A resposta curta, antes de tudo
Nos últimos 66 anos, sete candidatos brasileiros carregaram o rótulo de terceira via numa eleição presidencial. Dois chegaram ao Planalto. Nenhum dos dois terminou o mandato.
Jânio Quadros ganhou em 1960 e renunciou sete meses depois de tomar posse. Fernando Collor ganhou em 1989 e sofreu impeachment em 1992. Os outros cinco não chegaram perto: Enéas Carneiro, Heloísa Helena, Marina Silva, Ciro Gomes e Simone Tebet somam dez candidaturas presidenciais e zero vitórias.
E tem um caso que quebra a regra inteira. Em 1994, um homem que era o terceiro colocado nas pesquisas do começo do ano virou o primeiro e ganhou no primeiro turno com 54,28%. Era Fernando Henrique Cardoso. Ele governou oito anos.
A diferença entre os dois grupos não é sorte. É uma coisa só, e ela está no fim deste texto.
Vou pelo caminho longo: nome por nome, com o ano, o partido, o resultado oficial e o que aconteceu depois. Todo percentual aqui é sobre votos válidos, que é como o TSE conta. Isso importa, e eu explico por quê lá embaixo.
O que a história mostra, de 1960 a 2022
Por que esta conta é diferente de tudo que já contei aqui
Eu já escrevi neste portal sobre três países que elegeram quem nunca tinha governado nada, sobre o Brasil que riu de Enéas Carneiro, sobre os eleitores dele que voltaram e sobre a comparação entre Augusto Cury e Fernando Henrique, que depois virou uma parte 2 com a correção que os comentários me obrigaram a fazer.
Esta aqui é outra coisa. Não é sobre um nome. É sobre um lugar na eleição: o terceiro lugar. O que acontece com quem senta nele.
E a pergunta nasceu nos meus comentários. Três pessoas, três frases diferentes, a mesma ideia por trás.
"Um novo Jânio Quadros", escreveu @fabiano.gemignani sobre Augusto Cury.
"Pior do que Ciro Gomes", escreveu @lucianaassis74__.
"Olha o Bukele em El Salvador, deu certo", escreveu @marceloinvestidor.
Os três estavam usando o passado como régua. É a coisa mais honesta que um eleitor pode fazer. Então eu fui pegar a régua de verdade.
Jânio Quadros, 1960: ganhou e durou sete meses
Jânio disputou a Presidência em 3 de outubro de 1960 pela coligação PTN, UDN, PR, PL e PDC. O símbolo dele era uma vassoura, com a promessa de varrer a corrupção do país.
| Candidato | Coligação | Votos | % dos válidos |
|---|---|---|---|
| Jânio Quadros | PTN, UDN, PR, PL, PDC | 5.636.623 | 48,26% |
| Henrique Teixeira Lott | PSD, PTB e outros | 3.846.825 | 32,94% |
| Adhemar de Barros | PSP | 2.195.709 | 18,80% |
Não havia segundo turno. Jânio venceu em 16 dos 22 estados e territórios do país.
Tomou posse em 31 de janeiro de 1961. Renunciou em 25 de agosto de 1961. Sete meses.
Na carta que mandou ao Congresso, ele disse que tinha sido "vencido pela reação" e que estava "esmagado" por "forças terríveis". Nunca explicou quais eram.
Uma correção histórica que quase todo mundo repete errado: a expressão famosa é "forças ocultas", mas essa não é dele. Foi o Repórter Esso, o noticiário de rádio da época, que usou. Jânio escreveu "forças terríveis".
A aposta dele era que o Congresso recusaria a renúncia e o chamaria de volta com mais poder. Deu errado. O Senado registra que o Congresso aceitou a renúncia sem questionamento e passou na hora a discutir a posse do vice, João Goulart, que estava em viagem à China. Duas semanas depois a crise terminou com a criação do parlamentarismo, que tirava poder do presidente.
Jânio morreu em 1992 sem nunca dar uma explicação convincente.
