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Economia / 31 de agosto de 2026

Eu fui checar

O BNDES empresta R$ 1 bilhão por dia. Quase nada chega na loja de bairro. E a proposta de dividir o banco tem um buraco chamado garantia

Foram R$ 169,7 bilhões em 2025, dinheiro que sai do seu imposto e do FGTS. E os 8,7 milhões de micro e pequenas empresas negativadas no país são justamente quem não alcança o balcão do banco que existe para dar crédito barato. Eu fui ver como o banco funciona, o que ele já tentou, o que a proposta de dividir promete e por que o Pronampe mostra onde está o gargalo de verdade.

Publicado
31 de agosto de 2026
Atualizado
5 de setembro de 2026
Editoria
Economia
Leitura
8 min
Fontes
10 citadas
Foto de arquivo usada no carrossel original
Foto de arquivo usada no carrossel original

No debate da Band, em 23 de agosto, Augusto Cury soltou três palavras que passaram batido: "dividir o BNDES". Ninguém perguntou por quê.

Fui atrás. E a resposta explica um problema que qualquer dono de negócio pequeno já sentiu na pele, mesmo sem saber o nome dele.

Primeiro, o que é o BNDES

É um banco do governo, mas ele não funciona como o banco da sua rua.

Banco da sua ruaBNDES
Abre contaSimNão abre conta para ninguém
Para quem emprestaQualquer pessoaSó empresa, para investir e crescer
JuroCaroO mais barato do país
Como chega no pequenoDireto no balcãoQuase sempre por meio de outro banco, o "agente financeiro"

Ele existe para uma coisa só: financiar investimento produtivo, aquilo que faz empresa crescer e gerar emprego. Foi criado em 1952 e financiou de Itaipu a Embraer.

E o dinheiro dele é seu

Isso costuma passar despercebido e muda a natureza da conversa.

O BNDES não é capitalizado por acionistas privados. A principal origem dos recursos dele é pública: o artigo 239 da Constituição manda que pelo menos 28% da arrecadação do PIS/Pasep vá para o banco, por meio do FAT, o Fundo de Amparo ao Trabalhador. Somam-se recursos do Tesouro e o retorno dos próprios empréstimos.

Ou seja: é dinheiro que saiu do trabalho e do consumo do país. Por isso você tem o direito de perguntar para onde ele vai.

Agora o tamanho da coisa

Para dimensionar: com R$ 1 bilhão dá para comprar cerca de 10 mil carros populares. Em um único dia.

A pergunta que interessa

Quanto desse dinheiro chega numa loja de bairro?

Quase nada. E não é maldade de ninguém: é o desenho do banco.

A comparação que explica tudo

Pense numa loja de atacado. Ela vende muito mais barato que o mercadinho da esquina, mas só vende caixa fechada. Se você quer duas unidades, ela não te atende.

Não é que o atacado não goste de você. É que ele não foi montado para vender duas unidades.

O BNDES é a loja de atacado do dinheiro. O juro dele é o mais barato do país, e ele foi estruturado para operar de milhão para cima, com contrato, garantia real, projeto de engenharia e assessoria jurídica.

O balcão é do mesmo tamanho para todo mundo. De um lado, uma empresa com departamento jurídico, contador e diretor financeiro. Do outro, uma loja com um dono e um caderno de anotação. Um pega direto. O outro nem chega no balcão.

E quando o pequeno chega, chega por meio de outro banco. O BNDES repassa o dinheiro a um banco comercial, que empresta ao pequeno com a própria margem em cima e as próprias exigências de garantia. O juro barato sai do BNDES; o que chega na loja já não é o mesmo.

E olha quem está precisando de crédito barato agora

Empresas com o nome sujo no Brasil, em milhões

Micro e pequenas negativadas8,7
Demais portes negativadas0,4

Fontes: Banco Central e Serasa Experian

São 9,1 milhões de empresas negativadas, e 95% delas são micro e pequenas. O próprio Banco Central aponta que essa inadimplência levou os bancos a apertarem o crédito. Mostrei o resto dessa conta na matéria das 986 lojas.

Leu direito? Quem mais precisa de dinheiro barato é exatamente quem não consegue chegar no banco que existe para oferecer dinheiro barato.

O que o BNDES já tentou fazer sobre isso

Aqui está o contexto que faltava no debate, e que muda a discussão.

O banco não ignora o problema. Existe hoje o BNDES Crédito Digital, uma linha criada especificamente para micro e pequenas empresas, contratada de forma digital, com valores muito menores do que as operações tradicionais e sem a exigência de projeto complexo. É uma tentativa declarada de baixar o balcão.

