Você já viveu esta cena. Almoço de domingo, a mesa cheia. Alguém diz que o emprego nunca esteve tão bom. Outro responde que a comida no mercado nunca esteve tão cara. Os dois têm certeza. Ninguém muda de ideia. O almoço azeda e a família passa a semana sem se falar direito.
A pergunta que quase ninguém faz é esta: quando seu cunhado dá aquele número, ele acredita mesmo?
Quatro professores americanos resolveram testar isso. E o jeito que eles acharam de descobrir foi simples ao ponto de ser engraçado: começaram a pagar as pessoas para acertar.
Eu li as 60 páginas do estudo. Está tudo aqui embaixo, com fonte.
Quem fez o estudo
O trabalho se chama "Partisan Bias in Factual Beliefs about Politics", que em português seria algo como "viés de partido nas crenças sobre fatos da política". Saiu em 2015, na revista Quarterly Journal of Political Science, e ocupa as páginas 519 a 578.
São quatro autores, todos professores de universidade:
| Autor | Universidade |
|---|---|
| John Bullock | Universidade do Texas, em Austin |
| Alan Gerber | Universidade Yale |
| Seth Hill | Universidade da Califórnia, em San Diego |
| Gregory Huber | Universidade Yale |
Não é post de rede social. É pesquisa revisada por outros pesquisadores antes de ser publicada, e o mesmo texto circulou antes como documento de trabalho do NBER, um dos centros de pesquisa econômica mais respeitados dos Estados Unidos.
A pergunta que eles queriam responder
Há décadas as pesquisas americanas mostram a mesma coisa esquisita. Pergunte a um democrata e a um republicano quanto a inflação subiu no governo passado, e eles dão números diferentes. Não é opinião. É número, com resposta certa, que qualquer um pode conferir.
Durante muito tempo os cientistas trataram isso como se as pessoas realmente acreditassem no que diziam. Se acreditam mesmo, o problema é grave: quer dizer que o país vive em duas realidades separadas, e que ninguém consegue cobrar governo nenhum, porque nem o retrato do país as pessoas conseguem enxergar igual.
A hipótese que os quatro foram testar é outra e é bem mais consoladora. E se a pessoa não acreditar de verdade? E se ela estiver só torcendo?
O primeiro experimento
Outubro de 2008, plena eleição americana. Eles entraram numa pesquisa nacional e aplicaram 12 perguntas a 626 pessoas. Cada uma tinha 20 segundos para responder, para ninguém sair procurando no Google.
As perguntas eram de fato, não de opinião. Duas delas:
- O desemprego subiu ou caiu desde que o presidente Bush assumiu?
- Quantos soldados americanos morreram no Iraque?
Metade do grupo respondeu de graça. A outra metade recebeu a seguinte proposta, e essa parte é importante porque muita gente conta errado na internet:
"Para cada pergunta que você responder corretamente, seu nome entra num sorteio de um vale-presente de US$ 200."
Não era um dólar por resposta certa. Era um bilhete de rifa. E os próprios pesquisadores avisavam que a chance média de ganhar era de 1 em 100. Fazendo a conta que eles mesmos fazem no estudo, cada resposta certa valia, na média, cerca de 17 centavos de dólar.
O que aconteceu quando não valia nada
De graça, o retrato foi o clássico. Democratas puxavam as respostas para o lado que fazia o partido deles parecer melhor. Republicanos puxavam para o lado deles.
A maior distância de todas apareceu justamente na pergunta sobre os mortos no Iraque, que era o assunto mais quente daquela eleição. Mesmo número real, duas respostas diferentes.
Teve uma exceção reveladora. Na pergunta sobre o déficit no governo Bush, 92% dos dois lados responderam a mesma coisa, e a diferença entre democratas e republicanos praticamente sumiu. Ou seja: quando a resposta é óbvia para todo mundo, não tem torcida. A torcida aparece exatamente onde a pessoa não tem certeza.
