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Política / 13 de setembro de 2026

Eu fui ver

O eleitor caranguejo anda de lado e continua no mangue. 10,4 milhões de brasileiros trocaram de lado entre 2018 e 2022

Um seguidor escreveu nos meus comentários que existe um bicho político chamado eleitor-caranguejo: anda de lado, briga pela direita, briga pela esquerda e continua atolado no mesmo lugar. A piada é boa. O problema é que ela tem número. Eu fui atrás de quantos brasileiros trocam de lado a cada eleição, de por que a gente vota com raiva do último em vez de esperança no próximo, e de uma pergunta que quase ninguém se faz antes de digitar o número na urna.

Publicado
13 de setembro de 2026
Atualizado
13 de setembro de 2026
Editoria
Política
Leitura
22 min
Fontes
22 citadas
Caranguejo-uçá (Ucides cordatus) no manguezal. Foto de Pancrat, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0
Caranguejo-uçá (Ucides cordatus) no manguezal. Foto de Pancrat, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

A resposta em uma frase

Sim, existe gente trocando de lado toda eleição, e é muita gente. Em maio de 2022, uma pesquisa PoderData mostrou que 18% de quem tinha votado em Bolsonaro no segundo turno de 2018 pretendia votar em Lula. Dezoito por cento parece pouco. Em pessoas, dá mais ou menos 10,4 milhões de brasileiros. É quase a população inteira de Portugal trocando de camisa em quatro anos.

O que quase nunca muda é o motivo. Na maioria das vezes a pessoa não troca porque se apaixonou pelo novo. Ela troca porque está com raiva do velho. Tem nome para isso na ciência política: voto de castigo. E tem um efeito colateral que ninguém conta: quem vota só para punir alguém quase nunca cobra entrega de quem elegeu. Aí, quatro anos depois, está com raiva de novo.

Andar de lado. Voltar para o mesmo mangue. Um seguidor meu resumiu isso melhor que qualquer cientista político, e esta matéria começa nele.

O comentário que batizou o bicho

No dia 12 de setembro de 2026 eu terminei de ler 3.838 comentários de três posts meus sobre a eleição. Um deles, da @angela.l.guimaraes, dizia isto, com as letras maiúsculas dela:

"ELEITOR-CARANGUEJO 🦀 ANDA DE LADO. BRIGA PELA DIREITA. BRIGA PELA ESQUERDA. E CONTINUA ATOLADO NO MESMO MANGUE."

O comentário não teve nenhuma curtida. Foi um dos melhores que eu li no ano.

E ele não estava sozinho. Na mesma leitura apareceram estas vozes, todas de pessoas diferentes:

"22 = a 13 então agora é 70" (@rodrigomagnus34)
"Eu era 22 Bolsonaro, mas como é o Flávio rachaduras sou 70 Cury agora 🔥" (@ir.janiellson)
"Augusto Cury. Essa será a primeira vez que não votarei em Lula." (@junior.guimaraes.73157)
"Eu sou da turma que odeio o 13 e o 22, então eu precisava de uma terceira via para não jogar meu voto fora como nos últimos anos" (@carlaboldrinicosta)
"Chega do mesmo, vamos ser roubados por pessoas diferentes agora kkkk" (@ruanaeberle)

Olhe a última com carinho. Ela é uma piada, e é também a definição exata do problema. Trocar quem rouba não é o mesmo que parar de ser roubado.

O caranguejo existe mesmo, e a comparação é melhor do que parece

Antes de falar de política, vale falar do bicho. O caranguejo-uçá vive no manguezal e é comum em toda a costa atlântica, da Flórida até o sul do Brasil. Caranguejo se locomove de lado por causa da articulação das patas. Não é escolha dele, é anatomia.

Duas coisas sobre esse caranguejo interessam aqui.

A primeira: ele é territorialista. Ele cava a própria toca, limpa a própria toca e, segundo a descrição da espécie, "raramente entrando em uma galeria que não a sua própria". A toca pode ter de 60 a 180 centímetros de profundidade.

