Tem uma frase que aparece toda semana nos meus comentários: "esse candidato não tem tempo de TV, não adianta nada".
Eu resolvi ir ver se é verdade.
Levantei as oito eleições presidenciais que o Brasil teve desde 1989, comparei o tempo de televisão de cada candidato com o resultado da urna, e cheguei numa resposta que serve tanto para quem usa esse argumento quanto para quem odeia ele.
Começo pelo caso que todo mundo cita e quase ninguém confere.
O ponto de partida: 8 segundos
Em 2018, o horário eleitoral gratuito para presidente tinha um bloco de 12 minutos e 30 segundos por dia, dividido entre os candidatos. A divisão não é por igual: ela segue o tamanho dos partidos que apoiam cada candidatura na Câmara dos Deputados.
Ficou assim:
| Candidato | Partido | Tempo por bloco |
|---|---|---|
| Geraldo Alckmin | PSDB | 5 min e 32 s |
| Fernando Haddad | PT | 2 min e 23 s |
| Jair Bolsonaro | PSL | 8 segundos |
Oito segundos. O tempo de falar o nome, mostrar o número e sair do ar.
Para cada segundo que o Bolsonaro tinha, o Alckmin tinha 41.
Uma ressalva que quase ninguém faz, e eu faço
Esses 8 segundos são por bloco, e havia mais de uma inserção por dia. Se você somar o dia inteiro, o número muda: reportagens da época falam em cerca de 18 segundos diários para o Bolsonaro e cerca de 11 minutos para o Alckmin.
Os dois números estão certos. Eles medem coisas diferentes. Nesta matéria eu uso a medida por bloco do começo ao fim, que é a da tabela oficial divulgada pelo TSE e reproduzida pela Gazeta do Povo. A proporção entre os candidatos é a mesma nas duas contas, e é a proporção que importa.
E o que aconteceu na urna
Aqui está a parte que desmonta o argumento.
Primeiro turno de 2018, votos válidos
TSE
O candidato com mais tempo de televisão do país terminou em quarto lugar. O que tinha 8 segundos fez 46,03% no primeiro turno e venceu o segundo com 55,13%, sem participar de nenhum debate.
Se a história parasse aqui, a conclusão seria simples: tempo de TV não vale nada. Mas ela não para aqui, e é por isso que essa matéria existe.
O que o Bolsonaro tinha além dos 8 segundos
Contar só os 8 segundos é contar meia história. Em agosto de 2018, antes de o horário eleitoral começar, o Datafolha já mostrava o seguinte: num cenário sem Lula, que estava preso e viria a ser barrado pela Justiça Eleitoral, Bolsonaro liderava com 22%.
Ou seja: ele não subiu por causa da TV nem apesar dela. Ele já estava na frente antes de a TV começar.
E tinha mais três coisas que o número de segundos não mostra:
- Vinte e oito anos de mandato na Câmara dos Deputados, e o título de deputado federal mais votado do Rio de Janeiro em 2014.
- Uma base construída na internet desde bem antes de 2016, num tempo em que quase nenhum político brasileiro levava rede social a sério.
- Uma onda. O Lula estava preso, o PT saía de dois mandatos e um impeachment, e metade do país queria votar contra alguma coisa mais do que a favor de alguém.
Teve ainda o fato mais duro daquela campanha: a facada em 6 de setembro, em Juiz de Fora. Ele saiu da rua, saiu da TV e não foi a nenhum debate no segundo turno. Ninguém deve desejar aquilo a candidato nenhum, e é honesto reconhecer que o episódio colocou o rosto dele em todos os telejornais do Brasil, de graça, por semanas.
Agora as oito eleições, que é o que ninguém levanta
Um caso não faz regra. Então fui ver todas.
Desde a redemocratização o Brasil elegeu presidente oito vezes: 1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010, 2014 e 2018.
