Ontem, na tribuna do desfile de 7 de Setembro, em Brasília, estavam lado a lado o presidente da República, o presidente do Supremo, o presidente da Câmara e o presidente do Senado.
Enquanto isso, a 1.000 quilômetros dali, na Avenida Paulista, um deputado federal subia no carro de som e mandava um recado para um deles pelo nome:
Povo do Amapá, estarei na praça Jacy Barata para dar o recado a Alcolumbre: o Brasil quer o impeachment de Moraes.
O nome do presidente do Senado virou palavra de ordem em ato de rua. E o motivo tem número: ele segura duas chaves ao mesmo tempo.
Uma delas todo mundo já conhece, e nós já contamos aqui: os pedidos de impeachment contra ministros do Supremo que não saem da gaveta.
A outra quase ninguém está contando. E ela é ainda mais simples de entender.
O pedido que tem apoio de sobra e nunca foi lido
Em 3 de fevereiro de 2026, parlamentares protocolaram no Congresso o pedido de criação de uma CPMI do Banco Master, uma comissão mista de inquérito, com deputados e senadores juntos, para investigar a quebra do banco.
Veja os números.
| O que a Constituição exige | O que o pedido tinha |
|---|---|
| 27 senadores, um terço do Senado | 42 senadores |
| 171 deputados, um terço da Câmara | 238 deputados |
Não faltou apoio. Sobrou.
E aqui está o ponto que muda tudo: pela Constituição, no artigo 58, a criação de uma CPI não depende de votação. Ela é um direito da minoria parlamentar. Junte as assinaturas, aponte um fato determinado e um prazo, e a comissão existe. Ninguém precisa aprovar.
Então o que trava?
Uma leitura. Literalmente.
Para a CPMI existir, o requerimento precisa ser lido em sessão conjunta do Congresso Nacional. É um ato de secretaria, de dois minutos. Depois disso, os partidos indicam os membros e a comissão se instala.
Quem preside as sessões conjuntas do Congresso é o presidente do Senado. Hoje, Davi Alcolumbre.
Ele não marcou a leitura. E, quando foi cobrado sobre isso, em maio, deu a explicação que está registrada no site do próprio Senado: a abertura da CPMI é decisão do presidente do Congresso. Ou seja, dele.
Existe discussão jurídica sobre isso. Há quem sustente que a leitura é ato vinculado, que o presidente é obrigado a fazer quando as assinaturas estão completas, porque a Constituição não deu a ele o poder de escolher. E há quem sustente que a definição da pauta das sessões conjuntas é prerrogativa da presidência. Nenhum tribunal decidiu a questão para este caso.
O que não está em discussão é o resultado prático: o pedido está parado, e quem pode destravar é uma pessoa só.
A mesma chave, a segunda fechadura
Agora coloque as duas coisas lado a lado.
| O que está parado | Desde quando | Quem destrava |
|---|---|---|
| CPMI do Banco Master | 3 de fevereiro de 2026 | Davi Alcolumbre |
| 109 pedidos de impeachment contra ministros do Supremo, sendo 66 contra Alexandre de Moraes | vários, o mais antigo de 2021 | Davi Alcolumbre |
Sobre o segundo, ele foi explícito, em agosto do ano passado: não pauta impeachment de ministro "nem com 81 assinaturas", ou seja, nem que o Senado inteiro assinasse. Na semana passada, repetiu que 109 pedidos contra dez ministros "não é normal".
Na quarta-feira, no plenário, ele deu o recado que mostra de onde está olhando:
Todo mundo esqueceu que pediram 130 milhões para as mesmas pessoas para fazer um filme, mas o único culpado é o ministro Alexandre de Moraes.
Por que o nome dele aparece no meio da história
Aqui é preciso ir devagar, porque a diferença entre uma coisa e outra é o que separa reportagem de acusação.
Três fatos, com o que cada um é e o que cada um não é:
1. Uma proposta de delação citou o nome dele. Em junho, uma das tentativas de acordo do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, afirmava que Alcolumbre teria recebido cerca de US$ 30 milhões por meio de um ex-sócio.
O que isso é: uma afirmação feita por um investigado preso, tentando reduzir a própria pena.
O que isso não é: prova. A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral rejeitaram essa proposta, que não veio acompanhada de documento que a sustentasse. Alcolumbre diz que "jamais recebeu valores, no Brasil ou no exterior" e anunciou que vai à Justiça contra a acusação.
2. Um relatório da Polícia Federal o chama de alvo. No documento que o ministro Moraes usou na quinta-feira para pedir a investigação do colega André Mendonça, Alcolumbre aparece descrito como "provável alvo estratégico" da apuração, justamente por controlar a pauta do impeachment.
O que isso é: uma hipótese de análise de inteligência policial.
O que isso não é: uma imputação. A própria PF registra que o documento não atribui infração a ninguém, e ele foi produzido sem timbre, sem assinatura e sem data.
3. Três senadores o denunciaram ao Conselho de Ética por engavetar os pedidos. O último a fazer isso foi Carlos Viana, na quinta-feira, com pedido de afastamento dele da presidência do Senado.
