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Utilidade / 13 de setembro de 2026

Eu fui ver

Como saber se um perfil é robô. Eu fui procurar nos meus comentários e achei 12 padrões de repetição dos dois lados

Vinte e três pessoas disseram que as enquetes do meu perfil estavam infladas por robô. Em vez de discutir, eu fui contar. Nos 3.838 comentários que eu já tinha lido, achei 32 casos de perfil que escreveu o mesmo texto três vezes ou mais, e os 12 maiores estão nesta matéria, com número de vezes. Tem dos dois lados: 70, 22, 13 e 14. Só que achei também uma coisa que derruba a acusação fácil: 306 perfis diferentes escreveram exatamente '7️⃣0️⃣', letra por letra. Repetir comentário não é crime, não é prova de automação e não aparece em artigo nenhum da lei eleitoral. Aqui está o que a lei diz de verdade, o que as ferramentas públicas fazem e não fazem, e o passo a passo para você conferir os comentários do seu próprio post em um minuto.

Publicado
13 de setembro de 2026
Atualizado
13 de setembro de 2026
Editoria
Utilidade
Leitura
29 min
Fontes
21 citadas
Corredor de servidores em um data center da CMC Telecom. Foto de Daoducquan, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0
Corredor de servidores em um data center da CMC Telecom. Foto de Daoducquan, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0

A resposta curta, antes de tudo

Você não consegue provar que um perfil é robô só de olhar. Ninguém consegue. Nem eu, nem o vizinho, nem o site que promete dizer isso em três segundos.

O que você consegue fazer, em um minuto, é uma coisa diferente e mais útil: separar padrão de repetição de pessoa empolgada. São coisas parecidas na tela e muito diferentes na vida.

E tem um dado que você precisa levar para o resto desta leitura. Nos meus três posts de enquete, 306 perfis diferentes escreveram exatamente a mesma coisa: "7️⃣0️⃣". Dois emojis, nada mais. Letra por letra, igualzinho.

Se texto igual fosse prova de robô, eu teria 306 robôs. Não tenho. Eu tenho uma pergunta que pedia um número, e 306 pessoas que responderam o número.

Guarde isso. É a parte que quase ninguém conta.

Por que eu fui contar

No dia 12 de setembro, eu li os 3.838 comentários das minhas três enquetes de voto e publiquei o resultado aqui no portal. Está em eu li os 3.838 comentários.

Dentro daqueles comentários, 23 pessoas disseram que a enquete era comprada, manipulada ou cheia de perfil falso. Duas frases, do jeito que foram escritas:

"Robôs do Cury por aqui tbm" @maracolombov3, em comentário público no post de 4 de setembro de 2026
"Quem está pagando essa pesquisa para o Augusto está na frente?" @marinasilva.guimaraes, em comentário público no mesmo post

E, do outro lado, gente rebatendo a acusação com a mesma força:

"Não sou robô, tenho título eleitoral regular" @otavi_o7656, comentário com 3 curtidas
"Não são 'robôs' 🤖. É gente de verdade" @renan_qalmeida, comentário público
"Tô gastando o dedo e fazendo campanha de graça!" @haroldoreis, comentário público

Discutir isso não leva a lugar nenhum. Contar leva. Então eu voltei nos mesmos arquivos e contei a repetição.

2.852perfis diferentescomentaram nos três posts
79,4%dos perfisescreveram uma linha só e sumiram
32casos de repetiçãomesmo perfil, mesmo texto, três vezes ou mais
306perfis diferentesescreveram exatamente "7️⃣0️⃣"

O que eu achei nos meus 3.838 comentários

Primeiro, três palavras que todo mundo mistura

Quando alguém grita "robô!", pode estar falando de três coisas completamente diferentes. Elas custam preços diferentes, dão trabalhos diferentes e a lei trata cada uma de um jeito.

NomeO que é, em uma fraseQuem faz o trabalho
Robô (ou bot)Programa de computador que publica sozinho, sem ninguém apertar nada na horaA máquina
Fazenda de cliquesSala com dezenas de celulares e gente contratada para curtir, seguir e comentar o dia inteiroPessoas de verdade, mal pagas
Engajamento coordenadoGrupo combinado que age junto para empurrar um assunto, escondendo quem éPessoas, com ou sem conta falsa

A confusão maior é entre a primeira e a segunda. Fazenda de cliques não tem robô nenhum. É mão humana.

O Olhar Digital descreveu como funciona, em março de 2024: são "fraudes virtuais que fabricam visualizações e curtidas de posts de forma artificial", com operações que "reúnem dezenas de smartphones que funcionam quase que de forma autônoma". Quem trabalha lá recebe, segundo a mesma reportagem, "em média, um dólar por mil curtidas ou por seguir mil pessoas no Twitter". E o pacote vendido sai por preço de lanche: "1.000 cliques ou 500 retuítes por US$ 10".