A segunda é linda e serve como retrato da nossa eleição. Uma vez por ano, na época de acasalamento, o caranguejo-uçá sai da toca. A descrição científica diz que ele fica "vagando lenta e errantemente pelo manguezal". Esse fenômeno tem nome popular no Nordeste: andada, carnaval ou corrida do caranguejo.

Ele sai. Anda de lado. Faz barulho. E volta para o mangue.

Raízes de mangue expostas na maré baixa

Raízes de mangue na maré baixa. Foto de Jonathan Wilkins, CC BY-SA 3.0, Wikimedia Commons.

É exatamente o que uma parte grande do eleitorado brasileiro faz de quatro em quatro anos. Sai de casa, anda de lado, briga com o cunhado, muda de número, volta para o mesmo lugar. Quem inventou a expressão "eleitor caranguejo" acertou até na biologia sem saber.

10,4 milhõestrocaram de ladoeleitores de Bolsonaro em 2018 que diziam voto em Lula em maio de 2022
39%dos eleitores de 2018Bolsonaro já tinha perdido em maio de 2022, segundo o PoderData
30%votam para evitar alguémDatafolha de 18 a 20 de agosto de 2026
43%ainda podiam mudarQuaest de 9 a 13 de abril de 2026

O tamanho da troca de lado, com fonte e data

10,4 milhões: de onde sai essa conta

O PoderData foi a campo de 8 a 10 de maio de 2022. Foram 3.000 entrevistas por telefone, em 288 municípios dos 27 estados, com margem de erro de 2 pontos e registro no TSE sob o número BR-08423/2022.

O instituto perguntou a quem tinha votado em Bolsonaro no segundo turno de 2018 o que a pessoa faria em 2022. O resultado:

Resposta de quem votou em Bolsonaro em 2018Percentual
Votaria em Bolsonaro de novo61%
Votaria em Lula18%
Votaria em Ciro Gomes4%
Votaria em João Doria4%
Outros, brancos, nulos e indecisoso restante

Bolsonaro tinha recebido 57,8 milhões de votos no segundo turno de 2018. Dezoito por cento disso dá perto de 10,4 milhões de pessoas. O próprio Brasil de Fato fez essa conta na época.

E tem um número ainda maior escondido aí. O PoderData registrou que, naquele momento, Bolsonaro havia perdido 39% dos eleitores do segundo turno de 2018. Quatro em cada dez. Não é que todos foram para Lula. A maioria simplesmente saiu, ficou indecisa ou foi procurar outro nome.

Agora está acontecendo de novo, e do outro lado

O caranguejo não tem partido. Em setembro de 2026, o instituto Nexus, em pesquisa para o BTG, foi a campo entre os dias 4 e 7 e ouviu 2.002 pessoas por telefone, com margem de erro de 2 pontos. A pesquisa foi divulgada em 8 de setembro.

Resultado: 10% de quem votou em Lula em 2022 não vota nele agora. Desses, 6% foram para Flávio Bolsonaro e 4% foram para Augusto Cury.

O mais interessante é que são duas pessoas completamente diferentes. O instituto escreveu assim:

"A perda de votos da base que elegeu Lula em 2022 ocorre em duas frentes de insatisfação completamente distintas"

Quem saiu do Lula para o Flávio: 49% têm de 41 a 59 anos, 28% têm 60 anos ou mais, 53% estudaram só até o ensino fundamental e 51% ganham até um salário mínimo. Está mais no interior do Nordeste e do Sudeste.

Quem saiu do Lula para o Cury, segundo o Nexus, tem "um perfil acentuadamente feminino, jovem e inserido na classe média trabalhadora": 64% são mulheres, 54% têm de 25 a 40 anos, 45% ganham de 2 a 5 salários mínimos e 84% têm ensino médio ou superior.

Traduzindo para a mesa da cozinha: um saiu do Lula porque o dinheiro não está dando. O outro saiu porque cansou da briga.

Quanto o voto ainda pode mudar até outubro

Duas pesquisas de 2026 medem o tamanho do caranguejo que ainda está andando.