Fernando Collor, 1989: ganhou e caiu em menos de três anos
O 1989 foi a primeira eleição direta para presidente em 29 anos. Teve 22 candidatos, recorde até então. Collor era governador de Alagoas e tinha saído do PMDB para um partido que o Arquivo Nacional descreve como irrelevante: o PRN, batizado com esse nome em 2 de fevereiro de 1989.
| Candidato | Partido | Votos | % dos válidos |
|---|---|---|---|
| Fernando Collor | PRN | 20.611.030 | 30,48% |
| Lula | PT | 11.622.321 | 17,19% |
| Leonel Brizola | PDT | 11.167.665 | 16,51% |
| Mário Covas | PSDB | 7.790.381 | 11,52% |
| Paulo Maluf | PDS | 5.986.585 | 8,85% |
| Guilherme Afif Domingos | PL | 3.272.520 | 4,84% |
| Ulysses Guimarães | PMDB | 3.204.996 | 4,74% |
| Roberto Freire | PCB | 769.117 | 1,14% |
No segundo turno, em 17 de dezembro, Collor fez 35.090.206 votos (53,03%) contra 31.075.803 de Lula (46,97%).
Repare numa coisa que quase ninguém nota: Collor ganhou de partidos enormes. O PMDB de Ulysses Guimarães, que era o maior partido do país, ficou em sétimo lugar com 4,74%. Um partido recém-fundado bateu a máquina inteira.
E aí a máquina cobrou a conta.
A linha do tempo da queda
| Data | O que aconteceu |
|---|---|
| 15 de março de 1990 | Collor toma posse |
| 4 de junho de 1992 | Pedro Collor, irmão do presidente, depõe na CPMI e acusa PC Farias de montar uma rede de tráfico de influência com a conivência do presidente |
| 29 de setembro de 1992 | A Câmara aprova a abertura do processo de impeachment com mais de 440 votos a favor e 38 contra |
| 2 de outubro de 1992 | Collor é afastado do cargo |
| 29 de dezembro de 1992 | No começo da sessão do Senado, o advogado dele anuncia a renúncia. O Senado vota assim mesmo e cassa os direitos políticos por oito anos, por 76 votos a 2 |
Dois anos e nove meses de mandato.
A renúncia de última hora era uma tentativa de escapar da inelegibilidade. Não funcionou.
E depois?
Collor voltou. Foi senador por Alagoas de fevereiro de 2007 a fevereiro de 2023, dezesseis anos no Congresso.
Em 2023 o STF o condenou a 8 anos e 10 meses por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O caso é da Lava Jato: entre 2010 e 2014, já como senador, ele teria recebido R$ 20 milhões em propina para viabilizar contratos da UTC Engenharia com a BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras.
Foi preso em 25 de abril de 2025, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, depois de esgotados os recursos.
O homem que ganhou a eleição prometendo caçar marajás terminou preso por corrupção.
Enéas Carneiro, 1994 e 1998: o terceiro lugar que não virou nada, e virou tudo
Enéas foi o caso mais estranho dessa lista, e o único que ficou maior depois de morto.
Em 1994 ele disputou pelo PRONA, partido que ele mesmo criou.
| Candidato | Partido | Votos | % dos válidos |
|---|---|---|---|
| Fernando Henrique Cardoso | PSDB | 34.364.961 | 54,28% |
| Lula | PT | 17.122.127 | 27,04% |
| Enéas Carneiro | PRONA | 4.671.457 | 7,38% |
| Orestes Quércia | PMDB | 2.772.121 | 4,38% |
| Leonel Brizola | PDT | 2.015.836 | 3,18% |
| Esperidião Amin | PPR | 1.739.894 | 2,75% |
| Carlos Antônio Gomes | PRN | 387.738 | 0,61% |
Ele ficou em terceiro. À frente de Leonel Brizola, que tinha sido governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro e era um dos maiores nomes da esquerda brasileira.
Em 1998 tentou de novo e despencou para 1.447.089 votos, 2,14%.
O número que explica o salto e a queda
Aqui está o dado que quase ninguém conhece, e que muda a leitura.
Tempo de TV de Enéas Carneiro por dia, em segundos
Fonte: Café História, com base no acervo da campanha
Em 1989, Enéas tinha 15 segundos de manhã e 15 segundos à noite. Em 1994, subiu para 1 minuto e 17 segundos. O tempo mais que dobrou e a votação dele explodiu para 4,6 milhões.
Guarde este número. Ele volta no fim do texto.
O que aconteceu depois
Em 2002 Enéas mudou de disputa. Saiu da presidencial e concorreu a deputado federal por São Paulo. Fez 1,5 milhão de votos, a maior votação já registrada para deputado federal no Brasil.
Com o coeficiente eleitoral dele, o PRONA elegeu seis deputados, sendo cinco que tinham votação própria pequena, alguns com menos de mil votos. Ele elegeu gente que o país nunca tinha ouvido falar.