Essas salas ficam, quase sempre, em países onde a mão de obra é barata. A reportagem cita China, Índia, Nepal, Sri Lanka, Egito, Indonésia, Filipinas e Bangladesh.

Sala de atendimento com dezenas de computadores e pessoas trabalhando

Central de atendimento em São Paulo. Uma fazenda de cliques tem a mesma cara, com celular no lugar do computador. Foto Carlos Ebert, Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Já o terceiro nome, engajamento coordenado, tem uma definição oficial. A Meta, dona do Instagram e do Facebook, chama de comportamento inautêntico coordenado e define assim:

"Esforços coordenados para manipular o debate público para um fim estratégico onde contas falsas são centrais para a operação." Meta, relatório de comportamento inautêntico coordenado da América Latina, dezembro de 2020

Repare na última parte: conta falsa no centro da operação. Gente de verdade combinando de comentar junto não entra nessa definição. Isso é campanha, e campanha é permitida.

Agora os números do meu próprio perfil

Eu rodei a contagem em 13 de setembro de 2026, sobre os mesmos arquivos que já tinham servido para a matéria anterior. São 3.838 linhas, contando comentário e resposta a comentário.

O que eu mediResultado
Linhas lidas3.838
Perfis diferentes2.852
Perfis que escreveram uma linha só2.264, ou 79,4% dos perfis
Perfis com duas linhas ou mais588, somando 1.574 linhas (41,0% do total)
Perfis com três linhas ou mais149, somando 696 linhas (18,1%)
Perfis com cinco linhas ou mais32, somando 307 linhas (8,0%)
Perfis com dez linhas ou mais7, somando 158 linhas (4,1%)
Casos de perfil que repetiu o mesmo texto 3 vezes ou mais32 casos, 173 linhas
Casos de perfil que repetiu o mesmo texto 2 vezes ou mais184 casos, 477 linhas
Linhas sem nenhuma letra, só número e emoji2.297, ou 59,8%

Leia a primeira linha de novo, porque ela é a mais importante e é a que ninguém cita: quase 8 em cada 10 perfis comentaram uma vez só. Escreveram o número, foram embora, não voltaram.

Sete perfis, sete, responderam por 4,1% de tudo o que foi escrito.

Os 12 maiores padrões de repetição

Aqui estão os doze maiores. Eu vou escrever uma frase antes, e ela vale para a tabela inteira: nenhum destes perfis é robô até que alguém prove. O que a tabela mostra é repetição, e repetição é o que ela é.

Vezes que repetiuPerfilTexto repetidoLado
34@ll_ve_ll_"1️⃣4️⃣"Renan
14@carmem_go"7️⃣0️⃣"Cury
11 (de 62 respostas no post)@pedrincefasbloco com versículo e "70x7 Augusto Cury por amoor e não ódio"Cury
8 (de 17 comentários)@sinaraalcazas"2️⃣2️⃣✅🇧🇷"Flávio
7@cleytonffcamargo"7️⃣0️⃣🚀"Cury
6 (de 10 comentários)@crist_bast"2️⃣2️⃣✅"Flávio
6@mary_silvafisio"7️⃣0️⃣"Cury
6 (de 8 comentários)@leo.pires22"7️⃣0️⃣✅"Cury
5@pra.fabia"2️⃣2️⃣"Flávio
5@fabianasampaio30"7️⃣0️⃣✅🇧🇷"Cury
5@sellysantossa"FLÁVIO PRÉSIDENTE"Flávio
5@mauriciodworniktextos de ataque, todos diferentesFlávio

Tem mais, e eu vou dizer porque é desconfortável para o meu lado: @larissaxavier.adv (11 linhas), @silviahpiergallini (10) e @pfenningermartins (7) também repetem, e são do 70. @mari6silva_ escreveu "LULA LA" três vezes em cada um dos três posts.

Os dois lados repetem. O meu lado repete. Está escrito.

Um detalhe de método, para você poder refazer a conta: se eu agrupo por post, dá 26 casos de repetição, somando 154 linhas. Se eu agrupo pelos três posts juntos, dá 32 casos e 173 linhas. É a mesma coisa contada de duas maneiras. Nenhuma das duas é errada, e por isso eu mostro as duas.

O achado que derruba a acusação fácil

Aqui está a parte que muda o jogo, e ela veio de uma pergunta simples: será que existe texto igual escrito por perfis diferentes?

Existe, e muito.

