Na quinta-feira, 10 de setembro de 2026, Augusto Cury foi perguntado, num evento com investidores na Faria Lima, em São Paulo, se apoiaria Lula caso ficasse fora do segundo turno. A resposta: "Não apoiaria nem 0,01%. O modelo do PT tem que ser aposentado." Para Flávio Bolsonaro, deixou condições. Tudo o que ele disse, frase por frase, está nesta outra matéria.
Aqui eu fui atrás de outra coisa. No vídeo que eu publiquei hoje no Instagram, lembrei de gente que já disputou a Presidência, falou duro sobre Lula e depois foi para o lado dele. Queria saber três coisas: se as frases eram mesmo dessas pessoas, quando e onde foram ditas, e onde cada uma está agora. A resposta está abaixo, com a fonte de cada linha. E, no fim, o que eu mesmo errei no vídeo.
As três frases, com data e lugar
| Quem | O que disse sobre Lula | Quando e onde | Fonte |
|---|---|---|---|
| Geraldo Alckmin | "Depois de ter quebrado o Brasil, Lula diz que quer voltar ao poder. Ou seja, meus amigos, ele quer voltar à cena do crime." | 9 de dezembro de 2017, na convenção nacional do PSDB, no dia em que assumiu a presidência do partido | Poder360, 09/12/2017 |
| Marina Silva | Perguntada se considerava Lula corrupto, disse que sim e que ele estava sendo punido por crimes de corrupção. Na mesma fala, disse que não era preciso "tripudiar" de presos | 11 de setembro de 2018, em campanha no Rio de Janeiro, como candidata da Rede a presidente | Jornal do Brasil e Correio Braziliense, 11/09/2018 |
| Simone Tebet | "O Lula não tem a capacidade de fazer um mea culpa como o grande orquestrador do até então maior escândalo da história da República, que foi o Petrolão." | Campanha de 2022, antes do primeiro turno, como candidata do MDB a presidente | Gazeta do Povo, 19/10/2022 |
As três frases existem e estão gravadas. Duas delas voltaram ao ar em 2022, na propaganda de TV de Jair Bolsonaro, que usou as falas de Alckmin e de Tebet contra Lula. Alckmin pediu direito de resposta ao Tribunal Superior Eleitoral por causa da frase da "cena do crime", e o pedido foi negado.
Geraldo Alckmin: da "cena do crime" a vice
Alckmin governou São Paulo em quatro mandatos. Disputou a Presidência duas vezes. Em 2006 foi ao segundo turno justamente contra Lula e perdeu por 60,83% a 39,17%. Em 2018 ficou em quarto lugar, com 4,76% dos votos válidos.
A frase da "cena do crime" é de dezembro de 2017, quando ele se preparava para a campanha de 2018. Na mesma fala, disse que Lula seria "condenado nas urnas pela maior recessão da história".
Quatro anos depois, a história virou. Alckmin trocou o PSDB pelo PSB e entrou como vice na chapa de Lula. Em 7 de maio de 2022, no lançamento da pré-candidatura, explicou a mudança assim:
Nenhuma divergência do passado, nenhuma diferença do presente, nem as disputas de ontem nem as eventuais discordâncias de hoje ou de amanhã, nada servirá de razão para que eu deixe de apoiar e defender com toda a minha convicção a volta de Lula à presidência do Brasil.
Geraldo Alckmin, em vídeo no lançamento da pré-candidatura de Lula, 7 de maio de 2022 (CNN Brasil).
Ele disse ter visto no convite de Lula "um verdadeiro chamado à razão" e pôs a defesa da democracia acima das brigas antigas. É a explicação dele, e ela entra aqui inteira.
Desde 2023 ele é vice-presidente e foi ministro da Indústria. Em 2026 é vice de novo: Lula confirmou em 31 de março, e a convenção do PT oficializou a chapa em 2 de agosto.
Marina Silva: "corrupto" em 2018, ministra em 2023
Marina foi ministra do Meio Ambiente de Lula de 2003 a 2008 e saiu do governo depois de divergências. Deixou o PT e disputou a Presidência três vezes. Em 2010 teve 19,33% e em 2014, 21,32%, terceira colocada nas duas. Em 2018 teve 1,00%, em oitavo lugar.
A frase é de 11 de setembro de 2018. Naquela época, Lula estava preso, condenado na Lava Jato.
Aqui entra um fato que os comentários vão cobrar, e com razão. Em 2021, o Supremo anulou as condenações de Lula. Em 8 de março, o ministro Edson Fachin decidiu que a Justiça Federal de Curitiba não era o lugar certo para julgar aqueles processos. Em 15 de abril, o plenário confirmou, por 8 votos a 3. Lula recuperou os direitos políticos e pôde disputar 2022. Em português de todo dia: as condenações caíram por causa de onde o caso foi julgado. Isso é diferente de um julgamento que diga que ele é inocente. E também é diferente de uma condenação que continue valendo, porque hoje não existe condenação contra ele.