Morreu em 6 de maio de 2007, no Rio de Janeiro, de leucemia. Tinha abandonado o tratamento poucos dias antes.
Hoje, vinte anos depois, os vídeos dele viralizam com a legenda "ele estava certo". Eu já escrevi sobre isso aqui e aqui, e não vou repetir. Só registro o que interessa nesta conta: ser lembrado não é ser eleito. São duas coisas diferentes, e a segunda é a que decide quem governa.
Marina Silva, 2010, 2014 e 2018: a maior queda medida da história recente
Marina disputou três vezes, por três partidos diferentes, e o gráfico da trajetória dela é o mais dramático de todos.
Marina Silva no primeiro turno, em percentual dos votos válidos
Fonte: TSE, resultados oficiais de 2010, 2014 e 2018
2010: o começo
Pelo PV, ela fez 19.636.359 votos, 19,33%, terceiro lugar. Dilma Rousseff fez 46,91% e José Serra 32,61%.
Foi uma estreia forte. Marina tinha sido ministra do Meio Ambiente de Lula, de 2003 a 2008, e senadora pelo Acre. Ela tinha currículo de governo, coisa que quase nenhum terceiro-via tem.
2014: o voo mais alto e a queda mais rápida
Este é o caso que todo marqueteiro estuda.
Marina não era candidata a presidente em 2014. Era candidata a vice de Eduardo Campos, do PSB. Em 13 de agosto de 2014, Campos morreu num acidente aéreo em campanha. Em 16 de agosto, o PSB escolheu Marina para o lugar dele. O registro saiu em 22 de agosto.
No fim de agosto, ela chegou a 34% nas pesquisas. Estava tecnicamente empatada com Dilma e passando na frente de Aécio Neves.
Em 5 de outubro, menos de dois meses depois, o resultado:
| Candidato | Partido | Votos | % dos válidos |
|---|---|---|---|
| Dilma Rousseff | PT | 43.267.668 | 41,59% |
| Aécio Neves | PSDB | 34.897.211 | 33,55% |
| Marina Silva | PSB | 22.176.619 | 21,32% |
| Luciana Genro | PSOL | 1.612.186 | 1,55% |
| Pastor Everaldo | PSC | 780.513 | 0,75% |
| Eduardo Jorge | PV | 630.099 | 0,61% |
Ela perdeu cerca de 13 pontos em pouco mais de um mês. De 34% para 21,32%.
2018: o fim da linha
Pela REDE, partido que ela fundou, Marina fez 1.069.578 votos, 1,00%. Oitavo lugar. Ficou atrás de Cabo Daciolo e de Henrique Meirelles.
Em oito anos, ela foi de 19,6 milhões de votos para 1 milhão. Perdeu 95% do eleitorado.
O que aconteceu depois
Marina se reaproximou de Lula em 2022, apoiou a candidatura dele e se elegeu deputada federal por São Paulo com 237.526 votos. Em 2023 voltou ao governo como ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Em 2026 é pré-candidata ao Senado por São Paulo.
Ou seja: ela não sumiu. Ela voltou para dentro do sistema que tinha tentado furar por fora.
Ciro Gomes, 2002, 2018 e 2022: a frase que custou 16 pontos
Ciro é o recordista de tentativas. Disputou em 1998, 2002, 2018 e 2022. Em 1998 fez 10,97% pelo PPS. Mas a eleição que virou aula foi a de 2002.
O pico de 28%
No fim de junho de 2002, Ciro chegou a 28% nas pesquisas. Estava a cinco pontos de Lula. Era favorito ao segundo turno.
Aí ele deu uma entrevista ao jornalista Mário Kertész, na Rádio Metropole, em Salvador. Um ouvinte chamado Gerson criticou a aliança dele com Antonio Carlos Magalhães. Ciro respondeu:
"Sugiro que mande a pergunta para o primeiro-ministro da Suíça, porque a Suíça não tem presidente da República (...) Tem que fazer as perguntas com um pouco mais de cuidado para deixar de ser burro."
A campanha de José Serra pegou a fala e a transformou em peça do horário eleitoral. Serra pintou Ciro como um homem de temperamento explosivo, que xinga eleitor.
No início de agosto, Ciro estava com 11%.