Perfis diferentes que escreveram o mesmo texto, letra por letra

"7️⃣0️⃣"306
"7️⃣0️⃣✅"200
"7️⃣0️⃣🇧🇷"173
"7️⃣0️⃣🇧🇷✅"92
"7️⃣0️⃣✅🇧🇷"64
"2️⃣2️⃣"54
"2️⃣2️⃣🇧🇷"44
"Lula"28

contagem própria sobre 3.838 comentários, 13/09/2026

Vinte textos diferentes foram escritos por dez ou mais perfis cada um.

Pare e pense no que isso significa. Se você pega qualquer um desses 306 perfis e mostra para um desconhecido, ele vai dizer: "olha, mensagem padronizada, isso é robô". E ele vai estar errado 306 vezes seguidas.

O motivo é bobo de tão simples. Eu perguntei "qual é o seu número". A pessoa respondeu o número. Não existe jeito criativo de escrever "70" com dois emojis. Todo mundo escreve igual porque o teclado do celular oferece a mesma coisa.

Texto igual em perfis diferentes, sozinho, não vale nada como prova. Essa é a lição mais cara desta matéria e ela custou zero, só deu trabalho de contar.

Os perfis "de campanha" do meu perfil

Eu fui atrás também dos perfis que têm nome de campanha. Procurei, no nome de usuário, os termos ligados a candidato: cury, 70, bolsonaro, lula, flávio, renan, apoio.

Achei 32 perfis. Conferi um por um.

A maioria é ano de nascimento ou número solto: @maninho1970, @salomao2709, @marlene.moreira.7777019, @arlete.070777. Nada a ver com campanha.

Perfis criados de propósito para campanha, pelo nome, foram quatro: @apoiadores_70, @eu.apoio.cury.2026, @augusto.cury70 e @aracoiabacomaugustocury.

E agora o detalhe que ninguém espera. Cada um dos quatro comentou uma vez só. Uma.

Enquanto isso, o perfil que mais repetiu comentário em todo o conjunto, com 62 respostas, é @pedrincefas, que não tem nada de campanha no nome e escreve versículo de Êxodo no meio do texto.

Quem parecia organização era pessoa. Quem era organização quase não apareceu.

O que a lei brasileira diz sobre isso em 2026

Aqui a coisa fica interessante, porque a regra mudou este ano e quase ninguém percebeu.

A norma que vale é a Resolução 23.610 do TSE, de dezembro de 2019, que já foi alterada três vezes: em 2021, em 2024 e em 2 de março de 2026, pela Resolução 23.755.

Foi a mudança de 2026 que criou, pela primeira vez, um artigo só sobre perfil robô. É o artigo 38-A, e ele diz assim:

"A remoção de perfil será feita quando se tratar de usuário comprovadamente falso, apócrifo ou vinculado a pessoa que sequer exista fora do universo digital (perfil automatizado ou robô), cujas publicações configurem a reiterada prática: I, de crime eleitoral; II, de publicação de fatos notoriamente inverídicos ou gravemente descontextualizados que possam atingir a integridade do processo eleitoral, que tenham sido assim reconhecidos pela Justiça Eleitoral." Resolução TSE nº 23.755, de 2 de março de 2026, artigo 38-A

Apócrifo é palavra de cartório. Quer dizer sem autor conhecido, sem assinatura.

E tem dois parágrafos que mudam tudo na prática:

"§ 1º As determinações de remoção de perfil serão aplicadas em processo judicial em que seja assegurada a ampla defesa e o contraditório. § 2º É permitida a exclusão pelos provedores de aplicação apenas nas hipóteses de perfis falsos, automatizados ou robô."

Traduzindo para o português do dia a dia:

  1. Não basta o perfil ser falso. Ele tem que repetir crime eleitoral ou mentira que a Justiça Eleitoral já reconheceu como mentira.
  2. Quem manda tirar é o juiz, e o dono do perfil tem direito de se defender antes.
  3. A plataforma só pode derrubar sozinha em um caso: perfil falso, automatizado ou robô.

O ministro que apresentou o texto explicou o objetivo com todas as letras, no voto publicado no mesmo Diário da Justiça:

"Adicionou-se, também, por meio do art. 38-A, a determinação de banimento de perfis de redes sociais falsos, apócrifos ou automatizados, sempre que houver prática reiterada de condutas que possam comprometer a integridade do processo eleitoral."

O que mais a lei proíbe (e que a maioria não sabe)

A mesma resolução tem outros pedaços que valem para quem posta e para quem lê.

