Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e preso em Brasília desde março, diz em áudio que pagou o filme sobre Lula em dinheiro vivo e por baixo dos panos. A conta, segundo ele, foi de cerca de R$ 30 milhões, entregues ao Instituto Lula. A gravação e um documento levado à Procuradoria-Geral da República foram revelados pela revista VEJA na madrugada desta sexta-feira, 9 de outubro de 2026.
A frase que resume tudo está na voz dele: "Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi, porque foi patrocínio, foi patrocínio normal."
● Áudio
Ouça Vorcaro falar do Instituto Lula e do filme
A transcrição completa do áudio
"Banco do Brasil a gente estruturou isso com ele. É… O Augusto adianta ali para o Okamotto do Instituto Lula… E aí tem o negócio do filme também. O cara pede para colocar dinheiro no filme do Lula. Tudo no… (trecho inaudível) O filme do Lula eu coloquei acho que até mais, eu acho que dá até mais. Só que o do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi, porque foi patrocínio, foi patrocínio normal."Daniel Vorcaro, no áudio divulgado pela VEJA em 9 de outubro de 2026
Lula por fora, Flávio patrocínio: a diferença na voz de Vorcaro
Quem separa os dois filmes é o próprio banqueiro que colocou dinheiro nos dois. Na conversa, o interlocutor tenta comparar o caso de Lula com o Dark Horse, o filme sobre Jair Bolsonaro. Vorcaro corrige na hora: o do Lula foi errado, o do Flávio foi patrocínio.
| Filme do Lula | Filme do Flávio (Dark Horse) | |
|---|---|---|
| Como Vorcaro define | "Foi por fora, foi errado" | "Foi patrocínio normal" |
| Como o dinheiro teria saído | Em espécie, pelo Instituto Lula | Patrocínio |
| O que ele diz que queria em troca | Acesso aos fundos de pensão das estatais, com 10% para o PT | Nada citado no áudio |
Fonte: relato de Daniel Vorcaro à PGR, publicado pela VEJA em 9 de outubro de 2026.
O que Vorcaro conta
A história está num anexo que a defesa de Vorcaro levou à PGR em junho, quando ele tentava fechar um acordo de delação. Nas palavras dele, o sócio Augusto Lima, então presidente do Master, procurou "os caciques do PT da Bahia" e chegou a João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do partido.
O documento descreve o que ficou combinado no primeiro encontro: "um pagamento por fora, ou seja, por espécie, na ordem de aproximadamente 30 milhões de reais para cobrir despesas de um documentário no exterior que estava sendo gravado sobre o Lula, e pagamento de valores ao Instituto Lula".
O filme é "Lula", dirigido pelo americano Oliver Stone e por Rob Wilson. Estreou no Festival de Cannes em 19 de maio de 2024. Um dos depoimentos do filme é do advogado Walfrido Warde, amigo do presidente. O mesmo Warde aparece, meses depois, marcando reunião de Vorcaro no Palácio do Planalto.
Quem cuidava do dinheiro, segundo Vorcaro, era Paulo Okamotto, diretor do Instituto Lula e amigo de décadas do presidente. Além dos R$ 30 milhões do filme, ele cita pagamentos direto ao Instituto, sem dizer quanto.

O que Vorcaro ganharia em troca?
O dinheiro do filme seria a entrada. O negócio de verdade eram os fundos de pensão dos funcionários das estatais: Previ (Banco do Brasil), Petros (Petrobras), Postalis (Correios) e as estruturas da Caixa Asset. Esses fundos guardam a aposentadoria de centenas de milhares de trabalhadores.
Segundo Vorcaro, Vaccari cobrou 10% de tudo o que o Master conseguisse captar nesses fundos. Se o plano tivesse dado certo inteiro, o PT ficaria com R$ 1 bilhão e o banqueiro faturaria R$ 9 bilhões.
Para entender o tamanho: é como se alguém cobrasse pedágio sobre a poupança da aposentadoria de um carteiro ou de um petroleiro, para deixar um banco que depois quebrou mexer nela.

Vaccari não é um nome qualquer. Foi tesoureiro do PT nos anos da Lava Jato e chegou a ser condenado no escândalo da Petrobras.
Quem é quem na história
| Nome | Papel, segundo Vorcaro |
|---|---|
| João Vaccari Neto | Ex-tesoureiro do PT. Teria pedido o dinheiro do filme e os 10% |
| Paulo Okamotto | Diretor do Instituto Lula. Teria recebido os valores |
| Augusto Lima | Sócio de Vorcaro e presidente do Master. Fez a ponte com o PT |
| Jaques Wagner | Então líder do governo no Senado. Teria ajudado a marcar o primeiro encontro com Vaccari |
| Alexandre Padilha | Então ministro das Relações Institucionais. Vorcaro diz ter jantado com ele ao menos duas vezes |
| "Júlio" | Operador com acesso ao gabinete de Padilha. Teria recebido R$ 500 mil |
A linha do tempo
| Data | O que aconteceu |
|---|---|
| 29 de abril de 2024 | O Master entra na "lista exaustiva", a lista de bancos que podem receber dinheiro dos fundos das estatais. Augusto Lima escreve: "Entramos na lista exaustiva. Resolvido". No mesmo dia, "Júlio" cobra R$ 500 mil, que foram pagos |
| 19 de maio de 2024 | "Lula", de Oliver Stone, estreia em Cannes |
| Julho de 2024 | Vaza a tentativa de colocar R$ 500 milhões da Caixa em papéis do Master. A operação para |
| Outubro de 2024 | Mensagens mostram tentativa de marcar reunião com Lula. Não há prova de que aconteceu |
| 4 de dezembro de 2024 | Vorcaro é recebido no Planalto por Marco Aurélio Santana, o "Marcola", chefe de gabinete de Lula. Quem marcou foi Walfrido Warde |
| Março de 2026 | Vorcaro é preso, acusado de uma das maiores fraudes bancárias da história do país |
| Maio de 2026 | A coluna de Lauro Jardim, no Globo, diz que aliados do banqueiro contam que ele bancou o filme. Os diretores negam |
| Junho de 2026 | O anexo com a história do filme chega à PGR |
| 9 de outubro de 2026 | A VEJA publica o áudio e o documento |