Em recortes regionais, a participação das micro, pequenas e médias empresas já aparece relevante: no Piauí, por exemplo, 54% dos recursos aprovados em 2025 foram para MPMEs, com alta de 43% sobre 2024.

Isso não resolve a assimetria, mas mostra que a discussão não parte do zero: parte de um banco que já reconheceu a lacuna e criou produto para ela.

O que o Pronampe ensina, e ninguém citou

Existe outro programa que foi feito exatamente para o pequeno, e ele mostra onde está o gargalo de verdade.

O Pronampe, criado pela Lei 13.999 na pandemia e tornado permanente em 2021, empresta para micro e pequena empresa por meio de bancos comuns, com juro de Selic mais uma pequena taxa. Por que os bancos topam emprestar para quem eles normalmente recusam? Porque o Tesouro garante a operação por meio de um fundo, o FGO. Se o pequeno não paga, o fundo cobre a maior parte do prejuízo do banco.

BNDES tradicionalPronampe
Quem operaO BNDES ou um agente financeiroBancos comerciais
GarantiaReal, do próprio tomadorFundo garantidor público, o FGO
Tamanho típicoMilhõesAté 30% do faturamento anual da empresa
Chega no pequeno?PoucoSim, milhões de contratos desde 2020

A lição: o que faz o crédito chegar no pequeno não é o tamanho do banco. É quem segura o risco.

A proposta de dividir o banco

O que foi proposto, em português simples: transformar o BNDES em duas estruturas.

EstruturaFunção
Banco da empresa grandeSegue como é hoje: infraestrutura, indústria, grandes projetos
Banco da micro e pequenaBalcão baixo, processo simples, valores menores

O objetivo declarado é financiar 10 milhões de microempresas, meta que está no projeto 4 do plano de governo de Cury, o Ministério do Empreendedorismo. Na prática, seria fazer um banco que hoje sabe vender caixa fechada aprender a vender unidade.

Perguntas que chegam nos comentários

O que é o BNDES?

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, banco público criado em 1952 para financiar investimento produtivo. Não abre conta para pessoa física e empresta a empresas, com o juro mais baixo do país.

De onde vem o dinheiro do BNDES?

Principalmente do FAT, pelo artigo 239 da Constituição, que destina pelo menos 28% do PIS/Pasep ao banco, além de recursos do Tesouro e do retorno dos empréstimos.

Quanto o BNDES emprestou em 2025?

Cerca de R$ 169,7 bilhões, o equivalente a R$ 1 bilhão por dia.

Pequena empresa consegue crédito no BNDES?

Em geral só por meio de outro banco, que repassa com margem própria. Existe o BNDES Crédito Digital, linha específica para micro e pequenas, mas a maior parte dos desembolsos vai para empresas grandes.

O que Augusto Cury propõe para o BNDES?

Dividir o banco em dois, um para grandes projetos e outro para micro e pequenas, com a meta de financiar 10 milhões de microempresas. Ele não detalhou como, quanto custa nem quanto tempo leva.

O que é o Pronampe?

Programa de crédito para micro e pequenas empresas criado em 2020, operado por bancos comuns com garantia do Tesouro por meio do FGO. É o exemplo de que o crédito chega no pequeno quando alguém segura o risco.

O resumo honesto

Três coisas, e as três precisam ser ditas juntas:

O problema existe. O BNDES não chega no pequeno, e a estrutura dele explica por quê.

A ideia faz sentido no princípio. Separar quem empresta um bilhão de quem empresta trinta mil é uma distinção real de operação, não invenção.

A conta não foi apresentada. E o Pronampe mostra que a conta que importa é a da garantia, não a do organograma. É aí que a proposta precisa crescer antes de virar política pública.

Fontes desta materia

  1. BNDES, transparência e desembolsos por porte, setor e região
  2. BNDES, produto Crédito Digital para micro e pequenas empresas
  3. Agência de Notícias do BNDES, aprovações para MPMEs em 2025
  4. Ministério do Trabalho, o FAT e o repasse constitucional ao BNDES
  5. Constituição Federal, artigo 239, que destina parte do PIS/Pasep ao BNDES
  6. Lei 13.999 de 2020, que criou o Pronampe
  7. Banco Central, condições de crédito e endividamento empresarial
  8. Serasa Experian, empresas negativadas no Brasil
  9. TSE, DivulgaCandContas, plano de governo de Augusto Cury, projeto 4
  10. Cobertura do debate da Band, 23 de agosto de 2026