Eu publiquei um carrossel perguntando se Augusto Cury seria o novo Fernando Henrique. Ele teve 2.200 comentários. Eu li todos.
A crítica que mais se repetiu foi esta: "não foi o Fernando Henrique, foi o Itamar, foi a equipe."
Quem escreveu isso estava certo. E eu fui atrás da papelada para saber o tamanho do meu erro.
Achei uma coisa que eu não esperava. O documento que criou o real não tem a assinatura do Fernando Henrique. Ele já tinha saído do governo três meses antes.
Agora eu preciso te contar a história inteira, do começo. Porque quando ela termina, a comparação com o Cury fica maior do que era antes.
Primeiro, o que era viver com hiperinflação
Hiperinflação é uma palavra grande para uma coisa simples: o preço subia todo dia, e o seu salário derretia dentro do mês.
O IPCA, que é o índice de preços do IBGE, fechou 1993 em 2.477%. Os preços foram multiplicados por quase 26 em doze meses. Quem guardou o equivalente a R$ 100 em janeiro tinha, em dezembro, poder de compra de R$ 3,88.
Em junho de 1994, o último mês antes da moeda nova, a inflação foi de 47,43% em trinta dias.
Se você tem mais de 40 anos, você viu isso em casa. Remarcador de preço era profissão. Existia gente contratada só para andar no supermercado trocando etiqueta.
Dez anos de tentativa e cinco fracassos
A resposta para aquilo já estava escrita desde 1984. Dois economistas, Pérsio Arida e André Lara Resende, propuseram criar uma moeda de mentira só para os preços pararem de correr antes da troca. A proposta ficou conhecida como Larida, junção dos dois sobrenomes. Foi recusada por ser complicada demais.
Enquanto o papel dormia na gaveta, o Brasil tentou de tudo.
| Ano | O que o país tentou | Como terminou |
|---|---|---|
| 1986 | Plano Cruzado, com congelamento de preços | Desabou no ano seguinte |
| 1987 | Plano Bresser | Não segurou |
| 1989 | Plano Verão | Não segurou |
| 1990 | Plano Collor, com confisco da poupança | Trauma nacional |
| 1991 | Collor 2 | Não segurou |
Em 16 de março de 1990, o governo prendeu no banco todo valor acima de 50 mil cruzados novos, por 18 meses. A medida pegou perto de 80% do dinheiro depositado no país.
Traduzindo: a poupança da sua família ficou trancada por um ano e meio.
O presidente que ninguém tinha escolhido
Em outubro de 1992, com o processo de impeachment de Fernando Collor em andamento, o vice assumiu. Em dezembro, com a renúncia, assumiu de vez.
Itamar Franco não foi eleito presidente. Ele foi eleito vice na chapa de outro homem e herdou o cargo pelo pior motivo possível.
Não tinha carisma. Não tinha bancada no Congresso. Não tinha projeto econômico. O que ele tinha era um país com inflação de quatro dígitos.
E teve seis ministros da Fazenda em 27 meses.
| Ministro da Fazenda | Período |
|---|---|
| Gustavo Krause | 2 de outubro a 16 de dezembro de 1992 |
| Paulo Roberto Haddad | 16 de dezembro de 1992 a 1º de março de 1993 |
| Eliseu Resende | 1º de março a 19 de maio de 1993 |
| Fernando Henrique Cardoso | 19 de maio de 1993 a 30 de março de 1994 |
| Rubens Ricupero | 30 de março a 6 de setembro de 1994 |
| Ciro Gomes | 6 de setembro de 1994 a 1º de janeiro de 1995 |
Um ministro a cada quatro meses e meio. É desse caos que saiu o plano econômico que deu certo.
Maio de 1993: o quarto ministro aceita o cargo
Em 19 de maio de 1993, Fernando Henrique Cardoso aceitou o Ministério da Fazenda. Ele era professor de sociologia e escritor de livros de faculdade. Nunca tinha sido prefeito, nunca tinha sido governador.
E ele fez três coisas que os três anteriores não tinham feito.
- Tirou da gaveta a ideia de 1984 e chamou os autores de volta para o governo.
- Montou um time e saiu do caminho dele. Sete economistas: Pérsio Arida, André Lara Resende, Edmar Bacha, Gustavo Franco, Pedro Malan, Winston Fritsch e Clóvis Carvalho.
- Bancou politicamente. Convenceu o presidente e negociou com um Congresso hostil, depois de cinco planos terem queimado a reputação de todo mundo que tentou.
Guarde o terceiro nome da lista. Edmar Bacha volta no fim deste texto.
A URV, explicada sem economês
Em 27 de fevereiro de 1994, a Medida Provisória 434 criou a URV, a Unidade Real de Valor.