Quatro anos depois da frase, em 11 de setembro de 2022, Lula e Marina se reencontraram em São Paulo e ela declarou apoio a ele ainda no primeiro turno. Em janeiro de 2023, voltou ao Ministério do Meio Ambiente, o mesmo que tinha deixado em 2008.
Ficou no cargo até o fim de março de 2026. Saiu porque a lei eleitoral obriga ministro a deixar o posto para ser candidato. Hoje ela é candidata ao Senado por São Paulo, pela Rede, com o número 180, no palanque de Lula.
Simone Tebet: "orquestrador do Petrolão" em 2022, ministra meses depois
Tebet foi senadora pelo Mato Grosso do Sul, o estado onde nasceu. Disputou a Presidência uma vez, em 2022, pelo MDB. Terminou em terceiro, com 4,16%.
A frase do "grande orquestrador" é da campanha daquele ano, antes do primeiro turno. No segundo turno, ela declarou apoio a Lula e fez campanha ao lado dele. A foto no alto desta página é de 21 de outubro de 2022, numa caminhada em Juiz de Fora, Minas Gerais: Lula, Tebet e Marina estavam no mesmo ato, uma semana antes da votação.
Em janeiro de 2023, Tebet virou ministra do Planejamento. Em março de 2026, deixou o MDB, partido em que ficou quase 30 anos, entrou no PSB e se lançou candidata ao Senado por São Paulo, e não pelo estado dela. Ela mesma contou que o convite partiu de Lula, numa conversa no Panamá, em janeiro.
E ela responde à cobrança de frente. Numa sabatina da Jovem Pan, em 27 de agosto de 2026, disse:
Eu não mudo uma linha do que eu disse e vou dizer por quê.
Simone Tebet, sabatina da Jovem Pan, 27 de agosto de 2026.
A explicação dela: "Uma coisa é responsabilidade política e outra coisa é a responsabilidade civil e criminal de um presidente da República." Ela lembrou ainda que o esquema investigado pela Lava Jato envolveu vários partidos, entre eles o MDB, em que ela estava.
E os outros dois nomes do vídeo
No vídeo eu citei também Guilherme Boulos e André Janones. Os dois apoiaram Lula e nenhum disputa a Presidência em 2026. Mas a história dos dois não é igual à dos outros três, e eu conto a diferença:
- André Janones criticava Lula antes de apoiá-lo. Segundo o Estado de Minas, ele foi filiado ao PT de 2003 a 2012, saiu dizendo que o partido era antidemocrático por dentro, acusava Lula de fazer "apologia à ignorância" e defendia que ele se aposentasse da política. Em 4 de agosto de 2022, desistiu da pré-candidatura a presidente para apoiar Lula. Hoje tenta a reeleição para deputado federal por Minas, pela Rede.
- Guilherme Boulos não entra na lista de quem mudou de lado. Ele já era do mesmo campo de Lula antes de 2022: foi candidato a presidente pelo PSOL em 2018, com 0,58%, e eu não encontrei frase dele acusando Lula de corrupção. Em 2024 perdeu a prefeitura de São Paulo com Lula no palanque. Hoje é ministro e não é candidato a nada.
A ficha completa de Boulos e Janones, com o acordo que Janones fechou com a Procuradoria-Geral da República, está na matéria sobre a fala de Cury.
O que os três têm em comum
Alckmin, Marina e Tebet já enfrentaram Lula nas urnas. Todos disseram, com todas as letras, que viam crime ou corrupção no governo dele. Todos foram para o lado dele em 2022 e ganharam cargo no governo. Nenhum disputa a Presidência em 2026.
Mas o gráfico abaixo mostra um detalhe que quase ninguém comenta.
Resultado para presidente no 1º turno, em % dos votos válidos
TSE, pela Gazeta do Povo e pela Wikipédia
As barras destacadas são a última eleição de cada um antes de ir para o lado de Lula. Alckmin tinha caído de 41,64% para 4,76%. Marina, de 21,32% para 1%. Tebet estreou com 4,16%. Quando se juntaram a Lula, nenhum dos três vinha de uma boa eleição para presidente.
Agora a minha leitura, e eu marco como opinião. No vídeo eu disse que eles "acabaram com a carreira" apoiando Lula. A frase certa é outra: eles deixaram de ser alternativa a Lula. Os três eram, cada um no seu tempo, opção para quem não queria o PT. Hoje fazem parte do projeto dele. Ganharam cargo e perderam a posição de adversário.
Por que Cury fechou a porta
É aqui que o Cury entra. A pergunta que eu fiz no vídeo foi: ele vai fazer igual?
Pelo que ele disse na quinta, não. E há três fatos que ajudam a entender por que ele pode se dar ao luxo de dizer "nem 0,01%":
- É a primeira eleição da vida dele. Ele não tem mandato para proteger nem cargo para perder. Em sabatina da CNN Brasil, disse ser "radicalmente contra a reeleição" e que "não quer fazer carreira política".
