Atualização de 9 de setembro: o que um candidato a presidente respondeu sobre isso
Numa entrevista à CNN Brasil, Augusto Cury foi perguntado sobre Alexandre de Moraes e deu uma resposta que merece ser lida inteira, porque ela é mais cuidadosa do que o debate costuma ser:
"Quando eu falei do Dr. André Mendonça, eu não quis fazer um juízo de valor em relação ao Alexandre de Moraes. Mas se ele errou, e ele deveria ser condenado por isso, ele deveria sofrer impeachment. Mas ele tem direito de defesa. Eu só quero dizer que ser pacífico não quer dizer ser passivo."
Repare na estrutura da frase. Ela tem uma condicional ("se ele errou"), uma ressalva ("tem direito de defesa") e uma recusa a se calar ("pacífico não é passivo"). É a diferença entre defender processo e defender condenação antecipada.
E o contexto mudou desde a publicação original desta matéria. Em 1º de setembro de 2026, depois da divulgação do teor de um relatório da Polícia Federal enviado ao Supremo com mensagens entre o ministro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, nove senadores subiram à tribuna defendendo a saída de Moraes, por impeachment ou por renúncia: Alessandro Vieira, Carlos Viana, Cleitinho, Damares Alves, Esperidião Amin, Flávio Bolsonaro, Izalci Lucas, Luis Carlos Heinze e Magno Malta. Carlos Viana apresentou um novo pedido.
Vorcaro, dono do Banco Master, está preso desde março, e o banco foi liquidado pelo Banco Central. Segundo o teor divulgado, dois dias antes de ser preso ele teria perguntado ao ministro se deveria deixar o país.
Questionado por jornalistas sobre as mensagens, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, respondeu: "Eu não achei nada, não devo achar nada. Minha percepção é que tem 109 pedidos."
Ou seja: o número de pedidos cresceu, o teor da acusação ficou mais grave, e a porta continua exatamente onde estava.
São 55 pedidos de impeachment contra o ministro Alexandre de Moraes protocolados no Senado. Contra todos os ministros do Supremo somados, são 109.
Nenhum foi julgado. Nenhum foi arquivado. Todos estão parados na mesma gaveta. Em português de mesa de bar: tudo acabou em pizza.
Publiquei um carrossel sobre isso na quinta-feira. Aqui é a versão completa, com o link de cada fonte, os oito casos que aguentam checagem, os três que eu tirei, e o que mudou nas últimas 48 horas, porque mudou.
Os quatro números que explicam a história
Poder360, Gazeta do Povo, CNN Brasil, setembro de 2026
Guarde os dois zeros. É deles que sai o resto.
Primeiro, o simples: quem julga e qual é a pena
Impeachment de ministro do Supremo não é o Supremo que julga. É o Senado. Está no artigo 52 da Constituição.
E a pena não é cadeia. É perder o cargo e ficar 8 anos proibido de ocupar função pública. Não existe prisão nesse tipo de processo. Quem diz que "Moraes pode ser preso" por impeachment está errado, e eu já tirei isso de uma peça anterior por esse motivo.
| Pergunta | Resposta |
|---|---|
| Quem julga | o Senado, com 81 senadores |
| Quem precisa aceitar o pedido para ele andar | a Mesa do Senado, na letra da lei; na prática, o presidente da Casa |
| Pena máxima | perda do cargo e 8 anos de inabilitação |
| Prisão | não existe nesse rito |
| Quantos ministros já foram removidos assim | nenhum |
Por que tudo para no mesmo lugar
Para o pedido virar processo, alguém tem que aceitar o pedido. Esse alguém, hoje, é o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. E ele avisou aos líderes dos partidos: não coloca em votação nem se os 81 senadores assinarem, ele incluído.
