Começa com um barulho.
Clique. Clique. Clique.
Era a pistola de etiqueta do remarcador de preços, andando entre as prateleiras do supermercado. E quando esse som começava, o corredor inteiro se mexia. "Todo mundo corria quando ouvia o remarcador", contou uma dona de casa à Agência Brasil, lembrando daquela época. Corria para pegar o pacote de arroz antes que ele custasse mais caro. No mesmo dia. Na mesma hora.
Se você tem mais de 40 anos, você não precisa que eu explique. Você viu sua mãe fazendo isso.
O que quase ninguém sabe é que a resposta para aquilo já existia. Estava escrita, guardada, esperando. Há dez anos.
Primeiro, o tamanho do que estava sendo tirado de você
A palavra "hiperinflação" não diz nada. O número diz.
E não era só o dinheiro guardado. Era o salário.
Em junho de 1994, o último mês antes da moeda nova, a inflação foi de 47,43% em trinta dias. Traduzindo: quem recebia no dia 5 e ainda tinha um terço do salário no dia 30 já tinha perdido essa parte. Por isso a corrida no dia do pagamento. Por isso o carrinho cheio até em cima. Não era exagero, era defesa.
E se você quiser o número que não cabe na cabeça, é este: entre 1980 e 1994, o índice acumulado de inflação no Brasil, segundo o IBGE, foi de 13.342.346.717.671%. Os preços foram multiplicados por mais de 133 bilhões de vezes em catorze anos.
O remarcador de preços era uma profissão. Existia gente contratada só para isso. A profissão acabou em 1994, junto com a doença.
A parte que dá raiva: a solução estava numa gaveta desde 1984
Em 1984, dois economistas escreveram uma proposta de reforma monetária. Pérsio Arida e André Lara Resende.
A ideia deles era desconcertante de tão simples: antes de trocar o dinheiro, crie uma moeda de mentira, que ninguém usa, só para os preços pararem de correr. Quando todo mundo já estiver pensando naquela moeda de mentira, transforme ela na moeda de verdade. O texto ficou conhecido como Proposta Larida, junção dos dois sobrenomes.
Ela foi apresentada, analisada e recusada. Motivo: complicada demais.
Guarde essa data: 1984. Agora veja o que aconteceu com o país nos dez anos em que aquele papel ficou parado.
| Ano | O que o Brasil tentou | Como terminou |
|---|---|---|
| 1986 | Plano Cruzado, congelamento de preços e a caçada aos "fiscais do Sarney" | Desabou no ano seguinte |
| 1987 | Plano Bresser | Não segurou |
| 1989 | Plano Verão | Não segurou |
| 1990 | Plano Collor, com confisco da poupança | Trauma nacional |
| 1991 | Collor 2 | Não segurou |
Repare no ano de 1990. Em 16 de março, o governo bloqueou todo valor acima de 50 mil cruzados novos das contas e poupanças, por 18 meses. A medida atingiu cerca de 80% dos depósitos bancários do país, o equivalente a algo perto de 30% do PIB da época.
Traduzindo de novo: o dinheiro da sua família, aquele guardado com esforço para a cirurgia, para a faculdade do filho, para a entrada da casa, ficou preso no banco por um ano e meio.
E a resposta já estava escrita desde 1984.
Não escrevo isso para acusar ninguém de má-fé. Escrevo porque a conta desses dez anos não foi paga por quem decidiu engavetar. Foi paga por quem corria no supermercado.
O presidente que ninguém tinha escolhido
Em 2 de outubro de 1992, com o processo de impeachment de Collor em andamento, o vice assumiu interinamente. Em 29 de dezembro, com a renúncia, assumiu de vez.
Itamar Franco não foi eleito presidente. Ele foi eleito vice, na chapa de outro homem, e herdou o cargo pelo pior motivo possível.
Não tinha carisma. Não tinha discurso. Não tinha bancada. Não tinha projeto econômico. O que ele tinha era um país com inflação de quatro dígitos e um ministério para montar do zero, no meio dos escombros de um impeachment.
Ninguém apostava nele. Guarde isso também.