O que já está provado
Três coisas não dependem da palavra de Vorcaro. A primeira: o Master entrou de fato na lista dos fundos das estatais em 29 de abril de 2024, e a mensagem de Augusto Lima comemorando foi publicada pela VEJA. A segunda: Vorcaro foi recebido no Planalto pelo chefe de gabinete do presidente em 4 de dezembro de 2024. A terceira: o próprio Vorcaro gravou e entregou esse relato às autoridades.
O que ainda depende da palavra dele: que os R$ 30 milhões existiram, que chegaram ao Instituto Lula, que Vaccari cobrou 10% e que Lula sabia.
A defesa do banqueiro diz que tem como provar. Segundo a VEJA, ela afirma ter mensagens de WhatsApp, o registro de quem sacou o dinheiro vivo e a lista dos lugares e das rotas que os operadores usaram nas entregas.
O que joga contra, e entra
"Lula nega." Nega. À VEJA, o presidente disse que "jamais solicitou ou recebeu qualquer vantagem financeira nem autorizou terceiros a receber recursos de Vorcaro em seu nome". Padilha e Olavo Noleto, ex-secretário-executivo da pasta, também negam relação com o banqueiro.
"Os diretores do filme disseram que não receberam nada." Disseram, em maio: não houve "quaisquer recebimentos de recursos, investimentos, patrocínios ou contribuições de qualquer natureza" ligados a Vorcaro ou ao Master. Só que Vorcaro não diz que pagou a produtora. Ele diz que entregou dinheiro vivo ao Instituto Lula. Dinheiro em espécie que passa por um intermediário não deixa o nome de quem pagou no caixa de quem recebeu. Isso não prova que aconteceu, mas explica por que a negativa da produtora não encerra a questão.
"A PGR arquivou." A PGR não levou o caso adiante. A justificativa foi a falta de prova, já que o pagamento teria sido em espécie. A defesa contesta e diz ter mensagens e o registro das entregas.
"Vorcaro é bandido e quer reduzir a pena." É preso, acusado de fraude, e está na terceira tentativa de delação. Tem interesse em entregar nomes. Por isso a frase dele, sozinha, não condena ninguém. O que ela pede é investigação.
"E o filme do Bolsonaro?" Está respondido pelo próprio Vorcaro, no mesmo áudio: "O do Flávio não foi, porque foi patrocínio, foi patrocínio normal." Errado, nas palavras dele, foi o do Lula.
Cuidado com o boato. Circula nas redes que "documentos do STF mostram R$ 300 milhões de Vorcaro para Lula". A checagem do Aos Fatos mostrou que isso é falso. A história verdadeira é a desta matéria, e ela já é grave o bastante.
Perguntas rápidas
Lula recebeu dinheiro de Vorcaro?
Vorcaro diz em áudio e em documento entregue à PGR que pagou cerca de R$ 30 milhões em dinheiro vivo ao Instituto Lula para bancar o documentário sobre o presidente. Lula nega. Até agora não há prova pública do pagamento.
Que filme é esse?
"Lula", documentário de Oliver Stone e Rob Wilson, lançado no Festival de Cannes em maio de 2024.
O que Vorcaro queria em troca?
Segundo ele, acesso aos fundos de pensão das estatais (Previ, Petros, Postalis e Caixa Asset), com 10% de comissão para o PT sobre tudo o que fosse captado.
Por que a PGR não investigou?
Segundo a VEJA, a Procuradoria considerou que não havia prova, porque os pagamentos teriam sido em espécie. A defesa de Vorcaro diz ter mensagens e o registro das entregas.
Minha opinião
Esta parte é opinião minha, Thiago de Castro.
Eu ouvi o áudio várias vezes. O que me pesa não é só o valor. É a frase "foi por fora, foi errado", dita por quem pagou, sobre o presidente que pede o seu voto no segundo turno, em 25 de outubro. Lula passou meses usando o caso Master para atacar adversário. Agora o dono do banco diz que o filme dele foi bancado com dinheiro vivo, em troca da aposentadoria dos funcionários das estatais. Se a PGR acha que não há prova, que chame a defesa e confira as rotas. Quem não deve não teme que se olhe.
A resposta
Lula recebeu dinheiro de Vorcaro em filme? O dono do Banco Master diz, com a própria voz, que sim: cerca de R$ 30 milhões em espécie, por fora, pelo Instituto Lula, em troca de acesso aos fundos de pensão. Lula nega, e a PGR não foi atrás. O áudio está aqui em cima. Ouça e tire a sua conclusão.







