Quando os fatos derrubaram a acusação de que ele seria "do Lula disfarçado", nasceu um argumento novo nos comentários: que Augusto Cury teria vindo para dividir a direita.
Parece esperto. Vamos ver se sobrevive a uma conta de trinta segundos. E, desde que publiquei a primeira versão deste texto, saíram mais duas pesquisas. A conta agora tem três rodadas.
O que o argumento afirma, na prática
A tese da divisão diz o seguinte: um candidato entra, tira voto do campo da direita, e com isso entrega a eleição para o outro lado.
Se isso fosse verdade, o efeito na pesquisa seria específico e verificável: o candidato da direita cairia, e o candidato do outro campo ficaria estável ou subiria.
É uma tese testável. E existe teste.
Teste 1: a BTG/Nexus
Rodada BTG Pactual/Nexus, comparando 24 e 31 de agosto de 2026:
Variação entre as duas rodadas, em pontos percentuais
Fonte: BTG Pactual/Nexus, 24 a 31 de agosto de 2026
| Candidato | 24 de agosto | 31 de agosto | Variação |
|---|---|---|---|
| Lula | 41% | 39% | menos 2 |
| Flávio Bolsonaro | 37% | 33% | menos 4 |
| Augusto Cury | 2% | 11% | mais 9 |
Os dois primeiros colocados caíram. Não um: os dois.
Somando as quedas dos dois líderes, dão 6 pontos. O terceiro colocado subiu 9. Ou seja, nem toda a subida dele veio dos outros dois: pelo menos 3 pontos vieram de outro lugar, de quem estava indeciso ou em candidaturas menores.
Teste 2: a Quaest
A Quaest mediu duas vezes em duas semanas, com campo de 30 de agosto a 1º de setembro na rodada mais recente:
| Candidato | Rodada anterior | 2 de setembro | Variação |
|---|---|---|---|
| Lula | 38% | 37% | menos 1 |
| Flávio Bolsonaro | 31% | 29% | menos 2 |
| Augusto Cury | rodapé | 10% | subiu |
De novo os dois caíram. A queda de Flávio foi o dobro da de Lula, e é justo registrar isso: o campo da direita perdeu mais. Mas o outro campo não ficou parado, que é o que a tese da divisão exigiria.
Teste 3: de onde vem o eleitor dele
Esse é o dado que mais pesa, e ele está na mesma Quaest.
Voto entre eleitores que se declaram independentes, em %
Fonte: Quaest, campo de 30/08 a 01/09/2026
Cury lidera entre quem não se diz nem lulista nem bolsonarista. E mais: 19% dos eleitores dele se declaram não polarizados, contra 2% uma semana antes, e outros 19% dizem ser contra Lula e contra Bolsonaro ao mesmo tempo. Quase quatro em cada dez vieram de um espaço onde não havia candidato nenhum.
Quem tira voto dos dois lados e ainda puxa gente de fora não está dividindo um campo. Está formando um terceiro.
Agora o segundo turno, que é onde o argumento realmente mora
A tese da divisão, no fundo, é sobre outubro: "ele tira voto do Flávio e o Lula ganha". Então vale olhar o que as pesquisas dizem sobre a final.
| Cenário de segundo turno | Resultado | Instituto |
|---|---|---|
| Lula x Flávio Bolsonaro | 42 a 41 | Quaest, 2 de setembro |
| Lula x Augusto Cury | 40 a 34 | Quaest, 2 de setembro |
| Lula x Flávio Bolsonaro | 46 a 44 | Datafolha, 4 de setembro |
Hoje, contra o Lula, o Flávio é mais competitivo do que o Cury. Isso é um ponto a favor de quem teme a divisão: se Cury não passar o Flávio e ainda assim segurar 8% a 10% no primeiro turno, esses votos podem decidir quem vai para a final. Escrevi sobre isso na matéria do 34 a 40.
Mas tem o outro lado da mesma tabela. Rejeição: 18,5% para Cury, 41,3% para Flávio, segundo a AtlasIntel de fim de agosto. Num segundo turno, quem tem menos rejeição costuma receber mais voto de quem sobrou. A tese de que Cury seria o candidato anti-Lula mais viável é razoável. Ela só ainda não foi confirmada por pesquisa nenhuma.
Como acompanhar isso sem errar
O teste continua valendo, e você pode fazer sozinho a cada nova pesquisa. É uma conta só:
- Anote a variação dos três nomes entre uma rodada e a seguinte, do mesmo instituto. Comparar Datafolha com Quaest é comparar régua diferente.
- Se apenas um dos líderes cair, o argumento da divisão ganha força.
- Se os dois caírem, ele perde.
- Confira a margem de erro antes de tratar variação de 1 ou 2 pontos como movimento real.
- Olhe o cenário de segundo turno, porque é lá que a divisão, se existir, aparece.
Perguntas que chegam nos comentários
Augusto Cury tira votos de Flávio Bolsonaro?
Tira dos dois. Na BTG/Nexus de 31 de agosto, Lula caiu 2 e Flávio caiu 4. Na Quaest de 2 de setembro, Lula caiu 1 e Flávio caiu 2. Flávio perdeu mais, mas Lula não ficou parado.
De onde vêm os votos de Cury?
Principalmente de eleitores independentes, onde ele lidera com 24% contra 21% de Lula. Quase 40% dos eleitores dele se dizem não polarizados ou contra os dois lados.
Cury ajuda Lula a ganhar?
As pesquisas ainda não permitem afirmar. Hoje Flávio está a 1 ponto de Lula no segundo turno e Cury a 6. Mas a rejeição de Cury é 18,5% e a de Flávio, 41,3%, o que muda a conta numa final.
Qual foi a última pesquisa para presidente 2026?
Datafolha de 4 de setembro: Lula 38%, Flávio Bolsonaro 33%, Augusto Cury 8%. Registro BR-03669/2026.
Onde confiro o registro de uma pesquisa eleitoral?
No site do TSE, na área de pesquisas eleitorais. Toda pesquisa divulgada precisa de registro prévio com questionário, amostra e contratante.
O que este texto não afirma
Não afirma que ele vai crescer, nem que vai chegar ao segundo turno. Isso não está nos dados.
Afirma apenas que a frase "veio dividir a direita" não se sustenta nas duas rodadas em que os dois líderes caíram ao mesmo tempo, nem no perfil do eleitor que ele atrai. É uma checagem de um argumento específico, não uma previsão de resultado.
E vale o mesmo rigor do outro lado: se na próxima pesquisa só o Flávio cair, eu volto aqui e escrevo que a conta mudou.
Leia também: Cury é de direita ou de esquerda? e Cury escolheu o adversário do segundo turno.






