Um filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro pode ser proibido de ser exibido a 30 dias do primeiro turno. Quem vai decidir isso é Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral e ministro indicado ao Supremo pelo próprio Bolsonaro.
Não é enredo. É o resultado do sorteio de relatoria feito nesta semana no TSE.
E o filme, o Dark Horse, virou o centro de duas frentes ao mesmo tempo: uma no tribunal eleitoral e outra no Senado.
As três ações que caíram com Nunes Marques
O sorteio deu a ele a relatoria de três processos. Eles são diferentes entre si, e vale separar:
| Quem propôs | O que pede | Base legal |
|---|---|---|
| PL (partido de Flávio Bolsonaro) | Contestar a pesquisa AtlasIntel, alegando que ela induziu os entrevistados ao reproduzir o áudio de Flávio com Vorcaro | Resolução do TSE sobre pesquisas |
| Rogério Correia (PT-MG) | Bloquear a exibição do filme, por suposto "efeito eleitoral abusivo" | Lei Complementar 64, abuso de poder |
| Arlindo Chinaglia (PT-SP) | Apurar abuso de poder econômico e político no financiamento do filme | Lei Complementar 64, artigo 22 |
Repare no desenho: o PL entrou contra uma pesquisa, e o PT entrou contra o filme. Os dois lados estão usando a Justiça Eleitoral para tentar controlar o que circula na campanha. Os dois pedidos caíram com o mesmo relator.
Por que o filme entrou na eleição
A origem é o dinheiro.
Em 13 de maio de 2026, o Intercept Brasil publicou áudios e mensagens em que o senador Flávio Bolsonaro negocia com Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, cerca de R$ 134 milhões (aproximadamente 24 milhões de dólares) para financiar o filme sobre o pai.
Foram identificados pagamentos de aproximadamente R$ 61 milhões.
Flávio confirmou a negociação. A defesa dele é que se tratava de "um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai", e que o aporte previa retorno financeiro ao investidor.
O problema eleitoral não é o filme existir. É o filme sobre um ex-presidente circular durante a campanha do filho dele, financiado por um banqueiro que hoje está preso e cujo banco foi liquidado pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025. É isso que as ações questionam.
A linha do tempo do dinheiro
| Quando | O quê |
|---|---|
| 16 de setembro de 2025 | Transferência de US$ 1,6 milhão de Vorcaro ao fundo Havengate, que administra o filme, segundo a representação do PT |
| 18 de novembro de 2025 | Banco Central liquida o Banco Master |
| 13 de maio de 2026 | Intercept publica os áudios da negociação de R$ 134 milhões |
| Maio de 2026 | Flávio confirma a negociação, depois de ter negado inicialmente |
| Início de setembro de 2026 | Sorteio no TSE e representação no Conselho de Ética, na mesma semana |
| 4 de outubro de 2026 | Primeiro turno |
A segunda frente: o pedido de cassação no Senado
No mesmo movimento, o PT protocolou no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar do Senado uma representação pedindo a perda do mandato de Flávio Bolsonaro por quebra de decoro.
A representação foi assinada pelo líder da bancada do PT no Senado, Camilo Santana (CE).
A base do pedido tem dois pilares:
| Pilar | O que diz |
|---|---|
| O dinheiro | Transferência de US$ 1,6 milhão, mais de R$ 8 milhões, feita por Vorcaro em 16 de setembro de 2025 ao fundo Havengate |
| A contradição | O áudio em que Flávio pede R$ 134 milhões, negociação que ele havia negado inicialmente |
O documento pede a admissão da representação pelo presidente do conselho, a notificação do senador para apresentar defesa prévia e a produção de provas.
Um registro necessário: representação protocolada não é processo aberto, e processo aberto não é condenação. O caminho no Senado:
- O presidente do Conselho de Ética decide se admite.
- Um relator é sorteado e o senador apresenta defesa prévia.
- O conselho instrui e vota o parecer.
- Se aprovado, vai a plenário, onde a cassação exige maioria absoluta, 41 votos, em votação aberta.
É um caminho longo, e a maior parte desses pedidos não chega ao fim. Flávio, além de senador, é candidato a presidente: cassar mandato de candidato a um mês da urna é decisão que o Senado nunca tomou.
O que a Constituição diz sobre proibir um filme
Este é o ponto que decide a ação mais grave, e a cobertura passou por ele correndo.