O que aconteceu quando passou a valer
Com o bilhete de rifa na mão, a distância entre democratas e republicanos caiu cerca de 55%.
Pense no tamanho disso. Metade da distância entre os dois partidos americanos, num assunto de fato conferível, desapareceu por causa de um bilhete de rifa que valia uns trocados.
O segundo experimento, e a regra que mudou tudo
Em 2012 eles refizeram o teste, agora com dinheiro na hora e um grupo bem maior. Foram mais de 1.300 pessoas, divididas assim:
| Grupo | O que recebia | Quantas pessoas |
|---|---|---|
| Controle | um valor fixo, sem prêmio por acerto | 156 |
| Pago por acerto | de 10 centavos a 1 dólar por resposta certa | 534 |
| Pago por acerto e por "não sei" | o mesmo, e mais uma opção nova | 660 |
O valor por acerto era sorteado por pessoa: 10, 25, 50, 75 centavos ou 1 dólar. Menos que um chiclete.
Resultado do grupo pago por acerto: a distância entre os dois lados caiu 60%.
Mas a sacada do estudo foi o terceiro grupo. Os pesquisadores raciocinaram assim: se a pessoa não faz ideia da resposta, pagar por acerto não resolve, porque ela não tem como acertar de propósito. Ela vai continuar chutando para o lado do time dela, que pelo menos dá o prazer de torcer.
Então criaram uma opção nova na tela, ao lado de "subiu", "ficou igual" e "caiu":
"NÃO SEI."
E, o mais importante, admitir que não sabia também pagava. De 20% a 33% do valor de uma resposta certa. Uns centavos por honestidade.
Quase metade preferiu admitir
Foi o que aconteceu. Dependendo de quanto o "não sei" pagava, 46%, 47% ou 50% das respostas passaram a ser "não sei".
Leia de novo devagar. A mesma pessoa que, de graça, respondia com convicção total, quando ganhava alguns centavos para ser honesta, admitia que não fazia ideia.
E aí veio o número que dá título a esta matéria: com as duas coisas juntas, dinheiro por acerto e dinheiro por "não sei", a distância entre democratas e republicanos ficou 80% menor do que quando não se pagava nada.
O placar dos dois experimentos
O que os autores concluíram
A frase do resumo do estudo, traduzida, é esta:
A distância que aparece entre os partidos nas crenças sobre fatos pode ser mais ilusão do que realidade.
E eles vão além. Segundo o trabalho, essa distância vem de duas coisas ao mesmo tempo: da vontade de torcer e de a pessoa saber que não sabe e mesmo assim responder.
Não é que um lado saiba a verdade e o outro minta. É que os dois estão torcendo. E a pesquisa, quando não paga nada, mede a torcida, não a crença.
Não foi um estudo só
Na mesma revista, no mesmo ano, outro time chegou ao mesmo lugar por outro caminho. Markus Prior, Gaurav Sood e Kabir Khanna publicaram "You Cannot be Serious", que testou percepções sobre a economia, não sobre política em geral.
Deu igual: incentivo em dinheiro reduziu bastante a diferença entre os partidários. E teve um achado extra que sai barato para qualquer um aplicar. Um simples aviso na tela, pedindo para a pessoa responder com precisão, já diminuiu a diferença. Sem pagar nada.
A conclusão deles é uma frase que vale colar na geladeira: em condições normais de pesquisa, o que se mede é uma mistura do que o eleitor sabe sobre a economia com o que ele gostaria que fosse verdade.
O que isso explica no Brasil de hoje
O estudo é americano. Não existe, que eu tenha encontrado, um equivalente feito no Brasil com esse desenho. Então o que vale aqui é a lógica, não o número exato.
E a lógica bate com o que a gente vive.
Setembro de 2026. Lula e Flávio Bolsonaro empatados dentro da margem de erro. Ministro do Supremo pedindo providência contra outro ministro do Supremo. Deputado levando ovo na rua. Família que parou de se falar por causa de voto, que é uma das queixas que mais aparecem nos comentários deste site e do meu perfil.