Tem um detalhe técnico que a cobertura costuma pular. A Lei 1.079, de 1950, diz que quem recebe a denúncia é a Mesa do Senado, que é um colegiado de sete pessoas, e não o presidente sozinho. Juristas ouvidos pela Gazeta do Povo sustentam isso. Na prática, o pedido entra na presidência e fica lá. Não é julgado, e também não é rejeitado.
O que mudou nesta semana
Três coisas, e as três são novas em relação ao carrossel.
1. O "impeachment cruzado". Segundo o Correio Braziliense, Alcolumbre sinalizou a senadores do centro que, se a pressão para abrir processo contra Moraes ficar insustentável, ele também pode autorizar o andamento de um pedido contra André Mendonça. A sinalização, segundo a reportagem, serviu para baixar a temperatura no Senado. Traduzindo: é um recado de que abrir a porta para um abre para o outro.
2. O relatório da Polícia Federal. Na terça-feira, dia 1º, foi divulgado o relatório da PF que detalha as relações entre Moraes e o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. É esse documento que reacendeu os pedidos desta semana.
3. O prazo de Fachin. O presidente do STF deu cinco dias para a Procuradoria-Geral da República e para o próprio Mendonça se manifestarem sobre o pedido de Moraes contra ele. Ou seja, o Supremo também está com o relógio correndo.
E um quarto ponto, menor, mas que mostra o clima: o senador Carlos Viana chegou a ameaçar pedir o afastamento do próprio Alcolumbre caso os pedidos não andem.
O que está escrito nesses pedidos
Os pedidos alegam seis coisas: abuso de autoridade, censura, perseguição política, desrespeito à imunidade de deputado e senador, decisões que passaram do limite, e conflito de interesse no caso do Banco Master.
Eu fui atrás dos casos concretos. Cheguei a oito que resistem a checagem. Vou te mostrar um por um, sempre com o outro lado.
Caso 1 · O contrato de R$ 131 milhões
O escritório de advocacia da esposa dele fechou contrato com o Banco Master: R$ 131 milhões, em 36 parcelas de R$ 3 milhões, assinado em janeiro de 2024. Os pedidos desta semana dizem que ele teria conversado com o Banco Central em favor do banco.
A defesa dele diz: o escritório checou se havia impedimento e não achou, e ele nunca julgou nenhum caso do Master.
Caso 2 · O tribunal que virou detetive particular
Este é o mais documentado de todos. A Folha de S.Paulo revelou que o gabinete dele no Supremo pedia relatórios prontos para um setor do TSE, tribunal que ele mesmo presidia na época. Esses relatórios viravam base para as decisões dele.
Traduzindo: é como se o juiz pedisse para o próprio funcionário montar a acusação que ele ia julgar depois.
O ex-assessor que revelou as mensagens confirmou no Senado, em 2025, que o material é verdadeiro. O outro lado: esse ex-assessor virou réu por vazar as mensagens.
Caso 3 · A obra da casa
Nas mesmas mensagens apareceu isto: um policial que trabalhava no gabinete pediu à equipe que buscasse informação sobre uma pessoa que estava fazendo obra na casa do ministro. Estrutura de tribunal usada para assunto de casa.
Caso 4 · O processo que não teve sorteio
O inquérito das fake news foi aberto em 2019, bem antes do 8 de janeiro, ao contrário do que muita gente diz. E ele caiu na mão de Moraes sem sorteio.
No Brasil, processo é sorteado justamente para ninguém escolher o próprio juiz. A Constituição proíbe "tribunal de exceção", que é isso: juiz escolhido para um caso.
Caso 5 · Vítima, polícia e juiz ao mesmo tempo
Esse inquérito apura ataques contra os próprios ministros do Supremo. Então o tribunal é a vítima, faz a investigação e ainda julga.
Imagina se o dono da loja assaltada fosse o delegado e o juiz do caso. É essa a crítica. A OAB pediu formalmente o fim desse inquérito.
Caso 6 · Prender um deputado por um vídeo
Em 2021, ele mandou prender o deputado Daniel Silveira por um vídeo atacando ministros. A Constituição diz que deputado não pode ser preso por opinião, no artigo 53. A decisão não falou sobre isso.