A Quaest, contratada pela Genial, ouviu 2.004 pessoas presencialmente entre 9 e 13 de abril de 2026, com margem de erro de 2 pontos. Dessas, 57% disseram que o voto era definitivo e 43% disseram que ainda podiam mudar até a eleição. Entre eleitores de Lula, 35% admitiam mudança. Entre eleitores de Flávio Bolsonaro, 40%.

O Datafolha foi a campo depois, de 18 a 20 de agosto de 2026, com 2.058 entrevistas, margem de 2 pontos e registro BR-04496/2026. Nessa altura, 72% já se diziam totalmente decididos. Ou seja, restavam 28% em cima do muro, a menos de dois meses da urna.

A eleição é em 4 de outubro. Vinte e oito por cento é muito mais do que a diferença que decidiu 2022, quando Lula fez 50,90% e Bolsonaro fez 49,10%.

O nome disso tem quase meio século: voto de castigo

Agora a parte que explica o comportamento.

Voto de castigo é o voto de quem vai à urna para punir. O eleitor não está escolhendo um futuro, está cobrando um passado. O Diccionario Electoral define assim: é a decisão de quem vota para mostrar desagrado com a situação presente, e é a avaliação do governo que determina o sentido do voto. Por isso ele também se chama voto retrospectivo, que é uma palavra difícil para uma ideia simples: o eleitor olha para trás antes de digitar o número.

Em democracias saudáveis isso é considerado coisa boa. É o que obriga quem governa a entregar alguma coisa, porque quem governa mal pode perder o poder. O problema não está no castigo. O problema está em castigar e parar por aí.

O caderninho de Fiorina

Quem organizou essa ideia foi um cientista político americano chamado Morris Fiorina, num livro de 1981 com 249 páginas, publicado pela Universidade Yale, chamado "Retrospective Voting in American National Elections".

A tese dele cabe numa frase: o eleitor comum não tem tempo de estudar plano de governo, então ele julga o que já aconteceu com a vida dele. Emprego, preço da comida, segurança, saúde. Ele não avalia promessa. Ele avalia resultado.

O jeito como Fiorina descreveu isso ficou famoso. Para ele, a simpatia por um partido funciona como um "running tally of how each party is treating me". Em português de quarta série: um caderninho onde a pessoa vai anotando, ano após ano, como cada lado tratou ela. Quando o saldo do caderninho fica negativo, o voto muda.

O resumo acadêmico do professor Adam Brown, da Universidade Brigham Young, sintetiza a ideia: "retrospective voting is based on expectations about future welfare guided by evaluations of past policy end-states". Ou seja, o eleitor usa o passado como bola de cristal do futuro.

Fiorina não estava criticando esse eleitor. Ele estava defendendo. Para ele, olhar o retrovisor é uma forma inteligente de decidir quando você não tem tempo de estudar tudo.

Eu concordo com isso até a metade. O retrovisor serve para não repetir o erro. Só que dirigir olhando só para o retrovisor tem um nome, e não é atenção.

Três castigos seguidos no Brasil

Olhe a nossa história recente com esse óculos. Ela fica assustadoramente simples.

EleiçãoQuem tinha governadoO clima na urnaResultado do turno decisivo
2002FHC, oito anos de PSDBDesemprego e desgasteLula 61,27% x Serra 38,73%
2006Lula, primeiro mandatoEconomia melhorandoLula 60,83% x Alckmin 39,17%
2010Lula, fim de dois mandatosAprovação altaDilma 56,05% x Serra 43,95%
2014Dilma, primeiro mandatoJá rachandoDilma 51,64% x Aécio 48,36%
2018PT, treze anos com impeachment no meioRaiva e Lava JatoBolsonaro 55,13% x Haddad 44,87%
2022BolsonaroPandemia e comida caraLula 50,90% x Bolsonaro 49,10%

Agora os números que estavam por trás de cada virada.

2002. Os pesquisadores Rubens Figueiredo e Ciro Coutinho estudaram aquela eleição na revista Opinião Pública, em 2003. Eles registraram que 52% dos entrevistados disseram que não votariam de jeito nenhum em um candidato que representasse a continuidade da política de FHC. Em outubro de 2002, só 23% avaliavam bem o governo FHC, contra 43% em setembro de 1998. E 65% dos brasileiros diziam que o desemprego tinha piorado. O caderninho estava no vermelho.

