No debate da Band, em 23 de agosto, Augusto Cury soltou três palavras que passaram batido: "dividir o BNDES". Ninguém perguntou por quê.
Fui atrás. E a resposta explica um problema que qualquer dono de negócio pequeno já sentiu na pele, mesmo sem saber o nome dele.
Primeiro, o que é o BNDES
É um banco do governo, mas ele não funciona como o banco da sua rua.
| Banco da sua rua | BNDES | |
|---|---|---|
| Abre conta | Sim | Não abre conta para ninguém |
| Para quem empresta | Qualquer pessoa | Só empresa, para investir e crescer |
| Juro | Caro | O mais barato do país |
| Como chega no pequeno | Direto no balcão | Quase sempre por meio de outro banco, o "agente financeiro" |
Ele existe para uma coisa só: financiar investimento produtivo, aquilo que faz empresa crescer e gerar emprego. Foi criado em 1952 e financiou de Itaipu a Embraer.
E o dinheiro dele é seu
Isso costuma passar despercebido e muda a natureza da conversa.
O BNDES não é capitalizado por acionistas privados. A principal origem dos recursos dele é pública: o artigo 239 da Constituição manda que pelo menos 28% da arrecadação do PIS/Pasep vá para o banco, por meio do FAT, o Fundo de Amparo ao Trabalhador. Somam-se recursos do Tesouro e o retorno dos próprios empréstimos.
Ou seja: é dinheiro que saiu do trabalho e do consumo do país. Por isso você tem o direito de perguntar para onde ele vai.
Agora o tamanho da coisa
Para dimensionar: com R$ 1 bilhão dá para comprar cerca de 10 mil carros populares. Em um único dia.
A pergunta que interessa
Quanto desse dinheiro chega numa loja de bairro?
Quase nada. E não é maldade de ninguém: é o desenho do banco.
A comparação que explica tudo
Pense numa loja de atacado. Ela vende muito mais barato que o mercadinho da esquina, mas só vende caixa fechada. Se você quer duas unidades, ela não te atende.
Não é que o atacado não goste de você. É que ele não foi montado para vender duas unidades.
O BNDES é a loja de atacado do dinheiro. O juro dele é o mais barato do país, e ele foi estruturado para operar de milhão para cima, com contrato, garantia real, projeto de engenharia e assessoria jurídica.
O balcão é do mesmo tamanho para todo mundo. De um lado, uma empresa com departamento jurídico, contador e diretor financeiro. Do outro, uma loja com um dono e um caderno de anotação. Um pega direto. O outro nem chega no balcão.
E quando o pequeno chega, chega por meio de outro banco. O BNDES repassa o dinheiro a um banco comercial, que empresta ao pequeno com a própria margem em cima e as próprias exigências de garantia. O juro barato sai do BNDES; o que chega na loja já não é o mesmo.
E olha quem está precisando de crédito barato agora
Empresas com o nome sujo no Brasil, em milhões
Fontes: Banco Central e Serasa Experian
São 9,1 milhões de empresas negativadas, e 95% delas são micro e pequenas. O próprio Banco Central aponta que essa inadimplência levou os bancos a apertarem o crédito. Mostrei o resto dessa conta na matéria das 986 lojas.
Leu direito? Quem mais precisa de dinheiro barato é exatamente quem não consegue chegar no banco que existe para oferecer dinheiro barato.
O que o BNDES já tentou fazer sobre isso
Aqui está o contexto que faltava no debate, e que muda a discussão.
O banco não ignora o problema. Existe hoje o BNDES Crédito Digital, uma linha criada especificamente para micro e pequenas empresas, contratada de forma digital, com valores muito menores do que as operações tradicionais e sem a exigência de projeto complexo. É uma tentativa declarada de baixar o balcão.
Em recortes regionais, a participação das micro, pequenas e médias empresas já aparece relevante: no Piauí, por exemplo, 54% dos recursos aprovados em 2025 foram para MPMEs, com alta de 43% sobre 2024.
Isso não resolve a assimetria, mas mostra que a discussão não parte do zero: parte de um banco que já reconheceu a lacuna e criou produto para ela.
O que o Pronampe ensina, e ninguém citou
Existe outro programa que foi feito exatamente para o pequeno, e ele mostra onde está o gargalo de verdade.
O Pronampe, criado pela Lei 13.999 na pandemia e tornado permanente em 2021, empresta para micro e pequena empresa por meio de bancos comuns, com juro de Selic mais uma pequena taxa. Por que os bancos topam emprestar para quem eles normalmente recusam? Porque o Tesouro garante a operação por meio de um fundo, o FGO. Se o pequeno não paga, o fundo cobre a maior parte do prejuízo do banco.
| BNDES tradicional | Pronampe | |
|---|---|---|
| Quem opera | O BNDES ou um agente financeiro | Bancos comerciais |
| Garantia | Real, do próprio tomador | Fundo garantidor público, o FGO |
| Tamanho típico | Milhões | Até 30% do faturamento anual da empresa |
| Chega no pequeno? | Pouco | Sim, milhões de contratos desde 2020 |
A lição: o que faz o crédito chegar no pequeno não é o tamanho do banco. É quem segura o risco.
A proposta de dividir o banco
O que foi proposto, em português simples: transformar o BNDES em duas estruturas.
| Estrutura | Função |
|---|---|
| Banco da empresa grande | Segue como é hoje: infraestrutura, indústria, grandes projetos |
| Banco da micro e pequena | Balcão baixo, processo simples, valores menores |
O objetivo declarado é financiar 10 milhões de microempresas, meta que está no projeto 4 do plano de governo de Cury, o Ministério do Empreendedorismo. Na prática, seria fazer um banco que hoje sabe vender caixa fechada aprender a vender unidade.
Perguntas que chegam nos comentários
O que é o BNDES?
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, banco público criado em 1952 para financiar investimento produtivo. Não abre conta para pessoa física e empresta a empresas, com o juro mais baixo do país.
De onde vem o dinheiro do BNDES?
Principalmente do FAT, pelo artigo 239 da Constituição, que destina pelo menos 28% do PIS/Pasep ao banco, além de recursos do Tesouro e do retorno dos empréstimos.
Quanto o BNDES emprestou em 2025?
Cerca de R$ 169,7 bilhões, o equivalente a R$ 1 bilhão por dia.
Pequena empresa consegue crédito no BNDES?
Em geral só por meio de outro banco, que repassa com margem própria. Existe o BNDES Crédito Digital, linha específica para micro e pequenas, mas a maior parte dos desembolsos vai para empresas grandes.
O que Augusto Cury propõe para o BNDES?
Dividir o banco em dois, um para grandes projetos e outro para micro e pequenas, com a meta de financiar 10 milhões de microempresas. Ele não detalhou como, quanto custa nem quanto tempo leva.
O que é o Pronampe?
Programa de crédito para micro e pequenas empresas criado em 2020, operado por bancos comuns com garantia do Tesouro por meio do FGO. É o exemplo de que o crédito chega no pequeno quando alguém segura o risco.
O resumo honesto
Três coisas, e as três precisam ser ditas juntas:
O problema existe. O BNDES não chega no pequeno, e a estrutura dele explica por quê.
A ideia faz sentido no princípio. Separar quem empresta um bilhão de quem empresta trinta mil é uma distinção real de operação, não invenção.
A conta não foi apresentada. E o Pronampe mostra que a conta que importa é a da garantia, não a do organograma. É aí que a proposta precisa crescer antes de virar política pública.