O que isso é: uma representação em curso.
O que isso não é: um processo andando. O Conselho de Ética do Senado não se reúne desde 9 de julho de 2024, e quem pode instalá-lo é o presidente da Casa. Ou seja, a denúncia contra Alcolumbre depende de Alcolumbre.
O que a CPMI investigaria, e por que isso importa para você
Não é briga de Brasília. O Banco Master quebrou e deixou uma conta.
| O que aconteceu | O número |
|---|---|
| Liquidação do banco pelo Banco Central | 18 de novembro de 2025 |
| Credores com direito à garantia | cerca de 800 mil pessoas |
| Valor coberto pelo fundo que garante depósitos | cerca de R$ 40,6 bilhões |
| Já pago pelo fundo até fevereiro | R$ 37,2 bilhões |
| Fases da operação da Polícia Federal | sete, entre novembro de 2025 e maio de 2026 |
Esse fundo, o FGC, é bancado por todos os bancos, e o custo dele aparece embutido no que cada cliente paga. Quem tinha até R$ 250 mil recebeu de volta. Quem tinha mais, não.
E tem a parte que quase virou conta pública: em março de 2025, o BRB, banco público do Distrito Federal, aprovou a compra de 58% do Master. Se o Banco Central não tivesse vetado, em setembro, o rombo teria virado dinheiro de imposto.
Uma CPMI poderia convocar quem aprovou aquela compra, quem fiscalizava o banco e quem recebeu dinheiro dele. É isso que está parado desde fevereiro.
O que dizem os que defendem a decisão
Esta parte precisa entrar, e com o mesmo peso.
Primeiro: existe argumento sério de que abrir uma CPMI em ano eleitoral vira palanque, não investigação. Comissão de inquérito no meio de campanha costuma produzir mais vídeo para rede social do que relatório final, e isso já aconteceu várias vezes no Congresso.
Segundo: o caso está sendo investigado. A Polícia Federal já fez sete fases de operação, o dono do banco está preso desde março, o Supremo tem dois procedimentos em curso e o Banco Central e o Tribunal de Contas da União acompanham a liquidação. Não é um caso abandonado à espera de uma comissão.
Terceiro: o próprio Alcolumbre tem razão num ponto específico. 109 pedidos de impeachment contra dez ministros, em cinco anos, indica banalização do instrumento. Muitos são protocolados sabendo que não vão andar, e servem para marcar posição em rede social. Isso é verdade venha de quem vier.
Quarto: nenhum dos três fatos que citei acima é acusação formal contra ele. Ele não é réu, não é denunciado e não é investigado com autorização de tribunal. Nada aqui é condenação.
Perguntas que chegam nos comentários
O que é a CPMI do Banco Master?
É uma comissão parlamentar mista de inquérito, com deputados e senadores, pedida em 3 de fevereiro de 2026 para investigar a quebra do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025.
A CPMI foi criada?
Não. O pedido tem 42 assinaturas de senadores e 238 de deputados, acima do mínimo exigido, mas nunca foi lido em sessão conjunta do Congresso, e é essa leitura que instala a comissão.
Quem pode instalar a CPMI?
A leitura do requerimento em sessão conjunta cabe ao presidente do Congresso Nacional, que é o presidente do Senado, hoje Davi Alcolumbre. Ele disse em maio de 2026 que a abertura é decisão dele.
Precisa de votação para criar uma CPI?
Não. O artigo 58 da Constituição diz que basta o requerimento de um terço dos membros, um fato determinado e um prazo. É um direito da minoria parlamentar, e não depende de aprovação do plenário.
Alcolumbre é acusado de alguma coisa no caso Master?
Ele foi citado numa proposta de delação do banqueiro Daniel Vorcaro, que a Polícia Federal e a Procuradoria rejeitaram por falta de provas, e aparece como "provável alvo estratégico" num relatório de inteligência da PF que a própria corporação diz não imputar infração a ninguém. Ele nega ter recebido qualquer valor e anunciou que vai à Justiça. Não é réu nem denunciado.
Quanto o caso Master custou?
O fundo que garante depósitos pagou cerca de R$ 37,2 bilhões até fevereiro de 2026, para cerca de 800 mil credores. Quem tinha mais de R$ 250 mil aplicados não foi coberto.
Quantos pedidos de impeachment existem contra ministros do Supremo?
São 109 contra dez ministros, sendo 66 contra Alexandre de Moraes, segundo o próprio Alcolumbre. Nenhum foi a plenário na história do país.
O que vem agora
- Sexta, 11 de setembro: vence o prazo dado pelo presidente do Supremo para que Moraes, Mendonça, o procurador-geral e o diretor da Polícia Federal se expliquem.
- Depois de 22 de setembro: o plenário do Supremo analisa os dois procedimentos.
- Sem data: a leitura do requerimento da CPMI. Basta uma sessão conjunta do Congresso e dois minutos de pauta.
Eu volto a cada passo, com fonte.
Leia também: Alcolumbre não pauta o impeachment, e aparece na própria investigação, 55 pedidos e tudo acabou em pizza e a terceira tentativa de delação do banqueiro do Master.







