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Economia / 3 de setembro de 2026

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Fim da escala 6x1: quem são os 14,8 milhões que a PEC atinge, o que trava no Senado e o que outros países fizeram

A proposta passou na Câmara com 461 votos a 19, passou na comissão do Senado e ficou para depois do primeiro turno. Levantamento do Ministério do Trabalho mostra que um terço dos vínculos formais do país trabalha seis dias por semana. Existe uma linha no texto que exclui parte dos trabalhadores, que quase ninguém leu. E Chile e Colômbia já fizeram a mesma redução, com prazo de anos.

Publicado
3 de setembro de 2026
Atualizado
5 de setembro de 2026
Editoria
Economia
Leitura
10 min
Fontes
14 citadas
Foto de arquivo usada no carrossel original
Foto de arquivo usada no carrossel original

Você provavelmente já viu a discussão sobre o fim da escala 6x1 passar pelo seu feed. O que quase ninguém contou é onde ela está agora, quantas pessoas ela atinge de verdade, o que o texto aprovado deixa de fora e o que aconteceu nos países vizinhos que fizeram a mesma coisa.

Fui atrás dos documentos. Comecemos pelo básico, que já surpreende.

Onde a proposta está agora

A PEC 221/19 foi aprovada pela Câmara dos Deputados em dois turnos no dia 28 de maio de 2026. E não foi votação apertada.

Votos na Câmara, segundo turno

A favor461
Contra19

Fonte: Câmara dos Deputados, 28 de maio de 2026

No primeiro turno foram 472 a favor e 22 contra. Para uma emenda constitucional passar, são necessários 308 votos em cada turno. Ela passou com folga de mais de 150 votos.

Depois, o texto foi ao Senado. Passou na comissão, mas não foi a plenário no esforço concentrado de setembro, o último antes das eleições. Ficou para depois do primeiro turno, em 4 de outubro. Na mesma semana, o Congresso aprovou o fim do imposto da compra de até US$ 50, que tinha prazo de validade caindo. A jornada de trabalho não tinha prazo, e ficou.

EtapaSituaçãoData
Câmara, primeiro turnoAprovada, 472 a 2228 de maio de 2026
Câmara, segundo turnoAprovada, 461 a 1928 de maio de 2026
Senado, comissãoAprovadaSetembro de 2026
Senado, plenário, dois turnosPendente, precisa de 49 votos em cadaDepois de 4 de outubro
PromulgaçãoSó depois dos dois turnos no Senado, sem alteração

Se o Senado alterar qualquer palavra, o texto volta para a Câmara.

O que muda, exatamente

Três mudanças, e elas não entram em vigor de uma vez.

O que mudaDetalhe
Jornada semanalCai de 44 para 40 horas, sem redução de salário
FolgasPassam a ser duas por semana, uma delas preferencialmente aos domingos
Prazo60 dias após entrar em vigor, a jornada cai para 42 horas. Doze meses depois, cai para 40

Ou seja, não é da noite para o dia. É um degrau de 44 para 42, e depois outro de 42 para 40, com um ano de intervalo entre eles.

A jornada de 44 horas está na Constituição de 1988, no artigo 7º, inciso XIII. É por isso que a mudança precisa de emenda constitucional, com três quintos das duas Casas em dois turnos, e não de lei comum.

Quantos brasileiros isso atinge

Aqui está o número que muda a conversa. Em março de 2026, o Ministério do Trabalho e Emprego publicou um levantamento inédito, usando os dados do eSocial, que é o sistema onde todo vínculo formal é registrado.

Como se divide o trabalho formal no Brasil

Jornada de 40h em 5 dias29,7 milhões
Escala 6x1 (seis dias)14,8 milhões

Fonte: MTE, levantamento com base no eSocial, março de 2026

Um em cada três trabalhadores formais do país está na escala que a PEC quer acabar. E vale notar o que esse levantamento cobre: celetistas, estatutários, autônomos, avulsos, cooperados, domésticas e estagiários. É o retrato mais amplo já feito do assunto no Brasil.

E vale notar quem não está nele: os 38 milhões de trabalhadores informais, que não têm carteira nem jornada registrada. Para eles, a PEC não muda nada, porque não existe empregador a quem a regra se aplique.

A linha que quase ninguém leu

Agora o detalhe que praticamente não apareceu na cobertura, e que muda quem ganha o quê.

A nova regra não se aplica a duas situações:

  1. Quem já cumpre jornada igual ou inferior a 40 horas semanais, o que faz sentido, porque essas pessoas já estão dentro do novo limite.
  2. Empregados com nível superior e remuneração mensal a partir de cerca de R$ 21,2 mil.

Essa segunda exclusão é a que merece atenção. Ela cria uma categoria de trabalhador de alta renda e formação superior que fica fora da proteção da jornada reduzida. O argumento é que esse grupo tem poder de negociação individual. O efeito prático é que a PEC protege o trabalhador de comércio e serviços, e deixa o profissional de alta renda no regime antigo.

Concorde ou discorde, é uma escolha deliberada do texto, e ela está lá.

Onde o Brasil está no mundo

Essa é a parte que costuma faltar no debate brasileiro, porque exige comparar.

Horas efetivamente trabalhadas por semana

Colômbia47,7
Brasil39,5
Média da OCDE36
Holanda30,3

Fontes: OCDE, compilado por Forbes e InfoMoney

O Brasil trabalha cerca de 3,5 horas por semana a mais que a média dos países ricos, e aparece na décima posição entre as semanas mais longas do levantamento. São aproximadamente 180 horas a mais por ano do que um trabalhador holandês, o equivalente a mais de um mês de trabalho.