Seis ministros da Fazenda em 27 meses
Aqui está o dado que mostra o tamanho da bagunça, e que quase nunca aparece nas retrospectivas.
| Ministro da Fazenda | Período | Tempo no cargo |
|---|---|---|
| Gustavo Krause | 2 de outubro a 16 de dezembro de 1992 | 2 meses e meio |
| Paulo Roberto Haddad | 16 de dezembro de 1992 a 1º de março de 1993 | 2 meses e meio |
| Eliseu Resende | 1º de março a 19 de maio de 1993 | 2 meses e meio |
| Fernando Henrique Cardoso | 19 de maio de 1993 a 30 de março de 1994 | 10 meses |
| Rubens Ricupero | 30 de março a 6 de setembro de 1994 | 5 meses |
| Ciro Gomes | 6 de setembro de 1994 a 1º de janeiro de 1995 | 4 meses |
Seis nomes em 27 meses. Um ministro da Fazenda a cada quatro meses e meio. É desse caos que saiu o plano econômico mais bem sucedido da história do país.
Quem hoje diz que o Brasil só se conserta com estabilidade, ordem e um comando forte precisa explicar 1994.
O que o Fernando Henrique fez, e o que ele não fez
Ele foi o quarto ministro da Fazenda do Itamar. E fez três coisas que nenhum dos três anteriores tinha conseguido.
- Desengavetou a ideia de 1984 e chamou os autores de volta para o governo.
- Montou um time e saiu do caminho dele. Sete economistas: Pérsio Arida, André Lara Resende, Edmar Bacha, Gustavo Franco, Pedro Malan, Winston Fritsch e Clóvis Carvalho.
- Bancou politicamente. Convenceu o presidente, negociou com um Congresso hostil e aguentou a chance real de errar em público, depois de cinco planos fracassados terem destruído a reputação de todo mundo que tentou.
Isso é enorme. E não é a mesma coisa que ter tido a ideia.
A sacada, explicada sem economês
Em 27 de fevereiro de 1994, a Medida Provisória 434 criou a URV, a Unidade Real de Valor.
A URV não era dinheiro. Ninguém tinha URV na carteira, ninguém pagava o pão com URV. Era um número, publicado todos os dias, que dizia quanto valia uma unidade de valor estável em cruzeiros reais.
Na prática, o país passou a viver com dois preços na mesma etiqueta: o preço em cruzeiro real, que subia todo dia, e o preço em URV, que ficava parado. Salário, aluguel e contrato foram passados para URV.
Foi um ensaio geral de quatro meses. E foi genial pelo motivo mais humano possível: quando a moeda nova chegou, o preço já tinha parado de correr antes. A cabeça das pessoas já estava calibrada. Não foi preciso confiscar nada de ninguém.
Compare com 1990, quando o governo simplesmente pegou o dinheiro. A diferença entre os dois métodos é a diferença entre respeitar e não respeitar quem paga a conta.
A virada: em 30 de março, ele foi embora
Agora o detalhe que muda a história que se conta na mesa do almoço.
Em 30 de março de 1994, o Fernando Henrique deixou o Ministério da Fazenda. Saiu para se candidatar à Presidência, como a lei exigia.
Naquele dia, o real ainda não existia. Existia a URV, com um mês de vida.
Quem assumiu a Fazenda foi Rubens Ricupero. E foi Ricupero, não o Fernando Henrique, quem assinou a Medida Provisória 542, de 30 de junho de 1994, o documento que criou o real como moeda do país a partir do dia seguinte. Está no site do Planalto. A assinatura está no fim do texto, e qualquer pessoa pode abrir agora e ver.
A cronologia que desmonta a versão simples
O que aconteceu com o preço, mês a mês
Este é o gráfico que encerra qualquer discussão sobre se funcionou.
Inflação mensal medida pelo IPCA em 1994
Fonte: IBGE, série histórica do IPCA
De 47,43% em junho para 1,86% em agosto. Em sessenta dias.
No ano fechado, a queda foi de 2.477% em 1993 para 916% em 1994 e para 22,41% em 1995.