A URV não era dinheiro. Ninguém tinha URV na carteira, ninguém pagava o pão com URV. Era um número publicado todo dia, que dizia quanto valia uma unidade de valor estável.
Na prática, o país viveu quatro meses com dois preços na mesma etiqueta: o preço em cruzeiro real, que subia todo dia, e o preço em URV, que ficava parado. Salário, aluguel e contrato foram passados para URV.
Foi um ensaio geral. E funcionou pelo motivo mais humano possível: quando a moeda nova chegou, o preço já tinha parado de correr antes. Não foi preciso confiscar nada de ninguém, ao contrário de 1990.
A prova documental que me obrigou a corrigir
Em 30 de março de 1994, Fernando Henrique deixou o Ministério da Fazenda para se candidatar à Presidência, como a lei exigia.
Naquele dia o real ainda não existia. Existia a URV, com um mês de vida.
Quem assumiu a Fazenda foi Rubens Ricupero. E foi Ricupero quem assinou a Medida Provisória 542, de 30 de junho de 1994, o documento que criou o real. Está no site do Planalto, a assinatura fica no fim do texto, e qualquer pessoa pode abrir agora e conferir.
O real entrou na carteira do brasileiro em 1º de julho de 1994.
A cronologia que desmonta a versão simples
O que aconteceu com o preço
Inflação mensal medida pelo IPCA em 1994
Fonte: IBGE, série histórica do IPCA
De 47,43% em junho para 1,86% em agosto. Em sessenta dias, a inflação de um mês caiu para menos de 2%.
No ano fechado, a queda foi de 2.477% em 1993 para 916% em 1994 e para 22,41% em 1995.
Não existe outro momento parecido na história econômica do Brasil.
Agora a conta que chegou depois
Se eu parar aqui, isto vira propaganda. Então vamos à parte que a parte 1 não contou.
As privatizações
Privatizar é vender uma empresa do governo para gente de fora. O governo Fernando Henrique fez isso em série. Só no primeiro mandato foram 80 empresas.
| Empresa | Data do leilão | Valor |
|---|---|---|
| Vale do Rio Doce | 6 de maio de 1997 | R$ 3,3 bilhões por 41,73% das ações com direito a voto |
| Sistema Telebrás | 29 de julho de 1998 | R$ 22,058 bilhões, o maior leilão do país até ali |
Somando 1995 a 2002, as contas mais citadas chegam perto de US$ 93 bilhões. Elas variam muito, porque depende de incluir ou não a dívida que foi junto com a empresa para o comprador. Somando também o governo anterior, o total de 1990 a 2002 passa de US$ 105 bilhões.
Quem diz que não privatizou está mentindo. Quem diz que foi doação também.
Janeiro de 1999, quando a conta venceu
Em 13 de novembro de 1998, o Brasil fechou com o FMI o maior pacote de socorro que a instituição já tinha montado: US$ 41,5 bilhões.
Não adiantou. Em 13 de janeiro de 1999 o Banco Central afrouxou o controle do dólar. Dois dias depois, largou de vez.
O placar dos oito anos
A dívida do setor público é o quanto o governo deve, comparado com tudo o que o país produz num ano. Em dezembro de 1994 ela era de 30% do PIB. Em dezembro de 2002, de 55,5% do PIB. Quase dobrou de tamanho em oito anos.
O desemprego médio de 2002 ficou em 11,7%, na conta do IBGE para as seis maiores regiões metropolitanas do país.
E em 2001 veio o racionamento de energia, que o Brasil chamou de apagão. O governo mandou cortar 20% do consumo de luz no Distrito Federal e em mais 16 estados. As restrições obrigatórias nas casas começaram em 4 de junho de 2001 e só acabaram em 19 de fevereiro de 2002.
Estabilidade não é justiça. O Brasil parou de queimar dinheiro e continuou desigual.
Uma nota sobre o homem de 1994
Fernando Henrique Cardoso foi interditado pela Justiça de São Paulo em 15 de abril de 2026, a pedido dos três filhos, por causa do avanço do Alzheimer. Um dos filhos foi nomeado curador.
Por isso, tudo o que este texto diz sobre ele é sobre o homem de 1993 e 1994, no passado, com data e documento. Nada que apareça hoje em nome dele entra aqui.
