Um candidato a presidente sentou diante das câmeras do Domingo Espetacular, na Record, e fez um pedido que não estava no manual de campanha:
"Eu quero pedir mais do que o seu voto. Eu quero pedir o seu coração para pacificar essa nação."
E em seguida a frase que, na minha leitura, é a mais forte que ele já disse nesta campanha:
"Há milhões de pessoas encantadoras na direita, milhões de pessoas encantadoras na esquerda. Mentiram para nós que somos duas famílias. É uma família só, chamada família brasileira."
Discurso bonito é fácil de fazer. Então eu fui atrás do que existe de número por trás dele. E o número é feio.
O tamanho do estrago
| O que a pesquisa mediu | Resultado | Quem mediu |
|---|---|---|
| Brasileiros que já romperam ou reduziram o convívio com amigos ou familiares por divergência política | 52,7% | Instituto Informa, julho de 2026 |
| Entre esses, os que dizem que o afastamento acontece com frequência | quase 30% | Instituto Informa |
| Brasileiros que mudariam de país por causa da polarização, se pudessem | 41% | Quaest |
| Eleitores que se identificam como petistas ou bolsonaristas | 74% (40% e 34%) | Datafolha |
Leia a primeira linha de novo. Mais da metade do país já perdeu alguém, ou parte de alguém, por causa de política.
Isso não é um dado sobre eleição. É um dado sobre a mesa de domingo.
Por que a palavra "adoeceu" não é força de expressão
Cury é psiquiatra. Quando ele diz que a polarização "adoeceu toda a família brasileira", ele está usando um vocabulário que conhece.
Existe um nome técnico para o que os números acima descrevem: polarização afetiva. É diferente de discordar. Discordar é ter opinião diferente sobre imposto, aborto, armas. Polarização afetiva é quando a pessoa passa a sentir desprezo pelo outro grupo como grupo, independentemente do que cada indivíduo pense.
É por isso que o irmão vira "o outro lado" antes de virar o irmão de novo. A discordância era sobre uma ideia. O afastamento é sobre a pessoa.
E a característica mais cruel da polarização afetiva é esta: ela beneficia quem a produz e custa para quem a sente. Quem vive de engajamento, de voto cativo ou de audiência precisa que você tenha raiva. Você, o seu irmão e a sua mãe pagam a conta no silêncio do almoço.
O que ele prometeu, e o que dá para cobrar
Na mesma entrevista, ele repetiu uma promessa que vem fazendo desde a sabatina da CNN:
"Não amo dinheiro. Aliás, até o meu salário será doado para duas microempresas e escolas públicas por mês. Eu não preciso de dinheiro, nem preciso de poder."
A tarja da própria Record registrou: "Cury diz que doará salário para duas microempresas e escolas públicas por mês, caso seja eleito".
Vale registrar como promessa, não como fato. Promessa de campanha vira compromisso cobrável no dia em que a pessoa toma posse. Até lá, é palavra. Mas é uma palavra específica, com número, o que a torna fácil de cobrar depois.
O eleitor que esse discurso alcança existe, e ninguém está falando com ele
A Quaest tem mostrado, ao longo desta campanha, que Cury lidera entre os eleitores que não se identificam com nenhum dos dois lados. Esse grupo é justamente o que sobra dos 74% que o Datafolha classifica como petistas ou bolsonaristas: cerca de um em cada quatro eleitores.
É pouco para ganhar uma eleição sozinho. É muito para decidir uma.
E é o único pedaço do eleitorado com quem nem Lula nem Flávio Bolsonaro conseguem falar sem perder o próprio público. Um discurso de pacificação, para eles, custa a base. Para quem não tem base cativa, custa nada.
Isso não torna o discurso sincero ou insincero. Torna o discurso estratégico. E as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.
O que eu tiro disso
Eu sou de direita e não pretendo deixar de ser. Continuo achando que o país precisa de alternância, e digo isso aqui todo dia.
Mas o número da primeira tabela não pergunta em quem você vota. Ele pergunta com quem você parou de almoçar.
Dá para manter o lado e devolver a cadeira da mesa. As duas coisas cabem na mesma pessoa. E se um candidato precisou ir à televisão lembrar isso, é porque a gente esqueceu.
Perguntas que chegam nos comentários
O que exatamente o Cury disse na Record?
Que quer pedir mais do que o voto, quer pedir o coração para pacificar a nação; que há milhões de pessoas boas na direita e na esquerda; que mentiram que somos duas famílias, quando é uma só; e que a polarização adoeceu a família brasileira.
Quantos brasileiros já romperam relações por política?
52,7% já romperam ou reduziram o convívio com amigos ou familiares por divergência política, segundo levantamento do Instituto Informa de julho de 2026. Quase 30% dizem que isso acontece com frequência.
O que é polarização afetiva?
É quando a discordância política vira desprezo pelo outro grupo como grupo, independentemente do que cada pessoa pense. É o mecanismo que transforma um parente em "o outro lado".
Ele vai mesmo doar o salário?
É uma promessa de campanha, registrada pela Record e repetida na CNN: doar o salário de presidente para duas microempresas e escolas públicas por mês. Só se torna fato se ele for eleito e cumprir.
Discurso de união ganha eleição?
Sozinho, não. Mas a Quaest mostra que ele lidera entre os eleitores sem lado, cerca de um em cada quatro, e esse é o grupo que nenhum dos dois polos consegue disputar sem perder a própria base.
Isso é propaganda do Cury?
É análise de uma fala pública, com os números que a sustentam e um bloco inteiro com o que joga contra ela. Quem lê os dois lados decide sozinho.







