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Economia / 29 de agosto de 2026

O que passou sem manchete

Venderam a única mina de terras raras do Brasil por R$ 15 bilhões. O Brasil arrecadou R$ 2,9 milhões de royalty no ano

R$ 15 bilhões, fechado em uma semana em que o país discutia eleição. Quem entrou com o dinheiro grande não foi banco, foi o Departamento de Guerra dos Estados Unidos, que já comprou 100% da produção por 15 anos. O CADE nem precisou olhar. Aqui está o que é terra rara, quem tem, quem vendeu, o que ficou no Brasil e o que joga contra a indignação.

Publicado
29 de agosto de 2026
Atualizado
5 de setembro de 2026
Editoria
Economia
Leitura
8 min
Fontes
10 citadas
Imagem de arquivo usada no carrossel original
Imagem de arquivo usada no carrossel original

Aqui eu falo de tecnologia e de inteligência artificial. E nesta semana aconteceu uma coisa na minha área que devia ter parado o país.

Me dá dois minutos. Você vai terminar com raiva, mas vai entender.

Primeiro, o básico

Terra rara é o que faz um ímã forte. O nome é estranho, a coisa é simples: são 17 elementos químicos, com nomes como neodímio, disprósio e térbio, que dão ao ímã a força de mover um motor pequeno.

Sem esse ímã não existe robô. Não existe caça militar. Não existe carro elétrico, nem turbina eólica, nem o motorzinho que faz seu celular vibrar. É o material que move qualquer coisa que precise de um motor pequeno e potente.

Quem tem mais no chão

Reservas mundiais de terras raras, em % do total

China49
Brasil23
Índia7,7

Fonte: USGS, Mineral Commodity Summaries 2025

A China tem quase metade do planeta. O Brasil vem logo atrás, com quase um quarto.

Agora a parte que dói.

O lugar

No Brasil inteiro só existe uma mina de terra rara em funcionamento. Chama Serra Verde e fica em Minaçu, em Goiás, uma cidade de 30 mil habitantes no norte do estado. É a maior produtora de terra rara pesada fora da Ásia, e começou a operar em 2024.

A venda

A operaçãoDado
CompradoraUSA Rare Earth, dos Estados Unidos
ValorUS$ 2,8 bilhões, cerca de R$ 15 bilhões
Em dinheiroUS$ 300 milhões
Em açõesO restante
Aporte do governo americanoUS$ 750 milhões, pelo Departamento de Guerra
Contrato de compra da produção100% da primeira fase, por 15 anos, com preço mínimo

O nome da compradora já entrega o projeto.

E tem o detalhe que quase ninguém contou: quem entrou com o dinheiro grande não foi banco.

Guerra não investe em mina por acaso.

E eles não compraram só a mina. Compraram a produção: 100% do que sair dali na primeira fase, com 15 anos de contrato já assinados e preço mínimo garantido. Não é intenção, é assinatura.

Por que a guerra quer isso

Porque defesa e robótica disputam o mesmo material, na mesma fila.

Um robô humanoide precisa de ímã em cada junta para conseguir se mexer. O Optimus, da Tesla, leva cerca de 3,5 quilos de ímã de neodímio espalhados em torno de 40 motores.

Faz a conta comigo: 5 milhões de robôs por ano, vezes 3,5 quilos de ímã cada, dá 15 mil toneladas de ímã por ano. É mais do que os Estados Unidos inteiros produzem hoje.

E um caça F-35 leva cerca de 400 quilos de terras raras. Um submarino nuclear, mais de 4 toneladas. Quem controla a mina controla a fila.

Por isso eles vieram buscar aqui.

Agora eu preciso te corrigir

Você vai ler por aí que o governo vendeu o Brasil. Não foi o governo que vendeu, e a verdade é pior do que isso.

A Serra Verde nunca foi brasileira. Antes da venda, a divisão era essa:

SócioPaísParticipação
Denham CapitalEstados Unidos50%
Vision Blue ResourcesReino Unido25,19%
Energy and Minerals GroupEstados Unidos24,81%

Foi americano vendendo para americano. A gente entrou só com o buraco no chão.

"Mas o governo não podia barrar?"

Não podia nem olhar.

Em 24 de agosto de 2026, o CADE arquivou o caso com a conclusão de que a operação não configurava um ato de concentração de notificação obrigatória. Em português: a venda da nossa única mina de terra rara nem precisava ser comunicada ao órgão de defesa da concorrência.

