Série especial · 8 de Janeiro · Episódio 1 de 7. Esta série é feita em colaboração com João Giffoni. O que é relato dele vem marcado como "ele conta" ou entre aspas. O que é fato de terceiros vem com a fonte. A série não afirma que ele é inocente nem que é culpado, e não defende a depredação daquele dia: ele próprio diz que não concorda com ela.
Veja todos os episódios da série e siga o João no Instagram: @psi.joaogiffoni.
João Giffoni não pode voltar para o Brasil. Se voltar, vai preso. A condenação dele a 14 anos transitou em julgado em 30 de maio de 2024, e em 17 de outubro de 2024 um despacho do STF mandou efetivar a extradição. Ele é psicólogo, nasceu em Brasília em 1997 e tinha 25 anos quando foi preso dentro do plenário do Senado. Hoje vive em outro país, longe da família, por causa do que aconteceu num domingo.
A caixinha de suco
Dentro da Papuda não havia caderno nem caneta própria. Ele passou a escrever no verso de embalagens de suco, abertas e alisadas. Foi o jeito que um psicólogo preso pelo 8 de janeiro achou de continuar trabalhando. Ao longo desta série, você vai ler o que ele escreveu ali.

Era domingo, o único dia de folga
De segunda a sábado, ele atendia crianças e adolescentes numa clínica e trabalhava em escolas. Naquele 8 de janeiro de 2023 não tinha paciente. Tinha uma manifestação na Esplanada.
Ele perguntou à mãe se podia ir. Ela acompanhava tudo ao vivo pelo YouTube, viu que estava pacífico e disse que sim. No livro, ele escreve: "Nem sei se ela se arrepende de ter me dito isso."
Três da tarde
Ele conta que deixou o carro perto da Esplanada e foi a pé, rezando o terço. No gramado do Congresso viu bandeiras, famílias fazendo piquenique, crianças. Um senhor vendia algodão-doce. Não viu quebradeira nem bomba.

Ele não esconde o que mais havia ali. "Tinha gente com faixa pedindo intervenção militar. A gente não vai negar que teve isso", disse.
Os estouros
Os estouros começaram e ele pensou em fogos de artifício. Eram bombas de gás. Viu gente entrando no prédio e foi atrás.
Na porta, parou. Os vidros já estavam estilhaçados e ele não queria entrar sem ter certeza de que podia. Conta que viu policiais e seguranças conversando com os manifestantes e ouviu: "entra, entra". Entrou.

Este ponto é relato dele e tese da defesa dele. A versão oficial, registrada na denúncia e na condenação, é a de que ele integrou o grupo que invadiu o Congresso.
16h19: o gás
Às 16h19, pelas imagens das câmeras de segurança reproduzidas no livro, uma tropa saiu de dentro do prédio lançando gás e spray de pimenta.
João conta que o confronto estava no lado da Câmara. Por isso foi para o outro lado, o do Senado, que estava livre. Ele e vários outros foram para lá para conseguir respirar, porque o gás estava insuportável. Num salão, encontrou idosos de joelhos, tossindo, alguns vomitando. Deu a eles a água da própria garrafa.

17h18: uma porta entreaberta
Às 17h18 ele passou por uma porta entreaberta e estava no plenário do Senado. Lá dentro, conta, havia idosos, gente orando e um pastor de cabelo branco. Havia também policiais nos cantos, que diziam para o grupo ficar: lá fora estava uma confusão, ali era seguro.

O terço
Ele se ajoelhou e continuou rezando. Tirou uma foto assim e mandou para a mãe, para ela saber que ele estava bem. No celular, as mensagens dela: estava passando mal e queria que ele voltasse para casa.

Às seis da tarde, o discurso mudou
Por volta das seis, segundo ele, os policiais passaram a dizer que podiam levar o grupo até a saída, em segurança. De cinco em cinco, as pessoas foram saindo. Ele ficou entre os últimos. Às 19h36 chegou a vez dele.

Não era a saída. Ele foi levado para o subsolo do Congresso, onde há um estacionamento e uma delegacia. Lá estavam todos os que ele achava que já tinham ido embora. No livro, a frase é dele: "A polícia nos havia enganado."
Os 38
A Polícia do Senado registrou 38 presos naquele dia. João é um deles.
Ele faz questão de explicar o número. Milhares de pessoas entraram no Congresso, e 38 foram presas lá dentro. Ele afirma que os únicos presos foram os que estavam no plenário do Senado, onde, segundo ele, o laudo pericial confirmou que não houve vandalismo.

O que joga contra, e entra
A acusação diz outra coisa. A AP 1109 do STF lista danos a vidraças, espelhos, portas de vidro, móveis, lixeiras, computadores, obras de arte e carpete, a queima de um tapete e o emprego de substância inflamável. Ele nega item por item, e essa é a tese da defesa. O STF não aceitou a tese e o condenou. O processo é assunto de um dos próximos episódios.
Três dias
Foi o tempo que os pais passaram rodando Brasília sem saber onde o filho estava. Ele conta que só o deixaram dizer, por telefone, que seria levado ao IML.

"Prazer, nº 170.701."
É o título que ele dá, no livro, ao trecho da chegada à Papuda. Roupa branca, chinelo, cabeça baixa. Foram sete meses ali dentro.

Depois veio a sentença. Em 3 de outubro de 2023, o STF condenou João Giffoni a 14 anos: 12 anos e 6 meses de reclusão e 1 ano e 6 meses de detenção.
Hoje ele conta isso de outro país
Em 2024, com os recursos acabando, ele saiu do Brasil e pediu refúgio. Está há mais de dois anos longe da mãe que, naquele domingo, disse que ele podia ir.

No episódio 2: vinte horas no subsolo
O que aconteceu naquela madrugada, antes da Papuda? Ele guarda até hoje o papel que assinou.
Para não perder os próximos episódios, siga o João no Instagram, em @psi.joaogiffoni, e acompanhe a página da série.
Perguntas que chegam nos comentários
Quem é João Giffoni?
Psicólogo de Brasília, nascido em 1997. Foi preso dentro do plenário do Senado em 8 de janeiro de 2023, aos 25 anos, e condenado pelo STF a 14 anos na AP 1109. Passou sete meses na Papuda e hoje vive em outro país.
Por que ele não pode voltar para o Brasil?
A condenação transitou em julgado em 30 de maio de 2024, e um despacho do STF de 17 de outubro de 2024 mandou efetivar a extradição.
Ele foi condenado por quê?
Pelos crimes imputados ao grupo que invadiu o Congresso. A acusação lista danos ao patrimônio, incluindo emprego de substância inflamável. Ele nega item por item; essa é a tese da defesa.
Quantos episódios a série tem?
Sete. Este é o primeiro, sobre o domingo de 8 de janeiro de 2023. O segundo conta as vinte horas no subsolo do Congresso.
Esta série defende o 8 de janeiro?
Não. Ela conta o que aconteceu com um homem, marcando o que é relato dele e o que é fato de registro público. Ele próprio diz que não concorda com a depredação.







