ÚLTIMA HORAVorcaro, em áudio: “o filme do Lula foi por fora, foi errado”. Ouça
Revista De Castro

Magazine / 26 de setembro de 2026

A história inteira

Zuenir Ventura levou para casa a testemunha de 13 anos do caso Chico Mendes: "Era reportar uma morte ou evitá-la"

Em 1989, o repórter voltou do Acre com um menino ameaçado debaixo do braço e o criou até os 18 anos. Filho de um pintor de parede de Além Paraíba, entrou no jornal se oferecendo para escrever sobre a morte de Albert Camus, foi preso depois do AI-5 e morreu em 22 de setembro, aos 95 anos, na cadeira que foi de Ariano Suassuna. A história inteira.

Publicado
26 de setembro de 2026
Atualizado
26 de setembro de 2026
Editoria
Magazine
Leitura
5 min
Fontes
10 citadas

Ouvir a matéria

Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) / Wikimedia Commons, CC BY 2.0
Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Xapuri, Acre, começo de 1989. Fazia poucas semanas que Chico Mendes tinha sido assassinado.

Na cidade havia um menino de 13 anos sob proteção policial. O nome dele era Genésio Ferreira da Silva, e ele era uma das testemunhas-chave do caso.

O repórter que o Jornal do Brasil tinha mandado para cobrir o crime achava que o menino ia ser morto. Então fez uma coisa que repórter não costuma fazer. Levou Genésio para o Rio de Janeiro.

Anos depois, contou a chegada assim, segundo o Observatório da Imprensa:

"Cheguei com o Genésio debaixo do braço, apresentei para minha mulher e meus dois filhos."

O menino ficou sob a tutela dele até completar 18 anos, de acordo com o Portal Acre. O repórter resumiu a escolha numa frase:

"Era reportar uma morte ou evitá-la."

O repórter era Zuenir Ventura.

A morte, esta semana

Zuenir morreu na manhã de terça-feira, 22 de setembro de 2026, em casa, no Rio, aos 95 anos, por complicações de uma pneumonia. A informação é da Agência Brasil.

Foi velado no dia 23 na Academia Brasileira de Letras e sepultado no mausoléu da ABL, no Cemitério São João Batista.

A historiadora Lilia Schwarcz escreveu: "Hoje o Brasil perdeu um homem justo." O filho, Mauro Ventura, o descreveu como "o ser humano mais generoso, irreverente, brincalhão e acolhedor que conheci". Miriam Leitão se despediu com "Eternamente, nosso mestre Zu". As três frases foram reunidas pelo Perfil Brasil.

O filho do pintor

Zuenir Ventura nasceu em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, Minas Gerais. O pai, Antônio José Ventura, era pintor de parede. A mãe, Herina, cuidava da casa.

Aos 11 anos, ele já trabalhava com o pai na pintura, segundo a Wikipédia. O Correio Braziliense registra que, antes do jornalismo, foi office boy e professor primário. Formou-se em Letras Neolatinas.

Ele mesmo dizia, numa frase citada pelo Perfil Brasil: "Tudo na minha vida aconteceu por acaso."

Como entrou no jornal

O primeiro emprego em redação foi no arquivo da Tribuna da Imprensa, no Rio. Ele trabalhava à noite, enquanto estudava.

A virada veio com uma morte. Em 1960, morreu o escritor francês Albert Camus. De acordo com o Correio Braziliense, "como era fascinado pela obra de Camus, se ofereceu para escrever". Foi o primeiro texto publicado dele.

No mesmo ano ganhou uma bolsa para o Centro de Formação de Jornalistas, em Paris, onde ficou até 1961, segundo a biografia da ABL. Na volta, passou por Correio da Manhã, O Cruzeiro, Fatos & Fotos, Visão, Veja, Jornal do Brasil e O Globo.

A prisão

Em dezembro de 1968, a ditadura baixou o Ato Institucional nº 5. Zuenir foi preso por três meses, segundo a Rádio Senado.

Em 1976, depois da morte do jornalista Vladimir Herzog, assinou o manifesto "Em Nome da Verdade", que contestava a versão oficial. O Observatório da Imprensa conta 1.004 jornalistas signatários.

O livro que não terminou

Em 1988, publicou "1968: o ano que não terminou". A ABL registra mais de 400 mil exemplares vendidos em 48 edições. O livro inspirou a minissérie "Anos Rebeldes", segundo o Correio Braziliense.

No fim daquele mesmo ano, em 22 de dezembro de 1988, Chico Mendes foi morto em Xapuri.

O Acre de Chico Mendes

Semanas depois, o Jornal do Brasil mandou Zuenir para o Acre. Ele ficou cerca de um mês na região, no começo de 1989, de acordo com o Portal Acre.

A série de reportagens se chamou "O Acre de Chico Mendes". Ganhou o Prêmio Esso e o Prêmio Vladimir Herzog.