2018. O Datafolha de agosto de 2015 mostrou o governo Dilma com 71% de ruim ou péssimo e 8% de ótimo ou bom. Era o pior índice de um presidente brasileiro desde Collor. Três anos depois daquele número, o PT perdeu a eleição para um deputado do baixo clero que quase ninguém levava a sério em 2014.

2022. Jair Bolsonaro virou o primeiro presidente brasileiro derrotado tentando a reeleição desde que a reeleição foi criada, em 1997. Antes dele, três tentaram e três conseguiram: FHC em 1998, Lula em 2006 e Dilma em 2014. A taxa de sucesso era de 100%. Passou a ser de 75%.

Três eleições. Três castigos. Sempre a mesma lógica: o eleitor não escolheu o novo, ele demitiu o velho.

Avaliação positiva do governo pouco antes da virada

FHC em setembro de 1998, antes de se reeleger43
FHC em outubro de 2002, antes do PT vencer23
Dilma em agosto de 2015, antes do impeachment8

Fontes: Opinião Pública 2003 e Datafolha de agosto de 2015

O Brasil troca o partido, mas não troca o mangue

Aqui está a parte que dói.

Desde 1989, quando voltamos a eleger presidente pelo voto direto, o Brasil teve nove eleições presidenciais. O partido do presidente mudou quatro vezes: em 1994, em 2002, em 2018 e em 2022.

A conta por partido fica assim: PRN venceu uma vez (1989), PSDB venceu duas (1994 e 1998), PT venceu cinco (2002, 2006, 2010, 2014 e 2022) e o PSL venceu uma (2018).

Em 37 anos de urna, o brasileiro trocou de lado quatro vezes. E hoje, em setembro de 2026, as queixas nos meus comentários são as mesmas de 2002: corrupção, emprego, preço de comida, sensação de que ninguém presta.

Alguém andou de lado o tempo todo. E o mangue continua lá.

Eu já escrevi sobre outra parte desse mesmo problema na matéria sobre os 37,9 milhões de brasileiros que não escolheram ninguém em 2022. Aquele grupo não anda nem de lado. Fica na toca.

A América Latina inteira anda de lado junto

Não é só aqui. O cientista político Daniel Zovatto escreveu na revista Diálogo Político, em 21 de março de 2023, um estudo sobre o que ele chamou de superciclo eleitoral latino-americano de 2021 a 2024, com 17 países votando para presidente.

A frase dele sobre o período de 2019 até agosto de 2022, tirando a farsa eleitoral da Nicarágua de Ortega, é curta e brutal:

"em todas houve um voto de castigo à situação"

Em todas. Governo nenhum sobreviveu à urna nesse intervalo. E Zovatto completa:

"Os governos em exercício foram repetidamente castigados nas urnas. [...] a alternância redundou no encurtamento dos ciclos políticos."

Ciclo político mais curto quer dizer o seguinte: o eleitor dá cada vez menos tempo para o governante entregar alguma coisa antes de bater nele. Entre 2019 e 2022, nenhum presidente latino-americano que tentou reeleição consecutiva conseguiu. Mauricio Macri perdeu na Argentina em 2019. Evo Morales perdeu na Bolívia no mesmo ano.

O contraponto honesto: em 2024 a maré virou em parte, e governos venceram no México, em El Salvador e na República Dominicana. Ou seja, o castigo não é lei da física. É humor.

30% já admitem: voto para evitar alguém

Agora o dado mais direto de todos, e ele é de agora.

No Datafolha de 18 a 20 de agosto de 2026, com 2.058 entrevistas e registro BR-04496/2026, o instituto perguntou por que a pessoa vota no candidato dela. 30% responderam que votam para evitar que outro candidato chegue à Presidência. Outros 61% disseram que escolhem porque consideram o seu candidato o mais preparado para o cargo.

