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Checagem / 2 de setembro de 2026

Eu fui checar

Augusto Cury vai soltar o Bolsonaro? A frase inteira, a lei que já existe e quem decide de verdade

Perguntam isso todo dia nos comentários, dos dois lados. Fui atrás das três falas públicas dele sobre anistia, com data e veículo. A resposta honesta não é sim nem não. E tem três coisas que mudam a conversa: a Lei da Dosimetria, que o Congresso já aprovou e o Supremo já suspendeu; a pena de 27 anos que Bolsonaro cumpre em casa; e o detalhe constitucional de quem pode anistiar.

Publicado
2 de setembro de 2026
Atualizado
5 de setembro de 2026
Editoria
Checagem
Leitura
7 min
Fontes
13 citadas
Foto de arquivo usada no carrossel original
Foto de arquivo usada no carrossel original

Essa pergunta aparece todo dia nos comentários, dos dois lados. Quem é contra anistia quer saber. Quem é a favor também. E quase ninguém foi atrás do que ele efetivamente disse, nem do que já está em vigor, nem de quem pode decidir.

Fui atrás das três coisas. Primeiro as falas, inteiras, sem corte. Depois a lei que já existe. Depois a Constituição.

As três falas de Augusto Cury sobre anistia, com data

1. Na CNN, em 28 de abril de 2026, sobre os presos do 8 de janeiro

"Eu daria anistia para quase todos que estão ali. Eu não sei se daria para todos, para aqueles que são cabeças."

Augusto Cury, CNN 360º, 28 de abril de 2026.

Traduzindo sem rodeio: para a maioria dos condenados, ele promete perdão. Para os que ele chama de cabeças, deixou em aberto. Uma algema ele prometeu abrir. A outra, não.

2. Na mesma entrevista, sobre Bolsonaro

"Jair Bolsonaro eu analisaria. Muito provavelmente, se eu estivesse convencido, com uma equipe de pessoas, de que ele não cometeu crime o suficiente para estar encarcerado, eu provavelmente o libertaria."

Augusto Cury, CNN 360º, 28 de abril de 2026.

Palavra por palavra, na mesma conversa. Ao Correio Braziliense, em maio, ele acrescentou que a decisão dependeria estritamente de "segurança jurídica", porque não conhecia o processo a fundo.

3. Em agosto, a etapa a mais

Se eleito, convocaria juristas brasileiros e estrangeiros para analisar possíveis falhas nos julgamentos do 8 de janeiro antes de decidir qualquer coisa sobre Bolsonaro.

Repare no que isso faz com a promessa. Ela ganhou uma condição a mais, não uma certeza a mais. Primeiro os juristas, só depois a decisão.

Então a resposta honesta é essa

Não é sim. Não é não. É "vou analisar", com inclinação declarada a soltar caso a análise o convença.

Quem dizEstá
"Cury prometeu soltar o Bolsonaro"errado
"Cury descartou soltar o Bolsonaro"errado
"Cury disse que analisaria, com juristas, e que provavelmente soltaria se ficasse convencido"certo, palavra por palavra

O que já existe: a Lei da Dosimetria

Aqui é a parte que quase ninguém junta com a pergunta. O Congresso já aprovou uma lei que reduz as penas do 8 de janeiro. Ela tem número, data e uma história de idas e vindas.

DataO que aconteceu
8 de dezembro de 2025A Câmara aprova o PL 2.162/2023, o PL da Dosimetria
17 de dezembro de 2025O Senado aprova, por 48 votos a 25
8 de janeiro de 2026O presidente Lula veta o projeto
maio de 2026O Congresso derruba o veto
8 de maio de 2026Davi Alcolumbre promulga a Lei 15.402
9 de maio de 2026O Supremo suspende a lei em liminar, um dia depois

Traduzindo: a lei que reduz as penas existe, está promulgada e está suspensa. Ela não dá anistia, que é perdão. Dá redução de pena, que é desconto. Beneficia Bolsonaro e os demais condenados, se voltar a valer. E a decisão sobre se ela vale está no Supremo, não no Planalto.

Isso muda a pergunta do título. Quem for eleito em outubro não começa do zero: herda uma lei aprovada por dois terços do Congresso e travada pelo Supremo. O próximo presidente vai ter que lidar com isso antes de qualquer juíza ou jurista estrangeiro.

A situação de Bolsonaro hoje

Para a pergunta "vai soltar" fazer sentido, você precisa saber de onde ele seria solto.

27 anos e 3 mesesde prisãopena em regime fechado, decidida pela Primeira Turma do STF em setembro de 2025
22 de novembro de 2025prisãona Superintendência da Polícia Federal
15 de janeiro de 2026transferênciapara a Papudinha, no Complexo da Papuda
março de 2026prisão domiciliarhumanitária, por 90 dias, após internação por broncopneumonia

STF, Agência Brasil, cobertura de 2025 e 2026

Em 4 de julho de 2026, Moraes manteve a prisão domiciliar, sem prazo para o retorno à cela, que segue reservada. Ele cumpre a pena em casa, com tornozeleira eletrônica, sem porte de arma. É a última situação que eu consegui confirmar em fonte, e eu atualizo aqui se mudar.