Fingir que é outra pessoa é proibido. Artigo 28, parágrafo 2º: "Não é admitida a veiculação de conteúdos de cunho eleitoral mediante cadastro de usuária ou usuário de aplicação de internet com a intenção de falsear identidade".

Usar ferramenta de fora da rede para turbinar alcance é proibido. Artigo 28, parágrafo 3º: é vedada "a utilização de impulsionamento de conteúdos e ferramentas digitais não disponibilizadas pelo provedor da aplicação de internet, ainda que gratuitas, para alterar o teor ou a repercussão de propaganda eleitoral".

Repare no "ainda que gratuitas". Aquele aplicativo que promete curtida de graça também está na proibição.

Disparo em massa tem definição escrita. É, segundo o artigo 37, inciso XXI, a "estratégia coordenada de envio, compartilhamento ou encaminhamento de um mesmo conteúdo, ou de suas variações, para grande número de destinatárias e destinatários, por qualquer meio de comunicação interpessoal".

E é proibido, pelo artigo 34, inciso II, quando feito "sem consentimento da pessoa destinatária" ou com serviço que a plataforma não fornece. Candidato e partido só podem fazer propaganda em rede social "desde que não contratem disparos em massa de conteúdo" (artigo 28, inciso IV, alínea a). Vender lista de telefone para disparo também é proibido (artigo 31, parágrafo 1º-A).

Impulsionar só o próprio conteúdo, e só direto com a plataforma. Propaganda paga na internet é proibida, com uma exceção: o impulsionamento (artigo 29). Ele tem que ser contratado "diretamente com provedor da aplicação de internet" (artigo 29, parágrafo 3º), tem que mostrar o CNPJ de quem pagou (artigo 29, parágrafo 5º), e só pode promover quem contratou. Usar impulsionamento para atacar adversário é proibido (artigo 28, parágrafo 7º-A).

A multa. Vai de R$ 5.000 a R$ 30.000 para propaganda anônima e para quem publica propaganda dizendo que o autor é outra pessoa (artigos 30 e 35).

O pedaço de inteligência artificial, que se encaixa aqui

A mesma norma trata de IA, e vale ler junto, porque robô e IA viraram sinônimo na boca do povo sem serem a mesma coisa. A régua completa do TSE sobre isso está em o TSE decidiu onde a inteligência artificial passa do limite na campanha.

Três regras que interessam para esta matéria:

Chatbot não pode fingir que é o candidato. Artigo 9º-B, parágrafo 3º: o uso de "chatbots, avatares e conteúdos sintéticos como artifício para intermediar a comunicação de campanha com pessoas naturais" tem que ser avisado, e fica "vedada qualquer simulação de interlocução com a pessoa candidata ou outra pessoa real".

A IA não pode recomendar voto. Essa é nova, de 2026. O artigo 28, parágrafo 1º-C, proíbe que empresas que oferecem inteligência artificial, "ainda que solicitado" pelo próprio usuário, façam duas coisas: "ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar" candidatos, e "emitir opiniões, indicar preferência eleitoral, recomendar voto", inclusive "por meio de respostas automatizadas".

Ou seja: perguntar para um robô de conversa em quem votar e receber resposta é, hoje, irregular do lado de quem responde.

Tem uma trava de quatro dias em volta da eleição. O artigo 9º-B, parágrafo 3º-A, proíbe publicar, republicar ou impulsionar conteúdo novo feito com IA que use imagem, voz ou manifestação de candidato ou de pessoa pública, "mesmo que rotulados", nas 72 horas antes e nas 24 horas depois do fim da votação.

Faça a conta com o calendário de 2026. A eleição é no domingo, 4 de outubro. A trava começa na quinta-feira, 1º de outubro, e vai até a segunda-feira, 5 de outubro.

O que a lei NÃO diz

Eu procurei, artigo por artigo, e registro o que não achei. Isso vale tanto quanto o que achei.

Não existe artigo que proíba uma pessoa de repetir o mesmo comentário. Não existe limite de comentários por pessoa. Não existe artigo sobre "comentário coordenado" de eleitor.

A resolução trata de propaganda, de impulsionamento, de disparo em massa, de conteúdo feito por IA e de perfil falso, apócrifo ou robô. Comentar 34 vezes "1️⃣4️⃣" embaixo de uma enquete não está em lugar nenhum dessa lista.

Se alguém disser para você que comentar repetido é crime eleitoral, peça o número do artigo. Não tem.

Cabeça de robô social branca, com rosto humano projetado

Um robô social de verdade, o modelo Furhat. O que chamamos de robô no Instagram não tem rosto nem corpo: é uma linha de programa. Foto Guojing92, Wikimedia Commons, CC0

As ferramentas públicas: o que elas fazem e o que elas não fazem

Existem duas ferramentas famosas. Eu vou te contar sobre as duas e depois te dar a má notícia.