O levantamento das 8 eleições | Gazeta do Povo
Em seis das oito, quem ganhou tinha o maior ou o segundo maior tempo de televisão. Só em duas o vencedor não tinha nenhum dos dois: 1989, quando Fernando Collor venceu por um partido pequeno, e 2018, com Bolsonaro.
Repare no que os dois anos têm em comum. Não é o tempo de TV. É o humor do país.
1989 foi a primeira eleição direta depois de 29 anos, com o país saindo da ditadura e da hiperinflação. 2018 foi o ano seguinte à prisão de um ex-presidente, com a maior rejeição à política tradicional que a série histórica já tinha registrado.
Nos dois anos em que o Brasil estava com raiva de todo mundo, o tempo de TV não segurou nada. Nos outros seis, segurou.
A frase que resume o levantamento
Depois de olhar as oito, a conclusão que eu tiro é esta:
A televisão não é destino. É vento.
Quem já está na frente, ela empurra. Quem está atrás, ela não tira do lugar. Ela amplia o que já existe, e quase nunca cria o que não existe.
É uma conclusão chata para os dois lados da discussão. Não serve para quem quer dizer "sem TV não tem chance", porque 1989 e 2018 provam o contrário. E não serve para quem quer dizer "TV não importa", porque em seis de oito ela acompanhou o vencedor.
Como está a conta em 2026
Agora o motivo de tudo isso importar hoje.
| Candidato | Partido | Tempo por bloco em 2026 |
|---|---|---|
| Lula | PT | 5 min e 32 s |
| Flávio Bolsonaro | PL | 4 min e 20 s |
| Ronaldo Caiado | PSD | 2 min e 2 s |
| Augusto Cury | Avante | 35 segundos |
| Romeu Zema | Novo | nenhum segundo |
| Renan Santos | Missão | nenhum segundo |
Augusto Cury aparece em terceiro nas pesquisas e tem o quarto maior tempo de televisão. Já escrevi em detalhe sobre essa desproporção entre voto e tempo de TV, inclusive sobre o fato de Caiado ter 1% nas pesquisas e três vezes e meia mais tempo do que ele.
A comparação que dá a virada
Aqui é onde a história vira do avesso, e é o dado que eu não vi ninguém publicar.
Todo mundo compara o Cury com o Bolsonaro de 2018 para dizer que dá para ganhar sem TV. Mas quase ninguém compara os números dos dois. Quando você compara, descobre que o Cury está em melhor situação.
| Bolsonaro, 2018 | Cury, 2026 | |
|---|---|---|
| Tempo de TV por bloco | 8 segundos | 35 segundos |
| Fundo eleitoral do partido | cerca de R$ 9 milhões | R$ 72,5 milhões |
| Posição nas pesquisas em agosto | 1º entre os elegíveis, com 22% | 3º, com 7% a 10% |
| Mandatos anteriores | 28 anos de deputado federal | nenhum |
| Eleições disputadas antes | várias | nenhuma |
Em tempo de TV e em dinheiro, o Augusto Cury de 2026 está em melhor situação do que o Jair Bolsonaro de 2018 estava.
Isso é fato, é conferível e é bom para quem torce por ele.
E agora o que joga contra, porque aqui é assim
Se eu parasse no parágrafo acima, isto seria propaganda. Então vamos ao outro lado, que é forte.
Esse último ponto merece uma frase própria. A regra histórica joga contra o Cury, não a favor. Quem usa 2018 como prova de que dá está usando uma exceção, e exceção é exatamente aquilo que quase nunca acontece.
O que isso muda para quem vai votar
Se você chegou até aqui querendo saber em quem votar, eu não vou te dizer. Mas dá para tirar três coisas práticas deste levantamento:
- "Não tem TV, não tem chance" está errado como afirmação. É verdade em seis de oito eleições e falso em duas. Quem fala isso como se fosse lei está ignorando 1989 e 2018.
- "O Bolsonaro conseguiu, então ele consegue" também está errado. O Bolsonaro conseguiu em primeiro lugar, com 28 anos de mandato e uma onda nacional. Copiar a conclusão sem copiar as condições é torcida, não análise.