O detalhe que quase ninguém explica

E este muda a conversa inteira.

Ou seja: mesmo que ele queira, mesmo que os juristas digam sim, a anistia depende de uma votação no Congresso. E a Lei da Dosimetria mostra o que acontece depois da votação: o Supremo pode suspender.

E aqui está a parte prática para você. No dia 4 de outubro você vota na mesma urna, no mesmo dia, para presidente e para o Congresso. O seu voto para deputado e senador pesa nessa questão tanto quanto o voto para presidente. Talvez mais.

O que isso significa para cada lado

Se anistia é linha vermelha para você, aqui está o alerta, com a frase e a data.

Se é exatamente o que você espera, então é uma promessa que só abre com três chaves: a análise dos juristas, os votos no Congresso e o Supremo não derrubar.

Nos dois casos, vale registrar: ele não escondeu o que pensa. Respondeu com uma frase que dá para citar. Clareza também é informação.

O que ficou de fora, e por quê

  1. Dizer que Bolsonaro "está preso" ou "está solto". Ele cumpre pena de 27 anos em prisão domiciliar humanitária. As duas frases curtas são falsas.
  2. A situação depois de 4 de julho. É a última confirmação que achei em fonte. Não afirmo o que não confirmei.
  3. Se a Lei da Dosimetria é constitucional. Há advogados dizendo que não, no ConJur. O Supremo vai decidir. Eu registro que está suspensa e não opino.

Perguntas que chegam nos comentários

Augusto Cury prometeu soltar o Bolsonaro?

Não. Ele disse, na CNN em 28 de abril de 2026, que "analisaria" e "provavelmente" o libertaria se ficasse convencido de que não houve crime suficiente. Em agosto acrescentou que convocaria juristas antes de decidir. É inclinação declarada com condições, não promessa.

Presidente pode dar anistia?

Não sozinho. Anistia é lei, e quem vota lei é o Congresso, pelo artigo 48 da Constituição. O presidente pode conceder indulto por decreto, caso a caso, e o Supremo pode derrubar tanto a lei quanto o indulto.

Qual é a pena de Bolsonaro?

27 anos e 3 meses de prisão em regime fechado, decididos pela Primeira Turma do STF em setembro de 2025. Desde março de 2026 ele cumpre a pena em prisão domiciliar humanitária, mantida por Moraes em 4 de julho.

O que é a Lei da Dosimetria?

A Lei 15.402, de 2026, que reduz as penas dos condenados pelo 8 de janeiro, inclusive Bolsonaro. Foi aprovada pela Câmara e pelo Senado, vetada por Lula, teve o veto derrubado, foi promulgada em 8 de maio e suspensa pelo Supremo no dia seguinte. Não é anistia: é redução de pena.

O que Cury disse sobre os presos do 8 de janeiro?

Que daria anistia "para quase todos", com dúvida sobre "os cabeças". CNN 360º, 28 de abril de 2026.

Se ele mudar de posição

Eu volto aqui e conto, com data e fonte. E se a Lei da Dosimetria voltar a valer ou cair de vez, também.

Leia também: Cury é de direita ou de esquerda? e Cury chamaria gente do governo Lula?

Fontes desta materia

  1. CNN Brasil, daria perdão a quase todos envolvidos no 8 de janeiro, diz Cury à CNN 360º, 28 de abril de 2026
  2. Correio Braziliense, Cury defende anistia para o 8 de janeiro e diz considerar medida para Bolsonaro
  3. Vero Notícias, Cury promete consultar juristas sobre anistia a Bolsonaro
  4. CNN Brasil, Senado aprova PL da Dosimetria e projeto vai à sanção
  5. Senado Notícias, promulgada lei que possibilita redução de penas pelo 8 de janeiro, 8 de maio de 2026
  6. Estado de Minas, Lei da Dosimetria: entenda a lei vetada por Lula e promulgada pelo Congresso
  7. STF, tribunal recebe primeiras ações contra a Lei da Dosimetria
  8. ConJur, a inconstitucionalidade da Lei 15.402 e a dosimetria pelo Legislativo
  9. Agência Brasil, STF condena Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão
  10. STF, tribunal concede prisão domiciliar temporária ao ex-presidente
  11. Diário do Grande ABC, Moraes mantém a prisão domiciliar de Bolsonaro, 4 de julho de 2026
  12. Constituição Federal, artigo 48, inciso VIII, competência do Congresso para conceder anistia
  13. TSE, calendário eleitoral de 2026