Um em cada três brasileiros já assume, para um entrevistador, que o voto dele é contra alguém.

E o percentual muda muito de campo para campo:

Quem diz votar para EVITAR que outro candidato vença, por eleitorado

Romeu Zema37
Flávio Bolsonaro35
Ronaldo Caiado31
Média de todos os eleitores30
Renan Santos24
Lula23

Datafolha, campo de 18 a 20 de agosto de 2026, registro BR-04496/2026

Eu não encontrei nessa divulgação o percentual correspondente entre os eleitores de Augusto Cury, então não vou inventar um. Quando sair, eu atualizo esta matéria.

Repare numa coisa contraintuitiva. Os dois eleitorados que menos dizem votar "contra" são justamente os dois extremos do antigo eixo: Lula com 23% e o candidato do Missão, Renan Santos, com 24%. Quem mais vota contra alguém está no meio do campo da direita, entre Zema, Flávio e Caiado, onde a disputa por quem "tira o PT" é a conversa principal.

O que é ser antipetista, segundo quem estudou isso

Existe um estudo brasileiro que descreve com precisão o eleitor movido por rejeição. Denise Paiva, Silvana Krause e Adriana Paz Lameirão publicaram, na revista Opinião Pública de dezembro de 2016, o artigo "O eleitor antipetista: partidarismo e avaliação retrospectiva".

Elas usaram o Estudo Eleitoral Brasileiro de 2014, com 2.506 entrevistados, e encontraram 268 antipetistas. O retrato: majoritariamente branco, com escolaridade e renda acima da média, concentrado no Sudeste e especialmente em São Paulo. Entre os que tinham preferência por algum partido, 58,4% preferiam o PSDB.

Duas variáveis explicavam quase tudo: a avaliação negativa do governo Dilma e a simpatia pelo PSDB, que multiplicava por cerca de 4,9 vezes a chance de a pessoa ser antipetista.

Note o detalhe importante do título do artigo: avaliação retrospectiva. É o caderninho de Fiorina outra vez. E as autoras fazem uma separação que vale ouro nesta eleição: antipetista é quem rejeita um partido. Antipartidário é quem rejeita todos. São bichos diferentes, e nos meus comentários os dois estão misturados.

A pessoa que escreveu "Eu sou da turma que odeio o 13 e o 22" não é antipetista. Ela é antipartidária. E é exatamente por isso que ela está sem lugar há três eleições.

O que eu não consegui achar

Para ser honesto com quem está lendo, aqui está o que faltou.

Eu queria um número fechado de quantos brasileiros trocaram de voto entre 2018 e 2022, calculado sobre o Estudo Eleitoral Brasileiro, o ESEB, do Cesop da Unicamp. Esse estudo existe e é sério: a rodada de 2022 foi a sexta, com campo de 19 de novembro a 4 de dezembro de 2022, 2.001 entrevistas em 119 municípios dos 27 estados, coordenada pela professora Rachel Meneguello e ligada a um projeto internacional da Universidade de Michigan. Os microdados estão abertos. Só que eu não achei publicado o cruzamento que eu queria, e eu não vou estimar por conta própria e apresentar como se fosse do instituto.

Também procurei o índice de Pedersen, que é a medida acadêmica clássica de volatilidade eleitoral, criada em 1979, aplicada às eleições presidenciais de 2018 e 2022. A literatura brasileira mostra que a volatilidade presidencial caiu depois de 2002, na fase de PT contra PSDB. Para as duas últimas eleições, eu não achei o número atualizado em fonte aberta. Fica anotado como pendência.

O que pesa contra esta matéria

O que eu penso

Esta parte é opinião, e está marcada como opinião.

Eu acho que o brasileiro não é burro. Ele é cansado. Ele fez o que Fiorina descreveu: abriu o caderninho, viu que o saldo estava ruim e trocou. Fez isso em 2002, fez em 2018 e fez em 2022. Nenhuma dessas trocas foi irracional.

O que me incomoda não é a troca. É o que vem depois dela.

