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Revista De Castro

Notícias / 5 de outubro de 2026

Série especial

O refugiado do 8 de janeiro: o domingo de João Giffoni, das três da tarde à prisão dentro do Senado episódio 1 de 7

João Giffoni, psicólogo de Brasília, tinha 25 anos quando foi preso dentro do plenário do Senado, em 8 de janeiro de 2023. Foi condenado a 14 anos e hoje vive em outro país, longe da família. Esta série especial conta a história dele em sete episódios, marcando o que é relato dele e o que está em registro público. O primeiro reconstrói aquele domingo, hora por hora.

Publicado
5 de outubro de 2026
Atualizado
5 de outubro de 2026
Editoria
Notícias
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7 min
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8 citadas

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João Giffoni em audiência por vídeo, de dentro do presídio, 2023. Acervo pessoal de João Giffoni
João Giffoni em audiência por vídeo, de dentro do presídio, 2023. Acervo pessoal de João Giffoni

Série especial · 8 de Janeiro · Episódio 1 de 7. Esta série é feita em colaboração com João Giffoni. O que é relato dele vem marcado como "ele conta" ou entre aspas. O que é fato de terceiros vem com a fonte. A série não afirma que ele é inocente nem que é culpado, e não defende a depredação daquele dia: ele próprio diz que não concorda com ela.

Veja todos os episódios da série e siga o João no Instagram: @psi.joaogiffoni.

João Giffoni não pode voltar para o Brasil. Se voltar, vai preso. A condenação dele a 14 anos transitou em julgado em 30 de maio de 2024, e em 17 de outubro de 2024 um despacho do STF mandou efetivar a extradição. Ele é psicólogo, nasceu em Brasília em 1997 e tinha 25 anos quando foi preso dentro do plenário do Senado. Hoje vive em outro país, longe da família, por causa do que aconteceu num domingo.

A caixinha de suco

Dentro da Papuda não havia caderno nem caneta própria. Ele passou a escrever no verso de embalagens de suco, abertas e alisadas. Foi o jeito que um psicólogo preso pelo 8 de janeiro achou de continuar trabalhando. Ao longo desta série, você vai ler o que ele escreveu ali.

A carta escrita na Papuda em maio de 2023, no verso de uma embalagem de suco. Acervo pessoal de João Giffoni

Era domingo, o único dia de folga

De segunda a sábado, ele atendia crianças e adolescentes numa clínica e trabalhava em escolas. Naquele 8 de janeiro de 2023 não tinha paciente. Tinha uma manifestação na Esplanada.

Ele perguntou à mãe se podia ir. Ela acompanhava tudo ao vivo pelo YouTube, viu que estava pacífico e disse que sim. No livro, ele escreve: "Nem sei se ela se arrepende de ter me dito isso."

Três da tarde

Ele conta que deixou o carro perto da Esplanada e foi a pé, rezando o terço. No gramado do Congresso viu bandeiras, famílias fazendo piquenique, crianças. Um senhor vendia algodão-doce. Não viu quebradeira nem bomba.

O vendedor de algodão-doce no gramado, 8 de janeiro de 2023. Imagem reproduzida no livro Cruzando a Tempestade, de João Giffoni

Ele não esconde o que mais havia ali. "Tinha gente com faixa pedindo intervenção militar. A gente não vai negar que teve isso", disse.

Os estouros

Os estouros começaram e ele pensou em fogos de artifício. Eram bombas de gás. Viu gente entrando no prédio e foi atrás.

Na porta, parou. Os vidros já estavam estilhaçados e ele não queria entrar sem ter certeza de que podia. Conta que viu policiais e seguranças conversando com os manifestantes e ouviu: "entra, entra". Entrou.

Policiais dentro do Congresso, em vídeo gravado em 8 de janeiro de 2023. Acervo pessoal de João Giffoni

Este ponto é relato dele e tese da defesa dele. A versão oficial, registrada na denúncia e na condenação, é a de que ele integrou o grupo que invadiu o Congresso.

16h19: o gás

Às 16h19, pelas imagens das câmeras de segurança reproduzidas no livro, uma tropa saiu de dentro do prédio lançando gás e spray de pimenta.

João conta que o confronto estava no lado da Câmara. Por isso foi para o outro lado, o do Senado, que estava livre. Ele e vários outros foram para lá para conseguir respirar, porque o gás estava insuportável. Num salão, encontrou idosos de joelhos, tossindo, alguns vomitando. Deu a eles a água da própria garrafa.

Câmera de segurança do Congresso às 16h19. Imagem reproduzida no livro Cruzando a Tempestade, de João Giffoni

17h18: uma porta entreaberta

Às 17h18 ele passou por uma porta entreaberta e estava no plenário do Senado. Lá dentro, conta, havia idosos, gente orando e um pastor de cabelo branco. Havia também policiais nos cantos, que diziam para o grupo ficar: lá fora estava uma confusão, ali era seguro.

Câmera de segurança do Senado às 17h18. Imagem reproduzida no livro Cruzando a Tempestade, de João Giffoni

O terço

Ele se ajoelhou e continuou rezando. Tirou uma foto assim e mandou para a mãe, para ela saber que ele estava bem. No celular, as mensagens dela: estava passando mal e queria que ele voltasse para casa.