A lei brasileira só manda olhar quando um dos grupos fatura acima de R$ 750 milhões e o outro acima de R$ 75 milhões no Brasil. A Serra Verde, que começou a produzir em 2024, não chegou lá.

E o Brasil não tem o que outros países têm: um mecanismo de revisão de investimento estrangeiro em setor estratégico. Os Estados Unidos têm o CFIUS, que barra venda de ativo sensível a estrangeiro. A Austrália tem o FIRB. O Brasil não tem nada parecido para mineral crítico.

O que ficou no Brasil

Nenhuma exigência de processar o minério aqui. Nenhuma transferência de tecnologia. E olha o que a mina deixou no país em doze meses.

A gente vende a pedra e compra o ímã pronto de volta, muito mais caro. O Brasil tira o minério, a China faz o ímã, e o Brasil compra o ímã.

Para você ver o tamanho disso: a WEG, maior fabricante de motores da América Latina, é brasileira e importa da China 100% dos ímãs que usa.

E por que a gente não processa aqui?

Porque processar exige gente formada e planta industrial que não existe.

Gasto por aluno, por anoValor em dólar PPP
Média dos países ricos (OCDE)US$ 12.438
BrasilUS$ 3.872

Menos de um terço. Somos o quarto país que menos investe por aluno da lista.

E o refino de terra rara é uma das químicas mais difíceis da indústria: separar 17 elementos quase idênticos, em centenas de etapas, com rejeito radioativo. A China levou trinta anos e muito subsídio para dominar. Nenhum país fora da Ásia tem refino em escala. Nem os Estados Unidos, que estão tentando reconstruir o deles.

E está acontecendo de novo, agora

Na minha área, inteligência artificial, o mesmo filme está rodando.

O que está em jogoValor
Plano de IA do Brasil inteiro, para 4 anosR$ 23 bilhões
Uma empresa chinesa, num data center só, no CearáR$ 200 bilhões

Nove vezes o plano do país inteiro. Usando nossa terra, nossa água e nossa energia. Escrevi sobre o plano de R$ 23 bilhões e sobre por que ele não tem dono.

Perguntas que chegam nos comentários

O que são terras raras?

Dezessete elementos químicos, como neodímio e disprósio, usados para fazer ímãs fortes. Sem eles não há motor elétrico pequeno e potente: nem robô, nem carro elétrico, nem caça militar.

O Brasil tem muita terra rara?

A segunda maior reserva do mundo, com 23% do total, atrás só da China, com 49%. Mas produz cerca de 1% do mundo.

Quem comprou a mina Serra Verde?

A americana USA Rare Earth, por US$ 2,8 bilhões, cerca de R$ 15 bilhões, com aporte de US$ 750 milhões do Departamento de Guerra dos Estados Unidos e contrato de compra de 100% da produção por 15 anos.

O governo brasileiro vendeu a mina?

Não. A mina pertencia a fundos americanos e britânicos desde antes de operar. Foi americano vendendo para americano.

O CADE aprovou a venda?

O CADE arquivou o caso em 24 de agosto de 2026 porque a operação não atingia o faturamento mínimo que obriga a notificação. Não houve análise de mérito.

Quanto o Brasil ganha com a mina?

R$ 2,9 milhões de royalty em 2024, segundo a ANM. A alíquota da CFEM para terras raras é de 2% sobre o faturamento, a mais baixa da tabela.

O que eu estou dizendo

Enquanto isso, a única coisa em pauta era quem ganha em outubro.

Eu não estou dizendo que esconderam de você. Estou dizendo que passou. E passar é pior, porque não precisou de ninguém escondendo.

Fontes desta materia

  1. USGS, Mineral Commodity Summaries 2025, reservas mundiais de terras raras
  2. A Pública, reportagem sobre a venda da Serra Verde e a composição societária anterior
  3. USA Rare Earth, comunicados ao mercado e arquivamentos na SEC
  4. CADE, despacho de 24 de agosto de 2026 sobre a operação
  5. ANM, arrecadação da CFEM por substância
  6. Estudo da UFU e do instituto Transforma sobre a cadeia de terras raras no Brasil
  7. OCDE, Education at a Glance 2025, gasto por aluno em dólar PPP
  8. MCTI, Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024-2028
  9. Anúncio da ByteDance sobre o data center no Ceará
  10. TSE, DivulgaCandContas, plano de governo de Augusto Cury, projeto PETRA BR