Pegabot

É brasileira. Foi criada por pesquisadores do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, o ITS Rio, junto com o Instituto Equidade & Tecnologia. Fica em pegabot.com.br e é de graça.

Você digita o nome do perfil e ela devolve um medidor com três zonas: verde (provável pessoa), amarela (tem elemento para desconfiar de automação, mas pode ser conta de empresa usando agendador) e roxa (chance alta de ser robô).

Ela olha quatro coisas: o perfil (tamanho do nome de usuário, quantidade de seguidores e de seguindo, descrição, volume de publicações, se tem foto), a frequência e o horário das publicações, a rede de hashtags e menções, e o tom das últimas 100 publicações.

O próprio site avisa que o resultado reconhece padrão de comportamento e serve para complementar a sua análise, não para substituir.

Botometer

É da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, com a Universidade do Sul da Califórnia. Dá uma nota de 0 a 1, onde nota alta significa mais chance de automação, e ainda abre seis notas menores: dados da conta, amigos, conteúdo, tom, rede e horário de atividade. Foi treinado comparando cada conta com dezenas de milhares de exemplos que pesquisadores humanos classificaram um por um.

A má notícia

Nenhuma das duas analisa Instagram.

O Pegabot diz isso no próprio site: "o PEGABOT só funciona no Twitter", porque Facebook, Instagram e WhatsApp não liberam o acesso aos dados.

O Botometer está pior. Em maio de 2023, o Twitter acabou com o acesso gratuito para pesquisadores. Hoje a ferramenta vive em modo de arquivo: as notas para contas do X são pré-calculadas com dados coletados até 31 de maio de 2023. Uma conta criada depois disso não tem nota. Existe uma versão nova, o Botometer Blue, mas ela analisa Bluesky, que quase ninguém usa no Brasil.

Então, se você quer conferir aquele perfil que comentou no seu post do Instagram, a resposta honesta é: não tem site que faça isso por você. Vai ter que olhar com o próprio olho. É o que vem agora.

O passo a passo que você faz em um minuto

Aqui está o método. São seis olhadas, nessa ordem, e nenhuma delas exige instalar nada.

1. Abra "Sobre esta conta"

No perfil da pessoa, toque nos três pontinhos do canto e escolha "Sobre esta conta".

O Instagram criou essa ferramenta em 28 de agosto de 2018. Ela mostra, nas palavras do próprio anúncio, "a data da criação da conta no Instagram, o país em que ela está localizada, contas com seguidores em comum", mais "todas as alterações de nome de usuário no último ano e todos os anúncios veiculados pela conta".

O motivo declarado para a empresa criar isso foi este, e cabe como uma luva aqui: "é importante conhecer melhor as contas que alcançam muitas pessoas no Instagram, principalmente quando elas compartilham informações relacionadas a eventos atuais e causas políticas ou sociais".

Um aviso, para você não se frustrar: o item não aparece em toda conta. Ele é voltado para perfis com muito público, contas que anunciam e contas verificadas. Em perfil pequeno, muitas vezes a opção nem existe no menu.

2. Olhe a data de criação

Conta feita há duas semanas, que já comenta política o dia inteiro, merece desconfiança. Conta de 2013 que posta foto de neto, não.

3. Olhe a foto

Se a foto parece perfeita demais, salve e jogue na busca reversa do Google ou no TinEye. Se a mesma foto aparece em dez sites de banco de imagem ou em outro perfil com outro nome, você já sabe.

Cuidado com o contrário, que é o erro mais comum: não ter foto de rosto não quer dizer nada. Muita gente de 50, 60 anos usa foto de paisagem, de santo ou de neto. Isso é privacidade, não automação.

4. Compare seguidores com "seguindo"

Perfil que segue 3.000 pessoas e tem 12 seguidores é sinal. Perfil que tem 400 seguidores e segue 380 é o seu vizinho.

5. Veja se o mesmo texto aparece em vários lugares

Copie o comentário, cole na busca do Google entre aspas, e veja se aquela frase exata está espalhada. E abra o perfil da pessoa: ela escreve coisas diferentes ou é sempre a mesma frase?

6. Olhe o horário

Uma conta que publica de dois em dois segundos, ou sempre no mesmo minuto do dia, comporta-se como programa. Uma conta que aparece no almoço e às onze da noite comporta-se como gente que trabalha.

O que NÃO é sinal de robô

Essa lista é tão importante quanto a de cima, e é a que evita injustiça.