O outro lado: a Câmara aprovou a prisão por 364 votos a 130, e depois o Supremo o condenou a 8 anos e 9 meses.
Caso 7 · O dia em que o X sumiu do Brasil
Em 2024, ele tirou o X do ar no país inteiro. A rede voltou depois de pagar quase R$ 29 milhões de multa. Em 2025, fez o mesmo com a Rumble. Hoje essas ordens são contestadas na Justiça dos Estados Unidos.
Caso 8 · 14 anos por um batom
Débora Rodrigues, cabeleireira, escreveu "perdeu, mané" com batom numa estátua. Pegou 14 anos de prisão.
Agora guarde este número, porque é ele que explica tudo: no mesmo julgamento, o ministro Luiz Fux votou 1 ano e 6 meses pelo mesmo fato.
A mesma pichação, três réguas
Poder360, Migalhas, ConJur
Quando um juiz vê 1 ano e meio e o outro vê 14 anos olhando a mesma coisa, o problema não é a moça. É a régua.
Por que isso mudou de patamar agora
Até semana passada, os pedidos eram sobre decisão de juiz. Discordar de decisão é discussão política, e sempre vai ter gente dos dois lados.
Agora entrou dinheiro na história: um contrato de R$ 131 milhões, uma conversa com o Banco Central e um relatório da Polícia Federal.
Decisão a gente discute. Contrato a gente confere.
O que não passou na minha checagem
Quatro coisas que estão circulando e que eu não vou repetir:
- "Moraes proibiu as lives do Bolsonaro." Quem decidiu foi outro ministro, Benedito Gonçalves, e valia só para live de campanha usando estrutura pública.
- "O Lula não sofreu nada." O TSE mandou tirar propaganda do ar dos dois, em 2022.
- "Aquele réu do 8 de janeiro foi solto por ligação com facção." É falso. Já foi checado pela Aos Fatos.
- "Moraes pode ser preso." Não por impeachment. A pena é perder o cargo e 8 anos de inabilitação. Prisão de ministro só em flagrante de crime inafiançável.
Prefiro te dar 8 fatos que aguentam do que 20 que caem no primeiro comentário.
A pergunta que fica
Ministro pode errar, e errar muito, sem ser criminoso. Mas 55 pedidos parados na gaveta de um homem só não quer dizer que estão todos errados. Quer dizer que ninguém quer decidir.
O que me incomoda não é o Senado dizer não. É o Senado não dizer nada.
Perguntas que chegam nos comentários
Quantos pedidos de impeachment existem contra Alexandre de Moraes?
55 protocolados no Senado, dentro de um total de 109 contra ministros do STF. Nenhum foi a plenário na história.
Quem julga o impeachment de ministro do STF?
O Senado, pelo artigo 52 da Constituição, com 54 votos para condenar. A pena é perda do cargo e oito anos de inabilitação. Não há prisão nesse rito.
Por que os pedidos não andam?
Porque dependem do despacho do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que disse que não pauta nem com 81 assinaturas. Não há prazo nem recurso contra isso.
O que é o impeachment cruzado?
A sinalização de que cada lado passaria a pedir o impeachment do ministro do outro lado: a oposição contra Moraes, e aliados do governo contra André Mendonça, que derrubou o sigilo do caso Master.
O que Fachin decidiu?
Abriu procedimento, deu cinco dias úteis para Moraes, Mendonça, o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor da PF se manifestarem, e adiou o plenário para a segunda quinzena de setembro.
O que vem agora
- As manifestações da PGR e de Mendonça, no prazo de cinco dias dado por Fachin.
- Se a Mesa do Senado é acionada para decidir de forma colegiada, tirando a decisão da caneta do presidente.
- Se o "impeachment cruzado" sai da sinalização e vira pedido pautado.
Eu volto a cada passo, com fonte.