- Ele não depende de salário público. Declarou ao TSE R$ 242 milhões em bens, o maior patrimônio entre todos os candidatos a presidente. O dinheiro veio de livro, de empresa e de fazenda, como eu contei nesta matéria.
- Ele tem a menor rejeição da disputa. Rejeição é quem diz que não vota de jeito nenhum.
Rejeição, em % de quem diz que não vota de jeito nenhum
AtlasIntel, campo de 25 a 30 de agosto de 2026, BR-07972/2026
De cada 10 eleitores, mais de 5 dizem que não votam em Flávio e mais de 5 dizem que não votam em Lula. No Cury, menos de 2. Os três que foram para o lado de Lula precisavam dele. Pelos números, o Cury não precisa.
Nas simulações de segundo turno contra Lula, o quadro é este:
| Pesquisa | Campo | Registro no TSE | Resultado |
|---|---|---|---|
| BTG/Nexus | 4 a 7 de setembro | BR-06790/2026 | Cury 45, Lula 43 |
| PoderData | 6 a 9 de setembro | BR-04914/2026 | Cury 44, Lula 43 |
| Quaest | 3 a 6 de setembro | BR-01720/2026 | Lula 39, Cury 35 |
Nas duas primeiras, o Cury aparece na frente, mas dentro da margem de erro. Isso se chama empate técnico. Na terceira, ele aparece quatro pontos atrás, no limite da margem. Na mesma Quaest, entre quem tem faculdade, ele tem 50% contra 31% de Lula.
O que eu corrigi no meu próprio vídeo
Eu gravei o vídeo antes de terminar a checagem. Três frases dele não passam do jeito que eu disse, e eu corrijo aqui antes que alguém corrija nos comentários:
- "Marina Silva, hoje ministra do governo Lula." Ela deixou o ministério no fim de março de 2026. Hoje é candidata ao Senado por São Paulo, no palanque de Lula.
- "Se você pegar hoje as pesquisas, Augusto Cury já ganha do Lula." Ele aparece na frente em duas pesquisas, dentro da margem de erro, e atrás em uma, no limite da margem. O certo é "empata tecnicamente".
- "Ele deixou bem claro que vai doar o salário de presidente." Eu procurei e não achei, até o fechamento desta matéria, nenhum registro público dessa promessa, com data e fonte. Por isso ela não entra aqui como fato. Se alguém tiver o vídeo ou a entrevista, me manda que eu confiro e atualizo.
E dois ajustes menores, que eu já fiz no texto acima. "Todos falavam mal do Lula" não vale para Boulos, que já era do campo dele. E "eles não são candidatos agora" vale só para a Presidência: Alckmin, Marina, Tebet e Janones estão, sim, na urna de 2026, disputando outros cargos.
Perguntas que chegam nos comentários
O que Alckmin disse sobre Lula antes de virar vice?
Em 9 de dezembro de 2017, na convenção nacional do PSDB, disse: "Depois de ter quebrado o Brasil, Lula diz que quer voltar ao poder. Ou seja, meus amigos, ele quer voltar à cena do crime." Em 2022 virou vice de Lula e explicou a mudança dizendo que nenhuma divergência do passado o impediria de apoiar a volta de Lula.
Marina Silva chamou Lula de corrupto?
Sim. Em 11 de setembro de 2018, em campanha no Rio de Janeiro, disse que considerava Lula corrupto e que ele estava sendo punido por crimes de corrupção. Lula estava preso na época. Em 2021, o Supremo anulou as condenações por entender que o caso foi julgado no lugar errado.
O que Simone Tebet falou de Lula em 2022?
Na campanha, antes do primeiro turno, disse que Lula não tinha capacidade de fazer um mea culpa como "o grande orquestrador do até então maior escândalo da história da República, que foi o Petrolão". No segundo turno, apoiou Lula. Em 27 de agosto de 2026, disse na Jovem Pan que não muda "uma linha" do que falou.
Marina Silva ainda é ministra do Meio Ambiente?
Não. Ela deixou o ministério no fim de março de 2026 para disputar o Senado por São Paulo, pela Rede, com o número 180.
Onde Alckmin, Marina e Tebet estão em 2026?
Alckmin é candidato a vice-presidente na chapa de Lula. Marina e Tebet são candidatas ao Senado por São Paulo, as duas no palanque de Lula. Na pesquisa Futura de 2 a 4 de setembro, lideram a disputa, com 34,9% e 32,7%. Nenhum dos três disputa a Presidência.
Augusto Cury vai apoiar Lula no segundo turno?
Não, segundo ele mesmo. Em 10 de setembro de 2026, disse: "Não apoiaria nem 0,01%. O modelo do PT tem que ser aposentado." Para apoiar Flávio Bolsonaro, pôs condições: provar que não é corrupto, explicar o dinheiro do filme Dark Horse e assumir o plano de governo dele.
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