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Economia / 8 de setembro de 2026

Eu fiz a conta

A conta oficial diz que você precisaria ganhar R$ 7.687 por mês. O salário mínimo é R$ 1.621

A inflação caiu dois meses seguidos, a cesta básica ficou mais barata em 26 das 27 capitais e mesmo assim ninguém sente no supermercado. Eu fui atrás do número que explica isso: pelo cálculo oficial do DIEESE, uma família de quatro pessoas precisaria de 4,74 salários mínimos para viver. Em São Paulo, são 124 horas de trabalho por mês só para comprar comida. Aqui está a conta aberta, item por item, e o que subiu e o que caiu no seu carrinho em 12 meses.

Publicado
8 de setembro de 2026
Atualizado
8 de setembro de 2026
Editoria
Economia
Leitura
11 min
Fontes
14 citadas
Feira livre, foto de arquivo público
Feira livre, foto de arquivo público

Tem uma frase que você ouviu esta semana e não conseguiu acreditar: a inflação caiu.

Ela caiu mesmo. O índice oficial de agosto veio negativo, o primeiro resultado assim em quatro anos. E a cesta básica ficou mais barata em 26 das 27 capitais do país.

Só que você foi ao mercado e não sentiu nada.

Você não está imaginando coisa. Existe um número oficial que explica exatamente essa distância, e ele é publicado todo mês por um instituto ligado aos sindicatos, o DIEESE, junto com a Conab, que é do governo. Quase ninguém noticia.

O número é este: R$ 7.687,01.

O que é esse número

É o chamado salário mínimo necessário. Ou seja: quanto uma família de quatro pessoas precisaria receber, por mês, para viver do jeito que a Constituição manda.

Não é opinião do DIEESE. Está no artigo 7º da Constituição, que diz que o salário mínimo tem de ser capaz de atender às necessidades básicas do trabalhador e da família dele, com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência.

Eu abri a conta, e ela é mais simples do que parece

Muita gente acha que esse número sai de uma fórmula secreta. Não sai. São três passos, e você pode refazer com uma calculadora.

PassoO que se fazJulho de 2026
1Pega o preço da cesta básica na capital mais cara do paísSão Paulo: R$ 915,01
2Multiplica por 3, porque uma família de dois adultos e duas crianças come, na média, o equivalente a três adultos915,01 x 3 = R$ 2.745,03
3Divide por 35,71%, que é a fatia que a comida deveria ocupar no orçamento, segundo o parâmetro legal usado desde a criação do salário mínimo2.745,03 dividido por 0,3571 = R$ 7.687,01

Faça a conta. Ela fecha no centavo.

E é aqui que aparece a informação que ninguém comenta: a lei parte do princípio de que comida deve custar pouco mais de um terço do salário. Hoje, para quem ganha o mínimo, só a comida come metade.

49,34%do mínimo líquidovai só em alimentação, na média das 27 capitais
61,02%do mínimo líquidoé o peso da comida em São Paulo
100h24minde trabalho por mêsé o que se leva para comprar a cesta, na média do país

O peso da comida no salário mínimo, em julho de 2026

Em São Paulo, o trabalhador que ganha o mínimo precisa de 124 horas e 11 minutos de trabalho por mês para comprar a cesta básica. Uma jornada mensal cheia tem em torno de 220 horas. Ou seja: mais da metade do mês trabalhando só para comer.

Então a cesta caiu ou não caiu?

Caiu. E é por isso que a matéria não pode parar no número de cima.

Em julho, a cesta básica ficou mais barata em 26 das 27 capitais. A única que subiu foi São Luís, e mesmo assim só 0,30%. As maiores quedas foram em Natal (-7,95%), Maceió (-7,87%) e Belo Horizonte (-7,44%).

O salário necessário também caiu: era R$ 8.110,92 em junho e passou a R$ 7.687,01 em julho.

O problema é o outro prazo.