  • Comentar várias vezes no mesmo post. Não é crime, não é irregular, não é prova de nada.
  • Escrever só o número do candidato. Foi o que 306 perfis diferentes fizeram no meu perfil, escrevendo exatamente "7️⃣0️⃣".
  • Ter número no nome de usuário. No meu levantamento, a maioria dos "70" no nome era ano de nascimento.
  • Não ter foto de rosto.
  • Postar sempre no mesmo horário. Quem comenta no intervalo do almoço faz isso todo dia.
  • Escrever tudo em maiúscula, com erro de português, com emoji demais. Isso é gente. Robô bem feito escreve melhor que a maioria de nós.

O tamanho real do problema

Para você calibrar: contas falsas existem, e em volume enorme. Só que o volume está no golpe e na venda de seguidor, não na sua briga de comentário.

No quarto trimestre de 2025, o Facebook agiu sobre 1,1 bilhão de contas falsas, contra 698 milhões no trimestre anterior, segundo os números que a Meta divulga no relatório de aplicação das regras.

A Meta estima que cerca de 4% dos mais de 3 bilhões de usuários ativos por mês são contas falsas. Dá mais de 140 milhões de perfis.

Em 2025, a empresa diz ter removido cerca de 10 milhões de contas que se passavam por criadores de conteúdo e cerca de 12 milhões de contas ligadas a golpe. Em 2026, o Instagram confirmou nova limpeza em massa de contas falsas, inativas e suspeitas, e foi por isso que muito perfil grande perdeu seguidor de uma hora para outra.

Agora compare com a escala de uma operação política brasileira que foi de fato descoberta.

Os estudos brasileiros, com o que eles acharam e o que não acharam

Isso não é assunto novo. Tem gente medindo no Brasil desde 2014.

2014. A Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas, a FGV DAPP, identificou 1.208 perfis automatizados no Twitter durante a campanha presidencial.

2016. O Brasil aparecia em oitavo lugar no mundo em número de bots, segundo relatório da Symantec citado pelo Instituto Igarapé.

Junho de 2017. O pesquisador Daniel Arnaudo, da Universidade de Washington e do Instituto Igarapé, publicou um estudo com um dado que ainda impressiona: segundo documento de 2015 da Presidência da República citado no trabalho, "foram gastos R$ 10 milhões para manter a estrutura robótica mobilizada na campanha de 2014". O mesmo estudo registra que, em 2014, hashtags ligadas a Aécio Neves triplicavam cerca de 15 minutos depois do começo dos debates.

2018. O maior número que existe sobre eleição brasileira. A FGV DAPP avaliou 5.415.492 tuítes entre 22 de junho e 23 de julho e concluiu que as interações motivadas por perfis automatizados chegaram a 12,9% do debate eleitoral no Twitter. Por campo, 17,8% no pró-Bolsonaro e 13,2% no pró-Haddad, os dois maiores. Em outro recorte do mesmo levantamento, 22,17% dos tuítes de perfis do campo da esquerda, 21,96% do campo conservador, 16,18% do centro e 3,99% do centro-esquerda.

Preste atenção no que esse número diz: os dois lados usavam. Não era doença de um campo só.

2022. Aqui eu preciso ser honesto e dizer que não achei. Procurei um levantamento brasileiro sobre a eleição de 2022 com percentual de interação automatizada comparável ao 12,9% de 2018 e não encontrei. O que existe é infraestrutura de pesquisa: o grupo INTERFACES, da UFSCar, montou uma base de tuítes da eleição de 2022 publicada na revista PLOS One, com autoria de Sylvia Iasulaitis e colegas, e há uma base de 282 milhões de tuítes usada em estudos sobre eleições brasileiras. Número fechado de robô em 2022, com fonte que eu pudesse abrir, eu não achei. Fica registrado como não encontrado.

E vale registrar outra coisa. O site do estudo de 2018 da FGV, o observa2018.com.br, está com o certificado de segurança vencido. Eu consegui os números pelo título e pelo resumo indexados, e não pela leitura da página. Se você tentar abrir e o navegador reclamar, é por isso.