Não existe outro momento da história econômica brasileira parecido com esse. E o efeito não foi um número: foi o remarcador de preços perdendo o emprego, o carrinho de supermercado deixando de ser trincheira, e a sua mãe podendo, pela primeira vez em anos, planejar o mês.
Dois meses depois, um microfone aberto derrubou o ministro
A história ainda tinha uma última reviravolta, e ela é quase literária.
Em 1º de setembro de 1994, uma conversa reservada de Ricupero com um jornalista foi transmitida sem que ele soubesse, por um sinal de satélite captado por outras emissoras. Ele falava sobre como usar os números da economia a favor da campanha do Fernando Henrique. A frase que ficou: "eu não tenho escrúpulos."
Cinco dias depois ele deixou o cargo. Ciro Gomes, governador do Ceará, renunciou ao governo do estado e assumiu a Fazenda. Sexto ministro.
Em outubro, o Fernando Henrique foi eleito presidente no primeiro turno.
Quem ficou com o crédito, e quem ficou com a conta
Some tudo e a resposta honesta tem cinco partes.
- A ideia é de Pérsio Arida e André Lara Resende, de 1984, quando foi recusada.
- O desenho é de sete economistas, entre 1993 e 1994.
- A articulação política é do Fernando Henrique, ministro entre maio de 1993 e março de 1994.
- A assinatura que criou a moeda é de Rubens Ricupero, em 30 de junho de 1994.
- A decisão de sair da frente e deixar os técnicos trabalharem é de Itamar Franco, o presidente que ninguém tinha escolhido.
O Fernando Henrique virou presidente por oito anos. O Itamar terminou o mandato com o melhor número de aprovação da vida dele e morreu em 2011 sendo lembrado como "aquele que veio depois do Collor". Ricupero virou uma frase. E os sete economistas viraram nota de rodapé.
Quem pagou a conta dos dez anos de gaveta continua sem nome. É a dona de casa que corria quando ouvia o clique da pistola de etiqueta. É o aposentado que teve a poupança bloqueada em 1990 e morreu antes de receber tudo de volta. É o seu pai, que trabalhou o mês inteiro para receber um salário que derretia em trinta dias.
Da próxima vez que alguém disser, com toda a certeza do mundo, que o Plano Real foi de uma pessoa só, você já sabe: foi de muita gente. E foi tarde.
Perguntas frequentes
De quem foi o Plano Real?
Não é de uma pessoa só. A ideia central é de Pérsio Arida e André Lara Resende, de 1984. O desenho é de uma equipe de sete economistas. A articulação política é do Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda. A medida provisória que criou o real foi assinada por Rubens Ricupero. E o presidente era Itamar Franco.
O Fernando Henrique era ministro quando o real foi lançado?
Não. Ele deixou o Ministério da Fazenda em 30 de março de 1994 para se candidatar à Presidência. O real entrou em circulação em 1º de julho de 1994, três meses depois, com Rubens Ricupero no cargo.
O que era a URV?
A Unidade Real de Valor, criada pela Medida Provisória 434, de 27 de fevereiro de 1994. Não era dinheiro, era um índice publicado diariamente. Serviu para os preços pararem de subir antes da troca da moeda. Depois de quatro meses, a URV virou o real.
Quantos ministros da Fazenda o Itamar Franco teve?
Seis, em 27 meses: Gustavo Krause, Paulo Haddad, Eliseu Resende, Fernando Henrique Cardoso, Rubens Ricupero e Ciro Gomes.
Quanto a inflação caiu com o real?
Pelo IPCA do IBGE, de 47,43% em junho de 1994 para 6,84% em julho e 1,86% em agosto. No ano, de 2.477% em 1993 para 916% em 1994 e 22,41% em 1995.
O que foi o confisco da poupança de 1990?
Em 16 de março de 1990, o Plano Collor bloqueou por 18 meses os valores acima de 50 mil cruzados novos em contas e poupanças. A medida atingiu cerca de 80% dos depósitos bancários do país.
Por que Rubens Ricupero saiu do governo?
Em 1º de setembro de 1994, uma conversa reservada dele com um jornalista vazou por um sinal de satélite. Ele deixou o cargo em 6 de setembro e foi substituído por Ciro Gomes.