Quando alguém vota contra, a relação com o eleito acaba no dia da apuração. Você não elegeu um contrato, você executou uma punição. Não existe cobrança no mês seguinte, porque não existia pedido no mês anterior. Aí o mandato inteiro passa, o caderninho enche de novo, e a gente volta para a urna com raiva de outro.

Quando alguém vota a favor, a relação começa no dia da apuração. Você pediu alguma coisa específica, escrita, com prazo. E você pode cobrar.

Eu passei a vida em marketing e essa é a diferença entre reclamação e pedido. Reclamação alivia. Pedido muda alguma coisa. Voto contra é reclamação com urna. Voto a favor é pedido com prazo de quatro anos.

Por isso eu escrevi esta matéria com um teste no fim, e não com um discurso. Se você responder as quatro perguntas abaixo e travar na segunda, você não está escolhendo. Você está castigando. E tudo bem castigar, desde que você saiba que é isso que está fazendo.

Eu voto 70, já contei o motivo na matéria por que eu voto 70. Mas eu prefiro mil vezes que você vote em outro nome sabendo o que pediu, do que vote no meu com raiva do vizinho. O voto com raiva evapora no dia seguinte. Ele não cobra, não fiscaliza e não segura ninguém.

O teste de quatro perguntas antes de digitar o número

Isto aqui é de graça e serve para qualquer candidato, de qualquer lado, em qualquer ano.

1. Cite uma coisa que o seu candidato prometeu, com número e prazo. Não vale "vai melhorar a economia". Vale "vai cortar tal imposto", "vai fazer tal obra até tal ano". Se você não consegue citar nenhuma, você não escolheu um plano. Você escolheu um time.

2. Se ele ganhar e não fizer isso, o que você faz? Essa é a pergunta que separa eleitor de torcedor. Torcedor não tem resposta para ela.

3. Você consegue dizer uma coisa boa do candidato do outro lado? Uma só. Se não consegue, não é porque o outro é perfeito em nada. É porque a raiva já está escolhendo por você.

4. Se tirassem o adversário que você odeia da disputa, você ainda votaria no seu candidato? Se a resposta for não, o seu voto é do adversário, não do seu candidato.

Eu apliquei esse teste em mim mesmo antes de publicar. Travei na terceira por uns bons minutos. Foi um minuto útil.

O que fica

Uma eleição não conserta um país sozinha. Ela só troca quem senta na cadeira. O que conserta é o que o eleitor faz nos 1.460 dias seguintes, e isso depende inteiramente de ele ter pedido alguma coisa antes.

O caranguejo sai da toca uma vez por ano, anda de lado, faz barulho e volta. É lindo de ver e não muda nada no mangue.

A eleição é em 4 de outubro de 2026. No fim de agosto, 28% dos eleitores ainda estavam em cima do muro, segundo o Datafolha. Esse povo vai decidir a disputa. A única pergunta que importa para eles é a que dá título a esta parte, e eu deixo ela inteira:

O que faria você votar a favor de alguma coisa, e não contra alguém?

Se você tiver uma resposta, escreva. Eu leio todas. Foi lendo 3.838 delas que esta matéria nasceu.

Perguntas que eu recebi sobre isso

O que é "eleitor caranguejo"?

É uma expressão que nasceu num comentário no meu perfil, da @angela.l.guimaraes, em setembro de 2026. Descreve o eleitor que troca de lado a cada eleição por raiva do anterior, briga pela direita, briga pela esquerda e continua na mesma situação de vida. A imagem funciona porque o caranguejo anda de lado de verdade e volta sempre para a mesma toca no mangue.

Quantos brasileiros trocaram de lado entre 2018 e 2022?

Não existe número oficial de urna, porque o voto é secreto. O melhor dado público é do PoderData, de 8 a 10 de maio de 2022: 18% de quem votou em Bolsonaro no segundo turno de 2018 pretendia votar em Lula. Como Bolsonaro teve 57,8 milhões de votos naquele turno, isso equivale a cerca de 10,4 milhões de pessoas. A mesma pesquisa mostrou que ele já tinha perdido 39% dos eleitores de 2018.

O que é voto de castigo?