- O que decide não é o tempo. É a posição na largada. Nas oito eleições, quem estava na frente em agosto ganhou com muito mais frequência do que quem tinha mais televisão.
Uma observação sobre o dinheiro, que ninguém pede e todo mundo deveria
O tempo de TV e o fundo eleitoral seguem a mesma régua: o tamanho do partido no Congresso eleito quatro anos antes.
Isso significa que a eleição de 2026 está sendo disputada com uma distribuição de recursos definida pelo resultado de 2022. Quem cresceu depois fala baixo, e quem encolheu depois continua com o megafone.
Não estou dizendo que a regra é errada. Ela tem uma lógica defensável: sem ela, um partido criado ontem teria o mesmo tempo de um que elegeu quase cem deputados. Estou dizendo que ela olha para trás, e que quase ninguém explica isso para o eleitor.
O que eu deixei de fora desta matéria, e por quê
- A rejeição comparada entre Bolsonaro em 2018 e Cury hoje. Os institutos e as metodologias mudaram, e comparar rejeição de anos diferentes gera número que parece preciso e não é.
- O tamanho da bancada do PSL antes de 2018. Não encontrei número que eu considerasse seguro. O partido elegeu 52 deputados naquela eleição e virou a segunda maior bancada, mas isso aconteceu depois da disputa presidencial, e usar esse dado aqui bagunçaria a linha do tempo.
- Qualquer afirmação sobre autoria ou motivação da facada. Não é o assunto desta matéria.
- O tempo de TV das eleições anteriores candidato a candidato. Consegui a conclusão consolidada do levantamento da Gazeta do Povo, mas não a série completa com o tempo de cada um em cada ano. Quando eu conseguir, publico a tabela inteira aqui.
Perguntas que chegam nos comentários
Bolsonaro tinha mesmo só 8 segundos de TV em 2018?
Tinha 8 segundos por bloco do horário eleitoral. Somando as inserções do dia, o total fica em torno de 18 segundos. Os dois números aparecem na imprensa da época e medem coisas diferentes. O importante é a proporção: Alckmin tinha 41 vezes mais tempo por bloco.
O candidato com mais tempo de TV em 2018 ficou em que lugar?
Em quarto. Geraldo Alckmin tinha 5 minutos e 32 segundos por bloco e terminou o primeiro turno com 4,76% dos votos válidos.
Quantas vezes o candidato com mais tempo de TV perdeu?
Em oito eleições presidenciais desde 1989, o vencedor tinha o maior ou o segundo maior tempo de televisão em seis delas. As duas exceções foram 1989, com Collor, e 2018, com Bolsonaro.
Quanto tempo de TV Augusto Cury tem em 2026?
35 segundos por bloco, o quarto maior entre os candidatos. Lula tem 5 minutos e 32, Flávio Bolsonaro 4 minutos e 20, e Ronaldo Caiado 2 minutos e 2. Romeu Zema e Renan Santos não têm tempo nenhum.
O Cury está em situação melhor ou pior que o Bolsonaro de 2018?
Em recursos, melhor: tem mais de quatro vezes mais tempo de TV e oito vezes mais fundo eleitoral. Em posição, pior: o Bolsonaro já liderava entre os elegíveis em agosto de 2018, e o Cury está em terceiro.
Alguém já saiu de terceiro lugar e ganhou a Presidência no Brasil?
Não. Em nove disputas desde 1989, nenhuma candidatura de terceira via chegou sequer ao segundo turno.
A pergunta que fica
Eu torço pelo Augusto Cury e não escondo isso de ninguém. É exatamente por isso que eu prefiro te entregar a conta inteira, com o dado que joga contra ele no meio do texto e não escondido no rodapé.
O tempo de TV dele é quatro vezes maior do que o do Bolsonaro em 2018. A posição dele na largada é muito pior. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e quem só te conta uma delas está torcendo, não informando.
Eu volto com a tabela completa das oito eleições assim que conseguir a série candidato a candidato.