O terço dele sobre a mesa do senador Plínio Valério, no plenário, 8 de janeiro de 2023. Acervo pessoal de João Giffoni

Às seis da tarde, o discurso mudou

Por volta das seis, segundo ele, os policiais passaram a dizer que podiam levar o grupo até a saída, em segurança. De cinco em cinco, as pessoas foram saindo. Ele ficou entre os últimos. Às 19h36 chegou a vez dele.

Câmera de segurança do Senado às 19h36. Imagem reproduzida no livro Cruzando a Tempestade, de João Giffoni

Não era a saída. Ele foi levado para o subsolo do Congresso, onde há um estacionamento e uma delegacia. Lá estavam todos os que ele achava que já tinham ido embora. No livro, a frase é dele: "A polícia nos havia enganado."

Os 38

A Polícia do Senado registrou 38 presos naquele dia. João é um deles.

Ele faz questão de explicar o número. Milhares de pessoas entraram no Congresso, e 38 foram presas lá dentro. Ele afirma que os únicos presos foram os que estavam no plenário do Senado, onde, segundo ele, o laudo pericial confirmou que não houve vandalismo.

Plenário do Senado às 17h58, câmera de segurança. Imagem reproduzida no livro Cruzando a Tempestade, de João Giffoni

O que joga contra, e entra

A acusação diz outra coisa. A AP 1109 do STF lista danos a vidraças, espelhos, portas de vidro, móveis, lixeiras, computadores, obras de arte e carpete, a queima de um tapete e o emprego de substância inflamável. Ele nega item por item, e essa é a tese da defesa. O STF não aceitou a tese e o condenou. O processo é assunto de um dos próximos episódios.

Três dias

Foi o tempo que os pais passaram rodando Brasília sem saber onde o filho estava. Ele conta que só o deixaram dizer, por telefone, que seria levado ao IML.

Camburão, 9 de janeiro de 2023. Acervo pessoal de João Giffoni

"Prazer, nº 170.701."

É o título que ele dá, no livro, ao trecho da chegada à Papuda. Roupa branca, chinelo, cabeça baixa. Foram sete meses ali dentro.

João Giffoni em foto de identificação como interno. Acervo pessoal de João Giffoni

Depois veio a sentença. Em 3 de outubro de 2023, o STF condenou João Giffoni a 14 anos: 12 anos e 6 meses de reclusão e 1 ano e 6 meses de detenção.

Hoje ele conta isso de outro país

Em 2024, com os recursos acabando, ele saiu do Brasil e pediu refúgio. Está há mais de dois anos longe da mãe que, naquele domingo, disse que ele podia ir.

João Giffoni com a bandeira e a tornozeleira eletrônica, em Brasília. Acervo pessoal de João Giffoni

No episódio 2: vinte horas no subsolo

O que aconteceu naquela madrugada, antes da Papuda? Ele guarda até hoje o papel que assinou.

Para não perder os próximos episódios, siga o João no Instagram, em @psi.joaogiffoni, e acompanhe a página da série.

Perguntas que chegam nos comentários

Quem é João Giffoni?

Psicólogo de Brasília, nascido em 1997. Foi preso dentro do plenário do Senado em 8 de janeiro de 2023, aos 25 anos, e condenado pelo STF a 14 anos na AP 1109. Passou sete meses na Papuda e hoje vive em outro país.

Por que ele não pode voltar para o Brasil?

A condenação transitou em julgado em 30 de maio de 2024, e um despacho do STF de 17 de outubro de 2024 mandou efetivar a extradição.

Ele foi condenado por quê?

Pelos crimes imputados ao grupo que invadiu o Congresso. A acusação lista danos ao patrimônio, incluindo emprego de substância inflamável. Ele nega item por item; essa é a tese da defesa.

Quantos episódios a série tem?

Sete. Este é o primeiro, sobre o domingo de 8 de janeiro de 2023. O segundo conta as vinte horas no subsolo do Congresso.

Esta série defende o 8 de janeiro?

Não. Ela conta o que aconteceu com um homem, marcando o que é relato dele e o que é fato de registro público. Ele próprio diz que não concorda com a depredação.

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Fontes desta materia

  1. João Giffoni, Cruzando a Tempestade do 8 de Janeiro, Editora Kankei, 2026, páginas 9 a 36, e entrevista à Revista De Castro; lançamento do livro no Café com a Gazeta do Povo, 10 de junho de 2026
  2. Supremo Tribunal Federal, STF condena mais três réus por envolvimento nos atos de 8 de janeiro, AP 1109, 3 de outubro de 2023
  3. Agência Brasil, STF condena mais três réus por envolvimento nos atos de 8 de janeiro, 3 de outubro de 2023
  4. Metrópoles, Quem são os 5 réus do 2º grupo julgado pelo STF pelo 8/1, 26 de setembro de 2023
  5. Senado Notícias, registro das 38 prisões feitas pela Polícia do Senado em 8 de janeiro de 2023
  6. STF, andamento da AP 1109, despacho de 17 de outubro de 2024 determinando à AGU as providências para a extradição
  7. Factual Nacional, Arena Factual: Preso no 8 de Janeiro e hoje exilado, entrevista com João Giffoni, 22 de junho de 2026
  8. ND Mais, Psicólogo condenado pelo 8 de janeiro, 29 de julho de 2026