Ciro Gomes em 2002: da pesquisa à urna, em percentual
Fonte: acervo da Rádio Metropole e resultado oficial do TSE
O resultado de 6 de outubro de 2002:
| Candidato | Partido | Votos | % dos válidos |
|---|---|---|---|
| Lula | PT | 39.455.233 | 46,44% |
| José Serra | PSDB | 19.705.445 | 23,20% |
| Anthony Garotinho | PSB | 15.180.097 | 17,87% |
| Ciro Gomes | PPS | 10.170.882 | 11,97% |
Quarto lugar. Perdeu até para Garotinho.
Uma ressalva honesta: quem guarda o acervo dessa entrevista é a própria Rádio Metropole, que é parte da história. Eu não achei a data exata da entrevista em nenhuma fonte aberta. O que é fato conferido são os dois números das pontas: 28% no fim de junho, 11% no início de agosto e 11,97% na urna.
2018 e 2022
Em 2018, pelo PDT, Ciro fez 13.344.371 votos, 12,47%, terceiro lugar, atrás de Bolsonaro e Haddad.
Em 2022 ele desabou. Fez 3,04%, cerca de 3,5 milhões de votos. Ficou em quarto, atrás de Simone Tebet.
O que aconteceu depois
Ciro estava no PDT desde 2015. Rompeu com a direção do partido pela aproximação com o PT no Ceará, quando o PDT apoiou o governador petista Elmano de Freitas. Mandou carta de desfiliação em outubro de 2025 e se filiou ao PSDB em 18 de outubro de 2025.
Em 2026 ele é pré-candidato ao governo do Ceará. O PSDB chegou a convidá-lo para disputar a Presidência de novo. Ele recusou.
Quatro tentativas de chegar ao Planalto, e agora ele quer voltar para o estado de onde saiu.
Heloísa Helena, 2006: 6,85% e uma vida inteira depois
Em 2006, Heloísa Helena disputou pelo PSOL, partido que ela ajudou a fundar depois de ser expulsa do PT.
| Candidato | Partido | Votos | % dos válidos |
|---|---|---|---|
| Lula | PT | 46.662.365 | 48,61% |
| Geraldo Alckmin | PSDB | 39.968.369 | 41,64% |
| Heloísa Helena | PSOL | 6.575.393 | 6,85% |
| Cristovam Buarque | PDT | 2.538.844 | 2,64% |
Terceiro lugar, com quase 6,6 milhões de votos. Foi a melhor votação que o PSOL já teve para presidente.
O que aconteceu depois
Ela foi a primeira presidente do PSOL, até 2010. Em 2008 se elegeu vereadora de Maceió com 29.516 votos, a mais votada da cidade, e ficou na Câmara Municipal de janeiro de 2009 a janeiro de 2017.
Depois deixou o PSOL e ajudou a estruturar a Rede Sustentabilidade. Tentou voltar ao Congresso em 2022 e em 2024 e não conseguiu, ficando como suplente da federação PSOL e Rede.
Em 16 de dezembro de 2025 ela finalmente reassumiu como deputada federal pelo Rio de Janeiro, na vaga do deputado suspenso Glauber Braga. Dezoito anos depois de sair do Congresso.
Uma candidata que fez 6,6 milhões de votos para presidente terminou vereadora e depois suplente. O sistema não guarda lugar para quem fica em terceiro.
Simone Tebet, 2022: 4,16% e um ministério
Em 2022, Simone Tebet era senadora pelo MDB do Mato Grosso do Sul. Fez 4,16% dos votos válidos, cerca de 4,9 milhões, e ficou em terceiro lugar, à frente de Ciro Gomes, que teve 3,04%.
Lula fez 48,43% e Bolsonaro 43,20%.
O que aconteceu depois
Tebet apoiou Lula no segundo turno. Foi indicada por ele para o Ministério do Planejamento em dezembro de 2022 e assumiu em janeiro de 2023.
Ficou até março de 2026, quando saiu para disputar o Senado por São Paulo. Trocou o MDB, onde estava havia quase 30 anos, pelo PSB do vice-presidente Geraldo Alckmin. Anunciou a pré-candidatura em 12 de março de 2026 e formalizou a filiação em 21 de março de 2026.
Ela é o caso mais recente do padrão mais comum: o terceiro lugar vira cargo, não vira governo.
O caso que quebra a regra: Fernando Henrique em 1994
Agora o contrário de tudo que você leu até aqui.
No começo de 1994, Fernando Henrique Cardoso não era favorito. Lula liderava com folga. FHC era o terceiro nome da conversa.
