Tem uma frase que você ouviu esta semana e não conseguiu acreditar: a inflação caiu.
Ela caiu mesmo. O índice oficial de agosto veio negativo, o primeiro resultado assim em quatro anos. E a cesta básica ficou mais barata em 26 das 27 capitais do país.
Só que você foi ao mercado e não sentiu nada.
Você não está imaginando coisa. Existe um número oficial que explica exatamente essa distância, e ele é publicado todo mês por um instituto ligado aos sindicatos, o DIEESE, junto com a Conab, que é do governo. Quase ninguém noticia.
O número é este: R$ 7.687,01.
O que é esse número
É o chamado salário mínimo necessário. Ou seja: quanto uma família de quatro pessoas precisaria receber, por mês, para viver do jeito que a Constituição manda.
Não é opinião do DIEESE. Está no artigo 7º da Constituição, que diz que o salário mínimo tem de ser capaz de atender às necessidades básicas do trabalhador e da família dele, com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência.
Eu abri a conta, e ela é mais simples do que parece
Muita gente acha que esse número sai de uma fórmula secreta. Não sai. São três passos, e você pode refazer com uma calculadora.
| Passo | O que se faz | Julho de 2026 |
|---|---|---|
| 1 | Pega o preço da cesta básica na capital mais cara do país | São Paulo: R$ 915,01 |
| 2 | Multiplica por 3, porque uma família de dois adultos e duas crianças come, na média, o equivalente a três adultos | 915,01 x 3 = R$ 2.745,03 |
| 3 | Divide por 35,71%, que é a fatia que a comida deveria ocupar no orçamento, segundo o parâmetro legal usado desde a criação do salário mínimo | 2.745,03 dividido por 0,3571 = R$ 7.687,01 |
Faça a conta. Ela fecha no centavo.
E é aqui que aparece a informação que ninguém comenta: a lei parte do princípio de que comida deve custar pouco mais de um terço do salário. Hoje, para quem ganha o mínimo, só a comida come metade.
O peso da comida no salário mínimo, em julho de 2026
Em São Paulo, o trabalhador que ganha o mínimo precisa de 124 horas e 11 minutos de trabalho por mês para comprar a cesta básica. Uma jornada mensal cheia tem em torno de 220 horas. Ou seja: mais da metade do mês trabalhando só para comer.
Então a cesta caiu ou não caiu?
Caiu. E é por isso que a matéria não pode parar no número de cima.
Em julho, a cesta básica ficou mais barata em 26 das 27 capitais. A única que subiu foi São Luís, e mesmo assim só 0,30%. As maiores quedas foram em Natal (-7,95%), Maceió (-7,87%) e Belo Horizonte (-7,44%).
O salário necessário também caiu: era R$ 8.110,92 em junho e passou a R$ 7.687,01 em julho.
O problema é o outro prazo.
É essa a distância entre a manchete e a sua conta de supermercado. A manchete fala do mês. O seu bolso lembra do ano.
Onde a cesta é mais cara e mais barata
| Capital | Preço da cesta em julho |
|---|---|
| São Paulo | R$ 915,01 |
| Cuiabá | R$ 881,27 |
| Florianópolis | R$ 860,73 |
| Rio de Janeiro | R$ 855,37 |
| Natal | R$ 631,51 |
| Maceió | R$ 618,60 |
| Aracaju | R$ 594,07 |
A diferença entre a mais cara e a mais barata é de R$ 320,94, ou 54%. É a mesma comida, no mesmo país, no mesmo mês.
Item por item: o que subiu e o que caiu em 12 meses
Aqui está a tabela que responde por que a sua memória e o índice não combinam. Os dados são de São Paulo.
| Produto | No mês | Em 12 meses | No ano |
|---|---|---|---|
| Feijão carioca | -3,33% | +44,94% | +47,03% |
| Batata | -15,85% | +36,54% | +45,05% |
| Carne bovina de primeira | -1,48% | +9,91% | +6,63% |
| Leite integral | +1,55% | +4,49% | +13,36% |
| Pão francês | +0,81% | +4,08% | +2,47% |
| Óleo de soja | -2,29% | +0,26% | -12,31% |
| Tomate | -26,82% | -4,79% | +29,63% |
| Arroz agulhinha | -1,34% | -14,97% | -2,64% |
| Café em pó | -2,82% | -17,82% | -12,33% |
| Açúcar refinado | -1,83% | -21,67% | -17,54% |
Olhe a coluna do meio. O feijão subiu quase 45% em um ano. A batata, 36%. E o arroz, o café e o açúcar caíram entre 15% e 22%.
É por isso que a inflação "média" engana: ela soma quem subiu 45% com quem caiu 22% e devolve um número perto de zero. Só que a sua família não come média. Come feijão.