É essa a distância entre a manchete e a sua conta de supermercado. A manchete fala do mês. O seu bolso lembra do ano.

Onde a cesta é mais cara e mais barata

CapitalPreço da cesta em julho
São PauloR$ 915,01
CuiabáR$ 881,27
FlorianópolisR$ 860,73
Rio de JaneiroR$ 855,37
NatalR$ 631,51
MaceióR$ 618,60
AracajuR$ 594,07

A diferença entre a mais cara e a mais barata é de R$ 320,94, ou 54%. É a mesma comida, no mesmo país, no mesmo mês.

Item por item: o que subiu e o que caiu em 12 meses

Aqui está a tabela que responde por que a sua memória e o índice não combinam. Os dados são de São Paulo.

ProdutoNo mêsEm 12 mesesNo ano
Feijão carioca-3,33%+44,94%+47,03%
Batata-15,85%+36,54%+45,05%
Carne bovina de primeira-1,48%+9,91%+6,63%
Leite integral+1,55%+4,49%+13,36%
Pão francês+0,81%+4,08%+2,47%
Óleo de soja-2,29%+0,26%-12,31%
Tomate-26,82%-4,79%+29,63%
Arroz agulhinha-1,34%-14,97%-2,64%
Café em pó-2,82%-17,82%-12,33%
Açúcar refinado-1,83%-21,67%-17,54%

Olhe a coluna do meio. O feijão subiu quase 45% em um ano. A batata, 36%. E o arroz, o café e o açúcar caíram entre 15% e 22%.

É por isso que a inflação "média" engana: ela soma quem subiu 45% com quem caiu 22% e devolve um número perto de zero. Só que a sua família não come média. Come feijão.

Dois casos que valem por si

A carne subiu em todas as capitais pesquisadas em 12 meses, de 1,42% em Brasília a 19,09% em Rio Branco. Só agora começou a ceder, e por um motivo que vem de fora: a China comprou 47% menos carne brasileira em julho do que no mesmo mês do ano passado. Com menos exportação, sobra produto aqui, e o preço no varejo paulista começou a cair.

O café foi na direção contrária: caiu em 26 das 27 capitais em 12 meses, com quedas de mais de 22% no Rio, em Brasília e em Curitiba. O motivo também é de safra: a Conab projeta 66,2 milhões de sacas em 2026 e 2027, um recorde.

Por que a inflação cai e a sua vida não melhora

Junte três dados oficiais desta semana e o quadro fica claro.

O dadoO númeroO que ele diz
Inflação de agosto (prévia)-0,40%Preços caíram no mês, a maior queda desde agosto de 2022
Projeção do mercado para 20265,01%Mesmo com a queda, o ano deve fechar acima do teto da meta, que é 4,50%
Consumo das famílias no PIB-0,4%As famílias compraram menos no segundo trimestre

Traduzindo: os preços pararam de subir tão rápido, mas eles não voltaram atrás. O feijão que subiu 45% continua caro. Ele só parou de encarecer.

E tem o efeito do juro. A Selic está em 14% ao ano. Ela é a ferramenta que o Banco Central usa para segurar preço, e ela funciona do jeito mais duro possível: encarecendo crédito e esfriando o consumo. O Banco Central já começou a baixar, com quatro cortes seguidos, e volta a decidir nos dias 15 e 16 de setembro.

Enquanto isso, o mercado de trabalho manda dois recados opostos: o desemprego está em 5,3%, o menor da história para o período, e ao mesmo tempo a criação de vagas com carteira caiu 57% em um mês, no pior julho desde 2019.

O que dá para fazer com isso na prática

Nenhuma matéria de economia resolve a sua conta. Mas três coisas aqui são acionáveis:

  1. Compare pelo ano, não pelo mês. Quando a manchete disser que um alimento caiu, procure o número de 12 meses. Ele é o que o seu bolso registrou.
  2. Troque o item que subiu, não a marca. O ganho real está em substituir feijão e batata, que subiram 45% e 36%, e não em procurar o mesmo produto mais barato.
  3. Olhe a conta de luz. Setembro é o quinto mês seguido de bandeira amarela, com R$ 1,885 a mais a cada 100 quilowatts-hora. Isso é dinheiro que sai do mesmo orçamento da comida.