Em 3 de outubro de 1994, ele ganhou no primeiro turno com 54,28%, contra 27,04% de Lula. Dobrou o segundo colocado. Não houve segundo turno. Depois se reelegeu em 1998, de novo no primeiro turno, com 53,06%.
O que ele tinha que os outros não tinham?
1. Um plano que já estava funcionando antes da eleição
O real entrou em circulação em 1º de julho de 1994. A eleição foi em 3 de outubro. Quando o brasileiro foi votar, a inflação já tinha caído e ele já sentia isso no supermercado. FHC não prometeu: ele entregou primeiro e cobrou depois.
Eu já detalhei essa história, inclusive com a correção de que o plano não foi obra de um homem só e de que quem assinou a medida provisória do real foi Itamar Franco, com Rubens Ricupero na Fazenda. Está na parte 2 da matéria sobre FHC e Cury.
2. Partidos grandes, de verdade
A chapa dele juntava PSDB, PFL e PTB. Não era um partido nanico com um nome dentro.
3. O maior tempo de TV
Segundo o Poder360, FHC liderou o horário eleitoral de 1994 com 7 minutos e 53 segundos.
Uma ressalva de método: a página do Poder360 com essa série deu erro 403 nas duas vezes que eu tentei abrir, e esse número veio do resumo do buscador, não da leitura da página. Eu registro assim porque é assim que eu apurei. O mesmo veículo tem uma conta mais forte, essa sim repetida em vários lugares: de 1994 até hoje, o candidato com mais tempo de TV venceu 5 das 8 eleições presidenciais.
4. Um governo antes do governo
FHC tinha sido senador por São Paulo, ministro das Relações Exteriores e ministro da Fazenda de Itamar Franco. Ele não era de fora. Ele era de dentro, com a cara de quem era de fora.
O padrão, item por item
Eu juntei os seis fatores que aparecem em todas as histórias acima. Dois deles eu não consegui medir, e digo isso na cara.
| Fator | Quem sobe e desce | Quem se sustenta |
|---|---|---|
| Partido | Sigla pequena, montada em volta de um nome (PRN, PRONA, REDE, Avante) | Coligação de partidos grandes (PSDB, PFL e PTB em 1994) |
| Tempo de TV | Segundos por dia. Enéas tinha 30 segundos em 1989 | Minutos. FHC liderou 1994 |
| Rejeição | Sobe rápido quando o candidato vira alvo dos dois lados | Não consegui medir, ver ressalva abaixo |
| Dinheiro | Não consegui medir, ver ressalva abaixo | Não consegui medir |
| Momento | Promessa contra o sistema num ano de raiva | Um plano já em funcionamento na hora do voto |
| Ancoragem no governo | Nenhuma. Só discurso | Uma política pública com resultado e crédito |
Duas coisas que eu não consegui medir, e por quê
Rejeição. Eu não achei, em fonte aberta, séries de rejeição comparáveis de Collor em 1989, Ciro em 2002 e Marina em 2014. Sem a série, eu não coloco número. Fica a observação qualitativa: nos dois casos de colapso medido, a queda começou depois que o candidato virou alvo da propaganda do adversário, e não por causa de uma proposta dele.
Dinheiro. As regras de financiamento de campanha mudaram em 2015, com o fim da doação de empresa. Comparar gasto de 1989, 1994, 2002 e 2026 sem ajustar isso seria chute com cara de conta. Então não comparo.
O que os dois colapsos têm em comum
Ciro em 2002 e Marina em 2014 são os únicos casos com número de pico e número de urna.
As duas maiores quedas com número medido
Os dois subiram por rejeição aos outros, não por adesão a eles. Isso é um voto emprestado. E voto emprestado volta para o dono quando aperta.
Eu já mostrei isso com número de hoje: entre os eleitores de Augusto Cury, 66% dizem votar para evitar outro candidato, no Datafolha de agosto de 2026. Está na matéria sobre por que você vota com raiva.
Agora Augusto Cury, sem prever resultado
Eu não vou dizer aqui quanto Cury vai fazer em 4 de outubro. Ninguém sabe, e quem diz que sabe está vendendo alguma coisa.
O que eu posso fazer é colocar a régua na mão dele e ler o que está escrito.