Dois casos que valem por si
A carne subiu em todas as capitais pesquisadas em 12 meses, de 1,42% em Brasília a 19,09% em Rio Branco. Só agora começou a ceder, e por um motivo que vem de fora: a China comprou 47% menos carne brasileira em julho do que no mesmo mês do ano passado. Com menos exportação, sobra produto aqui, e o preço no varejo paulista começou a cair.
O café foi na direção contrária: caiu em 26 das 27 capitais em 12 meses, com quedas de mais de 22% no Rio, em Brasília e em Curitiba. O motivo também é de safra: a Conab projeta 66,2 milhões de sacas em 2026 e 2027, um recorde.
Por que a inflação cai e a sua vida não melhora
Junte três dados oficiais desta semana e o quadro fica claro.
| O dado | O número | O que ele diz |
|---|---|---|
| Inflação de agosto (prévia) | -0,40% | Preços caíram no mês, a maior queda desde agosto de 2022 |
| Projeção do mercado para 2026 | 5,01% | Mesmo com a queda, o ano deve fechar acima do teto da meta, que é 4,50% |
| Consumo das famílias no PIB | -0,4% | As famílias compraram menos no segundo trimestre |
Traduzindo: os preços pararam de subir tão rápido, mas eles não voltaram atrás. O feijão que subiu 45% continua caro. Ele só parou de encarecer.
E tem o efeito do juro. A Selic está em 14% ao ano. Ela é a ferramenta que o Banco Central usa para segurar preço, e ela funciona do jeito mais duro possível: encarecendo crédito e esfriando o consumo. O Banco Central já começou a baixar, com quatro cortes seguidos, e volta a decidir nos dias 15 e 16 de setembro.
Enquanto isso, o mercado de trabalho manda dois recados opostos: o desemprego está em 5,3%, o menor da história para o período, e ao mesmo tempo a criação de vagas com carteira caiu 57% em um mês, no pior julho desde 2019.
O que dá para fazer com isso na prática
Nenhuma matéria de economia resolve a sua conta. Mas três coisas aqui são acionáveis:
- Compare pelo ano, não pelo mês. Quando a manchete disser que um alimento caiu, procure o número de 12 meses. Ele é o que o seu bolso registrou.
- Troque o item que subiu, não a marca. O ganho real está em substituir feijão e batata, que subiram 45% e 36%, e não em procurar o mesmo produto mais barato.
- Olhe a conta de luz. Setembro é o quinto mês seguido de bandeira amarela, com R$ 1,885 a mais a cada 100 quilowatts-hora. Isso é dinheiro que sai do mesmo orçamento da comida.
Perguntas que chegam nos comentários
Quanto uma família precisa ganhar para viver no Brasil hoje?
R$ 7.687,01 por mês, para uma família de quatro pessoas, segundo o cálculo do salário mínimo necessário do DIEESE de julho de 2026. É 4,74 vezes o salário mínimo em vigor, que é de R$ 1.621.
Como se calcula o salário mínimo necessário?
Pega-se o preço da cesta básica na capital mais cara, que em julho foi São Paulo com R$ 915,01, multiplica-se por 3, porque uma família de quatro pessoas equivale a três adultos em consumo de alimentos, e divide-se por 35,71%, que é a fatia que a comida deveria ocupar no salário. O resultado é R$ 7.687,01.
Qual a cidade com a cesta básica mais cara e mais barata?
A mais cara é São Paulo, com R$ 915,01. A mais barata é Aracaju, com R$ 594,07. A diferença é de R$ 320,94, ou 54%.
Se a inflação caiu, por que a comida continua cara?
Porque a inflação medir queda significa que os preços pararam de subir, não que voltaram ao que eram. O feijão, por exemplo, caiu 3,33% em julho, mas ainda está 44,94% mais caro do que há um ano.
O que mais subiu e o que mais caiu na cesta em 12 meses?
Em São Paulo, o feijão subiu 44,94% e a batata 36,54%. O açúcar caiu 21,67%, o café 17,82% e o arroz 14,97%.
Quantas horas de trabalho custa a cesta básica?
Na média das 27 capitais, 100 horas e 24 minutos por mês. Em São Paulo, 124 horas e 11 minutos, o que equivale a 61,02% do salário mínimo líquido.
Quando sai a próxima inflação e a próxima decisão de juros?
O IPCA de agosto sai nesta sexta-feira, 11 de setembro, às 9h. O Banco Central decide a Selic nos dias 15 e 16 de setembro, e o mercado espera mais um corte, de 14% para 13,75%.
O que vem agora
- Sexta, 11 de setembro: sai o IPCA cheio de agosto. A prévia já veio em -0,40%.
- Dias 15 e 16 de setembro: o Banco Central decide a Selic. O mercado espera 13,75%.
- Meados de outubro: sai a cesta básica de setembro, e dá para ver se a queda continuou.
Eu volto a cada número, com a conta aberta.
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