Se o estudo estiver certo, boa parte dessa briga não é sobre fato nenhum. É torcida. Seu cunhado não está mentindo para você. Ele está torcendo. E você também.
É por isso que ninguém sai convencido do churrasco: ninguém foi ao churrasco para acertar.
Já escrevi aqui sobre os eleitores que ainda não escolheram, que são exatamente os que menos torcem e mais decidem eleição, e sobre por que essa raiva toda apareceu.
O teste que você pode fazer sozinho
Não precisa de laboratório nem de dólar. Da próxima vez que aparecer no seu celular uma notícia boa do seu candidato, ou uma notícia ruim do candidato que você não suporta, faça uma pergunta antes de compartilhar:
"Se eu ganhasse R$ 100 por acertar, eu responderia a mesma coisa?"
Se a sua resposta mudar, você não estava informando ninguém. Você estava torcendo.
E isso vale para mim também. Eu torço pelo Augusto Cury e não escondo de ninguém. É exatamente por isso que eu leio a fonte antes de publicar, coloco o link de tudo e escrevo o bloco do que joga contra em toda matéria. Torcer não é o problema. Torcer achando que está informando é.
Perguntas que chegam nos comentários
Esse estudo dos cientistas que pagaram eleitores existe mesmo?
Existe. É de Bullock, Gerber, Hill e Huber, publicado em 2015 na Quarterly Journal of Political Science, volume 10, páginas 519 a 578. O PDF está aberto no site de um dos autores e o link está no rodapé desta matéria.
Quanto eles pagavam por resposta certa?
Depende do experimento. No primeiro, de 2008, cada acerto valia um bilhete num sorteio de US$ 200, com chance média de 1 em 100, o que dá cerca de 17 centavos por pergunta. No segundo, de 2012, era dinheiro na hora, de 10 centavos a 1 dólar. Não é verdade que pagavam "1 ou 2 dólares por acerto", como circula em alguns resumos na internet.
A diferença entre os partidos sumiu quando pagaram?
Não sumiu, encolheu. Caiu cerca de 55% no primeiro experimento e 60% no segundo. Chegou a 80% menor quando admitir "não sei" também passou a pagar.
Isso quer dizer que as pessoas mentem nas pesquisas?
Não necessariamente. Os autores levantam duas possibilidades: a pessoa dá de propósito a resposta que agrada o partido dela, ou ela simplesmente não pensa com cuidado quando não tem nada em jogo. Nos dois casos a conclusão prática é a mesma: a pesquisa comum exagera a diferença entre os lados.
Existe estudo parecido feito no Brasil?
Eu não encontrei nenhum com esse desenho, de pagar por acerto e por "não sei", feito com eleitores brasileiros. Se aparecer, eu publico aqui.
Pagar sempre resolve?
Não. Um estudo de 2024 na PNAS Nexus mostrou que, quando a afirmação é nova e a pessoa nunca a viu antes, de 66% a 78% da diferença entre os lados continua de pé mesmo pagando mais.
A pergunta que fica
A parte incômoda deste estudo não é o que ele diz sobre os americanos de 2008. É o que ele sugere sobre a sua mesa de domingo.
Boa parte do que a gente chama de "as pessoas estão desinformadas" pode ser, na verdade, "as pessoas estão torcendo". São problemas diferentes e pedem soluções diferentes. Contra desinformação, você mostra a fonte. Contra torcida, mostrar a fonte não adianta quase nada, porque a pessoa nunca esteve procurando a fonte.
O que muda o jogo, segundo os dois estudos de 2015, é dar à pessoa um motivo para preferir estar certa a estar do lado certo. No laboratório esse motivo foi dinheiro. Fora dele, precisa ser outra coisa.
Eu volto a cada estudo, com a fonte aberta e o outro lado no meio da matéria.