O que ele tem em comum com cada um
| Com quem | O que se parece |
|---|---|
| Jânio Quadros | Uma promessa moral de limpar a política, com um partido que não é dele de origem |
| Fernando Collor | Sigla pequena, ausência de mandato anterior e um nome que já era conhecido do público antes da política |
| Enéas Carneiro | Pouquíssimo tempo de TV e um público que se identifica com ele por fora da imprensa grande |
| Marina Silva | Subida rápida nas pesquisas por cansaço com os dois lados |
| Ciro Gomes | A exposição diária de quem fala muito e ainda não passou por um debate duro na TV |
| Heloísa Helena | Uma base que gosta da pessoa mais do que do programa |
| Simone Tebet | O rótulo de terceira via que ele não escolheu e diz não querer |
O que ele tem de diferente
Ele recusa o próprio rótulo. Em 1º de setembro de 2026, em Belo Horizonte, Cury disse:
"Eu quero que Lula da Silva e Bolsonaro venham conosco, porque não é possível mais essa polarização que adoeceu a nação brasileira e dividiu as famílias."
A manchete do Estado de Minas foi direta: "Não sou terceira via, quero Lula e Bolsonaro conosco". Nenhum dos sete nomes acima disse isso. Todos eles se apresentavam como alternativa contra os dois polos. Cury se apresenta como quem quer juntar os dois.
Ele nunca disputou eleição. Nem Jânio, nem Collor, nem Ciro, nem Marina, nem Heloísa, nem Tebet podiam dizer isso. Todos tinham mandato antes. Enéas também não tinha em 1989, e só em 1994.
Ele tem 35 segundos de TV. É praticamente o mesmo lugar de Enéas em 1989, que tinha 30 segundos somando manhã e noite. Eu já refiz a conta inteira dessa divisão aqui: a regra é o artigo 47 da Lei 9.504, de 1997, e ela divide 90% do tempo pela bancada de deputados eleita em 2022. O tempo de TV de 2026 foi decidido em 2022.
Ele não tem ancoragem em governo. Este é o item de FHC, e Cury não tem nenhum equivalente. Não existe uma política pública com o nome dele funcionando no país hoje.
Onde ele está nas pesquisas, com o número completo
As quatro pesquisas mais recentes, com campo em setembro de 2026:
| Instituto | Campo | Lula | Flávio | Cury | Caiado | Zema | Renan |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Datafolha | 8 a 11 de setembro | 39% | 35% | 6% | 4% | 2% | 3% |
| Apex/Futura | 4 a 10 de setembro | 39,2% | 33,6% | 6,4% | 4,4% | 2,3% | 4,3% |
| AtlasIntel | 4 a 9 de setembro | 43% | 37,4% | 6,6% | 1,1% | 1% | 6,5% |
| PoderData/Aya | 6 a 9 de setembro | 38% | 36% | 10% | 2% | 2% | 3% |
O maior número já registrado para ele em 2026 foi 12,2%, na Veritá com campo de 1º a 4 de setembro, com 3.804 entrevistados e margem de 2 pontos.
Repare na dispersão: na mesma semana, os institutos colocam Cury entre 6% e 12,2%. É uma diferença grande, e ela existe porque o eleitorado dele ainda é novo e instável. Um eleitorado que chegou em três semanas pode ir embora em três semanas. Foi isso que aconteceu com Marina em 2014.
Também é fato que a Quaest de início de setembro mostrou os indecisos caindo de 51%, em 14 de agosto, para 42% naquela semana. Tem voto se decidindo agora.
O que pesa contra
O que eu penso, e isto é opinião
O padrão que eu achei não diz que terceira via não ganha. Diz uma coisa mais chata e mais útil: terceira via que ganha não é terceira via.
Fernando Henrique não venceu como alternativa aos dois lados. Venceu como o homem do real, com três partidos, o maior tempo de TV e um resultado na mão. Quando ele chegou na urna, já não era o terceiro. Era o primeiro, e fazia meses.
Jânio e Collor ganharam de outro jeito, pelo caminho do "sou diferente deles". Os dois chegaram. Nenhum dos dois ficou. E isso não é azar duas vezes seguidas: é o que acontece quando você chega ao poder sem ninguém no Congresso que dependa de você.
Então a pergunta certa sobre Augusto Cury não é "ele vai crescer?". É outra: ele vai transformar o cansaço do eleitor em adesão ao que ele propõe, ou vai continuar sendo o lugar onde o voto descansa até decidir?
Se for a segunda, a história é a de Marina em 2014.