Repare numa coisa importante para não errar a leitura: 39,5 horas é a média efetivamente trabalhada, não o teto legal. O teto legal brasileiro é 44 horas. A média fica abaixo porque inclui quem trabalha meio período, quem tem jornada menor por acordo, e quem está em setores com jornada especial.

Os vizinhos que já fizeram isso

Aqui está o que o debate brasileiro quase não olha: dois países da América do Sul reduziram a jornada por lei nos últimos anos, e os dois fizeram com transição longa.

PaísDeParaComoPrazo
Chile45 horas40 horasLei 21.561, de 2023Gradual, em cinco anos, até 2028
Colômbia48 horas42 horasLei 2101, de 2021Gradual, uma hora por ano, até 2026
Brasil, proposta44 horas40 horasPEC 22142 em 60 dias, 40 um ano depois

Repare na diferença de ritmo. O Chile deu cinco anos para tirar cinco horas. A Colômbia deu cinco anos para tirar seis. A proposta brasileira tira quatro horas em pouco mais de um ano. É o ponto em que o argumento dos críticos tem mais força, e é provavelmente onde o Senado vai mexer.

O que dizem os que são contra

Aqui não se passa pano para nenhum lado.

O que dizem os dados de quem já fez

E aqui está o contraponto que o debate brasileiro raramente traz, porque exige olhar para fora.

A Islândia rodou dois testes de redução de jornada envolvendo mais de 2.500 trabalhadores em cerca de 100 locais de trabalho. A jornada caiu de 40 para 35 horas semanais, sem redução de salário.

O resultado medido: a produtividade permaneceu estável na maioria dos setores e subiu em alguns. Os trabalhadores relataram menos estresse e menor incidência de burnout.

O detalhe que mais importa para o Brasil não é o resultado geral, e sim onde ele apareceu: os ganhos maiores vieram dos locais que reorganizaram o trabalho, cortando reuniões longas, reduzindo relatórios internos e simplificando fluxos de aprovação. Onde a empresa apenas tirou horas sem mudar o processo, o ganho foi menor.

Isso importa porque a Islândia é um país de serviços administrativos e alta informatização. Comércio de rua e restaurante no Brasil têm estrutura diferente, e a transposição não é automática. Quem promete que aqui vai dar igual está indo além do que o estudo mostra.

O que ainda não está decidido

O texto está no Senado, e emenda constitucional precisa de 49 dos 81 senadores em dois turnos. Se o Senado alterar qualquer palavra, o texto volta para a Câmara.

Três pontos seguem em aberto e valem acompanhar:

  • Se o escalonamento de 44 para 42 e depois para 40 horas será mantido como está, ou esticado no modelo chileno
  • Se a exclusão dos salários mais altos permanece no texto final
  • Se haverá regra de transição específica para setores que operam sete dias por semana

Perguntas que chegam nos comentários

O fim da escala 6x1 foi aprovado?

Na Câmara, sim, em 28 de maio de 2026, por 461 a 19 no segundo turno. No Senado, passou na comissão e ficou para o plenário depois do primeiro turno, em 4 de outubro. Ainda não vale.

Quantas pessoas trabalham na escala 6x1 no Brasil?

14,8 milhões, ou 33,2% dos 50,3 milhões de vínculos formais, segundo levantamento do Ministério do Trabalho com dados do eSocial, de março de 2026.

A jornada vai cair para 40 horas de uma vez?

Não. Cai para 42 horas 60 dias após a promulgação e para 40 horas doze meses depois, sem redução de salário.

Quem fica de fora da nova regra?

Quem já trabalha 40 horas ou menos e empregados com nível superior que ganham a partir de cerca de R$ 21,2 mil por mês.

Quanto custa o fim da escala 6x1 para as empresas?

A CNC estima R$ 122,4 bilhões por ano no comércio e R$ 235,7 bilhões nos serviços, com repasse de até 13% aos preços. É a estimativa do setor contrário, e não há estudo independente definitivo.

Outros países reduziram a jornada?

Sim. O Chile está indo de 45 para 40 horas até 2028 e a Colômbia de 48 para 42 até 2026, os dois com transição gradual de cinco anos.

Como discutir isso sem falar bobagem

Duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e negar qualquer uma delas empobrece o debate.

Um em cada três trabalhadores formais brasileiros trabalha seis dias por semana, e o Brasil está entre os dez países de semana mais longa do levantamento da OCDE. Esse é um fato.

Reduzir jornada sem ganho de produtividade tem custo real, e esse custo aparece em preço, margem ou emprego. Esse também é um fato.

A discussão útil não é sobre qual dos dois é verdade. É sobre qual prazo, qual transição e quais setores tornam o primeiro possível sem que o segundo estoure. E isso é o que o Senado vai decidir, depois de 4 de outubro.

Fontes desta materia

  1. PEC 221/19, ficha de tramitação na Câmara dos Deputados
  2. Câmara dos Deputados, aprovação em dois turnos, 28 de maio de 2026
  3. Senado Federal, análise da proposta após a Câmara
  4. A Pública, a PEC ficou para depois do primeiro turno no esforço concentrado
  5. Ministério do Trabalho e Emprego, levantamento inédito com base no eSocial
  6. Agência Brasil, cobertura da aprovação na Câmara
  7. Confederação Nacional do Comércio, estudo de impacto econômico
  8. CNC, estimativa de repasse a preços
  9. Forbes Brasil, tramitação no Senado e impactos
  10. OCDE, horas trabalhadas por país, compiladas por Forbes e InfoMoney
  11. Resultados dos testes de jornada reduzida na Islândia
  12. Constituição Federal, artigo 7º, inciso XIII, jornada de 44 horas
  13. Governo do Chile, Lei 21.561, redução gradual da jornada de 45 para 40 horas
  14. Congresso da Colômbia, Lei 2101 de 2021, redução gradual de 48 para 42 horas