A comparação, refeita
Agora eu junto as duas pontas. E eu preciso começar pelo que é parecido, com o cuidado de não empurrar semelhança onde não tem.
| Fernando Henrique em 1993 | Augusto Cury em 2026 | |
|---|---|---|
| Profissão de origem | professor de sociologia e escritor | médico psiquiatra e escritor |
| Cargo executivo antes | nenhum, nunca foi prefeito nem governador | nenhum |
| Como chegou | aceitou um ministério que ninguém queria | disputa a Presidência pelo Avante, número 70 |
| Acusado de quê | de ser de esquerda nos anos 1960 e 1970, e de ser da direita depois de 1995 | de ser de esquerda por causa do partido, e da direita por causa da anistia |
| O que dizia sobre a solução | que era trabalho de uma equipe de sete | que é trabalho de um "governo de notáveis" |
Sobre a acusação de lado, os dois casos têm documento. Fernando Henrique saiu do país em 1964 e foi aposentado à força da universidade em 1969, pelo regime militar, sob a etiqueta de professor de esquerda. Vinte e cinco anos depois, virou o símbolo do que a esquerda chamava de entrega do país.
Cury carrega as duas acusações ao mesmo tempo. O Avante entrou na chapa de Lula e Alckmin em 2022. E o deputado mais lulista do partido, André Janones, saiu do Avante em 26 de março de 2026 dizendo que queria um partido com garantia de apoio a Lula. Dez dias depois, em 5 de abril de 2026, Cury se filiou. Foi a primeira filiação partidária da vida dele.
Os quinze nomes, e o que amarra 1994 a 2026
Cury já disse quinze nomes em público para um eventual governo.
Economia: Ilan Goldfajn, Armínio Fraga, Mansueto Almeida e Edmar Bacha. Indústria: Paulo Skaf. Governadores e políticos: Tarcísio de Freitas, Ratinho Júnior, Eduardo Leite, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Aldo Rebelo e Renan Filho. Nomes ligados à esquerda: José Múcio, Rafael Fonteles e José Eduardo Cardozo.
Volte ao time de sete economistas do Plano Real. Edmar Bacha é um dos sete.
O mesmo homem aparece nas duas histórias, com 32 anos de diferença. Em 1994, desenhando a moeda. Em 2026, citado por um candidato que nunca ocupou cargo nenhum.
É isso que me fez trocar a minha tese da parte 1. Eu tinha escrito que os dois vieram de fora da política. Está certo, e é raso. O que salvou o Brasil em 1994 não foi o diploma de um professor. Foi um presidente sem projeto econômico ter admitido que não sabia, chamado sete que sabiam e saído da frente.
Essa é a aposta que está na mesa de novo.
Perguntas que chegam nos comentários
Quem criou o Plano Real, afinal?
Não foi uma pessoa. A ideia central é de Pérsio Arida e André Lara Resende, de 1984. O desenho é de uma equipe de sete economistas. A articulação política é de Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda de 19 de maio de 1993 a 30 de março de 1994. A medida provisória que criou o real foi assinada por Rubens Ricupero. O presidente era Itamar Franco.
Fernando Henrique era ministro quando o real nasceu?
Não. Ele saiu do ministério em 30 de março de 1994 para ser candidato. O real entrou em circulação em 1º de julho de 1994, três meses depois.
Quanto a inflação caiu com o real?
Pelo IPCA do IBGE, de 47,43% em junho de 1994 para 6,84% em julho e 1,86% em agosto. No ano, de 2.477% em 1993 para 916% em 1994 e 22,41% em 1995.
Quanto o governo Fernando Henrique arrecadou com as privatizações?
As contas mais citadas para 1995 a 2002 chegam perto de US$ 93 bilhões, e variam conforme se inclui ou não a dívida transferida ao comprador. A Vale foi vendida em 6 de maio de 1997 por R$ 3,3 bilhões e a Telebrás em 29 de julho de 1998 por R$ 22,058 bilhões.
O que aconteceu em janeiro de 1999?
O Brasil já tinha pedido socorro ao FMI em novembro de 1998, num pacote de US$ 41,5 bilhões. Em 13 de janeiro de 1999 o Banco Central afrouxou o controle do dólar e dois dias depois soltou de vez. O dólar saiu de perto de R$ 1,21 e bateu R$ 2,16 em 3 de março.
Augusto Cury tem experiência de governo?
Não. Ele nunca ocupou cargo público e nunca disputou uma eleição antes desta. Disputa a Presidência pelo Avante, número 70, e se filiou ao partido em 5 de abril de 2026.
O que eu não consegui confirmar
- Se algum dos quinze aceitaria. Procurei, e nenhum respondeu em público. Citação não é acordo.
- A idade e a posição de Edmar Bacha hoje sobre a candidatura. Ele foi citado. Ele não respondeu.
- Um número único de privatizações. As bases divergem, então este texto mostra a faixa e explica por quê.
Eu errei na parte 1 e voltei aqui para consertar na frente de todo mundo. Da próxima vez que alguém disser, com toda a certeza, que o Plano Real foi obra de um homem só, você já sabe onde está a assinatura.
Leia também: De quem foi o Plano Real? e Augusto Cury será o novo Fernando Henrique?