Perguntas que chegam nos comentários

Quanto uma família precisa ganhar para viver no Brasil hoje?

R$ 7.687,01 por mês, para uma família de quatro pessoas, segundo o cálculo do salário mínimo necessário do DIEESE de julho de 2026. É 4,74 vezes o salário mínimo em vigor, que é de R$ 1.621.

Como se calcula o salário mínimo necessário?

Pega-se o preço da cesta básica na capital mais cara, que em julho foi São Paulo com R$ 915,01, multiplica-se por 3, porque uma família de quatro pessoas equivale a três adultos em consumo de alimentos, e divide-se por 35,71%, que é a fatia que a comida deveria ocupar no salário. O resultado é R$ 7.687,01.

Qual a cidade com a cesta básica mais cara e mais barata?

A mais cara é São Paulo, com R$ 915,01. A mais barata é Aracaju, com R$ 594,07. A diferença é de R$ 320,94, ou 54%.

Se a inflação caiu, por que a comida continua cara?

Porque a inflação medir queda significa que os preços pararam de subir, não que voltaram ao que eram. O feijão, por exemplo, caiu 3,33% em julho, mas ainda está 44,94% mais caro do que há um ano.

O que mais subiu e o que mais caiu na cesta em 12 meses?

Em São Paulo, o feijão subiu 44,94% e a batata 36,54%. O açúcar caiu 21,67%, o café 17,82% e o arroz 14,97%.

Quantas horas de trabalho custa a cesta básica?

Na média das 27 capitais, 100 horas e 24 minutos por mês. Em São Paulo, 124 horas e 11 minutos, o que equivale a 61,02% do salário mínimo líquido.

Quando sai a próxima inflação e a próxima decisão de juros?

O IPCA de agosto sai nesta sexta-feira, 11 de setembro, às 9h. O Banco Central decide a Selic nos dias 15 e 16 de setembro, e o mercado espera mais um corte, de 14% para 13,75%.

O que vem agora

  1. Sexta, 11 de setembro: sai o IPCA cheio de agosto. A prévia já veio em -0,40%.
  2. Dias 15 e 16 de setembro: o Banco Central decide a Selic. O mercado espera 13,75%.
  3. Meados de outubro: sai a cesta básica de setembro, e dá para ver se a queda continuou.

Eu volto a cada número, com a conta aberta.

Leia também: 986 lojas quebraram este ano, meu faturamento caiu pela metade e de quem foi o Plano Real.

Fontes desta materia

  1. DIEESE e Conab, Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, julho de 2026
  2. DIEESE, a íntegra da pesquisa de julho de 2026 em PDF
  3. IBGE, IPCA de julho de 2026
  4. InfoMoney, os dados do IPCA de julho de 2026
  5. IBGE, IPCA-15 de agosto de 2026, em PDF
  6. Poder360, IPCA-15 tem deflação de 0,40% em agosto de 2026
  7. CNN Brasil, Banco Central corta a Selic para 14% ao ano
  8. Agência Brasil, Boletim Focus de 31 de agosto de 2026
  9. Agência Brasil, PIB do Brasil cresce 0,5% no segundo trimestre
  10. Agência Gov, IBGE registra desemprego de 5,3% no trimestre encerrado em julho
  11. Correio Braziliense, Caged registra queda de 57,2% na criação de vagas em julho
  12. Agência Gov, Aneel mantém bandeira tarifária amarela em setembro
  13. Guaíra News, preço da carne bovina recua com a queda nas exportações
  14. Constituição Federal, artigo 7º, inciso IV, sobre o que o salário mínimo deve cobrir