Se for a primeira, precisa de um real. E até agora não tem um.
Eu voto nele. E é exatamente por isso que eu preferia estar errado sobre esta parte.
Uma nota sobre os percentuais, para quem for conferir
Se você abrir a Wikipédia em português de 2014 e de 2018, vai achar Marina com 18,41% e Ciro com 6,80%. Não bate com o que está aqui.
O motivo é simples. Existem duas contas possíveis:
- Sobre votos válidos, que não conta branco nem nulo. É a conta oficial do TSE e a que aparece em todo jornal.
- Sobre o total de votos depositados, que inclui branco e nulo. Dá sempre um número menor.
Aquelas duas páginas usam a segunda conta. Eu usei a primeira em todos os casos, porque é a régua oficial e é a única que permite comparar 1960 com 2022. Conferi 2014 e 2018 na tabela de votos válidos, que bate com o TSE.
Dá para checar pelo total: em 2018, o total de votos válidos foi 107.050.749. Os 13.344.371 votos de Ciro dão 12,47% desse total. É só dividir.
Perguntas que eu recebi antes de escrever isto
Terceira via nunca ganhou no Brasil?
Ganhou duas vezes. Jânio Quadros em 1960 e Fernando Collor em 1989. Os dois chegaram ao Planalto pelo discurso de ser diferente dos dois lados. Nenhum dos dois terminou o mandato: Jânio renunciou em sete meses e Collor sofreu impeachment em dois anos e nove meses.
E o Fernando Henrique em 1994, não foi terceira via?
No começo daquele ano ele era o terceiro nome da conversa, e nesse sentido sim. Mas quando chegou a urna ele já não era o terceiro. Tinha três partidos na chapa, o maior tempo de TV e o Plano Real funcionando desde 1º de julho. Ganhou no primeiro turno com 54,28%. É por isso que eu digo que terceira via que ganha deixa de ser terceira via antes de ganhar.
Qual foi a maior queda de um candidato nas pesquisas?
Com número medido nas duas pontas, foram duas. Ciro Gomes em 2002 caiu de 28%, no fim de junho, para 11,97% na urna, em outubro. Marina Silva em 2014 caiu de 34%, no fim de agosto, para 21,32% na urna, em outubro. Marina perdeu mais votos em menos tempo, mas Ciro perdeu mais pontos no total.
Quanto Enéas Carneiro fez de verdade?
Em 1994, 4.671.457 votos, que dão 7,38% dos válidos e o terceiro lugar, à frente de Leonel Brizola. Em 1998 caiu para 1.447.089 votos, 2,14%. Em 2002 mudou de disputa e se elegeu deputado federal por São Paulo com 1,5 milhão de votos, a maior votação já registrada para o cargo no país. Morreu em 6 de maio de 2007, de leucemia.
O que essa história diz sobre Augusto Cury?
Diz o que ele tem em comum e o que ele tem de diferente, e só. Em comum: partido pequeno, pouco tempo de TV, subida por cansaço com os dois lados e nenhum mandato anterior. De diferente: ele recusa o rótulo de terceira via e diz querer juntar Lula e Bolsonaro em vez de derrotar os dois, o que nenhum dos sete disse. O que falta é o item que só o FHC tinha, uma política pública funcionando com o nome dele. Eu não estou prevendo resultado nenhum. Eu torço por ele e digo isso na cara.
Por que os percentuais daqui não batem com os que eu vi por aí?
Porque eu usei votos válidos em todos os anos, que é a conta oficial do TSE. Algumas páginas da internet usam o total de votos depositados, que inclui branco e nulo, e por isso dão número menor. Marina em 2014 aparece como 18,41% nessas páginas e o oficial é 21,32%. Ciro em 2018 aparece como 6,80% e o oficial é 12,47%.
A pergunta que fica
A cada quatro anos o Brasil inventa um nome novo para o mesmo lugar. Chamou de vassoura em 1960, de caçador de marajás em 1989, de terceira via em 2014, e de antipolarização em 2026.
O lugar é sempre o mesmo: o cansaço.
E o cansaço tem uma característica que atrapalha muito quem depende dele. Ele não constrói nada. Ele só empurra para longe.
Quem conseguiu virar o jogo não chegou lá empurrando os outros para longe. Chegou trazendo uma coisa concreta na mão e pedindo para o eleitor medir.
A eleição é em 4 de outubro. Faltam três semanas.