A linha do tempo, para você situar

QuandoO que aconteceu
2014FGV DAPP identifica 1.208 perfis automatizados na campanha presidencial
2015Documento da Presidência cita R$ 10 milhões gastos com estrutura robótica em 2014
2016Relatório da Symantec põe o Brasil em 8º lugar no mundo em número de bots
junho de 2017Instituto Igarapé publica o estudo de Daniel Arnaudo sobre bots na política brasileira
22/6 a 23/7 de 2018FGV DAPP mede 12,9% de interação automatizada em 5,4 milhões de tuítes
28 de agosto de 2018Instagram lança a ferramenta "Sobre esta conta"
dezembro de 2020Meta derruba duas redes brasileiras, somando 91 contas
18 de dezembro de 2019TSE publica a Resolução 23.610, a norma de propaganda que vale até hoje
27 de fevereiro de 2024Resolução 23.732 cria as regras de IA, deepfake e chatbot
31 de maio de 2023Twitter fecha o acesso gratuito e o Botometer para de atualizar
2 de março de 2026Resolução 23.755 cria o artigo 38-A, o primeiro sobre remoção de perfil robô
1º de setembro de 2026TSE fixa a tese sobre deepfake, por 5 votos a 2
4 de outubro de 2026Primeiro turno

Como conferir os comentários do seu próprio post

Se você tem um perfil e quer fazer o que eu fiz, dá. Não precisa de programador.

Passo 1. Abra o post e role os comentários até o fim, carregando tudo. Dá trabalho e é a parte chata.

Passo 2. Olhe apenas duas colunas mentais: quem escreveu e o que escreveu. Nome do perfil e texto.

Passo 3. Marque os perfis que aparecem mais de três vezes. Vão ser poucos. No meu caso, com 2.852 perfis, só 149 apareceram três vezes ou mais.

Passo 4. Desses, separe quem repetiu o mesmo texto. É a diferença entre a pessoa que conversa muito e a pessoa que colou a mesma frase. No meu caso, sobraram 32 casos.

Passo 5. Antes de acusar, faça a pergunta de controle: quantos perfis diferentes escreveram esse mesmo texto? Se forem muitos, o texto é resposta à sua pergunta, e não padrão suspeito. Foi assim que eu descobri os 306.

Passo 6. Só aí abra os perfis que sobraram, um por um, e olhe data de criação, foto, proporção de seguidores e histórico de publicação.

Passo 7. Se depois de tudo você tiver certeza, o caminho não é escrever "robô" no comentário. É denunciar dentro do próprio Instagram, no botão de denúncia do perfil, ou levar para a Justiça Eleitoral se envolver campanha. A resolução prevê que a plataforma pode excluir sozinha só perfil falso, automatizado ou robô, e que qualquer outra remoção passa por juiz e por direito de defesa.

O que eu penso

Vou separar o que é opinião minha do que está checado acima.

A palavra "robô" virou atalho para não discutir resultado. É mais fácil dizer que o outro lado é máquina do que aceitar que existe gente de verdade pensando diferente de você. Isso vale para os 23 que me acusaram e vale para quem, do meu lado, responde chamando o adversário de robô do PT.

O que eu vi nos meus comentários não foi exército. Foi tia repetindo "7️⃣0️⃣" catorze vezes porque estava animada, e um senhor colando versículo de Êxodo em 62 respostas porque acha que está evangelizando. Isso é chato. Não é crime, não é fraude, e é bem mais humano do que a acusação sugere.

Minha desconfiança está em outro lugar. Os quatro perfis que existem só para fazer campanha comentaram uma vez cada. Operação profissional não repete emoji embaixo de enquete. Operação profissional compra impulsionamento, produz vídeo e usa gente de verdade. Quem grita "robô" está olhando para o lugar errado, e enquanto olha para o lugar errado, não olha para quem pagou o anúncio.

E tem a parte que me incomoda mais. Se você acusa 306 pessoas de serem robô porque escreveram o mesmo número, você acabou de dizer para 306 eleitores que o voto deles não conta como voto de gente. Não tem nada mais desmobilizador que isso.

Eu torço pelo Cury. Está dito, como está em toda matéria minha sobre a eleição. Se amanhã o levantamento mostrar automação do lado dele, eu publico do mesmo jeito e com o mesmo tamanho de letra.

Perguntas que chegam nos comentários

Dá para saber se um perfil é robô só olhando?

Não. Dá para ver sinal de automação (conta nova, sem foto, seguindo muita gente e com pouco seguidor, mesmo texto em vários lugares, publicação em horário mecânico). Sinal não é prova. Prova depende de dado que só a plataforma e a Justiça têm.

Existe site que confere isso no Instagram?

Não. O Pegabot, do ITS Rio, só analisa Twitter, e diz isso no próprio FAQ. O Botometer, da Universidade de Indiana, está em modo de arquivo, com notas calculadas com dados até 31 de maio de 2023. Para Instagram, você vai ter que olhar com o próprio olho.

Repetir o mesmo comentário é crime eleitoral?

Não. Eu li a Resolução 23.610 com as alterações de 2021, 2024 e 2026 e não existe artigo sobre isso. A norma trata de propaganda, impulsionamento, disparo em massa, conteúdo feito por IA e perfil falso, apócrifo ou robô. Comentar repetido não está em nenhum deles.