É o voto dado para punir quem está no poder, em vez de escolher quem vai entrar. Também se chama voto retrospectivo, porque o eleitor julga o passado para decidir o futuro. Foi organizado como teoria pelo americano Morris Fiorina, num livro de 1981. Para ele, o eleitor guarda um caderninho mental de como cada partido tratou a vida dele e vota conforme o saldo.

Voto de castigo é coisa ruim?

Não. É uma das poucas ferramentas que o eleitor tem para cobrar quem governa. O problema começa quando o castigo é a única coisa que existe no voto. Aí a pessoa pune, não pede nada, não cobra nada depois e volta com raiva quatro anos depois.

Presidente no Brasil costuma se reeleger?

Costumava sempre. Desde que a reeleição foi criada, em 1997, quatro presidentes tentaram um segundo mandato seguido. FHC conseguiu em 1998, Lula em 2006 e Dilma em 2014. Jair Bolsonaro foi o primeiro a perder, em 2022, quando Lula fez 50,90% e ele fez 49,10% no segundo turno.

Quantos eleitores ainda podem mudar de voto até 4 de outubro de 2026?

Depende do instituto e da data. A Quaest, em campo de 9 a 13 de abril de 2026, achou 43% dizendo que ainda podiam mudar. O Datafolha, mais perto da eleição, entre 18 e 20 de agosto de 2026, achou 72% totalmente decididos, o que deixa 28% em aberto. Os dois números são muito maiores que a diferença de 1,8 ponto que decidiu a eleição de 2022.

Fontes desta materia

  1. Brasil de Fato, Lula conquista 18% dos eleitores que votaram em Bolsonaro em 2018, aponta PoderData, 16 de maio de 2022
  2. CartaCapital, PoderData: Lula herda 18% dos eleitores de Bolsonaro em 2018, maio de 2022
  3. Exame, Datafolha: 30% votam para evitar que outro candidato chegue à Presidência, 22 de agosto de 2026
  4. InfoMoney, 40% dos eleitores de Flávio Bolsonaro podem mudar o voto até outubro, mostra Quaest, 2026
  5. Nexus, Quem são os 10% dos eleitores que deram vitória a Lula em 2022 mas não votarão nele novamente, divulgada em 8 de setembro de 2026
  6. Rubens Figueiredo e Ciro Coutinho, A eleição de 2002, revista Opinião Pública, 2003
  7. Denise Paiva, Silvana Krause e Adriana Paz Lameirão, O eleitor antipetista: partidarismo e avaliação retrospectiva, Opinião Pública, dezembro de 2016
  8. Morris P. Fiorina, Retrospective Voting in American National Elections, Yale University Press, 1981
  9. Adam Brown, Universidade Brigham Young, resumo acadêmico de Fiorina 1981
  10. Diccionario Electoral do INEP, verbete voto de castigo ou retrospectivo
  11. Daniel Zovatto, O superciclo eleitoral latino-americano 2021-2024, revista Diálogo Político, 21 de março de 2023
  12. Boz, Where is the anti-incumbent wave going, 2024
  13. Rádio Senado, Bolsonaro é o primeiro presidente derrotado ao tentar reeleição, 30 de outubro de 2022
  14. CNN Brasil, Bolsonaro é primeiro presidente a perder disputa à reeleição, outubro de 2022
  15. TSE, eleições anteriores, resultados presidenciais de 1989 a 2022
  16. Agência Brasil, Aprovação do governo Dilma cai para 8%, Datafolha de agosto de 2015
  17. Cesop Unicamp, Estudo Eleitoral Brasileiro ESEB 2022, ficha técnica
  18. Scielo, A volatilidade eleitoral nos municípios brasileiros, sobre o índice de Pedersen
  19. Wikipédia, verbete do caranguejo-uçá, Ucides cordatus
  20. Biologia Net, caranguejo: anatomia e locomoção
  21. Wikimedia Commons, foto Ucides cordatus Martinique, de Pancrat, CC BY-SA 3.0
  22. Wikimedia Commons, foto Mangrove roots, de Jonathan Wilkins, CC BY-SA 3.0