridade com nome e sobrenome respondendo pelo conjunto, nem meta pública consolidada de resultado.

Como está hojeO que a proposta prevê
Verba distribuída entre várias pastasUm gabinete responsável pelo conjunto
Ninguém responde pelo todoMeta com prazo e cobrança
Sem indicador público consolidadoAlguém a quem cobrar resultado

Você pode discordar do formato, e existe argumento técnico para isso. Mas chamar de maluquice a ideia de dar gestor a R$ 23 bilhões que já estão planejados é discutir sem saber que o dinheiro existe.

Como outros países resolveram isso

País ou blocoComo organizouDesde quando
União EuropeiaLei própria, o AI Act, e um Escritório Europeu de IA dentro da Comissão para fiscalizá-la2024
ChinaRegras de IA generativa editadas pela Administração do Ciberespaço, órgão central2023
Estados UnidosSem órgão único; ordens executivas da Casa Branca centralizam as regras e um escritório na Casa Branca coordena2023
Reino UnidoInstituto de Segurança em IA ligado ao governo2023
BrasilPlano com R$ 23 bilhões previstos e gestão distribuída entre pastas2024

Repare: nenhum desses países criou um ministério. Todos criaram um órgão ou escritório com autoridade sobre o tema. Lá fora, a discussão já não é se precisa haver alguém no comando. É quanto investir e com que regra.

Perguntas que chegam nos comentários

O Brasil já tem um plano de inteligência artificial?

Sim. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, o PBIA, foi lançado em julho de 2024 pelo MCTI e prevê R$ 23 bilhões até 2028, em cinco eixos. Está em execução.

Os R$ 23 bilhões são dinheiro público?

Parte. R$ 12,72 bilhões vêm do FNDCT e do BNDES. O restante depende de estatais, outros fundos e empresas privadas.

Augusto Cury quer criar um Ministério da Inteligência Artificial?

Ele defendeu isso na sabatina do Jornal Nacional, em 29 de agosto de 2026. Mas o ministério não consta entre os 18 projetos do plano de governo registrado no TSE.

Algum país tem ministério de IA?

Nenhum dos grandes. União Europeia, China, Estados Unidos e Reino Unido criaram órgãos ou escritórios com autoridade sobre o tema, sem criar ministério.

Quem cuida da política de IA no Brasil hoje?

A coordenação é do MCTI, mas a execução está dividida com Educação, Fazenda, BNDES e Casa Civil. Não há uma autoridade única nem meta pública consolidada de resultado.

O que sobra desta história

Uma proposta virou piada em 24 horas sem que quase ninguém soubesse que existe um plano de R$ 23 bilhões em execução no país.

Isso diz menos sobre a proposta do que sobre o debate. Dá para ser contra o ministério com bons argumentos, e eles estão listados acima. Só que para usá-los é preciso primeiro saber que o dinheiro existe, e que ele hoje não tem gestor único.

Leia também: As manchetes disseram que ele quer demitir servidor e Riram do drone, eu fui ver o que existe.

Fontes desta materia

  1. MCTI, Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024-2028, texto integral
  2. Correio Braziliense, Brasil investirá R$ 23 bilhões em IA até 2028
  3. TeleTime, os eixos e valores do plano
  4. CREA-RJ, versão final do plano
  5. Metrópoles, no JN, Cury defende Ministério da IA e drones contra feminicídio
  6. Diário de Goiás, em sabatina, Cury defende órgão para IA e fim de ministérios
  7. Comissão Europeia, o Escritório Europeu de IA
  8. TSE, DivulgaCandContas, plano de governo registrado
  9. Portal da Transparência, execução orçamentária por programa