O artigo 5º, inciso IX, da Constituição diz que é livre a expressão da atividade artística "independentemente de censura ou licença". O artigo 220 repete: "é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística". E o Supremo, na ADPF 130, de 2009, fixou que censura prévia não cabe nem por decisão judicial, salvo em situações excepcionalíssimas.
| O que o PT pede | O que a Constituição diz |
|---|---|
| Bloquear a exibição antes de estrear | Censura prévia é vedada, artigo 5º e artigo 220 |
| Efeito eleitoral abusivo | A Lei Complementar 64 permite punir abuso depois, com cassação de registro; não prevê proibir obra |
Ou seja: o caminho jurídico existente é apurar abuso de poder econômico e, se provado, cassar registro ou diploma. Proibir a obra de circular é outro caminho, e ele bate na Constituição. O próprio pedido de Chinaglia, que pede apuração, tem mais chance que o de Correia, que pede bloqueio.
Onde isso se encaixa no caso maior
O Dark Horse não é um caso isolado. Ele é uma das pontas do caso Banco Master, que em poucos dias alcançou nomes dos dois lados do tabuleiro político.
O mesmo banqueiro aparece:
| Nome | Aparece como |
|---|---|
| Alexandre de Moraes | 187 diálogos no relatório da PF e o contrato de R$ 131 milhões do escritório da esposa |
| André Mendonça | recebeu Vorcaro no gabinete por cerca de duas horas, em março de 2025 |
| Flávio Bolsonaro | R$ 134 milhões negociados, cerca de R$ 61 milhões identificados |
| Ciro Nogueira | repasses mensais apontados pela PF, segundo a delação em negociação |
| Michel Temer, ACM Neto, Antônio de Rueda | pagamentos apontados desde abril |
| Davi Alcolumbre | citado como alvo das apurações na decisão de Moraes; o partido dele aparece na delação |
Nenhum deles está condenado. O que existe é um conjunto de investigações, delações em negociação e representações. Mas o desenho é claro: um banqueiro comprou acesso em vários endereços, e a conta chegou no meio de uma eleição. O capítulo do Supremo está na matéria de Moraes e Mendonça, e o do Senado, na matéria dos 109 pedidos.
A pergunta desconfortável
Ela vale para os dois lados, e é a que interessa:
A Justiça Eleitoral deve decidir o que o eleitor pode assistir e qual pesquisa pode circular?
Quem pede o bloqueio do filme diz que sim, quando há abuso de poder econômico. Quem contesta a pesquisa diz que sim, quando há indução do entrevistado.
Os dois estão pedindo a mesma coisa: que um tribunal decida o que entra na cabeça do eleitor. Só que cada um quer isso apenas contra o adversário.
Perguntas que chegam nos comentários
O filme Dark Horse vai ser proibido?
Há um pedido no TSE, do deputado Rogério Correia (PT-MG), para bloquear a exibição. O relator sorteado é Kassio Nunes Marques. A Constituição veda censura prévia nos artigos 5º e 220, o que é a principal barreira ao pedido.
Quem financiou o filme sobre Bolsonaro?
Segundo áudios publicados pelo Intercept em 13 de maio de 2026, Flávio Bolsonaro negociou cerca de R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro, do Banco Master. Cerca de R$ 61 milhões em pagamentos foram identificados. Flávio confirmou a negociação e diz que era patrocínio privado com retorno ao investidor.
Flávio Bolsonaro pode ser cassado?
O PT protocolou representação no Conselho de Ética do Senado pedindo a perda do mandato por quebra de decoro. Precisa ser admitida, instruída e votada no conselho e depois em plenário, com 41 votos. É um caminho longo.
Por que Kassio Nunes Marques é o relator?
Por sorteio, o procedimento padrão do TSE. Ele preside o tribunal e foi indicado ao STF por Jair Bolsonaro em 2020.
Quanto Vorcaro pagou pelo filme?
Os números divergem: US$ 1,6 milhão numa transferência citada pelo PT, cerca de US$ 10,6 milhões em seis transferências segundo o Intercept, e US$ 12,3 milhões numa petição de deputados. Nenhum foi confirmado como definitivo.
O que vem agora
- Se Nunes Marques concede ou nega a liminar para bloquear a exibição do filme.
- Se o Conselho de Ética do Senado admite a representação contra Flávio.
- Se a delação de Vorcaro avança, porque ela pode mudar o tamanho de tudo isso.
O primeiro turno é em 4 de outubro. Eu volto a cada passo, com fonte.






