Antes de responder, você precisa saber de uma coisa que aconteceu no Brasil e que quase ninguém com menos de 40 anos sabe direito.
Junho de 1994, o último mês antes do Real
Os preços subiram 47,43% em um único mês. É o IPCA de junho de 1994, no IBGE.
Traduzindo: sua mãe entrava no mercado e o preço mudava enquanto ela empurrava o carrinho. Salário era recebido de manhã e gasto até o meio-dia, porque à tarde já valia menos. Remarcador de preço era profissão.
Aí nasceu o Real. E em 14 de outubro de 1994 aconteceu uma coisa que nunca mais se repetiu: R$ 1 comprava US$ 1,21. O dólar caiu a R$ 0,83, na série histórica do Banco Central. O nosso dinheiro valia mais que o dólar.
Quem estava por trás
Não foi um economista. Foi um professor de sociologia: Fernando Henrique Cardoso.
| O que ele tinha antes de 1994 | Detalhe |
|---|---|
| Doutorado | pela USP, em 1961 |
| Cátedras no exterior | Cambridge, Stanford, Berkeley e Paris |
| Prêmio Príncipe de Astúrias | de Ciências Sociais |
| Prêmio da Biblioteca do Congresso dos EUA | 1 milhão de dólares, o Kluge |
| Cargo executivo antes da Presidência | nenhum. Nunca foi prefeito nem governador |
Mas vamos ser justos. Ele não fez as contas sozinho. Juntou os melhores economistas do país, e brigou para o plano não morrer no Congresso e no Palácio. Quem fez a conta foi o time. Quem segurou a briga foi ele. Quem diz isso é Pérsio Arida, um dos autores do Plano Real.
E quem era contra o plano que deu certo?
O próprio Lula contou, em julho deste ano, no podcast Inteligência Ltda., episódio 1894, gravado em 30 de julho de 2026:
"O Plano Real foi um sucesso extraordinário. Estabilizou a inflação, estabilizou o preço. Era só o PT e o PC do B contra o mundo. Eu era contra. Porque, se eu fosse favorável, por que ser candidato? Então eu tinha que ser contra, pô."
Guarde essa frase. Ela vai voltar no fim.
A pergunta que divide o Brasil há mais de vinte anos
De quem é o Bolsa Família?
O Bolsa Família nasceu em 2003, juntando cinco coisas que já existiam. Quatro delas eram do Fernando Henrique. Inclusive o cadastro que até hoje diz quem tem direito de receber, o Cadastro Único, criado por decreto em 2001.
| Ano | O que aconteceu | Quem |
|---|---|---|
| 1991 | A ideia de renda mínima entra no Congresso | um senador do PT, Eduardo Suplicy |
| 1992 | Quem faz a conta da versão por família é um economista liberal | José Márcio Camargo |
| 1995 | Funciona pela primeira vez, ao mesmo tempo, em Campinas e no DF | um prefeito do PSDB e um governador do PT |
| 1996 a 2002 | Vai para o Brasil inteiro, em programas separados | governo FHC, do PSDB |
| 2003 | Tudo é juntado num programa só | governo Lula, do PT |
Quase nada de grande tem um pai só.
A parte que ninguém conta: o veto
Em janeiro de 2001, Fernando Henrique vetou a meta de dar essa ajuda a todas as crianças pobres do país em seis anos. Está na Mensagem de Veto nº 9, de 9 de janeiro de 2001. O motivo que ele escreveu no documento: não tinha de onde tirar o dinheiro.
Ou seja: ele se recusou a prometer o que não tinha de onde pagar. Três meses depois, criou o Bolsa Escola do tamanho que cabia.
Agora a comparação, e por que eu fiz
Não tem nada a ver com partido. Tem a ver com de onde a pessoa veio.
| Fernando Henrique em 1994 | Augusto Cury em 2026 | |
|---|---|---|
| Profissão de origem | professor de sociologia | médico psiquiatra e escritor |
| Idade ao disputar | 63 anos | 67 anos |
| Cargo executivo antes | nenhum | nenhum |
| Eleições disputadas antes | senador, duas vezes | nenhuma |
| Cargo no governo antes | ministro das Relações Exteriores e da Fazenda | nenhum |
| O que carregava | um plano econômico já em curso | um plano de governo de 200 páginas |
O detalhe que muda tudo
E aqui eu vou ser honesto com você, senão não vale nada.
Fernando Henrique passou por dentro da máquina antes de chegar. Foi senador, foi chanceler, foi ministro da Fazenda. Quando o Brasil votou nele, o Real já estava na rua há três meses e a inflação já tinha caído. O eleitor votou num resultado.
Augusto Cury nunca passou por dentro de nada. Nunca teve mandato, nunca teve ministério, nunca executou um orçamento. Quando o Brasil votar nele, se votar, vai votar numa promessa.
Isso não decide se ele vai dar certo. Decide o tamanho do risco. FHC era aposta com histórico. Cury é aposta sem histórico. As duas podem dar certo. Só uma delas tem prova.
O que ficou de fora, e por quê
- O segundo mandato de FHC. Crise de 1999, apagão de 2001, desvalorização. Fica para outra matéria, porque aqui a pergunta é sobre a chegada, e não sobre a saída.
- Comparar propostas econômicas. O plano de Cury tem 200 páginas e eu já escrevi sobre ele separadamente.
- Dizer que Cury "será" o novo FHC. Ninguém sabe. A pergunta do título é uma pergunta.
Perguntas que chegam nos comentários
Quando o Plano Real começou?
Em 1º de julho de 1994, com Fernando Henrique Cardoso como ministro da Fazenda do governo Itamar Franco. A inflação de junho de 1994 passava de 45% ao mês.
Lula era contra o Plano Real?
Sim, na campanha de 1994. Anos depois, ele explicou: "Se eu fosse favorável, por que ser candidato? Então eu tinha que ser contra."
O Bolsa Família nasceu no governo FHC?
O Bolsa Escola e o Cadastro Único nasceram no governo FHC, em 2001. O Bolsa Família, que unificou os programas, é de 2003, no governo Lula.
Qual é o detalhe que muda tudo na comparação?
FHC tinha trinta anos de vida pública, foi senador e ministro antes de presidir. Cury nunca ocupou cargo nem coordenou equipe de governo.
Cury será o novo FHC?
A matéria não afirma. Mostra o que é parecido, um candidato de fora prometendo consertar a economia, e o que é diferente, a experiência de governo.
A pergunta que fica
Lembra da frase do Lula? "Se eu fosse favorável, por que ser candidato? Então eu tinha que ser contra."
Trinta e dois anos depois, o Brasil tem de novo um candidato de fora da política prometendo consertar a economia. A diferença é que dessa vez o adversário já sabe que o plano de 1994 deu certo. A pergunta é se ele vai ser contra de novo, pelo mesmo motivo.
Eu volto a cada passo, com fonte.