Foi nessa viagem que ele conheceu Genésio. Quinze anos depois, em 2003, voltou ao Acre para terminar a história e publicou "Chico Mendes: Crime e Castigo", com o julgamento dos assassinos. A Amazônia Real registra que o trabalho ajudou na condenação dos irmãos Alves.

Em 2018, a jornalista Kátia Brasil o convidou para participar de um documentário sobre Genésio. Ela contou à Amazônia Real: "Zuenir ficou muito emocionado com o convite para participar do documentário do Genésio, quis saber como ele estava."

O resto da obra

Em 1994, publicou "Cidade Partida", sobre a violência no Rio. Ganhou o Prêmio Jabuti de reportagem. Em 2008, recebeu um troféu especial da ONU pelo trabalho em direitos humanos.

Em 30 de outubro de 2014, foi eleito para a cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras com 35 dos 37 votos. Sucedeu Ariano Suassuna. Tomou posse em 6 de março de 2015.

Sobre o ofício, deixou uma frase que todo jornalista entende, citada pelo Correio Braziliense: "Detesto escrever. Gosto de ter escrito."

Os números

AnoFato
1931Nasce em Além Paraíba (MG), filho de pintor de parede
1960Primeiro texto publicado: o obituário de Albert Camus
1968Preso por três meses depois do AI-5
1976Assina o manifesto sobre a morte de Herzog, com 1.004 jornalistas
1988Publica "1968: o ano que não terminou" (400 mil exemplares)
1989"O Acre de Chico Mendes": Prêmio Esso e Prêmio Vladimir Herzog
1989Leva Genésio, de 13 anos, para morar com a família no Rio
1994"Cidade Partida", Prêmio Jabuti
2003"Chico Mendes: Crime e Castigo"
2014Eleito para a ABL, cadeira 32, com 35 de 37 votos
2026Morre no Rio, aos 95 anos

O que joga contra, e entra

Repórter pode se envolver assim com a história? A regra do ofício manda manter distância da fonte. Zuenir quebrou a regra e explicou por quê: entre reportar uma morte e evitá-la, escolheu evitar. O menino era testemunha do caso e estava sob proteção policial. Cada leitor pode julgar. O fato é que Genésio viveu.

Ele foi torturado na prisão? Não afirmo isso. A Wikipédia registra que ele relatou não ter sofrido tortura física. O que está confirmado é a prisão de três meses depois do AI-5.

Quando começou no jornalismo? As fontes divergem. A ABL e o Observatório da Imprensa falam em 1956, no arquivo da Tribuna da Imprensa. O Perfil Brasil dá 1960. O primeiro texto publicado, o de Camus, é de 1960, ano da morte do escritor.

A cadeira já tem candidato. Dois dias depois da morte, o médico Drauzio Varella anunciou que vai disputar a vaga, segundo o TMC. Eleição não tem data.

A resposta

Por que um repórter levaria para casa a testemunha da reportagem?

Porque ele achou que o menino ia morrer. Zuenir Ventura, filho de um pintor de parede de Minas, que entrou no jornal pedindo para escrever sobre a morte de Camus, que foi preso pela ditadura e que escreveu o livro sobre o ano que não terminou, voltou do Acre com um garoto de 13 anos e o criou até a maioridade.

Contou a história do crime, ajudou a levar os assassinos a julgamento e manteve o menino vivo. Foi o repórter inteiro que ele foi.

O carrossel que trouxe você até aqui foi feito pela equipe da Revista De Castro.

A gente pesquisa, escreve, escolhe as fotos e monta as 20 páginas no estilo revista, prontas para postar. Você só aprova.

Pedir orçamento no WhatsApp Ver como funciona

Seu Instagram vende ou só posta?

Em uma análise de marketing eu olho o seu perfil, o seu site e os seus anúncios, e digo o que está travando as vendas e o que fazer primeiro.

Marcar minha análise no WhatsApp

Fontes desta materia

  1. Agência Brasil, Jornalista Zuenir Ventura morre aos 95 anos
  2. Rádio Senado, Jornalista e escritor Zuenir Ventura morre aos 95 anos
  3. Amazônia Real, Morre Zuenir Ventura, o jornalista que protegeu a testemunha do caso Chico Mendes
  4. Portal Acre, Morre Zuenir Ventura, jornalista que levou a história de Chico Mendes de Xapuri para o Brasil
  5. Observatório da Imprensa, Zuenir Ventura, o jornalista que ficava depois da notícia
  6. Correio Braziliense, Zuenir Ventura deixa obra que ajudou a contar e entender o Brasil
  7. Perfil Brasil, O Brasil perdeu um homem justo: morte de Zuenir Ventura comove o país
  8. Academia Brasileira de Letras, Zuenir Ventura, biografia
  9. Wikipédia, Zuenir Ventura
  10. TMC, Drauzio Varella se candidata a imortal da ABL em cadeira de Zuenir Ventura