Então quando a Justiça manda tirar um perfil do ar?

Pelo artigo 38-A, criado em março de 2026, quando o perfil é comprovadamente falso, apócrifo ou de pessoa que não existe fora da internet, e quando as publicações dele repetem crime eleitoral ou mentira que a Justiça Eleitoral já reconheceu como mentira. Com processo judicial e direito de defesa.

Se 300 perfis escrevem a mesma coisa, não é suspeito?

Por si só, não. Nos meus posts, 306 perfis diferentes escreveram exatamente "7️⃣0️⃣" e 54 escreveram "2️⃣2️⃣". Quando a pergunta pede um número, todo mundo responde igual, porque não tem outro jeito de escrever. O que merece um olhar é o mesmo perfil repetindo o mesmo texto, e mesmo assim isso não prova automação.

Você achou robô nos seus comentários?

Eu achei padrão de repetição, dos dois lados: 32 casos de perfil que escreveu o mesmo texto três vezes ou mais, somando 173 linhas, com 70, 22, 13 e 14. Quem mais repetiu foi @ll_ve_ll_, 34 vezes "1️⃣4️⃣". Eu não afirmo que nenhum deles seja robô, porque não tenho como provar isso e ninguém tem, olhando de fora.

O resumo que cabe em cinco linhas

Robô é máquina. Fazenda de cliques é gente mal paga clicando. Engajamento coordenado é gente combinada escondendo quem é. Não confunda os três.

No Instagram não existe ferramenta pública que confira perfil. Você olha data de criação, foto, proporção de seguidores, repetição de texto e horário. Cinco olhadas, um minuto.

Repetir comentário não é crime nem prova de nada. Texto igual em perfis diferentes também não: 306 pessoas escreveram "7️⃣0️⃣" no meu perfil.

A lei só manda tirar perfil do ar quando ele é falso, apócrifo ou robô e repete crime ou mentira já reconhecida, com processo e direito de defesa.

E o meu perfil tem repetição dos dois lados. Está tudo na tabela lá em cima.

Fontes desta materia

  1. TSE, Resolução nº 23.755, de 2 de março de 2026, que alterou a Resolução nº 23.610/2019, publicada no Diário da Justiça Eletrônico do TSE, ano 2026, n. 30, de 3 de março de 2026
  2. TSE, Resolução nº 23.610, de 18 de dezembro de 2019, texto compilado em PDF, com as alterações de 2021 e 2024
  3. Lei nº 9.504, de 30 de setembro de 1997, a Lei das Eleições, artigos 57-B, 57-D, 57-E, 57-H e 57-J
  4. Pegabot, perguntas frequentes, projeto do ITS Rio com o Instituto Equidade & Tecnologia
  5. Pegabot, página sobre o projeto
  6. Botometer, Observatory on Social Media, Universidade de Indiana, página sobre a ferramenta
  7. Botometer, perguntas frequentes, com a data de corte dos dados do X
  8. Instagram Blog, Novas ferramentas para ajudar a manter o Instagram um lugar seguro, 28 de agosto de 2018
  9. Olhar Digital, Fazenda de cliques: o que são e como funcionam?, 17 de março de 2024
  10. Olhar Digital, Quais são os sinais de um perfil falso nas redes sociais?, 29 de abril de 2022
  11. Olhar Digital, Instagram: como descobrir data de criação e país de uma conta, 19 de abril de 2024
  12. Agência Lupa, Perfil falso nas redes: 7 dicas para identificar, 1º de março de 2024
  13. Meta, Relatório de comportamento inautêntico coordenado da América Latina, dezembro de 2020
  14. Meta, Community Standards Enforcement Report, seção de contas falsas
  15. Statista, Facebook fake account deletion per quarter, com base nos relatórios da Meta
  16. TI Inside, Instagram remove milhões de contas falsas e reacende alerta sobre fraudes, audiência artificial e confiança digital, 8 de maio de 2026
  17. FGV DAPP, Sala da Democracia Digital, interações motivadas por robôs chegam a 12,9% do debate eleitoral no Twitter, 2018
  18. Instituto Igarapé, A era dos bots na política brasileira já começou, estudo de Daniel Arnaudo, junho de 2017
  19. Vice Brasil, Bots turbinados são ameaça para eleições brasileiras em 2018
  20. Publica ABCP, Base de dados com 282 milhões de tweets marca estudo sobre eleições brasileiras
  21. Instagram @euthiagodecastro, três enquetes de voto publicadas em 4, 7 e 10 de setembro de 2026, comentários baixados e lidos em 12 de setembro de 2026